novembro 17, 2010


Tamara de Lempicka

«Sim, diz-me a mulher,
pousando as mãos nos meus joelhos.

Desejo encontar alguém
que me ame com bondade
e que seja um homem.


Alguém que queira ressuscitar para ti?
Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.»


maria gabriela llansol, amigo e amiga,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.240

novembro 16, 2010


Se uma coisa existe, esse facto prova que ela é possível.
Uma coisa comprovada possível, mas que não exista,
que espécie de realidade tem? A realidade deve
restringir-se ao que existe ou também
alargar-se ao que é possível existir?
E não haverá coisas possíveis
de existir que nós, humanos,
desconhecemos, como aliás
desconhecemos muitas
coisas que existem?
Ora, pergunto,
essas coisas
ignotas,
mas
existentes
ou
possíveis,
são ainda realidade?
E se nós,
que meditamos
sobre a realidade,
nem sequer existíssemos,
mas o mundo fosse tal como
o conhecemos (e desconhecemos),
o que seria então a realidade sem
ninguém para a percepcionar,
senão potencialmente?

novembro 15, 2010

novembro 13, 2010



«É que levantar os olhos, de cá de baixo,
da terra, para uma nuvem é a melhor forma
de interrogar os nossos mais íntimos desejos.»

André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937),
trad. Luísa Neto Jorge, Lisboa, Estampa, 1987, p.112

novembro 11, 2010


Renoir

Era um dorso
como uma face sem rosto

como se fosse um campo inteiro
um estuário
a forma imóvel do vento
com um fulgor de lava

Era um círculo do abandono puro
a densidade absoluta de um repouso
a lisa nudez do ser completo


António Ramos Rosa

novembro 09, 2010



Regressar ao objecto. Partilhar a figura
na ressurreição. A ausência
não é o nada, mas o manancial.
De um lado e de outro, vigiam-nos
as formas naturais consonantes.
Conseguiremos atenuar na Natureza
o afastamento. Assim como tu,
ela assgura-me a emoção.
A separação é o abstracto
de vários vestígios. Um vestígio
do próximo reconhecimento.
Tanto mais sei que regressas ao abismo
da minha memória subtil. És tu quem se ausenta
entre uma ala de árvores. Pertences
à Natureza, tanto quanto te pertences.


Fiama Hasse Pais Brandão

novembro 08, 2010



Portugal produz por ano bens e serviços no valor de aprox.
150 mil milhões de euros, 30 mil milhões de contos.

Ao estrangeiro deve cerca de 300 mil milhões,
i.e. 2 anos de produção; metade da dívida
é do Estado, a outra metade é devida
pelos bancos, empresas e famílias.


Mudar esta dependência dos credores
exige que as empresas, o estado,
as famílias paguem
o que devem,

aceitando manter algum nível de dívida
digamos entre ¼ ou ½ da produção anual,
ou seja entre 37 e 80 milhões de euros.


Uma redução do endividamento desta grandeza,
de 300 para digamos 50 mil milhões, em p.e.,
5 anos, exigiria uma amortização anual
de 50 mil milhões, ou seja 1/3 do produto
anual, um quadrimestre de produção.

Se alargarmos o período de redução da dívida
de 5 para 10 anos, mesmo assim, 2 meses
de produção e rendimento
teriam de aplicar-se
anualmente ao

pagamento
da dívida.


Vendo o problema em termos per capita,
na perspectiva de rendimento de um
assalariado ou pensionista,

2/14 a 4/14 avos do rendimento anual
algo como 15 a 30 % do salário ou pensão
tem de ser pago aos credores,

ou na forma de redução do consumo
ou na de passar a produzir
em 3 dias tanto quanto
antigamente
em 4 dias;

isto em paralelo com idêntico
sacrifício nos rendimentos
dos pensionistas, rentistas,
capitalistas e usurários.


No quadro desta situação
é inadmissível não exigir
austeridade a todas
as instituições e classes sociais.

novembro 07, 2010



Les sabots d'Hélène
Etaient tout crottés
Les trois capitaines
L'auraient appelée vilaine
Et la pauvre Hélène
Etait comme une âme en peine
Ne cherche plus longtemps de fontaine
Toi qui as besoin d'eau
Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène
Va-t'en remplir ton seau

Moi j'ai pris la peine
De les déchausser
Les sabots d'Hélèn'
Moi qui ne suis pas capitaine
Et j'ai vu ma peine
Bien récompensée
Dans les sabots de la pauvre Hélène
Dans ses sabots crottés
Moi j'ai trouvé les pieds d'une reine
Et je les ai gardés

Son jupon de laine
Etait tout mité
Les trois capitaines
L'auraient appelée vilaine
Et la pauvre Hélène
Etait comme une âme en peine
Ne cherche plus longtemps de fontaine
Toi qui as besoin d'eau
Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène
Va-t'en remplir ton seau

Moi j'ai pris la peine
De le retrousser
Le jupon d'Hélèn'
Moi qui ne suis pas capitaine
Et j'ai vu ma peine
Bien récompensée
Sous le jupon de la pauvre Hélène
Sous son jupon mité
Moi j'ai trouvé des jambes de reine
Et je les ai gardés

Et le cœur d'Hélène
N'savait pas chanter
Les trois capitaines
L'auraient appelée vilaine
Et la pauvre Hélène
Etait comme une âme en peine
Ne cherche plus longtemps de fontaine
Toi qui as besoin d'eau
Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène
Va-t'en remplir ton seau

Moi j'ai pris la peine
De m'y arrêter
Dans le cœur d'Hélèn'
Moi qui ne suis pas capitaine
Et j'ai vu ma peine
Bien récompensée
Et dans le cœur de la pauvre Hélène
Qu'avait jamais chanté
Moi j'ai trouvé l'amour d'une reine
Et moi je l'ai gardé

novembro 06, 2010

Não ouvia esta canção
desde a minha alta meninice!

:)



E o Júlio Isidro ensinou-me
hoje na rádio que foi Patachou
quem apresentou Georges
Brassens ao público!

novembro 04, 2010



SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


Maria Teresa Horta

novembro 02, 2010


imagem in blog 'coisas minhas'

«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente –
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade

Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego –»


Emily Dickinson

outubro 31, 2010



Não há como vê-lo
nesta noite sem luar —
estou deitada e desperta,
os seios ardendo em desejo
e o coração em chamas.


Ono No Komachi (834?-?)

outubro 29, 2010



«Quebrei os meus compromissos por causa do amigo;
seria capaz de quebrar a amizade por causa do amor.»

(Hölderlin)

outubro 27, 2010


Quadro de Melyta

«Não sei se este pensamento elucida o dia, se a noite.
Veio às cinco da manhã, e às dezoito do mesmo dia.
Aqui o deixo__________________________ a ilha é

Um lugar onde o mar ruge por todos os lados. Quando
O vento a submerge, batem nas rochas e nas escarpas
Peixes, assinalados por terem morrido em vão.»



Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.196

outubro 25, 2010



«Mas a ti nem mil impropérios
seriam capazes de te morder.
Tal é o impudor inato que possuis.»


Eurípedes, Medeia (1344-5)

outubro 23, 2010



«As folhas da bananeira são suficientemente amplas
para ocultarem uma paixão. Quando expostas às
intempéries recordam-me ora a cauda ferida de
uma fénix ora um leque verde rasgado pelo vento.
A bananeira floresce. Todavia as suas flores nada
têm de atraente. O mesmo acontece com o tronco
enorme. Talvez por isso a bananeira acabou por
conquistar o meu coração. Sento-me debaixo dela
enquanto o vento e a chuva a fustigam.»


Matsuo Bashô, O gosto solitário do orvalho,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 15

outubro 21, 2010



Do Raio de Sol

Raio de Sol na ombreira da porta,
na trave da cadeira, vindo da gelosia,
peço-te para amanhã voltares
mais arqueado pela esfericidade da Terra,
um raio não decididamente recto
cravado no meu tórax côncavo,
mas no meu coração curvo como um globo


Fiama Hasse Pais Brandão, As fábulas

outubro 19, 2010



Devota como ramo
curvado pelos nevões
alegre como fogueira
nas colinas esquecidas

sobre acutíssimas lâminas
em branca camisa de urtigas,
te ensinarei, minha alma,
este passo do adeus...


----- // -----

Devota come ramo
curvato da molte nevi
allegra come fallò
per colline d'oblio,

su acutissime làmine
in bianca maglia d'ortiche,
ti insegnerò, mia anima,
questo passo d'addio...


Cristina Campo, O Passo do Adeus,
Trad de José Tolentino Mendonça;
Assírio & Alvim, pp. 38-39

outubro 15, 2010

outubro 13, 2010



Numa destrinça subtil,
cada um traz a sua ausência.

Mas há uma escala graduada
de valores libidinais,

onde a muda ausência da amada,
muda a beleza dessa ausência.


(texto de gabriela llansol adaptado)

outubro 11, 2010



Paul Valéry: Le cimetière marin

Ce toit tranquille, où marchent des colombes,
Entre les pins palpite, entre les tombes;
Midi le juste y compose de feux
La mer, la mer, toujours recommencée
O récompense après une pensée
Qu'un long regard sur le calme des dieux!

outubro 10, 2010


Ismael Nery, Figura, c. 1927/1928
óleo s/ tela, 105 x 69,2 cm

O CORPO OCUPA A FIGURA

Assombra-me o som parcimonioso da flauta, com limites,
pelo declive. O meio-dia é a hora em que assoma o corpo,
flamejando, progredindo para o exterior ou para o interior
do progresso para a proximidade. Não passar pelo Nada,
a escutar a fonia dos animais animados. Não recuar perante
a Natureza, ofensiva portadora da dor, terrífica separação.
Com os sentidos perante a ordem possível. Uma única gare
torna a coesão soma das partes coagindo-se; aquela vem,
cabendo ainda no olhar de acesso. O individual é definido
por uma discordância interior. Justaposição do caos sereno à cena,
por um ovíparo que esvoaça tal como no soalho tenebroso
prosseguem melros.1 Meio-dia! Trinos! O corpo ocupa a figura,
desocupa-a. No panorama o som voador de flauta desliza
no corpo ensombrecido pela sombra do corpo da figura.

1 «Ce toit tranquille où marchent des colombes», P. Valéry


Fiama Hasse Pais Brandão


Nota:-As linhas diferem, em extensão, dos versos originais.

outubro 05, 2010

Madame Bovary



La faculté du bovarisme c’est
«le pouvoir départi à l’homme
de se concevoir autre qu’il n’est.» (
Jules de Gaultier)
_____________________________________________

«[ ] voici, avec Mme Bovary, un être pourvu d’une énergie plus forte. Aussi la fausse conception qu’elle prend d’elle-même va-t-elle se traduire par de tout autres conséquences. Mme Bovary échappe au ridicule par la frénésie; avec elle, l’erreur sur la personne devient un élément du drame. Au service de l’être imaginaire qu’elle a substitué à elle-même elle emploi toute l’ardeur qui la possède. Pour se persuader qu’elle est ce qu’elle veut être, elle ne se tient pas [à des] gestes décoratifs […], mais elle ose accomplir des actes véritables. Or elle entreprend sur le réel avec des moyens qui ne sont valables qu’à l’égard de la fiction. La conception sentimentale qu’elle s’est formée d’elle même exige un effet une sensibilité différente de celle qui est la sienne, en même temps que des circonstances différentes de celles dont elle dépend.»

Jules de Gaultier,
in op.cit., p.549

outubro 04, 2010

Madame Bovary



Flaubert declarou no seu julgamento
do Tribunal do Sena:
«Madame Bovary, c’est moi!»,

Porém, os seus leitores declaram:
«Madame Bovary c'est l'humanité!»

outubro 03, 2010

Madame Bovary



«O pano preto, juncado de pétalas brancas,
levantava-se por vezes descobrindo o caixão.

Os portadores, fatigados, iam mais vagarosos;
e o féretro avançava por intercadências contínuas,
como uma chalupa baçouçando entre as ondas.

Chegaram. Os homens continuaram até um sítio baixo,
onde a cova estava aberta. No meio da relva.

Agruparam-se em torno; e enquanto o padre falava,
a terra vermelha, puxada para os bordos,
escorregava pelos cantos, sem ruído,
continuamente.

Depois de disporem as quatro cordas,
impeliram o ataúde. Carlos viu-o descer.
Descia sempre.

Por fim ouviu-se o embate,
as cordas subiram rangendo.

Então Bournisien pegou na pá que Lestoboudois
lhe estendia; e com a mão esquerda deitou-a cheia
de terra, vigorosamente, enquanto aspergia com a direita;
e a madeira do caixão, no choque com os grossos torrões,
produziu o ruído formidável que soa aos nossos ouvidos
como o eco da eternidade.»

op. cit., p.361

outubro 02, 2010

Madame Bovary



«Estava bom tempo; era um daqueles dias de Março claros e agrestes, em que o Sol reluz num céu pálido. Habitantes de Rouen, endomingados, passeavam com ar satisfeito. Ema chegou ao adro da igreja. Saíam da missa da tarde; a multidão escoava-se pelos três portais, como um rio pelos três arcos de uma ponte, e, no meio, mais imóvel que um rochedo, estava o guarda.

Lembrou-se ela então do dia em que, ansiosa e cheia de esperança, caminhara sob aquela grande nave que se alongava na sua frente, menos profunda que o seu amor; e continuou a andar, chorando debaixo do véu, aturdida, cambaleante, quase a desfalecer.»

op.cit., p.320

outubro 01, 2010

Madame Bovary



«Elle n’en continuait pas moins à lui écrire des lettres amoureuses,
en vertu de cette idée, qu’une femme doit toujours
écrire à son amant.

Mais, en écrivant, elle percevait un autre homme, un fantôme
fait de ses plus ardents souvenirs, de ses lectures les plus belles,
de ses convoitises les plus fortes; et il devenait à la fin si
véritable, et accessible, qu’elle en palpitait émerveillée,
sans pouvoir néanmoins le nettement imaginer,

tant il se perdait, comme un dieu,
sous l’abondance de ses attributs.»

:)
(destaque meu)

op. cit., p.429

setembro 30, 2010

Madame Bovary



«Elle venait de partir, exaspérée.
Elle le détestait maintenant. [ ]

Puis, se calmant, elle finit par
découvrir qu’elle l’avait sans doute
calomnié. Mas le dénigrement de ceux
que nous aimons toujours nous en détache
quelque peu.

Il ne faut pas toucher aux idoles:
la dorure en reste aux mains.»

op. cit., p.418

setembro 29, 2010

Madame Bovary



«[…] C’était une manière de permission qu’elle se donnait
de ne point gêner dans ses escapades. Aussi en profita-t-elle
tout à son aise, largement. Lorsque l’envie la prenait de voir
Léon, elle partait sous n’importe quel prétexte, et, comme
il ne l’attendait pas ce jour-lá, elle allait le chercher à son étude.
[ ] Il fallait que Léon, chaque fois, lui racontât toute sa conduite,
depuis le dernier rendez-vous. [ ] Il ne discutait pas ses idées;
il acceptait tous ses goûts; il devenait sa maîtresse plutôt qu’elle
n´était la sienne.»

op.cit., p.412-3

setembro 28, 2010

Madame Bovary



«Binet sorria, o queixo curvado,
as narinas dilatadas, e parecia
perdido numa daquelas felicidades
completas que decerto pertencem
apenas às ocupações medíocres,
que distraem o espírito por
dificuldades fáceis, e
o adormentam numa
realização para
além da qual
nada mais
se pode
desejar.»

:)

op. cit., p.327

setembro 27, 2010

Madame Bovary



«A Lua, redonda e cor de púrpura,
erguia-se na linha do horizonte,
ao fundo da planície.

Subia rápida entre os ramos dos choupos,
que a ocultavam a espaços,
como uma cortina preta, esfarrapada.

Depois apareceu, deslumbrante de brancura,
no céu vazio que ela iluminava; e então,
abrandando a marcha, deixou cair
sobre a ribeira uma grande mancha clara,
que se dividia numa infinidade de estrelas,
e o clarão argênteo parecia torcer-se ao fundo
da água, como uma serpente sem cabeça,
coberta de escamas luminosas.»

op.cit.,II.12, p.215

setembro 26, 2010

Madame Bovary



«Il savourait pour la première fois l’inexprimable délicatesse des élegances féminines. Jamais il n'avait rencontré cette grâce de langage, cette réserve du vêtement, ces poses de colombe assoupie. Il admirait l’exaltation de son âme et les dentelles de sa jupe. D’ailleurs, n’était-ce pas une femme du monde, et une femme marié! Une vraie maîtresse enfin? Par la diversité de son humeur, tour à tour mystique ou joyeuse, babillarde, taciturne, emportée, nonchalante, elle allait rappelant en lui mille désirs, évoquant des instincts ou des réminiscences. Elle était l’amoureuse de tous les romans, l’héroïne de tous les drames, le vague elle de tous les volumes de vers.»

op.cit., p.397

setembro 25, 2010

Madame Bovary



«Comme ils aimaient cette bonne chambre pleine de gaieté, malgré sa splendeur un peu fanée! Ils retrouvaient toujours les meubles à leur place, et parfois des épingles à cheveux qu’elle avait oubliées, l’autre jeudi, sous le socle de la pendule. Ils déjeumaient au coin du feu, sur un petit guéridon incrusté de palissandre. Emma découpait, lui mettait les morceaux dans son assiette en débitant toutes sortes de chatteries; et elle riait d’un rire sonore et libertin quand la mousse du vin de Champagne débordait du verre léger sur les de ses doigts. Ils étaient si complètement perdus en la posséssion d’eux-mêmes, qu’ils se croyaient là dans leur maison particulière, et devant y vivre jusqu’à la mort, comme dux éternels jeunes époux.»

op.cit., p.396

setembro 24, 2010

Madame Bovary

«Teriam só aquilo para dizer? Nos olhos de ambos, todavia, desenhava-se um diálogo mais sério; e, enquanto se esforçavam por encontrar frases banais, sentiam a mesma languidez invadi-los aos dois; era como um murmúrio da alma, profundo, ininterrupto, que dominava o das vozes. Tomados de espanto por aquela nova sensação de suavidade, não pensavam em comunicá-la nem em descobrir-lhe o motivo. As felicidades futuras, como as margens dos rios tropicais, projectam na imensidade que as precede a sua indolência natural, espécie de brisa perfumada, e nessa embriaguez adormecemos, sem nos inquiertarmos com o horizonte que ainda se não vê.»

op.cit., II.3, p.109

setembro 23, 2010

Madame Bovary

«Quanto à lembrança de Rodolfo,
descera-lhe ao mais profundo do coração;
e ali permanecia, mais solene e mais imóvel
que múmia de rei num subterrâneo.

Daquele grande amor embalsamado
evolava-se uma exalação que, passando
através de tudo, perfumava de ternura
a atmosfera imaculada em que ela desejava
viver. [ ]




Então, entregou-se a generosidades excessivas.
Costurava vestuários para os pobres; fazia presentes
de lenha às mulheres de parto; e um dia, ao entrar
em casa, Carlos encontrou na cozinha três vagabundos
sentados à mesa, comendo sopa. [ ] A mãe de Carlos
não achou nada a censurar-lhe, excepto talvez aquela
mania de fazer camisolas de malha para os orfãos,
em vez de passajar os panos da cozinha.»



:)



op.cit., II.14, p.232

setembro 22, 2010

Madame Bovary


«Jamais madame Bovary ne fut aussi belle qu’á cette époque;
elle avait cette indéfinissable beauté qui résulte de la joie,
de l’enthousiasme, di succès, et qui n’est que l’harmonie
du tempérament avec les circonstances. Ses convoitises,
ses chagrins, l’experience du plaisir et ses illusions
toujours jeunes, comme font aux fleurs le fumier,
la pluie, les vents et le soleil,
l’avaient par gradations
développée,

et elle s’épanouissait enfin
dans la plénitude de sa nature
*

op.cit., p.305

* itálico meu

setembro 21, 2010

Madame Bovary


Rouen
«Puis, d’un seul coup d’oeil, la ville apparaissait.

Descendant tout en amphithéâtre et noyée dans le brouillard, elle s’élargissait au-delá des ponts, confusément. La pleine campagne remontait ensuite d’un mouvement monotone, jusqu’à toucher au loin la base indécise du ciel pâle. Ainsi vu d’en haut, le paysage tout entier avait l’air immobile comme une peinture; les navires à l’ancre se tassaient dans un coin; le fleuve arrondissait sa courbe au pied des collines vertes, et les îles, de forme oblongue, semblaient sur l’eau de grands poissons noirs arrêtés. Les cheminées des usines poussaient d’immenses panaches bruns qui s’envolaient par le bout. On entendait le ronflement des fonderies avec le carillon clair des églises qui se dressaient dans la brume. Les arbres des boulevards, sans feuilles, faisaient des broussailles violettes au milieu des maisons, et les toits, tout reluisants de pluie, miroitaient inégalement, selon la hauteur des quartiers. Parfois un coup de vent emportait les nuages vers la côte Sainte-Catherine, comme des flots aériens qui se brisaient en silence contre une falaise.

(continua)
op.cit., p.393


----- // -----

«Depois, subitamente, a cidade aparecia.

Descendo em anfiteatro e afogada em nevoeiro, alargava-se para além das pontes, confusamente. A larga campina subia depois num declive monótono, até tocar ao longe a linha indecisa do céu pálido. Assim vista de alto, toda apaisagem parecia imóvel, como uma pintura; os navios ancorados amontoavam-se num canto; o rio arredondava a sua curva próximo de colinas verdes, e as ilhas, de forma oblonga, pareciam grandes peixes escuros presos na água. As chaminés das fábricas soltavam imensos penachos cinzentos que se desvaneciam no ar. Ouvia-se o som áspero das fundições junto ao claro repique das igrejas que se erguiam na bruma. As árvores das avenidas, sem folhas, formavam grandes manchas violáceas por entre as casas, e ostelhados, reluzentes de chuva, lançavam reflexos mais ou menos brihantes, conforme a altura dos bairros. Por vezes um pé de vento varria as nuvens esverdeadas para os lados da encosta de Sainte-Catherine, como ondas aéreas que se quebrassem em silêncio nas penedias.»


(III.5, p.284)

:))

{Ainda melhor do que contemplar uma pintura,
o olhar exacto em humana linguagem, a
mais expressiva de todas as artes! :)}

Madame Bovary

(continuação)


Rouen

«Quelque chose de vertigineux se dégageait pour elle de ces
existences amassées, et son coeur s’en gonflait abondamment,
comme si les cent vingt mille âmes qui palpitaient là lui
eussent envoyé toutes à la fois la vapeur des passions
qu’elle leur supposait. Son amour s’agrandissait
devant l’espace, et s’emplissait de tumulte
aux bourdonnementes vagues qui montaient.

Elle le reversait au dehors, sur les places, sur les promenades,
sur les rues, et la vieille cité normande s’étalait à ses yeux
comme une capitale démesurée, comme
une Babylone où elle entrait.»

:)

(fin de cit.)
op.cit., p.393

----- // -----

«Qualquer coisa de vertiginoso se desprendia daquelas existências amontoadas, enchendo o coração de Ema a transbordar, como se as cento e vinte mil almas que palpitavam ali lhe dirigissem todas ao mesmo tempo o vapor das paixões de que as supunha cheias. O seu amor aumentava perante o espaço, e enchia-se de tumulto ante os rumores vagos que subiam. Ema derramava-o do seu seio, sobre as praças, os caminhos, as ruas, e a velha cidade normanda aparecia a seus olhos como uma capital imensa, uma Babilónia, onde ela penetrava.»

(III.5, p.284)

:)

setembro 20, 2010

Madame Bovary


«Dès le landemain, elle s’embarqua dans l’Hirondelle pour
aller à Rouen consulter M. Léon; et elle y resta trois jours.»


op.cit., p.385

setembro 19, 2010

Madame Bovary


Cathedral de Rouen
«Léon, à pas sérieux, marchait auprés des murs.
Jamais la vie ne lui avait paru si bonne. Elle
allait venir tout à l’heure, charmante, agitée,
épiant derrière elle les regards que la suivaient,
— et avec sa robe à volants, son lorgnon d’or,
ses bottines minces, dans toute sorte d’élégances
don’t il n’avait pas gouté, et dans l’ineffable
séduction de la vertu qui succombe.»

(continua)

op.cit., p.366

Madame Bovary

(continuação)


Cathedral de Rouen
«L’église, comme un boudoir gigantesque, se disposait autour
d’elle; les voûtes s’inclinaient pour recueillir dans l’ombre
la confession de son amour; les vitraux resplendissaient
pour illuminer son visage, et les encensoirs allaient brûler

pour qu’elle apparût comme un ange,
dans la fumée des parfums*.
»

* itálico meu

op.cit., p.366 (fin cit.)

setembro 18, 2010

Madame Bovary



«Emma pleurait, et il s’efforçait de la consoler [ ]
— Oh! C’est que je t’aime! Reprenait-elle,
je t’aime à ne pouvoir me passer de toi,
sais-tu bien?»

(p.300-301) (continua)


Gustave Flaubert, Madame Bovary,
Preface, notes et dossier par Jacques Neefs,
Paris, Librairie Générale Française,
Le Livre de Poche, 2008, pp.564

Madame Bovary

(continuação 1)

«Il s’était tant de fois entendu dire ces choses,
qu’elles n’avaient pour lui rien d’original.
Emma ressemblait à toutes les maîtresses;
et le charme de la nouveauté, peu à peu
tombant comme un vêtement, laissait voir
à nu l’éternelle monotonie de la passion
qui a toujours les mêmes formes
et le même langage.

Il ne distinguait pas,
cet homme si plein de pratique,
la dissemblance des sentiments
sous la parité des expressions.»

op.cit., p. 300-01 (continua)

Madame Bovary

(continuação 2)

«Parce que des lèvres libertines ou vénales
lui avaient murmuré des phrases pareilles,
il ne croyait que faiblement à la candeur
de celles-lá; on en devait rabattre,
pensait-il, les discours exagérés
cachant les affections médiocres;

comme si la plénitude de l’âme
ne débordait pas quelques fois
par les métaphores les plus vides,
puisque personne, jamais, ne peut
donner l’exacte mesure de ses besoins,
ni de ses conceptions, ni de ses douleurs,
et que la parole humaine est comme un
chaudron fêlé où nous battons des mélodies
à faire danser les ours, quand
on voudrait attendrir les étoiles.»

op.cit., p.300-1 (continua)

Madame Bovary

(continuação 3)

«Mais, avec cette supériorité de critique
appartenant à celui qui, dans n’importe
quel engagement, se tient en arrière,

Rodolphe aperçut en cet amour d’autres
jouissances à exploiter. Il jugea toute
pudeur incommode. Il la traita sans façon.
Il en fit quelque chose de souple et de corrompu.

C’était une sorte d’attachement idiot plein
d’admiration pour lui, de voluptés pour elle,
une béatitude qui l’engourdissait; et son âme
s’enfonçait en cette ivresse et s’y noyait,
ratatinée, comme le duc de Clarence
dans son tonneau de malvoisie.»

op.cit. p.300-1 (fin de cit.)

setembro 17, 2010

Madame Bovary

«— Que loucura! Como poderei chegar até ela? —

Parecia-lhe tão virtuosa e inacessível,
que toda a esperança,
mesmo a mais vaga,
o abandonou.»

----- // -----

«Ema não dormia; simulava estar
adormecida. E, enquanto Carlos,
a seu lado, pegava no sono, ela
despertava para sonhos diferentes.»


op.cit., II.5, p.121; e, II.12, p.213

setembro 16, 2010

Madame Bovary

«Desejava um filho; seria moreno e forte,
e chamar-se-ia Jorge. E esta ideia de ter um filho

varão era como o resgate, em esperanças,
de todas as suas impotências passadas.

Um homem, ao menos, é livre;
pode atravessar paixões e países,
atravessar os obstáculos,
saborear as felicidades mais longínquas.

Uma mulher sofre de impedimentos contínuos.
Inerte e flexível ao mesmo tempo,
tem contra si as fraquezas da carne
e as dependências da lei.

A sua vontade, como o véu do seu chapéu
seguro por um cordão, palpita a todos os ventos,
e há sempre um desejo que arrasta,
e uma conveniência que detém.»

(II.3, p.103)



Gustave Flaubert, Madame Bovary,
Trad. João Pedro de Andrade, Lisboa,
Clássicos Relógio d’Água, 1991, pp.372

setembro 15, 2010



Fidelidade magistral
de Claude Charbol
ao enredo Bovary
de Flaubert.

setembro 14, 2010

setembro 13, 2010

setembro 12, 2010

setembro 11, 2010

setembro 10, 2010

setembro 09, 2010

setembro 08, 2010

setembro 07, 2010

setembro 06, 2010



«Au début des années soixante, alors qu’il cherchait
à affiner les méthodes de prévisions, le météorologue
Edward Lorenz s’est aperçu qu’en modifiant
imperceptiblement une variable parmi
d’innombrables autres, le pronostic
changeait du tout au tout…

Il suffit d’une seule différence infime,
et apparemment négligeable, pour que le résultat
du système tout entier s’en trouve bouleversé.

Selon sa formule devenue célèbre, le battement
d’ailes d’un papillon en Chine peut déclencher
une tornade à l’autre bout de la planète.

Cette réaction en chaîne, aujourd’hui connu
sous le nom d’«effet papillon», montre à quel point
le comportement de systèmes complexes à variables
multiples est imprévisible…

Non pas imprévisible pour nous, qui serions trop
ignorants ou obtus, mais imprévisibles de par leur
nature même…

Parce que notre monde est un système particulièrement
complexe, dont l’évolution reste impénétrable, les prédictions
ne seront jamais que des hypothèses plus au moins hasardeuses.

Si l’avenir est imprévisible, c’est qu’il est indéterminé.

À tout moment, le cours des événements peut bifurquer…»

Zygmunt Bauman, ’’Et si… l’avenir, c’était le présent ?’’
in philosophie-magazine, avril 2009

setembro 04, 2010

setembro 03, 2010

~
img aqui

«Na origem, tudo é origem.»

Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I
, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 114

setembro 02, 2010


Img in Blog do Manel

«O que mais desejo é uma grande economia de palavras.»

Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I
, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 221

setembro 01, 2010



«À noite assisti, na televisão, a um debate sobre o desemprego,
que me apareceu como uma encruzilhada de todos os problemas.
Porque é que trabalhar é uma realidade incontestável? Porque
é que só uma parte da actividade das pessoas é remunerada?
Porque é que há uma hierarfquia no trabalho? Porque é que
se exagerou de tal modo a função da máquina? Porque é
que há uma tão grande diferença de recieitas de indivíduo
para indivíduo? Porque é que o trabalho, na maior parte
dos casos, só ocupa o tempo e garante o ganho, em vez
de ser uma forma de expressão, ou uma paticipação
directa na vida comum?»

Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 221

agosto 31, 2010



«Nessa confrontação de um único dia
(medida unitária do tempo) com todos
os dias (medida fragmentada do tempo)
percebeu que o que a cansava e fazia sofrer
era a perda de consciência motivada pelo trabalho.

Ser destinado à morte (de facto, assim era)
necessitava de, já em vida corporal,
mergulhar no sentido eterno.

Por causa da distracção permanente
a que os seus sentidos mais queridos
eram impelidos [no local do trabalho]
[este] transformara-se num lugar de penas,
e raros momentos de reencontro.

As pessoas passavam, passavam desligadas
dessa aragem do cosmos com que se perfumavam,
e as noites caíam sobre dias esmagados
pelos trabalhos no tempo.»


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão -
Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 137

agosto 30, 2010



Um precioso ensaio sobre a economia portuguesa,
que lembra uma verdade desprezada no marasmo
"democrático": - Não há política, económica, social,
cultural, sem uma estratégia - (preferivelmente)
acertada. Ora, os governos têm seguido listas
de medidas avulsas - tipo "power point"! -
sem qualquer consistência analítica
e causal com os efeitos desejáveis;
como tal, incapazes de induzir
um desenvolvimento
sustentável.

agosto 29, 2010



«Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal.»

Clarice Lispector, Onde estiveste de noite,
Lisboa, Relógio dÁgua, p. 97

agosto 28, 2010




E lucevan le stelle
ed olezzava la terra,
stridea l'uscio dell'orto,
e un passo sfiorava la rena...
Entrava ella, fragrante,
mi cadea fra le braccia...
O dolci baci, o languide carezze,
mentr'io fremente
le belle forme disciogliea dai veli!
Svani per sempre
il sogno mio d'amore...
L'ora è fuggita...
E muoio disperato!
E muoio disperato...
E non ho amato mai tanto la vita!

(Puccini, Tosca)

agosto 27, 2010



Isto é, a rádio pública
ou seja, o meio infalível
p'ra saber como vai o futebol!

agosto 26, 2010



Pode ser muito ecológico inserir os animais do zoo
em ambientes simulados do seu habitat.

Mas, não mais a visão olhos nos olhos
das feras enjauladas, antes
o espaço vazio com
os animais a dormir
ou simplesmente
ausentes!

Em compensação,
cartazes, desenhos animados
e uma data de infantilidades
tipo walt disney não faltam!

Por outras palavras,
uma "seca", visitar
o Zoo de Lisboa!