Anton Einsle, head and upper torso of a reclining woman img in "Branco no Branco"
«[ ] O que é preciso é ser como se já não fôssemos,[ ], pois o resto não nos pertence.» cecília meirelles
dezembro 10, 2010
Para a meg, herself :):
Não queiras mais que a gratuita lucidez do instante sem caminho Não julgues que ele é mais do que a casual aragem de não ser mais nada do que o voluptuoso fluir de um puro vazio
Em distraído vagar como uma leve nuvem torna-te vago também deixa ascender em ti essa torre ténue que quer a transparência e a graça flexível de pertencer ao ar
Não queiras conhecer o que há por trás desse fulgor puro se é que há algo por detrás Aceita a sua dádiva gratuita porque ele é precisamente nulo e tão essencial como o ar que se respira António Ramos Rosa, As Palavras, Campo das Letras, Porto, 2001
dezembro 09, 2010
UM JARDIM (AZEITÃO)
Se eu disser que havia uma cascata _________________________de jardins descrevo a casa com o traçado do seu estilo ou uma associação vulgar sobre as quedas curvas _____________________________________da folhagem
Desci pelos socalcos da mansão com o terror de qualquer alma ou ânimo poder __________________________vogar preso aos aromas pela mesma sensibilidade que me fazia sentir as flores como punhais _________________________________ou ameaças
Tombou-me aos pés todo o corpo natural ____________________________daquele jardim configurado.
A nova folhagem saia do tear ____________________tal como a vi orvalhada e gélida nesse paço arruinado próprio na minha época para simbolizar o desértico.
Estes prismas já perderam o sentido ____________________________dos seus traços originais, o seu estilo ou figura legível há duas centenas de anos. Hoje a hera envolve com nós excessivos as torres.
Das janelas ovais só existe este texto ____________________________porque não as vejo ocultas no volume estilizado híbrido, que une a casa ao jardim e a um lago, repartido entre o mundo vegetal, a aparência da casa _______________________________que se reflecte e a intenção decorativa ________________que eu não confirmo.
Não lamento que o tempo desdoire os cálices __________________________________ácidos do enxame. Nem que a água estagne no fosso no ponto por onde passo entre os espectros _______________________________do pomar
para outra sequência irreconhecível. Desejo no pensamento aqueles meses em que era perfeita a relação _______________________________entre tudo o que aqui é disperso, o único momento vivo em que o plano do arquitecto, assim como o do paisagista, ________________________e a vitalidade dos moradores concebiam o estilo pelo qual a presença destes insectos atordoados nesta cascata seca era ordenada e emocionava.
Porque cada coisa existe pela conjunção _______________________________das suas formas, a pata do escaravelho é nula como elemento do estilo, a não ser que eu aceite uma parcela da destruição _________________________como outra existência actual, o estado posterior das figuras que decaíram ou o das emoções desaparecidas entre o tecido de símbolos ocultos de uma geração.
Fiama Hasse Pais Brandão
dezembro 07, 2010
dezembro 05, 2010
Lorenzo Bartolini (1777-1850)
Incêndio numa hipótese de amor
Encontrei o segredo, a chave de vidro das palavras que escrevo; e tenho medo. Talvez nos campos imensos, onde o lírio floresce, na margem de rio que abriga, de manhã cedo, os teus pés de ninfa, num engano de idade, me tenhas visto à sombra de um rochedo; e se os teus lábios, entreabertos num torpor de romã, me tocaram num sonho bêbedo, deles só lembro, imprecisos, fluxos de incêndio numa hipótese de amor.
Nuno Júdice
dezembro 03, 2010
«Houve um ano em que as andorinhas se esqueceram de partir. Comovidos, os deuses adiaram o começo do inverno. Nesse ano, uma mulher e um homem se fundiram em barco feito vento e partiram sem rumo e sem dar notícias: como se fora de cinza o nome que usaram. Agora, nenhum horário retarda o êxodo das últimas andorinhas em direcção ao sol.
Diz-me, meu amor, onde se cruza a tua sombra com a minha. Diz-me em que crónica de espanto te tornaste o marinheiro que debandou de encontro ao deslumbramento das manhãs.»
Graça Pires, Reino da Lua
dezembro 01, 2010
Tentação
Vénus lançada à praia pelo mar inquieto, Inquietas os meus olhos, sátiros cansados. Vem de ti uma luz que o sol não tem, E sózinha povoas o areal. Que me queres, nesta idade sonolenta Dos sentidos? Lembrar-me e convidar-me a renegar Os desejos despidos? Como se algum poeta se esquecesse E arrependesse Dos antigos pecados cometidos!
Miguel Torga, Antologia Poética
novembro 29, 2010
ASAS MALIGNAS
Vejo sobre a grandiosa árvore de palma a contraluz as cegonhas como aracnídeos talvez através de um véu de cassa. Esta visão isola-me do mundo e beneficamente reconduz-me depois aos significados que formam o mundo. Nunca as cegonhas me tornaram excêntrica de mais, apenas íntima a elas e estranha a outros restos de sentido.
A brisa que confunde as asas temíveis com as varas agitadas de palma, a restante brisa que sopra em outras copas, qualquer outra árvore que dobrando-se simula também um par de asas malignas, toda essa aragem dupla que redemoinha entre árvores firmes eleva as telas frágeis das asas. Que mensagem posso dar para além da aberração dos colos enlaçados como um insecto a estrebuchar num precipício real elevado? Até os fios da teia na treva mesmo que se assemelhem a folhas são cada vez mais angulosos, embutidos na noite como garras. O casal de cegonhas é um alvo demasiado fascinante para eu sustentar o olhar nos seus círculos. Entre a noite e as imagens que me suscita esse ponto branco, o par, giram em volta frestas luminosas, para que alguém as agrupe num indício. O resto do tufo das árvores tornou-se uma imagem desapercebida porque já desde o princípio o seu movimento ofuscado contrastava com as asas negras.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 27, 2010
«Quando se realiza, muito do que se pensa se perde. Quando se constrói uma casa, a maior parte do universo fica de fora; mas quando se destrói uma casa, a cosmogonia fica dentro.»
Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II, Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p.222
novembro 25, 2010
Aleksandr Aleksandrovich Deineka, Jovem Mulher com um Livro (1934)
«De difícil memória era, sim, para raros.
O que aconteceu com a Poesia foi que esta matéria sem tempo facilmente se memoriza no espaço gráfico.
E a terrível democracia leitora multiplicou então estes papéis silenciosos e multiplicou os olhos silenciosos que sabem ler,
acabando com o melódico analfabetismo.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 23, 2010
(M. Jagger/K. Richards)
Please allow me to introduce myself I'm a man of wealth and taste I've been around for a long, long years Stole many a man's soul and faith
And I was 'round when Jesus Christ Had his moment of doubt and pain Made damn sure that Pilate Washed his hands and sealed his fate
Pleased to meet you Hope you guess my name But what's puzzling you Is the nature of my game
I stuck around St. Petersburg When I saw it was a time for a change Killed the czar and his ministers Anastasia screamed in vain
I rode a tank Held a general's rank When the blitzkrieg raged And the bodies stank
Pleased to meet you Hope you guess my name, oh yeah Ah, what's puzzling you Is the nature of my game, oh yeah (woo woo, woo woo)
I watched with glee While your kings and queens Fought for ten decades For the gods they made (woo woo, woo woo)
I shouted out, "Who killed the Kennedys?" When after all It was you and me (who who, who who)
Let me please introduce myself I'm a man of wealth and taste And I laid traps for troubadours Who get killed before they reached Bombay (woo woo, who who)
Pleased to meet you Hope you guessed my name, oh yeah (who who) But what's puzzling you Is the nature of my game, oh yeah, get down, baby (who who, who who)
Pleased to meet you Hope you guessed my name, oh yeah But what's confusing you Is just the nature of my game (woo woo, who who)
Just as every cop is a criminal And all the sinners saints As heads is tails Just call me Lucifer 'Cause I'm in need of some restraint (who who, who who)
So if you meet me Have some courtesy Have some sympathy, and some taste (woo woo) Use all your well-learned politesse Or I'll lay your soul to waste, um yeah (woo woo, woo woo)
Pleased to meet you Hope you guessed my name, um yeah (who who) But what's puzzling you Is the nature of my game, um mean it, get down (woo woo, woo woo)
Woo, who Oh yeah, get on down Oh yeah Oh yeah! (woo woo)
Tell me baby, what's my name Tell me honey, can ya guess my name Tell me baby, what's my name I tell you one time, you're to blame
Oh, who woo, woo Woo, who Woo, woo Woo, who, who Woo, who, who Oh, yeah
What's my name Tell me, baby, what's my name Tell me, sweetie, what's my name
Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Woo, who, who Oh, yeah Woo woo Woo woo
novembro 21, 2010
«[ ] não vislumbrei as nascentes do Tigre e do Eufrates,
que talvez nesse labirinto de ruas de água que suportam
o mundo / a vida presente, Tejo-rio se tenha perdido.»
Maria Gabriela Llansol, Um arco singular - Livro de Horas II,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2010, p. 233
novembro 19, 2010
Christopher Latham Sholes, inventor que deu início à indústria de máquinas de escrever. Sholes acreditava que sua invenção fora fundamental na emancipação feminina, pois possibilitou que a mulher ingressasse no mercado de trabalho dos escritórios. (Herkimer County Historical Society)
«Escrevem à máquina em face deste campo; milhões de folhas de papel para triliões de folhas de árvores; mulheres sentadas oito horas por dia a escrever cartas e a dar forma lapidar à evidência. Senhor doutor, senhor ovo de sabedoria, senhor de gema perdida; é o meio-dia das duas horas livres para continuar à tarde; com este horário de contenção biológica, com esta incubadora de leis, política vai gerando político, eternamente.
Acumulam-se informaçóes, mas o Estado, composto por estes milhões de homens machos que vomitam frases e testículos e lugares comuns de há séculos, não vota a lei do seu desaparecimento.»
Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão - Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 95
novembro 17, 2010
Tamara de Lempicka
«Sim, diz-me a mulher, pousando as mãos nos meus joelhos.
Desejo encontar alguém que me ame com bondade e que seja um homem.
Alguém que queira ressuscitar para ti? Sim, alguém que tenha para comigo essa memória.»
maria gabriela llansol, amigo e amiga, Assírio & Alvim, Lisboa, 2006, p.240
novembro 16, 2010
Se uma coisa existe, esse facto prova que ela é possível.
Uma coisa comprovada possível, mas que não exista,
que espécie de realidade tem? A realidade deve
restringir-se ao que existe ou também
alargar-se ao que é possível existir?
E não haverá coisas possíveis
de existir que nós, humanos,
desconhecemos, como aliás
desconhecemos muitas
coisas que existem?
Ora, pergunto,
essas coisas
ignotas,
mas
existentes
ou
possíveis,
são ainda realidade?
E se nós,
que meditamos
sobre a realidade,
nem sequer existíssemos,
mas o mundo fosse tal como
o conhecemos (e desconhecemos),
o que seria então a realidade sem
ninguém para a percepcionar,
senão potencialmente?
novembro 15, 2010
novembro 13, 2010
«É que levantar os olhos, de cá de baixo, da terra, para uma nuvem é a melhor forma de interrogar os nossos mais íntimos desejos.»
André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937), trad. Luísa Neto Jorge, Lisboa, Estampa, 1987, p.112
novembro 11, 2010
Renoir
Era um dorso como uma face sem rosto
como se fosse um campo inteiro um estuário a forma imóvel do vento com um fulgor de lava
Era um círculo do abandono puro a densidade absoluta de um repouso a lisa nudez do ser completo António Ramos Rosa
novembro 09, 2010
Regressar ao objecto. Partilhar a figura na ressurreição. A ausência não é o nada, mas o manancial. De um lado e de outro, vigiam-nos as formas naturais consonantes. Conseguiremos atenuar na Natureza o afastamento. Assim como tu, ela assgura-me a emoção. A separação é o abstracto de vários vestígios. Um vestígio do próximo reconhecimento. Tanto mais sei que regressas ao abismo da minha memória subtil. És tu quem se ausenta entre uma ala de árvores. Pertences à Natureza, tanto quanto te pertences.
Fiama Hasse Pais Brandão
novembro 08, 2010
Portugal produz por ano bens e serviços no valor de aprox. 150 mil milhões de euros, 30 mil milhões de contos.
Ao estrangeiro deve cerca de 300 mil milhões, i.e. 2 anos de produção; metade da dívida é do Estado, a outra metade é devida pelos bancos, empresas e famílias.
Mudar esta dependência dos credores exige que as empresas, o estado, as famílias paguem o que devem,
aceitando manter algum nível de dívida digamos entre ¼ ou ½ da produção anual, ou seja entre 37 e 80 milhões de euros.
Uma redução do endividamento desta grandeza, de 300 para digamos 50 mil milhões, em p.e., 5 anos, exigiria uma amortização anual de 50 mil milhões, ou seja 1/3 do produto anual, um quadrimestre de produção.
Se alargarmos o período de redução da dívida de 5 para 10 anos, mesmo assim, 2 meses de produção e rendimento teriam de aplicar-se anualmente ao pagamento da dívida.
Vendo o problema em termos per capita, na perspectiva de rendimento de um assalariado ou pensionista,
2/14 a 4/14 avos do rendimento anual algo como 15 a 30 % do salário ou pensão tem de ser pago aos credores,
ou na forma de redução do consumo ou na de passar a produzir em 3 dias tanto quanto antigamente em 4 dias;
isto em paralelo com idêntico sacrifício nos rendimentos dos pensionistas, rentistas, capitalistas e usurários.
No quadro desta situação é inadmissível não exigir austeridade a todas as instituições e classes sociais.