Encontrei o segredo, a chave de vidro das palavras que escrevo; e tenho medo. Talvez nos campos imensos, onde o lírio floresce, na margem de rio que abriga, de manhã cedo, os teus pés de ninfa, num engano de idade, me tenhas visto à sombra de um rochedo; e se os teus lábios, entreabertos num torpor de romã, me tocaram num sonho bêbedo, deles só lembro, imprecisos, fluxos de incêndio numa hipótese de amor.
Nuno Júdice
dezembro 03, 2010
«Houve um ano em que as andorinhas se esqueceram de partir. Comovidos, os deuses adiaram o começo do inverno. Nesse ano, uma mulher e um homem se fundiram em barco feito vento e partiram sem rumo e sem dar notícias: como se fora de cinza o nome que usaram. Agora, nenhum horário retarda o êxodo das últimas andorinhas em direcção ao sol.
Diz-me, meu amor, onde se cruza a tua sombra com a minha. Diz-me em que crónica de espanto te tornaste o marinheiro que debandou de encontro ao deslumbramento das manhãs.»
Graça Pires, Reino da Lua
dezembro 01, 2010
Tentação
Vénus lançada à praia pelo mar inquieto, Inquietas os meus olhos, sátiros cansados. Vem de ti uma luz que o sol não tem, E sózinha povoas o areal. Que me queres, nesta idade sonolenta Dos sentidos? Lembrar-me e convidar-me a renegar Os desejos despidos? Como se algum poeta se esquecesse E arrependesse Dos antigos pecados cometidos!
Miguel Torga, Antologia Poética
novembro 29, 2010
ASAS MALIGNAS
Vejo sobre a grandiosa árvore de palma a contraluz as cegonhas como aracnídeos talvez através de um véu de cassa. Esta visão isola-me do mundo e beneficamente reconduz-me depois aos significados que formam o mundo. Nunca as cegonhas me tornaram excêntrica de mais, apenas íntima a elas e estranha a outros restos de sentido.
A brisa que confunde as asas temíveis com as varas agitadas de palma, a restante brisa que sopra em outras copas, qualquer outra árvore que dobrando-se simula também um par de asas malignas, toda essa aragem dupla que redemoinha entre árvores firmes eleva as telas frágeis das asas. Que mensagem posso dar para além da aberração dos colos enlaçados como um insecto a estrebuchar num precipício real elevado? Até os fios da teia na treva mesmo que se assemelhem a folhas são cada vez mais angulosos, embutidos na noite como garras. O casal de cegonhas é um alvo demasiado fascinante para eu sustentar o olhar nos seus círculos. Entre a noite e as imagens que me suscita esse ponto branco, o par, giram em volta frestas luminosas, para que alguém as agrupe num indício. O resto do tufo das árvores tornou-se uma imagem desapercebida porque já desde o princípio o seu movimento ofuscado contrastava com as asas negras.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 27, 2010
«Quando se realiza, muito do que se pensa se perde. Quando se constrói uma casa, a maior parte do universo fica de fora; mas quando se destrói uma casa, a cosmogonia fica dentro.»
Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p.222
novembro 25, 2010
Aleksandr Aleksandrovich Deineka, Jovem Mulher com um Livro (1934)
«De difícil memória era, sim, para raros.
O que aconteceu com a Poesia foi que esta matéria sem tempo facilmente se memoriza no espaço gráfico.
E a terrível democracia leitora multiplicou então estes papéis silenciosos e multiplicou os olhos silenciosos que sabem ler,
acabando com o melódico analfabetismo.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 23, 2010
(M. Jagger/K. Richards)
Please allow me to introduce myself I'm a man of wealth and taste I've been around for a long, long years Stole many a man's soul and faith
And I was 'round when Jesus Christ Had his moment of doubt and pain Made damn sure that Pilate Washed his hands and sealed his fate
Pleased to meet you Hope you guess my name But what's puzzling you Is the nature of my game
I stuck around St. Petersburg When I saw it was a time for a change Killed the czar and his ministers Anastasia screamed in vain
I rode a tank Held a general's rank When the blitzkrieg raged And the bodies stank
Pleased to meet you Hope you guess my name, oh yeah Ah, what's puzzling you Is the nature of my game, oh yeah (woo woo, woo woo)
I watched with glee While your kings and queens Fought for ten decades For the gods they made (woo woo, woo woo)
I shouted out, "Who killed the Kennedys?" When after all It was you and me (who who, who who)
Let me please introduce myself I'm a man of wealth and taste And I laid traps for troubadours Who get killed before they reached Bombay (woo woo, who who)
Pleased to meet you Hope you guessed my name, oh yeah (who who) But what's puzzling you Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby (who who, who who)
Pleased to meet you Hope you guessed my name, oh yeah But what's confusing you Is just the nature of my game (woo woo, who who)
Just as every cop is a criminal And all the sinners saints As heads is tails Just call me Lucifer 'Cause I'm in need of some restraint (who who, who who)
So if you meet me Have some courtesy Have some sympathy, and some taste (woo woo) Use all your well-learned politesse Or I'll lay your soul to waste, um yeah (woo woo, woo woo)
Pleased to meet you Hope you guessed my name, um yeah (who who) But what's puzzling you Is the nature of my game, um mean it, get down (woo woo, woo woo)
Woo, who Oh yeah, get on down Oh yeah Oh yeah! (woo woo)
Tell me baby, what's my name Tell me honey, can ya guess my name Tell me baby, what's my name I tell you one time, you're to blame
Oh, who woo, woo Woo, who Woo, woo Woo, who, who Woo, who, who Oh, yeah
What's my name Tell me, baby, what's my name Tell me, sweetie, what's my name
Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Oh, yeah Woo woo Woo woo
novembro 21, 2010
«[ ] não vislumbrei as nascentes do Tigre e do Eufrates,
que talvez nesse labirinto de ruas de água que suportam
o mundo / a vida presente, Tejo-rio se tenha perdido.»
Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 233
novembro 19, 2010
Christopher Latham Sholes, inventor que deu início à indústria de máquinas de escrever. Sholes acreditava que sua invenção fora fundamental na emancipação feminina, pois possibilitou que a mulher ingressasse no mercado de trabalho dos escritórios. (Herkimer County Historical Society)
«Escrevem à máquina em face deste campo; milhões de folhas de papel para triliões de folhas de árvores; mulheres sentadas oito horas por dia a escrever cartas e a dar forma lapidar à evidência. Senhor doutor, senhor ovo de sabedoria, senhor de gema perdida; é o meio-dia das duas horas livres para continuar à tarde; com este horário de contenção biológica, com esta incubadora de leis, política vai gerando político, eternamente.
Acumulam-se informaçóes, mas o Estado, composto por estes milhões de homens machos que vomitam frases e testículos e lugares comuns de há séculos, não vota a lei do seu desaparecimento.»
Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão - Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 95
novembro 17, 2010
Tamara de Lempicka
«Sim, diz-me a mulher, pousando as mãos nos meus joelhos.
Desejo encontar alguém que me ame com bondade e que seja um homem.
Alguém que queira ressuscitar para ti? Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.»
maria gabriela llansol, amigo e amiga, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.240
novembro 16, 2010
Se uma coisa existe, esse facto prova que ela é possível.
Uma coisa comprovada possível, mas que não exista,
que espécie de realidade tem? A realidade deve
restringir-se ao que existe ou também
alargar-se ao que é possível existir?
E não haverá coisas possíveis
de existir que nós, humanos,
desconhecemos, como aliás
desconhecemos muitas
coisas que existem?
Ora, pergunto,
essas coisas
ignotas,
mas
existentes
ou
possíveis,
são ainda realidade?
E se nós,
que meditamos
sobre a realidade,
nem sequer existíssemos,
mas o mundo fosse tal como
o conhecemos (e desconhecemos),
o que seria então a realidade sem
ninguém para a percepcionar,
senão potencialmente?
novembro 15, 2010
novembro 13, 2010
«É que levantar os olhos, de cá de baixo, da terra, para uma nuvem é a melhor forma de interrogar os nossos mais íntimos desejos.»
André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937), trad. Luísa Neto Jorge, Lisboa, Estampa, 1987, p.112
novembro 11, 2010
Renoir
Era um dorso como uma face sem rosto
como se fosse um campo inteiro um estuário a forma imóvel do vento com um fulgor de lava
Era um círculo do abandono puro a densidade absoluta de um repouso a lisa nudez do ser completo António Ramos Rosa
novembro 09, 2010
Regressar ao objecto. Partilhar a figura na ressurreição. A ausência não é o nada, mas o manancial. De um lado e de outro, vigiam-nos as formas naturais consonantes. Conseguiremos atenuar na Natureza o afastamento. Assim como tu, ela assgura-me a emoção. A separação é o abstracto de vários vestígios. Um vestígio do próximo reconhecimento. Tanto mais sei que regressas ao abismo da minha memória subtil. És tu quem se ausenta entre uma ala de árvores. Pertences à Natureza, tanto quanto te pertences.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 08, 2010
Portugal produz por ano bens e serviços no valor de aprox. 150 mil milhões de euros, 30 mil milhões de contos.
Ao estrangeiro deve cerca de 300 mil milhões, i.e. 2 anos de produção; metade da dívida é do Estado, a outra metade é devida pelos bancos, empresas e famílias.
Mudar esta dependência dos credores exige que as empresas, o estado, as famílias paguem o que devem,
aceitando manter algum nível de dívida digamos entre ¼ ou ½ da produção anual, ou seja entre 37 e 80 milhões de euros.
Uma redução do endividamento desta grandeza, de 300 para digamos 50 mil milhões, em p.e., 5 anos, exigiria uma amortização anual de 50 mil milhões, ou seja 1/3 do produto anual, um quadrimestre de produção.
Se alargarmos o período de redução da dívida de 5 para 10 anos, mesmo assim, 2 meses de produção e rendimento teriam de aplicar-se anualmente ao pagamento da dívida.
Vendo o problema em termos per capita, na perspectiva de rendimento de um assalariado ou pensionista,
2/14 a 4/14 avos do rendimento anual algo como 15 a 30 % do salário ou pensão tem de ser pago aos credores,
ou na forma de redução do consumo ou na de passar a produzir em 3 dias tanto quanto antigamente em 4 dias;
isto em paralelo com idêntico sacrifício nos rendimentos dos pensionistas, rentistas, capitalistas e usurários.
No quadro desta situação é inadmissível não exigir austeridade a todas as instituições e classes sociais.
novembro 07, 2010
Les sabots d'Hélène Etaient tout crottés Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De les déchausser Les sabots d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Dans les sabots de la pauvre Hélène Dans ses sabots crottés Moi j'ai trouvé les pieds d'une reine Et je les ai gardés
Son jupon de laine Etait tout mité Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De le retrousser Le jupon d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Sous le jupon de la pauvre Hélène Sous son jupon mité Moi j'ai trouvé des jambes de reine Et je les ai gardés
Et le cœur d'Hélène N'savait pas chanter Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De m'y arrêter Dans le cœur d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Et dans le cœur de la pauvre Hélène Qu'avait jamais chanté Moi j'ai trouvé l'amour d'une reine Et moi je l'ai gardé
novembro 06, 2010
Não ouvia esta canção desde a minha alta meninice!
:)
E o Júlio Isidro ensinou-me hoje na rádio que foi Patachou quem apresentou Georges Brassens ao público!
novembro 04, 2010
SEGREDO
Não contes do meu vestido que tiro pela cabeça
nem que corro os cortinados para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o anel em redor do teu pescoço com as minhas longas pernas e a sombra do meu poço
Não contes do meu novelo nem da roca de fiar
nem o que faço com eles a fim de te ouvir gritar
Maria Teresa Horta
novembro 02, 2010
imagem in blog 'coisas minhas'
«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente – O êxito está no Circuito É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer A esplêndida surpresa da Verdade
Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças Com uma amável explicação A Verdade deve ofuscar gradualmente Ou cada homem ficará cego –»
Emily Dickinson
outubro 31, 2010
Não há como vê-lo nesta noite sem luar — estou deitada e desperta, os seios ardendo em desejo e o coração em chamas.
Ono No Komachi (834?-?)
outubro 29, 2010
«Quebrei os meus compromissos por causa do amigo; seria capaz de quebrar a amizade por causa do amor.»
(Hölderlin)
outubro 27, 2010
Quadro de Melyta
«Não sei se este pensamento elucida o dia, se a noite. Veio às cinco da manhã, e às dezoito do mesmo dia. Aqui o deixo__________________________ a ilha é
Um lugar onde o mar ruge por todos os lados. Quando O vento a submerge, batem nas rochas e nas escarpas Peixes, assinalados por terem morrido em vão.»
Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.196
outubro 25, 2010
«Mas a ti nem mil impropérios seriam capazes de te morder. Tal é o impudor inato que possuis.»
Eurípedes, Medeia (1344-5)
outubro 23, 2010
«As folhas da bananeira são suficientemente amplas para ocultarem uma paixão. Quando expostas às intempéries recordam-me ora a cauda ferida de uma fénix ora um leque verde rasgado pelo vento. A bananeira floresce. Todavia as suas flores nada têm de atraente. O mesmo acontece com o tronco enorme. Talvez por isso a bananeira acabou por conquistar o meu coração. Sento-me debaixo dela enquanto o vento e a chuva a fustigam.»
Matsuo Bashô, O gosto solitário do orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 15
outubro 21, 2010
Do Raio de Sol
Raio de Sol na ombreira da porta, na trave da cadeira, vindo da gelosia, peço-te para amanhã voltares mais arqueado pela esfericidade da Terra, um raio não decididamente recto cravado no meu tórax côncavo, mas no meu coração curvo como um globo
Fiama Hasse Pais Brandão, As fábulas
outubro 19, 2010
Devota como ramo curvado pelos nevões alegre como fogueira nas colinas esquecidas
sobre acutíssimas lâminas em branca camisa de urtigas, te ensinarei, minha alma, este passo do adeus...
----- // -----
Devota come ramo curvato da molte nevi allegra come fallò per colline d'oblio,
su acutissime làmine in bianca maglia d'ortiche, ti insegnerò, mia anima, questo passo d'addio...
Cristina Campo, O Passo do Adeus, Trad de José Tolentino Mendonça; Assírio & Alvim, pp. 38-39
outubro 15, 2010
outubro 13, 2010
Numa destrinça subtil, cada um traz a sua ausência.
Mas há uma escala graduada de valores libidinais,
onde a muda ausência da amada, muda a beleza dessa ausência.
(texto de gabriela llansol adaptado)
outubro 11, 2010
Paul Valéry: Le cimetière marin
Ce toit tranquille, où marchent des colombes, Entre les pins palpite, entre les tombes; Midi le juste y compose de feux La mer, la mer, toujours recommencée O récompense après une pensée Qu'un long regard sur le calme des dieux!
outubro 10, 2010
Ismael Nery, Figura, c. 1927/1928 óleo s/ tela, 105 x 69,2 cm
O CORPO OCUPA A FIGURA
Assombra-me o som parcimonioso da flauta, com limites,
pelo declive. O meio-dia é a hora em que assoma o corpo,
flamejando, progredindo para o exterior ou para o interior
do progresso para a proximidade. Não passar pelo Nada,
a escutar a fonia dos animais animados. Não recuar perante
a Natureza, ofensiva portadora da dor, terrífica separação.
Com os sentidos perante a ordem possível. Uma única gare torna a coesão soma das partes coagindo-se; aquela vem,
cabendo ainda no olhar de acesso. O individual é definido
por uma discordância interior. Justaposição do caos sereno à cena,
por um ovíparo que esvoaça tal como no soalho tenebroso
prosseguem melros.1 Meio-dia! Trinos! O corpo ocupa a figura,
desocupa-a. No panorama o som voador de flauta desliza
no corpo ensombrecido pela sombra do corpo da figura.
1 «Ce toit tranquille où marchent des colombes», P. Valéry
Fiama Hasse Pais Brandão
Nota:-As linhas diferem, em extensão, dos versos originais.
La faculté du bovarisme c’est «le pouvoir départi à l’homme de se concevoir autre qu’il n’est.» (Jules de Gaultier) _____________________________________________
«[ ] voici, avec Mme Bovary, un être pourvu d’une énergie plus forte. Aussi la fausse conception qu’elle prend d’elle-même va-t-elle se traduire par de tout autres conséquences. Mme Bovary échappe au ridicule par la frénésie; avec elle, l’erreur sur la personne devient un élément du drame. Au service de l’être imaginaire qu’elle a substitué à elle-même elle emploi toute l’ardeur qui la possède. Pour se persuader qu’elle est ce qu’elle veut être, elle ne se tient pas [à des] gestes décoratifs […], mais elle ose accomplir des actes véritables. Or elle entreprend sur le réel avec des moyens qui ne sont valables qu’à l’égard de la fiction. La conception sentimentale qu’elle s’est formée d’elle même exige un effet une sensibilité différente de celle qui est la sienne, en même temps que des circonstances différentes de celles dont elle dépend.»
«O pano preto, juncado de pétalas brancas, levantava-se por vezes descobrindo o caixão.
Os portadores, fatigados, iam mais vagarosos; e o féretro avançava por intercadências contínuas, como uma chalupa baçouçando entre as ondas.
Chegaram. Os homens continuaram até um sítio baixo, onde a cova estava aberta. No meio da relva.
Agruparam-se em torno; e enquanto o padre falava, a terra vermelha, puxada para os bordos, escorregava pelos cantos, sem ruído, continuamente.
Depois de disporem as quatro cordas, impeliram o ataúde. Carlos viu-o descer. Descia sempre.
Por fim ouviu-se o embate, as cordas subiram rangendo.
Então Bournisien pegou na pá que Lestoboudois lhe estendia; e com a mão esquerda deitou-a cheia de terra, vigorosamente, enquanto aspergia com a direita; e a madeira do caixão, no choque com os grossos torrões, produziu o ruído formidável que soa aos nossos ouvidos como o eco da eternidade.»
«Estava bom tempo; era um daqueles dias de Março claros e agrestes, em que o Sol reluz num céu pálido. Habitantes de Rouen, endomingados, passeavam com ar satisfeito. Ema chegou ao adro da igreja. Saíam da missa da tarde; a multidão escoava-se pelos três portais, como um rio pelos três arcos de uma ponte, e, no meio, mais imóvel que um rochedo, estava o guarda.
Lembrou-se ela então do dia em que, ansiosa e cheia de esperança, caminhara sob aquela grande nave que se alongava na sua frente, menos profunda que o seu amor; e continuou a andar, chorando debaixo do véu, aturdida, cambaleante, quase a desfalecer.»
«Elle venait de partir, exaspérée. Elle le détestait maintenant. [ ]
Puis, se calmant, elle finit par découvrir qu’elle l’avait sans doute calomnié. Mas le dénigrement de ceux que nous aimons toujours nous en détache quelque peu.
Il ne faut pas toucher aux idoles: la dorure en reste aux mains.»
«[…] C’était une manière de permission qu’elle se donnait de ne point gêner dans ses escapades. Aussi en profita-t-elle tout à son aise, largement. Lorsque l’envie la prenait de voir Léon, elle partait sous n’importe quel prétexte, et, comme il ne l’attendait pas ce jour-lá, elle allait le chercher à son étude. [ ] Il fallait que Léon, chaque fois, lui racontât toute sa conduite, depuis le dernier rendez-vous. [ ] Il ne discutait pas ses idées; il acceptait tous ses goûts; il devenait sa maîtresse plutôt qu’elle n´était la sienne.»
«Binet sorria, o queixo curvado, as narinas dilatadas, e parecia perdido numa daquelas felicidades completas que decerto pertencem apenas às ocupações medíocres, que distraem o espírito por dificuldades fáceis, e o adormentam numa realização para além da qual nada mais se pode desejar.»
«A Lua, redonda e cor de púrpura, erguia-se na linha do horizonte, ao fundo da planície.
Subia rápida entre os ramos dos choupos, que a ocultavam a espaços, como uma cortina preta, esfarrapada.
Depois apareceu, deslumbrante de brancura, no céu vazio que ela iluminava; e então, abrandando a marcha, deixou cair sobre a ribeira uma grande mancha clara, que se dividia numa infinidade de estrelas, e o clarão argênteo parecia torcer-se ao fundo da água, como uma serpente sem cabeça, coberta de escamas luminosas.»
«Il savourait pour la première fois l’inexprimable délicatesse des élegances féminines. Jamais il n'avait rencontré cette grâce de langage, cette réserve du vêtement, ces poses de colombe assoupie. Il admirait l’exaltation de son âme et les dentelles de sa jupe. D’ailleurs, n’était-ce pas une femme du monde, et une femme marié! Une vraie maîtresse enfin? Par la diversité de son humeur, tour à tour mystique ou joyeuse, babillarde, taciturne, emportée, nonchalante, elle allait rappelant en lui mille désirs, évoquant des instincts ou des réminiscences. Elle était l’amoureuse de tous les romans, l’héroïne de tous les drames, le vague elle de tous les volumes de vers.»
«Comme ils aimaient cette bonne chambre pleine de gaieté, malgré sa splendeur un peu fanée! Ils retrouvaient toujours les meubles à leur place, et parfois des épingles à cheveux qu’elle avait oubliées, l’autre jeudi, sous le socle de la pendule. Ils déjeumaient au coin du feu, sur un petit guéridon incrusté de palissandre. Emma découpait, lui mettait les morceaux dans son assiette en débitant toutes sortes de chatteries; et elle riait d’un rire sonore et libertin quand la mousse du vin de Champagne débordait du verre léger sur les de ses doigts. Ils étaient si complètement perdus en la posséssion d’eux-mêmes, qu’ils se croyaient là dans leur maison particulière, et devant y vivre jusqu’à la mort, comme dux éternels jeunes époux.»
«Teriam só aquilo para dizer? Nos olhos de ambos, todavia, desenhava-se um diálogo mais sério; e, enquanto se esforçavam por encontrar frases banais, sentiam a mesma languidez invadi-los aos dois; era como um murmúrio da alma, profundo, ininterrupto, que dominava o das vozes. Tomados de espanto por aquela nova sensação de suavidade, não pensavam em comunicá-la nem em descobrir-lhe o motivo. As felicidades futuras, como as margens dos rios tropicais, projectam na imensidade que as precede a sua indolência natural, espécie de brisa perfumada, e nessa embriaguez adormecemos, sem nos inquiertarmos com o horizonte que ainda se não vê.»
«Quanto à lembrança de Rodolfo, descera-lhe ao mais profundo do coração; e ali permanecia, mais solene e mais imóvel que múmia de rei num subterrâneo.
Daquele grande amor embalsamado evolava-se uma exalação que, passando através de tudo, perfumava de ternura a atmosfera imaculada em que ela desejava viver. [ ]
Então, entregou-se a generosidades excessivas. Costurava vestuários para os pobres; fazia presentes de lenha às mulheres de parto; e um dia, ao entrar em casa, Carlos encontrou na cozinha três vagabundos sentados à mesa, comendo sopa. [ ] A mãe de Carlos não achou nada a censurar-lhe, excepto talvez aquela mania de fazer camisolas de malha para os orfãos, em vez de passajar os panos da cozinha.»
«Jamais madame Bovary ne fut aussi belle qu’á cette époque; elle avait cette indéfinissable beauté qui résulte de la joie, de l’enthousiasme, di succès, et qui n’est que l’harmonie du tempérament avec les circonstances. Ses convoitises, ses chagrins, l’experience du plaisir et ses illusions toujours jeunes, comme font aux fleurs le fumier, la pluie, les vents et le soleil, l’avaient par gradations développée,
et elle s’épanouissait enfin dans la plénitude de sa nature*.»
Rouen «Puis, d’un seul coup d’oeil, la ville apparaissait.
Descendant tout en amphithéâtre et noyée dans le brouillard, elle s’élargissait au-delá des ponts, confusément. La pleine campagne remontait ensuite d’un mouvement monotone, jusqu’à toucher au loin la base indécise du ciel pâle. Ainsi vu d’en haut, le paysage tout entier avait l’air immobile comme une peinture; les navires à l’ancre se tassaient dans un coin; le fleuve arrondissait sa courbe au pied des collines vertes, et les îles, de forme oblongue, semblaient sur l’eau de grands poissons noirs arrêtés. Les cheminées des usines poussaient d’immenses panaches bruns qui s’envolaient par le bout. On entendait le ronflement des fonderies avec le carillon clair des églises qui se dressaient dans la brume. Les arbres des boulevards, sans feuilles, faisaient des broussailles violettes au milieu des maisons, et les toits, tout reluisants de pluie, miroitaient inégalement, selon la hauteur des quartiers. Parfois un coup de vent emportait les nuages vers la côte Sainte-Catherine, comme des flots aériens qui se brisaient en silence contre une falaise.
(continua) op.cit., p.393
----- // -----
«Depois, subitamente, a cidade aparecia.
Descendo em anfiteatro e afogada em nevoeiro, alargava-se para além das pontes, confusamente. A larga campina subia depois num declive monótono, até tocar ao longe a linha indecisa do céu pálido. Assim vista de alto, toda apaisagem parecia imóvel, como uma pintura; os navios ancorados amontoavam-se num canto; o rio arredondava a sua curva próximo de colinas verdes, e as ilhas, de forma oblonga, pareciam grandes peixes escuros presos na água. As chaminés das fábricas soltavam imensos penachos cinzentos que se desvaneciam no ar. Ouvia-se o som áspero das fundições junto ao claro repique das igrejas que se erguiam na bruma. As árvores das avenidas, sem folhas, formavam grandes manchas violáceas por entre as casas, e ostelhados, reluzentes de chuva, lançavam reflexos mais ou menos brihantes, conforme a altura dos bairros. Por vezes um pé de vento varria as nuvens esverdeadas para os lados da encosta de Sainte-Catherine, como ondas aéreas que se quebrassem em silêncio nas penedias.»
(III.5, p.284)
:))
{Ainda melhor do que contemplar uma pintura, o olhar exacto em humana linguagem, a mais expressiva de todas as artes! :)}
«Quelque chose de vertigineux se dégageait pour elle de ces existences amassées, et son coeur s’en gonflait abondamment, comme si les cent vingt mille âmes qui palpitaient là lui eussent envoyé toutes à la fois la vapeur des passions qu’elle leur supposait. Son amour s’agrandissait devant l’espace, et s’emplissait de tumulte aux bourdonnementes vagues qui montaient.
Elle le reversait au dehors, sur les places, sur les promenades, sur les rues, et la vieille cité normande s’étalait à ses yeux comme une capitale démesurée, comme une Babylone où elle entrait.»
:) (fin de cit.) op.cit., p.393
----- // -----
«Qualquer coisa de vertiginoso se desprendia daquelas existências amontoadas, enchendo o coração de Ema a transbordar, como se as cento e vinte mil almas que palpitavam ali lhe dirigissem todas ao mesmo tempo o vapor das paixões de que as supunha cheias. O seu amor aumentava perante o espaço, e enchia-se de tumulto ante os rumores vagos que subiam. Ema derramava-o do seu seio, sobre as praças, os caminhos, as ruas, e a velha cidade normanda aparecia a seus olhos como uma capital imensa, uma Babilónia, onde ela penetrava.»
Cathedral de Rouen «Léon, à pas sérieux, marchait auprés des murs. Jamais la vie ne lui avait paru si bonne. Elle allait venir tout à l’heure, charmante, agitée, épiant derrière elle les regards que la suivaient, — et avec sa robe à volants, son lorgnon d’or, ses bottines minces, dans toute sorte d’élégances don’t il n’avait pas gouté, et dans l’ineffable séduction de la vertu qui succombe.»
Cathedral de Rouen «L’église, comme un boudoir gigantesque, se disposait autour d’elle; les voûtes s’inclinaient pour recueillir dans l’ombre la confession de son amour; les vitraux resplendissaient pour illuminer son visage, et les encensoirs allaient brûler
pour qu’elle apparût comme un ange, dans la fumée des parfums*.»
«Emma pleurait, et il s’efforçait de la consoler [ ] — Oh! C’est que je t’aime! Reprenait-elle, je t’aime à ne pouvoir me passer de toi, sais-tu bien?»
(p.300-301) (continua)
Gustave Flaubert, Madame Bovary, Preface, notes et dossier par Jacques Neefs, Paris, Librairie Générale Française, Le Livre de Poche, 2008, pp.564
«Il s’était tant de fois entendu dire ces choses, qu’elles n’avaient pour lui rien d’original. Emma ressemblait à toutes les maîtresses; et le charme de la nouveauté, peu à peu tombant comme un vêtement, laissait voir à nu l’éternelle monotonie de la passion qui a toujours les mêmes formes et le même langage.
Il ne distinguait pas, cet homme si plein de pratique, la dissemblance des sentiments sous la parité des expressions.»
«Parce que des lèvres libertines ou vénales lui avaient murmuré des phrases pareilles, il ne croyait que faiblement à la candeur de celles-lá; on en devait rabattre, pensait-il, les discours exagérés cachant les affections médiocres;
comme si la plénitude de l’âme ne débordait pas quelques fois par les métaphores les plus vides, puisque personne, jamais, ne peut donner l’exacte mesure de ses besoins, ni de ses conceptions, ni de ses douleurs, et que la parole humaine est comme un chaudron fêlé où nous battons des mélodies à faire danser les ours, quand on voudrait attendrir les étoiles.»
«Mais, avec cette supériorité de critique appartenant à celui qui, dans n’importe quel engagement, se tient en arrière,
Rodolphe aperçut en cet amour d’autres jouissances à exploiter. Il jugea toute pudeur incommode. Il la traita sans façon. Il en fit quelque chose de souple et de corrompu.
C’était une sorte d’attachement idiot plein d’admiration pour lui, de voluptés pour elle, une béatitude qui l’engourdissait; et son âme s’enfonçait en cette ivresse et s’y noyait, ratatinée, comme le duc de Clarence dans son tonneau de malvoisie.»
«Desejava um filho; seria moreno e forte, e chamar-se-ia Jorge. E esta ideia de ter um filho varão era como o resgate, em esperanças, de todas as suas impotências passadas.
Um homem, ao menos, é livre; pode atravessar paixões e países, atravessar os obstáculos, saborear as felicidades mais longínquas.
Uma mulher sofre de impedimentos contínuos. Inerte e flexível ao mesmo tempo, tem contra si as fraquezas da carne e as dependências da lei.
A sua vontade, como o véu do seu chapéu seguro por um cordão, palpita a todos os ventos, e há sempre um desejo que arrasta, e uma conveniência que detém.»
(II.3, p.103)
Gustave Flaubert, Madame Bovary, Trad. João Pedro de Andrade, Lisboa, Clássicos Relógio d’Água, 1991, pp.372
setembro 15, 2010
Fidelidade magistral de Claude Charbol ao enredo Bovary de Flaubert.