outubro 04, 2010

Madame Bovary



Flaubert declarou no seu julgamento
do Tribunal do Sena:
«Madame Bovary, c’est moi!»,

Porém, os seus leitores declaram:
«Madame Bovary c'est l'humanité!»

outubro 03, 2010

Madame Bovary



«O pano preto, juncado de pétalas brancas,
levantava-se por vezes descobrindo o caixão.

Os portadores, fatigados, iam mais vagarosos;
e o féretro avançava por intercadências contínuas,
como uma chalupa baçouçando entre as ondas.

Chegaram. Os homens continuaram até um sítio baixo,
onde a cova estava aberta. No meio da relva.

Agruparam-se em torno; e enquanto o padre falava,
a terra vermelha, puxada para os bordos,
escorregava pelos cantos, sem ruído,
continuamente.

Depois de disporem as quatro cordas,
impeliram o ataúde. Carlos viu-o descer.
Descia sempre.

Por fim ouviu-se o embate,
as cordas subiram rangendo.

Então Bournisien pegou na pá que Lestoboudois
lhe estendia; e com a mão esquerda deitou-a cheia
de terra, vigorosamente, enquanto aspergia com a direita;
e a madeira do caixão, no choque com os grossos torrões,
produziu o ruído formidável que soa aos nossos ouvidos
como o eco da eternidade.»

op. cit., p.361

outubro 02, 2010

Madame Bovary



«Estava bom tempo; era um daqueles dias de Março claros e agrestes, em que o Sol reluz num céu pálido. Habitantes de Rouen, endomingados, passeavam com ar satisfeito. Ema chegou ao adro da igreja. Saíam da missa da tarde; a multidão escoava-se pelos três portais, como um rio pelos três arcos de uma ponte, e, no meio, mais imóvel que um rochedo, estava o guarda.

Lembrou-se ela então do dia em que, ansiosa e cheia de esperança, caminhara sob aquela grande nave que se alongava na sua frente, menos profunda que o seu amor; e continuou a andar, chorando debaixo do véu, aturdida, cambaleante, quase a desfalecer.»

op.cit., p.320

outubro 01, 2010

Madame Bovary



«Elle n’en continuait pas moins à lui écrire des lettres amoureuses,
en vertu de cette idée, qu’une femme doit toujours
écrire à son amant.

Mais, en écrivant, elle percevait un autre homme, un fantôme
fait de ses plus ardents souvenirs, de ses lectures les plus belles,
de ses convoitises les plus fortes; et il devenait à la fin si
véritable, et accessible, qu’elle en palpitait émerveillée,
sans pouvoir néanmoins le nettement imaginer,

tant il se perdait, comme un dieu,
sous l’abondance de ses attributs.»

:)
(destaque meu)

op. cit., p.429

setembro 30, 2010

Madame Bovary



«Elle venait de partir, exaspérée.
Elle le détestait maintenant. [ ]

Puis, se calmant, elle finit par
découvrir qu’elle l’avait sans doute
calomnié. Mas le dénigrement de ceux
que nous aimons toujours nous en détache
quelque peu.

Il ne faut pas toucher aux idoles:
la dorure en reste aux mains.»

op. cit., p.418

setembro 29, 2010

Madame Bovary



«[…] C’était une manière de permission qu’elle se donnait
de ne point gêner dans ses escapades. Aussi en profita-t-elle
tout à son aise, largement. Lorsque l’envie la prenait de voir
Léon, elle partait sous n’importe quel prétexte, et, comme
il ne l’attendait pas ce jour-lá, elle allait le chercher à son étude.
[ ] Il fallait que Léon, chaque fois, lui racontât toute sa conduite,
depuis le dernier rendez-vous. [ ] Il ne discutait pas ses idées;
il acceptait tous ses goûts; il devenait sa maîtresse plutôt qu’elle
n´était la sienne.»

op.cit., p.412-3

setembro 28, 2010

Madame Bovary



«Binet sorria, o queixo curvado,
as narinas dilatadas, e parecia
perdido numa daquelas felicidades
completas que decerto pertencem
apenas às ocupações medíocres,
que distraem o espírito por
dificuldades fáceis, e
o adormentam numa
realização para
além da qual
nada mais
se pode
desejar.»

:)

op. cit., p.327

setembro 27, 2010

Madame Bovary



«A Lua, redonda e cor de púrpura,
erguia-se na linha do horizonte,
ao fundo da planície.

Subia rápida entre os ramos dos choupos,
que a ocultavam a espaços,
como uma cortina preta, esfarrapada.

Depois apareceu, deslumbrante de brancura,
no céu vazio que ela iluminava; e então,
abrandando a marcha, deixou cair
sobre a ribeira uma grande mancha clara,
que se dividia numa infinidade de estrelas,
e o clarão argênteo parecia torcer-se ao fundo
da água, como uma serpente sem cabeça,
coberta de escamas luminosas.»

op.cit.,II.12, p.215

setembro 26, 2010

Madame Bovary



«Il savourait pour la première fois l’inexprimable délicatesse des élegances féminines. Jamais il n'avait rencontré cette grâce de langage, cette réserve du vêtement, ces poses de colombe assoupie. Il admirait l’exaltation de son âme et les dentelles de sa jupe. D’ailleurs, n’était-ce pas une femme du monde, et une femme marié! Une vraie maîtresse enfin? Par la diversité de son humeur, tour à tour mystique ou joyeuse, babillarde, taciturne, emportée, nonchalante, elle allait rappelant en lui mille désirs, évoquant des instincts ou des réminiscences. Elle était l’amoureuse de tous les romans, l’héroïne de tous les drames, le vague elle de tous les volumes de vers.»

op.cit., p.397

setembro 25, 2010

Madame Bovary



«Comme ils aimaient cette bonne chambre pleine de gaieté, malgré sa splendeur un peu fanée! Ils retrouvaient toujours les meubles à leur place, et parfois des épingles à cheveux qu’elle avait oubliées, l’autre jeudi, sous le socle de la pendule. Ils déjeumaient au coin du feu, sur un petit guéridon incrusté de palissandre. Emma découpait, lui mettait les morceaux dans son assiette en débitant toutes sortes de chatteries; et elle riait d’un rire sonore et libertin quand la mousse du vin de Champagne débordait du verre léger sur les de ses doigts. Ils étaient si complètement perdus en la posséssion d’eux-mêmes, qu’ils se croyaient là dans leur maison particulière, et devant y vivre jusqu’à la mort, comme dux éternels jeunes époux.»

op.cit., p.396

setembro 24, 2010

Madame Bovary

«Teriam só aquilo para dizer? Nos olhos de ambos, todavia, desenhava-se um diálogo mais sério; e, enquanto se esforçavam por encontrar frases banais, sentiam a mesma languidez invadi-los aos dois; era como um murmúrio da alma, profundo, ininterrupto, que dominava o das vozes. Tomados de espanto por aquela nova sensação de suavidade, não pensavam em comunicá-la nem em descobrir-lhe o motivo. As felicidades futuras, como as margens dos rios tropicais, projectam na imensidade que as precede a sua indolência natural, espécie de brisa perfumada, e nessa embriaguez adormecemos, sem nos inquiertarmos com o horizonte que ainda se não vê.»

op.cit., II.3, p.109

setembro 23, 2010

Madame Bovary

«Quanto à lembrança de Rodolfo,
descera-lhe ao mais profundo do coração;
e ali permanecia, mais solene e mais imóvel
que múmia de rei num subterrâneo.

Daquele grande amor embalsamado
evolava-se uma exalação que, passando
através de tudo, perfumava de ternura
a atmosfera imaculada em que ela desejava
viver. [ ]




Então, entregou-se a generosidades excessivas.
Costurava vestuários para os pobres; fazia presentes
de lenha às mulheres de parto; e um dia, ao entrar
em casa, Carlos encontrou na cozinha três vagabundos
sentados à mesa, comendo sopa. [ ] A mãe de Carlos
não achou nada a censurar-lhe, excepto talvez aquela
mania de fazer camisolas de malha para os orfãos,
em vez de passajar os panos da cozinha.»



:)



op.cit., II.14, p.232

setembro 22, 2010

Madame Bovary


«Jamais madame Bovary ne fut aussi belle qu’á cette époque;
elle avait cette indéfinissable beauté qui résulte de la joie,
de l’enthousiasme, di succès, et qui n’est que l’harmonie
du tempérament avec les circonstances. Ses convoitises,
ses chagrins, l’experience du plaisir et ses illusions
toujours jeunes, comme font aux fleurs le fumier,
la pluie, les vents et le soleil,
l’avaient par gradations
développée,

et elle s’épanouissait enfin
dans la plénitude de sa nature
*

op.cit., p.305

* itálico meu

setembro 21, 2010

Madame Bovary


Rouen
«Puis, d’un seul coup d’oeil, la ville apparaissait.

Descendant tout en amphithéâtre et noyée dans le brouillard, elle s’élargissait au-delá des ponts, confusément. La pleine campagne remontait ensuite d’un mouvement monotone, jusqu’à toucher au loin la base indécise du ciel pâle. Ainsi vu d’en haut, le paysage tout entier avait l’air immobile comme une peinture; les navires à l’ancre se tassaient dans un coin; le fleuve arrondissait sa courbe au pied des collines vertes, et les îles, de forme oblongue, semblaient sur l’eau de grands poissons noirs arrêtés. Les cheminées des usines poussaient d’immenses panaches bruns qui s’envolaient par le bout. On entendait le ronflement des fonderies avec le carillon clair des églises qui se dressaient dans la brume. Les arbres des boulevards, sans feuilles, faisaient des broussailles violettes au milieu des maisons, et les toits, tout reluisants de pluie, miroitaient inégalement, selon la hauteur des quartiers. Parfois un coup de vent emportait les nuages vers la côte Sainte-Catherine, comme des flots aériens qui se brisaient en silence contre une falaise.

(continua)
op.cit., p.393


----- // -----

«Depois, subitamente, a cidade aparecia.

Descendo em anfiteatro e afogada em nevoeiro, alargava-se para além das pontes, confusamente. A larga campina subia depois num declive monótono, até tocar ao longe a linha indecisa do céu pálido. Assim vista de alto, toda apaisagem parecia imóvel, como uma pintura; os navios ancorados amontoavam-se num canto; o rio arredondava a sua curva próximo de colinas verdes, e as ilhas, de forma oblonga, pareciam grandes peixes escuros presos na água. As chaminés das fábricas soltavam imensos penachos cinzentos que se desvaneciam no ar. Ouvia-se o som áspero das fundições junto ao claro repique das igrejas que se erguiam na bruma. As árvores das avenidas, sem folhas, formavam grandes manchas violáceas por entre as casas, e ostelhados, reluzentes de chuva, lançavam reflexos mais ou menos brihantes, conforme a altura dos bairros. Por vezes um pé de vento varria as nuvens esverdeadas para os lados da encosta de Sainte-Catherine, como ondas aéreas que se quebrassem em silêncio nas penedias.»


(III.5, p.284)

:))

{Ainda melhor do que contemplar uma pintura,
o olhar exacto em humana linguagem, a
mais expressiva de todas as artes! :)}

Madame Bovary

(continuação)


Rouen

«Quelque chose de vertigineux se dégageait pour elle de ces
existences amassées, et son coeur s’en gonflait abondamment,
comme si les cent vingt mille âmes qui palpitaient là lui
eussent envoyé toutes à la fois la vapeur des passions
qu’elle leur supposait. Son amour s’agrandissait
devant l’espace, et s’emplissait de tumulte
aux bourdonnementes vagues qui montaient.

Elle le reversait au dehors, sur les places, sur les promenades,
sur les rues, et la vieille cité normande s’étalait à ses yeux
comme une capitale démesurée, comme
une Babylone où elle entrait.»

:)

(fin de cit.)
op.cit., p.393

----- // -----

«Qualquer coisa de vertiginoso se desprendia daquelas existências amontoadas, enchendo o coração de Ema a transbordar, como se as cento e vinte mil almas que palpitavam ali lhe dirigissem todas ao mesmo tempo o vapor das paixões de que as supunha cheias. O seu amor aumentava perante o espaço, e enchia-se de tumulto ante os rumores vagos que subiam. Ema derramava-o do seu seio, sobre as praças, os caminhos, as ruas, e a velha cidade normanda aparecia a seus olhos como uma capital imensa, uma Babilónia, onde ela penetrava.»

(III.5, p.284)

:)

setembro 20, 2010

Madame Bovary


«Dès le landemain, elle s’embarqua dans l’Hirondelle pour
aller à Rouen consulter M. Léon; et elle y resta trois jours.»


op.cit., p.385

setembro 19, 2010

Madame Bovary


Cathedral de Rouen
«Léon, à pas sérieux, marchait auprés des murs.
Jamais la vie ne lui avait paru si bonne. Elle
allait venir tout à l’heure, charmante, agitée,
épiant derrière elle les regards que la suivaient,
— et avec sa robe à volants, son lorgnon d’or,
ses bottines minces, dans toute sorte d’élégances
don’t il n’avait pas gouté, et dans l’ineffable
séduction de la vertu qui succombe.»

(continua)

op.cit., p.366

Madame Bovary

(continuação)


Cathedral de Rouen
«L’église, comme un boudoir gigantesque, se disposait autour
d’elle; les voûtes s’inclinaient pour recueillir dans l’ombre
la confession de son amour; les vitraux resplendissaient
pour illuminer son visage, et les encensoirs allaient brûler

pour qu’elle apparût comme un ange,
dans la fumée des parfums*.
»

* itálico meu

op.cit., p.366 (fin cit.)

setembro 18, 2010

Madame Bovary



«Emma pleurait, et il s’efforçait de la consoler [ ]
— Oh! C’est que je t’aime! Reprenait-elle,
je t’aime à ne pouvoir me passer de toi,
sais-tu bien?»

(p.300-301) (continua)


Gustave Flaubert, Madame Bovary,
Preface, notes et dossier par Jacques Neefs,
Paris, Librairie Générale Française,
Le Livre de Poche, 2008, pp.564

Madame Bovary

(continuação 1)

«Il s’était tant de fois entendu dire ces choses,
qu’elles n’avaient pour lui rien d’original.
Emma ressemblait à toutes les maîtresses;
et le charme de la nouveauté, peu à peu
tombant comme un vêtement, laissait voir
à nu l’éternelle monotonie de la passion
qui a toujours les mêmes formes
et le même langage.

Il ne distinguait pas,
cet homme si plein de pratique,
la dissemblance des sentiments
sous la parité des expressions.»

op.cit., p. 300-01 (continua)

Madame Bovary

(continuação 2)

«Parce que des lèvres libertines ou vénales
lui avaient murmuré des phrases pareilles,
il ne croyait que faiblement à la candeur
de celles-lá; on en devait rabattre,
pensait-il, les discours exagérés
cachant les affections médiocres;

comme si la plénitude de l’âme
ne débordait pas quelques fois
par les métaphores les plus vides,
puisque personne, jamais, ne peut
donner l’exacte mesure de ses besoins,
ni de ses conceptions, ni de ses douleurs,
et que la parole humaine est comme un
chaudron fêlé où nous battons des mélodies
à faire danser les ours, quand
on voudrait attendrir les étoiles.»

op.cit., p.300-1 (continua)

Madame Bovary

(continuação 3)

«Mais, avec cette supériorité de critique
appartenant à celui qui, dans n’importe
quel engagement, se tient en arrière,

Rodolphe aperçut en cet amour d’autres
jouissances à exploiter. Il jugea toute
pudeur incommode. Il la traita sans façon.
Il en fit quelque chose de souple et de corrompu.

C’était une sorte d’attachement idiot plein
d’admiration pour lui, de voluptés pour elle,
une béatitude qui l’engourdissait; et son âme
s’enfonçait en cette ivresse et s’y noyait,
ratatinée, comme le duc de Clarence
dans son tonneau de malvoisie.»

op.cit. p.300-1 (fin de cit.)

setembro 17, 2010

Madame Bovary

«— Que loucura! Como poderei chegar até ela? —

Parecia-lhe tão virtuosa e inacessível,
que toda a esperança,
mesmo a mais vaga,
o abandonou.»

----- // -----

«Ema não dormia; simulava estar
adormecida. E, enquanto Carlos,
a seu lado, pegava no sono, ela
despertava para sonhos diferentes.»


op.cit., II.5, p.121; e, II.12, p.213

setembro 16, 2010

Madame Bovary

«Desejava um filho; seria moreno e forte,
e chamar-se-ia Jorge. E esta ideia de ter um filho

varão era como o resgate, em esperanças,
de todas as suas impotências passadas.

Um homem, ao menos, é livre;
pode atravessar paixões e países,
atravessar os obstáculos,
saborear as felicidades mais longínquas.

Uma mulher sofre de impedimentos contínuos.
Inerte e flexível ao mesmo tempo,
tem contra si as fraquezas da carne
e as dependências da lei.

A sua vontade, como o véu do seu chapéu
seguro por um cordão, palpita a todos os ventos,
e há sempre um desejo que arrasta,
e uma conveniência que detém.»

(II.3, p.103)



Gustave Flaubert, Madame Bovary,
Trad. João Pedro de Andrade, Lisboa,
Clássicos Relógio d’Água, 1991, pp.372

setembro 15, 2010



Fidelidade magistral
de Claude Charbol
ao enredo Bovary
de Flaubert.

setembro 14, 2010

setembro 13, 2010

setembro 12, 2010

setembro 11, 2010

setembro 10, 2010

setembro 09, 2010

setembro 08, 2010

setembro 07, 2010

setembro 06, 2010



«Au début des années soixante, alors qu’il cherchait
à affiner les méthodes de prévisions, le météorologue
Edward Lorenz s’est aperçu qu’en modifiant
imperceptiblement une variable parmi
d’innombrables autres, le pronostic
changeait du tout au tout…

Il suffit d’une seule différence infime,
et apparemment négligeable, pour que le résultat
du système tout entier s’en trouve bouleversé.

Selon sa formule devenue célèbre, le battement
d’ailes d’un papillon en Chine peut déclencher
une tornade à l’autre bout de la planète.

Cette réaction en chaîne, aujourd’hui connu
sous le nom d’«effet papillon», montre à quel point
le comportement de systèmes complexes à variables
multiples est imprévisible…

Non pas imprévisible pour nous, qui serions trop
ignorants ou obtus, mais imprévisibles de par leur
nature même…

Parce que notre monde est un système particulièrement
complexe, dont l’évolution reste impénétrable, les prédictions
ne seront jamais que des hypothèses plus au moins hasardeuses.

Si l’avenir est imprévisible, c’est qu’il est indéterminé.

À tout moment, le cours des événements peut bifurquer…»

Zygmunt Bauman, ’’Et si… l’avenir, c’était le présent ?’’
in philosophie-magazine, avril 2009

setembro 04, 2010

setembro 03, 2010

~
img aqui

«Na origem, tudo é origem.»

Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I
, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 114

setembro 02, 2010


Img in Blog do Manel

«O que mais desejo é uma grande economia de palavras.»

Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I
, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 221

setembro 01, 2010



«À noite assisti, na televisão, a um debate sobre o desemprego,
que me apareceu como uma encruzilhada de todos os problemas.
Porque é que trabalhar é uma realidade incontestável? Porque
é que só uma parte da actividade das pessoas é remunerada?
Porque é que há uma hierarfquia no trabalho? Porque é que
se exagerou de tal modo a função da máquina? Porque é
que há uma tão grande diferença de recieitas de indivíduo
para indivíduo? Porque é que o trabalho, na maior parte
dos casos, só ocupa o tempo e garante o ganho, em vez
de ser uma forma de expressão, ou uma paticipação
directa na vida comum?»

Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão
- Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 221

agosto 31, 2010



«Nessa confrontação de um único dia
(medida unitária do tempo) com todos
os dias (medida fragmentada do tempo)
percebeu que o que a cansava e fazia sofrer
era a perda de consciência motivada pelo trabalho.

Ser destinado à morte (de facto, assim era)
necessitava de, já em vida corporal,
mergulhar no sentido eterno.

Por causa da distracção permanente
a que os seus sentidos mais queridos
eram impelidos [no local do trabalho]
[este] transformara-se num lugar de penas,
e raros momentos de reencontro.

As pessoas passavam, passavam desligadas
dessa aragem do cosmos com que se perfumavam,
e as noites caíam sobre dias esmagados
pelos trabalhos no tempo.»


Maria Gabriela Llansol, Uma data em cada mão -
Livro de Horas I, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 137

agosto 30, 2010



Um precioso ensaio sobre a economia portuguesa,
que lembra uma verdade desprezada no marasmo
"democrático": - Não há política, económica, social,
cultural, sem uma estratégia - (preferivelmente)
acertada. Ora, os governos têm seguido listas
de medidas avulsas - tipo "power point"! -
sem qualquer consistência analítica
e causal com os efeitos desejáveis;
como tal, incapazes de induzir
um desenvolvimento
sustentável.

agosto 29, 2010



«Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal.»

Clarice Lispector, Onde estiveste de noite,
Lisboa, Relógio dÁgua, p. 97

agosto 28, 2010




E lucevan le stelle
ed olezzava la terra,
stridea l'uscio dell'orto,
e un passo sfiorava la rena...
Entrava ella, fragrante,
mi cadea fra le braccia...
O dolci baci, o languide carezze,
mentr'io fremente
le belle forme disciogliea dai veli!
Svani per sempre
il sogno mio d'amore...
L'ora è fuggita...
E muoio disperato!
E muoio disperato...
E non ho amato mai tanto la vita!

(Puccini, Tosca)

agosto 27, 2010



Isto é, a rádio pública
ou seja, o meio infalível
p'ra saber como vai o futebol!

agosto 26, 2010



Pode ser muito ecológico inserir os animais do zoo
em ambientes simulados do seu habitat.

Mas, não mais a visão olhos nos olhos
das feras enjauladas, antes
o espaço vazio com
os animais a dormir
ou simplesmente
ausentes!

Em compensação,
cartazes, desenhos animados
e uma data de infantilidades
tipo walt disney não faltam!

Por outras palavras,
uma "seca", visitar
o Zoo de Lisboa!

agosto 14, 2010



«Porque um dos detalhes característicos da minha atitude espiritual
é que a atenção não deve ser cultivada exageradamente,
e mesmo o sonho deve ser olhado alto,

com uma consciência aristocrática de o estar fazendo existir.


Dar demasiada importância ao sonho
seria dar demasiada importância, afinal,
a uma coisa que se separou de nós próprios,
que se ergueu, conforme pôde,
em realidade,

e que,
por isso,

perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela.»

:)


Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith,
Lisboa 1998, #199.

julho 28, 2010

P A R T Í C U L A 61 — A aranha

«[ ] As virgens da Casa — com ou sem sexo rasgado — evoluem à mi-
nha volta e, quando param, confirmam a exactidão do meu disfarce.

«ah, como é estético um esquilo no homem.»

E as que têm essa devoção sentem a natureza e, em simultâneo,
resguardam as perguntas que hão-de fazer-lhe no interior da vagina.

São apenas umas poucas as mulheres da Casa.
No entanto, valem por muitas.[ ]»

:)

Maria Gabriela Llansol, Os cantores da leitura,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2007

julho 19, 2010


El Secreto de Sus Ojos,
de Juan José Campanella,
com a formosa actriz
Soledad Villamil e
Ricardo Darín.

Um belíssimo filme argentino,
uma narrativa segura, num thriller
com suspense, sentimentos contidos
mas fortes e persistentes, numa ideia
bem platónica de que tudo pode deduzir-se
da paixão dominante que singulariza cada vivente... :))

A não perder!

julho 03, 2010



Giuseppe Verdi, La Traviata, Ileana Cotrubas,
Placido Domingo, Carlos Kleiber(maestro)


E Strano - Sempre Libera Lyrics



E strano! E strano!
In core scolpiti ho quegli accenti!
Saria per me sventura un serio amore?
Che risolvi, o turbata anima mia?
Null'uomo ancora t'accendeva…
Oh, gioia
Ch'io non conobbi,
Esser amata amando!
E sdegnarla poss'io
Per l'aride follie del viver mio?

Ah, fors'e lui che l'anima
Solinga ne'tumulti
Godea sovente pingere
De'suoi colom occulti
Lui, che modesto e vigile.
All'egre soglie ascese,
E nuova febbre accese
Destandomi all'amor!

A quell'amor ch'e palpito
Dell'universo intero,
Misterioso, altero
Croce e delizia al cor.

Follie! Delirio vano e questo!
Povera donna, sola, abbandonata
In quest popoloso deserto
Che appellano Parigi
Che spero or piu? Che far degg'io?
Gioire!
Di volutta ne'vortici perir!
Gioir!

Sempre libera deegg'io
Folleggiare di gioia in gioia,
Vo'che scorra il viver mio
Pei sentieri del piacer.
Nasca il giorno, o il giorno muoia
Sempre lieta ne'ritrovi,
A dilettisempre nuovi
Dee volare il mio pensier



----------- // ---------------

Etrange! L'empreinte de ces accents
Est gravée dans mon coeur.
L'amour vrai serait-il pour moi un malheur?
Que faire, ó mon âme troublée?
Personne encore ne t'a enflammée.
Oh, joie... que je ne connais pas,
Être aimée en aimant!
Pourrai-je dédaigner cette joie
Pour la seule chimère de ma vie?

Ah, se peut-il qu'il soit
Celui que mon âme solitaire,
Dans le tumulte de ses pensées,
Dépeint souvent en contours incertains?
Celui qui, modeste et vigilant,
Franchit le seuil de la malade
Pour l'enflammer d'une nouvelle fièvre
Et l'éveiller à l'amour!
A cet amour qui fait palpiter
L'univers entier,
Mystérieux, altier,
Croix et délices du coeur.

Folie! C'est un délire insensé!
Pauvre femme seule,
Abandonnée dans ce désert populeux
Que l'on appelle Paris,
Que me reste-t-il à espérer? Que dois-je faire?
Jouir des plaisirs,
Périr dans la volupté des tourbillons!
Jouir des plaisirs!

Libre toujours, je veux pouvoir
Voltiger de joie en joie,
Je veux que ma vie s'écoule
Par les sentiers du plaisir.
Que naisse le jour, ou que le jour meure,
Plein de liesse dans les cercles mondains,
Vers des plaisirs toujours nouveaux
Doit s'envoler ma pensée.

junho 29, 2010


Tenho imensas coisas para fazer. Hei-de
morrer com imensas coisas por fazer.

:)

junho 26, 2010



LONGA VIDA AO MEXILHÃO DO RIO
[ou Se o rídiculo matasse*]

O Ministério do Ambiente chumba a construção da barragem de Pedroselos, no Alto Tâmega. Motivo: a descoberta de que ali vive uma espécie em vias de extinção, conhecida por mexilhão do rio.

Não sei o que mais admirar: se o Ministério do Ambiente, que nunca tinha dado por que no Alto Tâmega se desenrolava este drama; se a Iberdrola, que ao investir ali, alertou para a tragédia; se o próprio mexilhão, que mesmo à beira da morte, conseguiu fazer ouvir a sua voz desesperada.

Interroga-se o leitor: mas que importância transcendente tem o mexilhão do rio para Portugal? Não se sabe. Mas o certo é que a Iberdrola, que já pagou €303 milhões ao Estado Português pela construção de quatro barragens no Alto Tâmega, ou constrói esta noutro local ou redistribui a potência das outras quatro por apenas três.

Isto, claro, se nas margens das outras não se descobrir que uma raríssima pulga da areia está em vias de extinção... Decididamente, o rídiculo não mata. Mas custa imenso tempo e dinheiro.

Nicolau Santos, in Expresso-26-6-2010

* Subtítulo meu.

junho 24, 2010




C'est drôl' c'que t'es drôle à r'garder
T'es là, t'attends, tu fais la tête
Et moi j'ai envie d'rigoler
C'est l'alcool qui monte en ma t^te

Tout l'alcool que j'ai pris ce soir
Afin d'y puiser le courage
De t'avouer que j'en ai marr'
De toi et de tes commérages

De ton corps qui me laisse sage
Et qui m'enlève tout espoir
J'en ai assez faut bien qu'j'te l'dise
Tu m'exaspèr's, tu m'tyrannises

Je subis ton sal'caractèr'
Sans oser dir' que t'exagèr's
Oui t'exagèr's, tu l'sais maint'nant
Parfois je voudrais t'étrangler

Dieu que t'as changé en cinq ans
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller
Ah ! tu es belle à regarder
Tes bas tombant sur tes chaussures

Et ton vieux peignoir mal fermé
Et tes bigoudis quelle allure
Je me demande chaque jour
Comment as-tu fait pour me plaire

Comment ai-j' pu te faire la cour
Et t'aliéner ma vie entière
Comm' ça tu ressembles à ta mère
Qu'a rien pour inspirer l'amour

D'vant mes amis quell' catastroph'
Tu m'contredis, tu m'apostrophes
Avec ton venin et ta hargne
Tu ferais battre des montagnes

Ah ! j'ai décroché le gros lot
Le jour où je t'ai rencontrée
Si tu t'taisais, ce s'rait trop beau
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller

Tu es un'brute et un tyran
Tu n'as pas de c?ur et pas d'âme
Pourtant je pense bien souvent
Que malgré tout tu es ma femme

Si tu voulais faire un effort
Tout pourrait reprendre sa place
Pour maigrir fais un peu de sport
arranges-toi devant ta glace

Accroche un sourire à ta face
Maquille ton c?ur et ton corps
Au lieu d'penser que j'te déteste
Et de me fuir comme la peste

Essaie de te montrer gentille
Redeviens la petite fille
Qui m'a donné tant de bonheur
Et parfois comm' par le passé

J'aim'rais que tout contre mon c?ur
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller

junho 15, 2010






Era assim;
já não é!

junho 14, 2010

junho 13, 2010

junho 12, 2010




«Um idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive. Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que no Oriente, isso se designa por filosofia oriental... A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo.»





Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery,
(«Conversation avec Albert Cossery», 1995),
Antígona, Lisboa, 2002

junho 11, 2010

(continuação)

«Esta novidade ainda não o saciara. Até a leitura do jornal, que costumava ser o alimento essencial da sua boa disposição, — graças a um universo fértil em demências de toda a espécie — vinha agora em segundo lugar, depois de ele ficar ali espraiando a vista até ao horizonte.

Daquele sexto andar, como um explorador no cimo de uma montanha, Karim dominava a cidade e os seus múltipos antros — onde agitava, com os olhos postos na prosperidade, a multidão dos imbecis e dos filhos da puta.

Esta vista geral de uma sociedade entregue à mais sangrenta ladroeira transmitia-lhe um prazer sem limites. Cada vez mais, considerava a sua nova residência um observatório onde as suas faculdades humorísticas podiam medrar com toda a liberdade.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, A violência e o escárnio,
(«La violence et la dérision», 1964),
trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 1999, pp. 17-18

Até a leitura do jornal... vinha agora em segundo lugar

... espraiando a vista até ao horizonte.

Esta vista geral de uma sociedade...

junho 10, 2010

«Ao ouvir a porta fechar-se atrás da rapariga, Karim sentiu-se aliviado de um grande peso. Ia por fim poder respirar à vontade. Saltou da cama e, apertando o cordão das calças do pijama, saiu para o terraço.

Morava desde há uns oito dias neste quarto, onde desfrutava uma soberba vista para o mar; fora uma agradável mudança, pois o seu precedente alojamento, sombrio e sem ar, era um autêntico pardieiro dos bairros indígenas.

E desde que ali morava, acordava todas as manhãs com um sentimento de descuidosa alegria. A primeira coisa que fazia era ir para o terraço, para gozar o espectáculo que aquela situação privilegiada lhe oferecia.»

(continua)

Albert Cossery, A violência e o escárnio,
(«La violence et la dérision», 1964),
trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 1999,

A primeira coisa que fazia era ir para o terraço...

junho 09, 2010

«— Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. [ ]
— Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
— A primeira é que o mundo emque vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
— Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?
— A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.»

(do capítulo V, na contracapa)




Albert Cossery, A violência e o escárnio,
(«La violence et la dérision», 1964),
trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 1999,

junho 08, 2010


«Era Inverno, o terrível Inverno do Egipto miserável. O dia começara no horror de um frio glacial. De início, o vento importunara a cidade moderna e as suas construções em betão armado, semelhantes a fortalezas invencíveis. Depois, irrompeu como um selvagem nos bairros populares. Aí, nenhum obstáculo sério se opunha à grandeza do seu ímpeto. Fizera as suas investidas no infinito dos casebres e inundara as vielas com o seu fôlego devastador. Um vento glacial, carregado de uma humidade nociva, passava através das paredes vacilantes dos tugúrios, modelava ruínas, enrolava-se em torno de escombros infames, suscitando,por toda a parte, o odor pestilento da miséria.»

Albert Cossery, A casa da morte certa,
(«La maison de la mort certain», 1975),
trad. Ana Margarida Paixão, Antígona,
Lisboa, 2001, (p.7)

junho 07, 2010

(continuação 2)

«Por cima das ruelas, por detrás das persianas
fechadas, invisíveis, as mulheres
falavam de uma janela para outra
e os seus discursos aéreos,
com sonoridades perturbadoras,
faziam lembrar um conciliábulo
de bruxas preparando sortilégios.

Toda aquela populaça parecia
viver na ignorância das tormentas
que pairavam por cima da cidade,
apesar da aparência de um céu
ultrajantemente limpo.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(p.27-8)

falavam de uma janela para outra
apesar da aparência de um céu
ultrajantemente limpo