Regressar ao objecto. Partilhar a figura na ressurreição. A ausência não é o nada, mas o manancial. De um lado e de outro, vigiam-nos as formas naturais consonantes. Conseguiremos atenuar na Natureza o afastamento. Assim como tu, ela assgura-me a emoção. A separação é o abstracto de vários vestígios. Um vestígio do próximo reconhecimento. Tanto mais sei que regressas ao abismo da minha memória subtil. És tu quem se ausenta entre uma ala de árvores. Pertences à Natureza, tanto quanto te pertences.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 08, 2010
Portugal produz por ano bens e serviços no valor de aprox. 150 mil milhões de euros, 30 mil milhões de contos.
Ao estrangeiro deve cerca de 300 mil milhões, i.e. 2 anos de produção; metade da dívida é do Estado, a outra metade é devida pelos bancos, empresas e famílias.
Mudar esta dependência dos credores exige que as empresas, o estado, as famílias paguem o que devem,
aceitando manter algum nível de dívida digamos entre ¼ ou ½ da produção anual, ou seja entre 37 e 80 milhões de euros.
Uma redução do endividamento desta grandeza, de 300 para digamos 50 mil milhões, em p.e., 5 anos, exigiria uma amortização anual de 50 mil milhões, ou seja 1/3 do produto anual, um quadrimestre de produção.
Se alargarmos o período de redução da dívida de 5 para 10 anos, mesmo assim, 2 meses de produção e rendimento teriam de aplicar-se anualmente ao pagamento da dívida.
Vendo o problema em termos per capita, na perspectiva de rendimento de um assalariado ou pensionista,
2/14 a 4/14 avos do rendimento anual algo como 15 a 30 % do salário ou pensão tem de ser pago aos credores,
ou na forma de redução do consumo ou na de passar a produzir em 3 dias tanto quanto antigamente em 4 dias;
isto em paralelo com idêntico sacrifício nos rendimentos dos pensionistas, rentistas, capitalistas e usurários.
No quadro desta situação é inadmissível não exigir austeridade a todas as instituições e classes sociais.
novembro 07, 2010
Les sabots d'Hélène Etaient tout crottés Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De les déchausser Les sabots d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Dans les sabots de la pauvre Hélène Dans ses sabots crottés Moi j'ai trouvé les pieds d'une reine Et je les ai gardés
Son jupon de laine Etait tout mité Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De le retrousser Le jupon d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Sous le jupon de la pauvre Hélène Sous son jupon mité Moi j'ai trouvé des jambes de reine Et je les ai gardés
Et le cœur d'Hélène N'savait pas chanter Les trois capitaines L'auraient appelée vilaine Et la pauvre Hélène Etait comme une âme en peine Ne cherche plus longtemps de fontaine Toi qui as besoin d'eau Ne cherche plus, aux larmes d'Hélène Va-t'en remplir ton seau
Moi j'ai pris la peine De m'y arrêter Dans le cœur d'Hélèn' Moi qui ne suis pas capitaine Et j'ai vu ma peine Bien récompensée Et dans le cœur de la pauvre Hélène Qu'avait jamais chanté Moi j'ai trouvé l'amour d'une reine Et moi je l'ai gardé
novembro 06, 2010
Não ouvia esta canção desde a minha alta meninice!
:)
E o Júlio Isidro ensinou-me hoje na rádio que foi Patachou quem apresentou Georges Brassens ao público!
novembro 04, 2010
SEGREDO
Não contes do meu vestido que tiro pela cabeça
nem que corro os cortinados para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o anel em redor do teu pescoço com as minhas longas pernas e a sombra do meu poço
Não contes do meu novelo nem da roca de fiar
nem o que faço com eles a fim de te ouvir gritar
Maria Teresa Horta
novembro 02, 2010
imagem in blog 'coisas minhas'
«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente – O êxito está no Circuito É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer A esplêndida surpresa da Verdade
Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças Com uma amável explicação A Verdade deve ofuscar gradualmente Ou cada homem ficará cego –»
Emily Dickinson
outubro 31, 2010
Não há como vê-lo nesta noite sem luar — estou deitada e desperta, os seios ardendo em desejo e o coração em chamas.
Ono No Komachi (834?-?)
outubro 29, 2010
«Quebrei os meus compromissos por causa do amigo; seria capaz de quebrar a amizade por causa do amor.»
(Hölderlin)
outubro 27, 2010
Quadro de Melyta
«Não sei se este pensamento elucida o dia, se a noite. Veio às cinco da manhã, e às dezoito do mesmo dia. Aqui o deixo__________________________ a ilha é
Um lugar onde o mar ruge por todos os lados. Quando O vento a submerge, batem nas rochas e nas escarpas Peixes, assinalados por terem morrido em vão.»
Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.196
outubro 25, 2010
«Mas a ti nem mil impropérios seriam capazes de te morder. Tal é o impudor inato que possuis.»
Eurípedes, Medeia (1344-5)
outubro 23, 2010
«As folhas da bananeira são suficientemente amplas para ocultarem uma paixão. Quando expostas às intempéries recordam-me ora a cauda ferida de uma fénix ora um leque verde rasgado pelo vento. A bananeira floresce. Todavia as suas flores nada têm de atraente. O mesmo acontece com o tronco enorme. Talvez por isso a bananeira acabou por conquistar o meu coração. Sento-me debaixo dela enquanto o vento e a chuva a fustigam.»
Matsuo Bashô, O gosto solitário do orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p. 15
outubro 21, 2010
Do Raio de Sol
Raio de Sol na ombreira da porta, na trave da cadeira, vindo da gelosia, peço-te para amanhã voltares mais arqueado pela esfericidade da Terra, um raio não decididamente recto cravado no meu tórax côncavo, mas no meu coração curvo como um globo
Fiama Hasse Pais Brandão, As fábulas
outubro 19, 2010
Devota como ramo curvado pelos nevões alegre como fogueira nas colinas esquecidas
sobre acutíssimas lâminas em branca camisa de urtigas, te ensinarei, minha alma, este passo do adeus...
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Devota come ramo curvato da molte nevi allegra come fallò per colline d'oblio,
su acutissime làmine in bianca maglia d'ortiche, ti insegnerò, mia anima, questo passo d'addio...
Cristina Campo, O Passo do Adeus, Trad de José Tolentino Mendonça; Assírio & Alvim, pp. 38-39
outubro 15, 2010
outubro 13, 2010
Numa destrinça subtil, cada um traz a sua ausência.
Mas há uma escala graduada de valores libidinais,
onde a muda ausência da amada, muda a beleza dessa ausência.
(texto de gabriela llansol adaptado)
outubro 11, 2010
Paul Valéry: Le cimetière marin
Ce toit tranquille, où marchent des colombes, Entre les pins palpite, entre les tombes; Midi le juste y compose de feux La mer, la mer, toujours recommencée O récompense après une pensée Qu'un long regard sur le calme des dieux!
outubro 10, 2010
Ismael Nery, Figura, c. 1927/1928 óleo s/ tela, 105 x 69,2 cm
O CORPO OCUPA A FIGURA
Assombra-me o som parcimonioso da flauta, com limites,
pelo declive. O meio-dia é a hora em que assoma o corpo,
flamejando, progredindo para o exterior ou para o interior
do progresso para a proximidade. Não passar pelo Nada,
a escutar a fonia dos animais animados. Não recuar perante
a Natureza, ofensiva portadora da dor, terrífica separação.
Com os sentidos perante a ordem possível. Uma única gare torna a coesão soma das partes coagindo-se; aquela vem,
cabendo ainda no olhar de acesso. O individual é definido
por uma discordância interior. Justaposição do caos sereno à cena,
por um ovíparo que esvoaça tal como no soalho tenebroso
prosseguem melros.1 Meio-dia! Trinos! O corpo ocupa a figura,
desocupa-a. No panorama o som voador de flauta desliza
no corpo ensombrecido pela sombra do corpo da figura.
1 «Ce toit tranquille où marchent des colombes», P. Valéry
Fiama Hasse Pais Brandão
Nota:-As linhas diferem, em extensão, dos versos originais.
La faculté du bovarisme c’est «le pouvoir départi à l’homme de se concevoir autre qu’il n’est.» (Jules de Gaultier) _____________________________________________
«[ ] voici, avec Mme Bovary, un être pourvu d’une énergie plus forte. Aussi la fausse conception qu’elle prend d’elle-même va-t-elle se traduire par de tout autres conséquences. Mme Bovary échappe au ridicule par la frénésie; avec elle, l’erreur sur la personne devient un élément du drame. Au service de l’être imaginaire qu’elle a substitué à elle-même elle emploi toute l’ardeur qui la possède. Pour se persuader qu’elle est ce qu’elle veut être, elle ne se tient pas [à des] gestes décoratifs […], mais elle ose accomplir des actes véritables. Or elle entreprend sur le réel avec des moyens qui ne sont valables qu’à l’égard de la fiction. La conception sentimentale qu’elle s’est formée d’elle même exige un effet une sensibilité différente de celle qui est la sienne, en même temps que des circonstances différentes de celles dont elle dépend.»
«O pano preto, juncado de pétalas brancas, levantava-se por vezes descobrindo o caixão.
Os portadores, fatigados, iam mais vagarosos; e o féretro avançava por intercadências contínuas, como uma chalupa baçouçando entre as ondas.
Chegaram. Os homens continuaram até um sítio baixo, onde a cova estava aberta. No meio da relva.
Agruparam-se em torno; e enquanto o padre falava, a terra vermelha, puxada para os bordos, escorregava pelos cantos, sem ruído, continuamente.
Depois de disporem as quatro cordas, impeliram o ataúde. Carlos viu-o descer. Descia sempre.
Por fim ouviu-se o embate, as cordas subiram rangendo.
Então Bournisien pegou na pá que Lestoboudois lhe estendia; e com a mão esquerda deitou-a cheia de terra, vigorosamente, enquanto aspergia com a direita; e a madeira do caixão, no choque com os grossos torrões, produziu o ruído formidável que soa aos nossos ouvidos como o eco da eternidade.»
«Estava bom tempo; era um daqueles dias de Março claros e agrestes, em que o Sol reluz num céu pálido. Habitantes de Rouen, endomingados, passeavam com ar satisfeito. Ema chegou ao adro da igreja. Saíam da missa da tarde; a multidão escoava-se pelos três portais, como um rio pelos três arcos de uma ponte, e, no meio, mais imóvel que um rochedo, estava o guarda.
Lembrou-se ela então do dia em que, ansiosa e cheia de esperança, caminhara sob aquela grande nave que se alongava na sua frente, menos profunda que o seu amor; e continuou a andar, chorando debaixo do véu, aturdida, cambaleante, quase a desfalecer.»
«Elle venait de partir, exaspérée. Elle le détestait maintenant. [ ]
Puis, se calmant, elle finit par découvrir qu’elle l’avait sans doute calomnié. Mas le dénigrement de ceux que nous aimons toujours nous en détache quelque peu.
Il ne faut pas toucher aux idoles: la dorure en reste aux mains.»
«[…] C’était une manière de permission qu’elle se donnait de ne point gêner dans ses escapades. Aussi en profita-t-elle tout à son aise, largement. Lorsque l’envie la prenait de voir Léon, elle partait sous n’importe quel prétexte, et, comme il ne l’attendait pas ce jour-lá, elle allait le chercher à son étude. [ ] Il fallait que Léon, chaque fois, lui racontât toute sa conduite, depuis le dernier rendez-vous. [ ] Il ne discutait pas ses idées; il acceptait tous ses goûts; il devenait sa maîtresse plutôt qu’elle n´était la sienne.»
«Binet sorria, o queixo curvado, as narinas dilatadas, e parecia perdido numa daquelas felicidades completas que decerto pertencem apenas às ocupações medíocres, que distraem o espírito por dificuldades fáceis, e o adormentam numa realização para além da qual nada mais se pode desejar.»
«A Lua, redonda e cor de púrpura, erguia-se na linha do horizonte, ao fundo da planície.
Subia rápida entre os ramos dos choupos, que a ocultavam a espaços, como uma cortina preta, esfarrapada.
Depois apareceu, deslumbrante de brancura, no céu vazio que ela iluminava; e então, abrandando a marcha, deixou cair sobre a ribeira uma grande mancha clara, que se dividia numa infinidade de estrelas, e o clarão argênteo parecia torcer-se ao fundo da água, como uma serpente sem cabeça, coberta de escamas luminosas.»
«Il savourait pour la première fois l’inexprimable délicatesse des élegances féminines. Jamais il n'avait rencontré cette grâce de langage, cette réserve du vêtement, ces poses de colombe assoupie. Il admirait l’exaltation de son âme et les dentelles de sa jupe. D’ailleurs, n’était-ce pas une femme du monde, et une femme marié! Une vraie maîtresse enfin? Par la diversité de son humeur, tour à tour mystique ou joyeuse, babillarde, taciturne, emportée, nonchalante, elle allait rappelant en lui mille désirs, évoquant des instincts ou des réminiscences. Elle était l’amoureuse de tous les romans, l’héroïne de tous les drames, le vague elle de tous les volumes de vers.»
«Comme ils aimaient cette bonne chambre pleine de gaieté, malgré sa splendeur un peu fanée! Ils retrouvaient toujours les meubles à leur place, et parfois des épingles à cheveux qu’elle avait oubliées, l’autre jeudi, sous le socle de la pendule. Ils déjeumaient au coin du feu, sur un petit guéridon incrusté de palissandre. Emma découpait, lui mettait les morceaux dans son assiette en débitant toutes sortes de chatteries; et elle riait d’un rire sonore et libertin quand la mousse du vin de Champagne débordait du verre léger sur les de ses doigts. Ils étaient si complètement perdus en la posséssion d’eux-mêmes, qu’ils se croyaient là dans leur maison particulière, et devant y vivre jusqu’à la mort, comme dux éternels jeunes époux.»
«Teriam só aquilo para dizer? Nos olhos de ambos, todavia, desenhava-se um diálogo mais sério; e, enquanto se esforçavam por encontrar frases banais, sentiam a mesma languidez invadi-los aos dois; era como um murmúrio da alma, profundo, ininterrupto, que dominava o das vozes. Tomados de espanto por aquela nova sensação de suavidade, não pensavam em comunicá-la nem em descobrir-lhe o motivo. As felicidades futuras, como as margens dos rios tropicais, projectam na imensidade que as precede a sua indolência natural, espécie de brisa perfumada, e nessa embriaguez adormecemos, sem nos inquiertarmos com o horizonte que ainda se não vê.»
«Quanto à lembrança de Rodolfo, descera-lhe ao mais profundo do coração; e ali permanecia, mais solene e mais imóvel que múmia de rei num subterrâneo.
Daquele grande amor embalsamado evolava-se uma exalação que, passando através de tudo, perfumava de ternura a atmosfera imaculada em que ela desejava viver. [ ]
Então, entregou-se a generosidades excessivas. Costurava vestuários para os pobres; fazia presentes de lenha às mulheres de parto; e um dia, ao entrar em casa, Carlos encontrou na cozinha três vagabundos sentados à mesa, comendo sopa. [ ] A mãe de Carlos não achou nada a censurar-lhe, excepto talvez aquela mania de fazer camisolas de malha para os orfãos, em vez de passajar os panos da cozinha.»
«Jamais madame Bovary ne fut aussi belle qu’á cette époque; elle avait cette indéfinissable beauté qui résulte de la joie, de l’enthousiasme, di succès, et qui n’est que l’harmonie du tempérament avec les circonstances. Ses convoitises, ses chagrins, l’experience du plaisir et ses illusions toujours jeunes, comme font aux fleurs le fumier, la pluie, les vents et le soleil, l’avaient par gradations développée,
et elle s’épanouissait enfin dans la plénitude de sa nature*.»
Rouen «Puis, d’un seul coup d’oeil, la ville apparaissait.
Descendant tout en amphithéâtre et noyée dans le brouillard, elle s’élargissait au-delá des ponts, confusément. La pleine campagne remontait ensuite d’un mouvement monotone, jusqu’à toucher au loin la base indécise du ciel pâle. Ainsi vu d’en haut, le paysage tout entier avait l’air immobile comme une peinture; les navires à l’ancre se tassaient dans un coin; le fleuve arrondissait sa courbe au pied des collines vertes, et les îles, de forme oblongue, semblaient sur l’eau de grands poissons noirs arrêtés. Les cheminées des usines poussaient d’immenses panaches bruns qui s’envolaient par le bout. On entendait le ronflement des fonderies avec le carillon clair des églises qui se dressaient dans la brume. Les arbres des boulevards, sans feuilles, faisaient des broussailles violettes au milieu des maisons, et les toits, tout reluisants de pluie, miroitaient inégalement, selon la hauteur des quartiers. Parfois un coup de vent emportait les nuages vers la côte Sainte-Catherine, comme des flots aériens qui se brisaient en silence contre une falaise.
(continua) op.cit., p.393
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«Depois, subitamente, a cidade aparecia.
Descendo em anfiteatro e afogada em nevoeiro, alargava-se para além das pontes, confusamente. A larga campina subia depois num declive monótono, até tocar ao longe a linha indecisa do céu pálido. Assim vista de alto, toda apaisagem parecia imóvel, como uma pintura; os navios ancorados amontoavam-se num canto; o rio arredondava a sua curva próximo de colinas verdes, e as ilhas, de forma oblonga, pareciam grandes peixes escuros presos na água. As chaminés das fábricas soltavam imensos penachos cinzentos que se desvaneciam no ar. Ouvia-se o som áspero das fundições junto ao claro repique das igrejas que se erguiam na bruma. As árvores das avenidas, sem folhas, formavam grandes manchas violáceas por entre as casas, e ostelhados, reluzentes de chuva, lançavam reflexos mais ou menos brihantes, conforme a altura dos bairros. Por vezes um pé de vento varria as nuvens esverdeadas para os lados da encosta de Sainte-Catherine, como ondas aéreas que se quebrassem em silêncio nas penedias.»
(III.5, p.284)
:))
{Ainda melhor do que contemplar uma pintura, o olhar exacto em humana linguagem, a mais expressiva de todas as artes! :)}
«Quelque chose de vertigineux se dégageait pour elle de ces existences amassées, et son coeur s’en gonflait abondamment, comme si les cent vingt mille âmes qui palpitaient là lui eussent envoyé toutes à la fois la vapeur des passions qu’elle leur supposait. Son amour s’agrandissait devant l’espace, et s’emplissait de tumulte aux bourdonnementes vagues qui montaient.
Elle le reversait au dehors, sur les places, sur les promenades, sur les rues, et la vieille cité normande s’étalait à ses yeux comme une capitale démesurée, comme une Babylone où elle entrait.»
:) (fin de cit.) op.cit., p.393
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«Qualquer coisa de vertiginoso se desprendia daquelas existências amontoadas, enchendo o coração de Ema a transbordar, como se as cento e vinte mil almas que palpitavam ali lhe dirigissem todas ao mesmo tempo o vapor das paixões de que as supunha cheias. O seu amor aumentava perante o espaço, e enchia-se de tumulto ante os rumores vagos que subiam. Ema derramava-o do seu seio, sobre as praças, os caminhos, as ruas, e a velha cidade normanda aparecia a seus olhos como uma capital imensa, uma Babilónia, onde ela penetrava.»
Cathedral de Rouen «Léon, à pas sérieux, marchait auprés des murs. Jamais la vie ne lui avait paru si bonne. Elle allait venir tout à l’heure, charmante, agitée, épiant derrière elle les regards que la suivaient, — et avec sa robe à volants, son lorgnon d’or, ses bottines minces, dans toute sorte d’élégances don’t il n’avait pas gouté, et dans l’ineffable séduction de la vertu qui succombe.»
Cathedral de Rouen «L’église, comme un boudoir gigantesque, se disposait autour d’elle; les voûtes s’inclinaient pour recueillir dans l’ombre la confession de son amour; les vitraux resplendissaient pour illuminer son visage, et les encensoirs allaient brûler
pour qu’elle apparût comme un ange, dans la fumée des parfums*.»
«Emma pleurait, et il s’efforçait de la consoler [ ] — Oh! C’est que je t’aime! Reprenait-elle, je t’aime à ne pouvoir me passer de toi, sais-tu bien?»
(p.300-301) (continua)
Gustave Flaubert, Madame Bovary, Preface, notes et dossier par Jacques Neefs, Paris, Librairie Générale Française, Le Livre de Poche, 2008, pp.564
«Il s’était tant de fois entendu dire ces choses, qu’elles n’avaient pour lui rien d’original. Emma ressemblait à toutes les maîtresses; et le charme de la nouveauté, peu à peu tombant comme un vêtement, laissait voir à nu l’éternelle monotonie de la passion qui a toujours les mêmes formes et le même langage.
Il ne distinguait pas, cet homme si plein de pratique, la dissemblance des sentiments sous la parité des expressions.»
«Parce que des lèvres libertines ou vénales lui avaient murmuré des phrases pareilles, il ne croyait que faiblement à la candeur de celles-lá; on en devait rabattre, pensait-il, les discours exagérés cachant les affections médiocres;
comme si la plénitude de l’âme ne débordait pas quelques fois par les métaphores les plus vides, puisque personne, jamais, ne peut donner l’exacte mesure de ses besoins, ni de ses conceptions, ni de ses douleurs, et que la parole humaine est comme un chaudron fêlé où nous battons des mélodies à faire danser les ours, quand on voudrait attendrir les étoiles.»
«Mais, avec cette supériorité de critique appartenant à celui qui, dans n’importe quel engagement, se tient en arrière,
Rodolphe aperçut en cet amour d’autres jouissances à exploiter. Il jugea toute pudeur incommode. Il la traita sans façon. Il en fit quelque chose de souple et de corrompu.
C’était une sorte d’attachement idiot plein d’admiration pour lui, de voluptés pour elle, une béatitude qui l’engourdissait; et son âme s’enfonçait en cette ivresse et s’y noyait, ratatinée, comme le duc de Clarence dans son tonneau de malvoisie.»
«Desejava um filho; seria moreno e forte, e chamar-se-ia Jorge. E esta ideia de ter um filho varão era como o resgate, em esperanças, de todas as suas impotências passadas.
Um homem, ao menos, é livre; pode atravessar paixões e países, atravessar os obstáculos, saborear as felicidades mais longínquas.
Uma mulher sofre de impedimentos contínuos. Inerte e flexível ao mesmo tempo, tem contra si as fraquezas da carne e as dependências da lei.
A sua vontade, como o véu do seu chapéu seguro por um cordão, palpita a todos os ventos, e há sempre um desejo que arrasta, e uma conveniência que detém.»
(II.3, p.103)
Gustave Flaubert, Madame Bovary, Trad. João Pedro de Andrade, Lisboa, Clássicos Relógio d’Água, 1991, pp.372
setembro 15, 2010
Fidelidade magistral de Claude Charbol ao enredo Bovary de Flaubert.
setembro 14, 2010
setembro 13, 2010
setembro 12, 2010
setembro 11, 2010
setembro 10, 2010
setembro 09, 2010
setembro 08, 2010
setembro 07, 2010
setembro 06, 2010
«Au début des années soixante, alors qu’il cherchait à affiner les méthodes de prévisions, le météorologue Edward Lorenz s’est aperçu qu’en modifiant imperceptiblement une variable parmi d’innombrables autres, le pronostic changeait du tout au tout…
Il suffit d’une seule différence infime, et apparemment négligeable, pour que le résultat du système tout entier s’en trouve bouleversé.
Selon sa formule devenue célèbre, le battement d’ailes d’un papillon en Chine peut déclencher une tornade à l’autre bout de la planète.
Cette réaction en chaîne, aujourd’hui connu sous le nom d’«effet papillon», montre à quel point le comportement de systèmes complexes à variables multiples est imprévisible…
Non pas imprévisible pour nous, qui serions trop ignorants ou obtus, mais imprévisibles de par leur nature même…
Parce que notre monde est un système particulièrement complexe, dont l’évolution reste impénétrable, les prédictions ne seront jamais que des hypothèses plus au moins hasardeuses.
Si l’avenir est imprévisible, c’est qu’il est indéterminé.
À tout moment, le cours des événements peut bifurquer…»
Zygmunt Bauman, ’’Et si… l’avenir, c’était le présent ?’’ in philosophie-magazine, avril 2009
«O que mais desejo é uma grande economia de palavras.» Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão - Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 221
setembro 01, 2010
«À noite assisti, na televisão, a um debate sobre o desemprego, que me apareceu como uma encruzilhada de todos os problemas. Porque é que trabalhar é uma realidade incontestável? Porque é que só uma parte da actividade das pessoas é remunerada? Porque é que há uma hierarfquia no trabalho? Porque é que se exagerou de tal modo a função da máquina? Porque é que há uma tão grande diferença de recieitas de indivíduo para indivíduo? Porque é que o trabalho, na maior parte dos casos, só ocupa o tempo e garante o ganho, em vez de ser uma forma de expressão, ou uma paticipação directa na vida comum?»
Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão - Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 221
agosto 31, 2010
«Nessa confrontação de um único dia (medida unitária do tempo) com todos os dias (medida fragmentada do tempo) percebeu que o que a cansava e fazia sofrer era a perda de consciência motivada pelo trabalho.
Ser destinado à morte (de facto, assim era) necessitava de, já em vida corporal, mergulhar no sentido eterno.
Por causa da distracção permanente a que os seus sentidos mais queridos eram impelidos [no local do trabalho] [este] transformara-se num lugar de penas, e raros momentos de reencontro.
As pessoas passavam, passavam desligadas dessa aragem do cosmos com que se perfumavam, e as noites caíam sobre dias esmagados pelos trabalhos no tempo.»
Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão - Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 137
agosto 30, 2010
Um precioso ensaio sobre a economia portuguesa, que lembra uma verdade desprezada no marasmo "democrático": - Não há política, económica, social, cultural, sem uma estratégia - (preferivelmente) acertada. Ora, os governos têm seguido listas de medidas avulsas - tipo "power point"! - sem qualquer consistência analítica e causal com os efeitos desejáveis; como tal, incapazes de induzir um desenvolvimento sustentável.
agosto 29, 2010
«Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal.»
Clarice Lispector, Onde estiveste de noite, Lisboa, Relógio dÁgua, p. 97
agosto 28, 2010
E lucevan le stelle ed olezzava la terra, stridea l'uscio dell'orto, e un passo sfiorava la rena... Entrava ella, fragrante, mi cadea fra le braccia... O dolci baci, o languide carezze, mentr'io fremente le belle forme disciogliea dai veli! Svani per sempre il sogno mio d'amore... L'ora è fuggita... E muoio disperato! E muoio disperato... E non ho amato mai tanto la vita!
(Puccini, Tosca)
agosto 27, 2010
Isto é, a rádio pública ou seja, o meio infalível p'ra saber como vai o futebol!
agosto 26, 2010
Pode ser muito ecológico inserir os animais do zoo em ambientes simulados do seu habitat.
Mas, não mais a visão olhos nos olhos das feras enjauladas, antes o espaço vazio com os animais a dormir ou simplesmente ausentes!
Em compensação, cartazes, desenhos animados e uma data de infantilidades tipo walt disney não faltam!
Por outras palavras, uma "seca", visitar o Zoo de Lisboa!
agosto 14, 2010
«Porque um dos detalhes característicos da minha atitude espiritual é que a atenção não deve ser cultivada exageradamente, e mesmo o sonho deve ser olhado alto,
com uma consciência aristocrática de o estar fazendo existir.
Dar demasiada importância ao sonho seria dar demasiada importância, afinal, a uma coisa que se separou de nós próprios, que se ergueu, conforme pôde, em realidade,
e que, por isso,
perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela.»
:)
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith, Lisboa 1998, #199.
julho 28, 2010
P A R T Í C U L A 61 — A aranha
«[ ] As virgens da Casa — com ou sem sexo rasgado — evoluem à mi- nha volta e, quando param, confirmam a exactidão do meu disfarce.
«ah, como é estético um esquilo no homem.»
E as que têm essa devoção sentem a natureza e, em simultâneo, resguardam as perguntas que hão-de fazer-lhe no interior da vagina.
São apenas umas poucas as mulheres da Casa. No entanto, valem por muitas.[ ]»
:)
Maria Gabriela Llansol, Os cantores da leitura, Assírio & Alvim, Lisboa, 2007
julho 19, 2010
El Secreto de Sus Ojos, de Juan José Campanella, com a formosa actriz Soledad Villamil e Ricardo Darín.
Um belíssimo filme argentino, uma narrativa segura, num thriller com suspense, sentimentos contidos mas fortes e persistentes, numa ideia bem platónica de que tudo pode deduzir-se da paixão dominante que singulariza cada vivente... :))
A não perder!
julho 03, 2010
Giuseppe Verdi, La Traviata, Ileana Cotrubas, Placido Domingo, Carlos Kleiber(maestro)
E Strano - Sempre Libera Lyrics
E strano! E strano! In core scolpiti ho quegli accenti! Saria per me sventura un serio amore? Che risolvi, o turbata anima mia? Null'uomo ancora t'accendeva… Oh, gioia Ch'io non conobbi, Esser amata amando! E sdegnarla poss'io Per l'aride follie del viver mio?
Ah, fors'e lui che l'anima Solinga ne'tumulti Godea sovente pingere De'suoi colom occulti Lui, che modesto e vigile. All'egre soglie ascese, E nuova febbre accese Destandomi all'amor!
A quell'amor ch'e palpito Dell'universo intero, Misterioso, altero Croce e delizia al cor.
Follie! Delirio vano e questo! Povera donna, sola, abbandonata In quest popoloso deserto Che appellano Parigi Che spero or piu? Che far degg'io? Gioire! Di volutta ne'vortici perir! Gioir!
Sempre libera deegg'io Folleggiare di gioia in gioia, Vo'che scorra il viver mio Pei sentieri del piacer. Nasca il giorno, o il giorno muoia Sempre lieta ne'ritrovi, A dilettisempre nuovi Dee volare il mio pensier
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Etrange! L'empreinte de ces accents Est gravée dans mon coeur. L'amour vrai serait-il pour moi un malheur? Que faire, ó mon âme troublée? Personne encore ne t'a enflammée. Oh, joie... que je ne connais pas, Être aimée en aimant! Pourrai-je dédaigner cette joie Pour la seule chimère de ma vie?
Ah, se peut-il qu'il soit Celui que mon âme solitaire, Dans le tumulte de ses pensées, Dépeint souvent en contours incertains? Celui qui, modeste et vigilant, Franchit le seuil de la malade Pour l'enflammer d'une nouvelle fièvre Et l'éveiller à l'amour! A cet amour qui fait palpiter L'univers entier, Mystérieux, altier, Croix et délices du coeur.
Folie! C'est un délire insensé! Pauvre femme seule, Abandonnée dans ce désert populeux Que l'on appelle Paris, Que me reste-t-il à espérer? Que dois-je faire? Jouir des plaisirs, Périr dans la volupté des tourbillons! Jouir des plaisirs!
Libre toujours, je veux pouvoir Voltiger de joie en joie, Je veux que ma vie s'écoule Par les sentiers du plaisir. Que naisse le jour, ou que le jour meure, Plein de liesse dans les cercles mondains, Vers des plaisirs toujours nouveaux Doit s'envoler ma pensée.
junho 29, 2010
Tenho imensas coisas para fazer. Hei-de morrer com imensas coisas por fazer.