agosto 26, 2010



Pode ser muito ecológico inserir os animais do zoo
em ambientes simulados do seu habitat.

Mas, não mais a visão olhos nos olhos
das feras enjauladas, antes
o espaço vazio com
os animais a dormir
ou simplesmente
ausentes!

Em compensação,
cartazes, desenhos animados
e uma data de infantilidades
tipo walt disney não faltam!

Por outras palavras,
uma "seca", visitar
o Zoo de Lisboa!

agosto 14, 2010



«Porque um dos detalhes característicos da minha atitude espiritual
é que a atenção não deve ser cultivada exageradamente,
e mesmo o sonho deve ser olhado alto,

com uma consciência aristocrática de o estar fazendo existir.


Dar demasiada importância ao sonho
seria dar demasiada importância, afinal,
a uma coisa que se separou de nós próprios,
que se ergueu, conforme pôde,
em realidade,

e que,
por isso,

perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela.»

:)


Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith,
Lisboa 1998, #199.

julho 28, 2010

P A R T Í C U L A 61 — A aranha

«[ ] As virgens da Casa — com ou sem sexo rasgado — evoluem à mi-
nha volta e, quando param, confirmam a exactidão do meu disfarce.

«ah, como é estético um esquilo no homem.»

E as que têm essa devoção sentem a natureza e, em simultâneo,
resguardam as perguntas que hão-de fazer-lhe no interior da vagina.

São apenas umas poucas as mulheres da Casa.
No entanto, valem por muitas.[ ]»

:)

Maria Gabriela Llansol, Os cantores da leitura,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2007

julho 19, 2010


El Secreto de Sus Ojos,
de Juan José Campanella,
com a formosa actriz
Soledad Villamil e
Ricardo Darín.

Um belíssimo filme argentino,
uma narrativa segura, num thriller
com suspense, sentimentos contidos
mas fortes e persistentes, numa ideia
bem platónica de que tudo pode deduzir-se
da paixão dominante que singulariza cada vivente... :))

A não perder!

julho 03, 2010



Giuseppe Verdi, La Traviata, Ileana Cotrubas,
Placido Domingo, Carlos Kleiber(maestro)


E Strano - Sempre Libera Lyrics



E strano! E strano!
In core scolpiti ho quegli accenti!
Saria per me sventura un serio amore?
Che risolvi, o turbata anima mia?
Null'uomo ancora t'accendeva…
Oh, gioia
Ch'io non conobbi,
Esser amata amando!
E sdegnarla poss'io
Per l'aride follie del viver mio?

Ah, fors'e lui che l'anima
Solinga ne'tumulti
Godea sovente pingere
De'suoi colom occulti
Lui, che modesto e vigile.
All'egre soglie ascese,
E nuova febbre accese
Destandomi all'amor!

A quell'amor ch'e palpito
Dell'universo intero,
Misterioso, altero
Croce e delizia al cor.

Follie! Delirio vano e questo!
Povera donna, sola, abbandonata
In quest popoloso deserto
Che appellano Parigi
Che spero or piu? Che far degg'io?
Gioire!
Di volutta ne'vortici perir!
Gioir!

Sempre libera deegg'io
Folleggiare di gioia in gioia,
Vo'che scorra il viver mio
Pei sentieri del piacer.
Nasca il giorno, o il giorno muoia
Sempre lieta ne'ritrovi,
A dilettisempre nuovi
Dee volare il mio pensier



----------- // ---------------

Etrange! L'empreinte de ces accents
Est gravée dans mon coeur.
L'amour vrai serait-il pour moi un malheur?
Que faire, ó mon âme troublée?
Personne encore ne t'a enflammée.
Oh, joie... que je ne connais pas,
Être aimée en aimant!
Pourrai-je dédaigner cette joie
Pour la seule chimère de ma vie?

Ah, se peut-il qu'il soit
Celui que mon âme solitaire,
Dans le tumulte de ses pensées,
Dépeint souvent en contours incertains?
Celui qui, modeste et vigilant,
Franchit le seuil de la malade
Pour l'enflammer d'une nouvelle fièvre
Et l'éveiller à l'amour!
A cet amour qui fait palpiter
L'univers entier,
Mystérieux, altier,
Croix et délices du coeur.

Folie! C'est un délire insensé!
Pauvre femme seule,
Abandonnée dans ce désert populeux
Que l'on appelle Paris,
Que me reste-t-il à espérer? Que dois-je faire?
Jouir des plaisirs,
Périr dans la volupté des tourbillons!
Jouir des plaisirs!

Libre toujours, je veux pouvoir
Voltiger de joie en joie,
Je veux que ma vie s'écoule
Par les sentiers du plaisir.
Que naisse le jour, ou que le jour meure,
Plein de liesse dans les cercles mondains,
Vers des plaisirs toujours nouveaux
Doit s'envoler ma pensée.

junho 29, 2010


Tenho imensas coisas para fazer. Hei-de
morrer com imensas coisas por fazer.

:)

junho 26, 2010



LONGA VIDA AO MEXILHÃO DO RIO
[ou Se o rídiculo matasse*]

O Ministério do Ambiente chumba a construção da barragem de Pedroselos, no Alto Tâmega. Motivo: a descoberta de que ali vive uma espécie em vias de extinção, conhecida por mexilhão do rio.

Não sei o que mais admirar: se o Ministério do Ambiente, que nunca tinha dado por que no Alto Tâmega se desenrolava este drama; se a Iberdrola, que ao investir ali, alertou para a tragédia; se o próprio mexilhão, que mesmo à beira da morte, conseguiu fazer ouvir a sua voz desesperada.

Interroga-se o leitor: mas que importância transcendente tem o mexilhão do rio para Portugal? Não se sabe. Mas o certo é que a Iberdrola, que já pagou €303 milhões ao Estado Português pela construção de quatro barragens no Alto Tâmega, ou constrói esta noutro local ou redistribui a potência das outras quatro por apenas três.

Isto, claro, se nas margens das outras não se descobrir que uma raríssima pulga da areia está em vias de extinção... Decididamente, o rídiculo não mata. Mas custa imenso tempo e dinheiro.

Nicolau Santos, in Expresso-26-6-2010

* Subtítulo meu.

junho 24, 2010




C'est drôl' c'que t'es drôle à r'garder
T'es là, t'attends, tu fais la tête
Et moi j'ai envie d'rigoler
C'est l'alcool qui monte en ma t^te

Tout l'alcool que j'ai pris ce soir
Afin d'y puiser le courage
De t'avouer que j'en ai marr'
De toi et de tes commérages

De ton corps qui me laisse sage
Et qui m'enlève tout espoir
J'en ai assez faut bien qu'j'te l'dise
Tu m'exaspèr's, tu m'tyrannises

Je subis ton sal'caractèr'
Sans oser dir' que t'exagèr's
Oui t'exagèr's, tu l'sais maint'nant
Parfois je voudrais t'étrangler

Dieu que t'as changé en cinq ans
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller
Ah ! tu es belle à regarder
Tes bas tombant sur tes chaussures

Et ton vieux peignoir mal fermé
Et tes bigoudis quelle allure
Je me demande chaque jour
Comment as-tu fait pour me plaire

Comment ai-j' pu te faire la cour
Et t'aliéner ma vie entière
Comm' ça tu ressembles à ta mère
Qu'a rien pour inspirer l'amour

D'vant mes amis quell' catastroph'
Tu m'contredis, tu m'apostrophes
Avec ton venin et ta hargne
Tu ferais battre des montagnes

Ah ! j'ai décroché le gros lot
Le jour où je t'ai rencontrée
Si tu t'taisais, ce s'rait trop beau
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller

Tu es un'brute et un tyran
Tu n'as pas de c?ur et pas d'âme
Pourtant je pense bien souvent
Que malgré tout tu es ma femme

Si tu voulais faire un effort
Tout pourrait reprendre sa place
Pour maigrir fais un peu de sport
arranges-toi devant ta glace

Accroche un sourire à ta face
Maquille ton c?ur et ton corps
Au lieu d'penser que j'te déteste
Et de me fuir comme la peste

Essaie de te montrer gentille
Redeviens la petite fille
Qui m'a donné tant de bonheur
Et parfois comm' par le passé

J'aim'rais que tout contre mon c?ur
Tu l'laisses aller, Tu l'laisses aller

junho 15, 2010






Era assim;
já não é!

junho 14, 2010

junho 13, 2010

junho 12, 2010




«Um idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive. Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que no Oriente, isso se designa por filosofia oriental... A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo.»





Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery,
(«Conversation avec Albert Cossery», 1995),
Antígona, Lisboa, 2002

junho 11, 2010

(continuação)

«Esta novidade ainda não o saciara. Até a leitura do jornal, que costumava ser o alimento essencial da sua boa disposição, — graças a um universo fértil em demências de toda a espécie — vinha agora em segundo lugar, depois de ele ficar ali espraiando a vista até ao horizonte.

Daquele sexto andar, como um explorador no cimo de uma montanha, Karim dominava a cidade e os seus múltipos antros — onde agitava, com os olhos postos na prosperidade, a multidão dos imbecis e dos filhos da puta.

Esta vista geral de uma sociedade entregue à mais sangrenta ladroeira transmitia-lhe um prazer sem limites. Cada vez mais, considerava a sua nova residência um observatório onde as suas faculdades humorísticas podiam medrar com toda a liberdade.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, A violência e o escárnio,
(«La violence et la dérision», 1964),
trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 1999, pp. 17-18

Até a leitura do jornal... vinha agora em segundo lugar

... espraiando a vista até ao horizonte.

Esta vista geral de uma sociedade...

junho 10, 2010

«Ao ouvir a porta fechar-se atrás da rapariga, Karim sentiu-se aliviado de um grande peso. Ia por fim poder respirar à vontade. Saltou da cama e, apertando o cordão das calças do pijama, saiu para o terraço.

Morava desde há uns oito dias neste quarto, onde desfrutava uma soberba vista para o mar; fora uma agradável mudança, pois o seu precedente alojamento, sombrio e sem ar, era um autêntico pardieiro dos bairros indígenas.

E desde que ali morava, acordava todas as manhãs com um sentimento de descuidosa alegria. A primeira coisa que fazia era ir para o terraço, para gozar o espectáculo que aquela situação privilegiada lhe oferecia.»

(continua)

Albert Cossery, A violência e o escárnio,
(«La violence et la dérision», 1964),
trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 1999,

A primeira coisa que fazia era ir para o terraço...

junho 09, 2010

«— Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. [ ]
— Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
— A primeira é que o mundo emque vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
— Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?
— A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.»

(do capítulo V, na contracapa)




Albert Cossery, A violência e o escárnio,
(«La violence et la dérision», 1964),
trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 1999,

junho 08, 2010


«Era Inverno, o terrível Inverno do Egipto miserável. O dia começara no horror de um frio glacial. De início, o vento importunara a cidade moderna e as suas construções em betão armado, semelhantes a fortalezas invencíveis. Depois, irrompeu como um selvagem nos bairros populares. Aí, nenhum obstáculo sério se opunha à grandeza do seu ímpeto. Fizera as suas investidas no infinito dos casebres e inundara as vielas com o seu fôlego devastador. Um vento glacial, carregado de uma humidade nociva, passava através das paredes vacilantes dos tugúrios, modelava ruínas, enrolava-se em torno de escombros infames, suscitando,por toda a parte, o odor pestilento da miséria.»

Albert Cossery, A casa da morte certa,
(«La maison de la mort certain», 1975),
trad. Ana Margarida Paixão, Antígona,
Lisboa, 2001, (p.7)

junho 07, 2010

(continuação 2)

«Por cima das ruelas, por detrás das persianas
fechadas, invisíveis, as mulheres
falavam de uma janela para outra
e os seus discursos aéreos,
com sonoridades perturbadoras,
faziam lembrar um conciliábulo
de bruxas preparando sortilégios.

Toda aquela populaça parecia
viver na ignorância das tormentas
que pairavam por cima da cidade,
apesar da aparência de um céu
ultrajantemente limpo.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(p.27-8)

falavam de uma janela para outra
apesar da aparência de um céu
ultrajantemente limpo

junho 06, 2010

(continuação 1)

«Em redor das fontes públicas, as crianças, seminuas,
empurravam-se enquanto se refrescavam
molhando-se umas às outras, num tumulto
alegre trespassado por gritos e injúrias.

Jovens elegantes, retesados nos seus trajes
de gala, exercitavam-se a lançar olhares
enamorados em direcção a criaturas
voluptuosas inexistentes.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(p.27-8)

Foto in World of Stock
Em redor das fontes públicas, as crianças, seminuas

olhares enamorados em direcção
a criaturas voluptuosas inexistentes

junho 05, 2010

«A tarde caía e uma população em azáfama
apoderava-se das esplanadas dos cafés,
onde intermináveis discursos decorriam já.

Vendedores ambulantes, ainda a despertar
da sesta, apregoavam com uma voz lânguida
a suculência dos frutos e dos legumes,
fazendo uso de comparações disparatadas
e, por vezes, mesmo obscenas.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(pp. 27-28)

apoderava-se das esplanadas dos cafés

Vendedores ambulantes

junho 04, 2010

(continuação 7)

«Era precisamente essa linguagem humana
que encantava Samantar, linguagem que,
um pouco por todo o mundo,

fora substituída por um idioma bastardo
— apanhado nos caixotes do lixo do comércio
e da publicidade —, não visando em bom rigor
o homem, e do qual toda e qualquer noção
de emoção ou de sentimento estava excluída.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(pp. 15-16-17)

essa linguagem humana que encantava

junho 03, 2010



Dá-me lume

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder
O vinho não era bom
A banda não tinha tom
Mas tu fizeste a noite apetecer
Mandaste a minha solidão embora
Iluminaste o pavilhão da aurora
Com o teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Eu fiquei louco por ti
Logo rejuvenesci
Não podia falhar
Dispondo a meu favor
Da eloquência do amor
Ali mesmo à mão de semear
Mostrei-te a origem do bem e o reverso
Provei-te que o que conta no universo
É esse passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Eu tinha o espírito aberto
Às vezes andei perto
Da essência do amor
Porém no meio dos colchões
No meio dos trambolhões
A situação era cada vez pior
Tu despertaste em mim um ser mais leve
E eu sei que essencialmente isso se deve
A esse passo inseguro
E ao paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra-prima à escala mundial
Mas eu não passo dum homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
______________________________________

1989 - letra e música de Jorge Palma
(continuação 6)

«Contudo, enquanto se desencaminhavam multidões
submetidas às normas de uma ética bárbara,
aqui, em Dofa, a pobreza do país
havia deixado a vida escorrer preguiçosamente
e o povo consagrar-se sem esforços degradantes
a ocupações benéficas, tais como a pesca,
a horticultura, um artesanato aperfeiçoado
na indolência e na dignidade; e, sobretudo,
o povo assinalara aqui a sua resistência
às modas decadentes, continuando a exprimir-se

por meio de uma linguagem humana.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(pp. 15-16-17)

ocupações benéficas, tais como a pesca

a horticultura

um artesanato aperfeiçoado
na indolência e na dignidade

junho 02, 2010

(continuação 5)

«Samantar lamentava frequentemente a sorte
daqueles infelizes, que ambiciosos potentados
haviam reduzido ao estatuto de escravos ao serviço
de uma potência estrangeira sem alma, a mais
pérfida e corrupta de todas as nações.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp.15-6-7

uma potência estrangeira sem alma

junho 01, 2010

(continuação 4)

«Eles que haviam conhecido a eternidade dos horizontes,
a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes e
os amanheceres benfazejos debaixo da tenda,
tinham-se transformado em exilados
no seu próprio reino.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp.15-6-7

a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes

... a eternidade dos horizontes

maio 31, 2010

(continuação 3)

«Despidos de quaisquer escrúpulos e conduzidos pelos seus interesses sórdidos, desonraram e transformaram uma raça de senhores em lamentáveis operários cobertos de porcaria, à imagem e semelhança do seu próprio proletariado, gemendo nas sombrias cidades industriais.

Por um salário vergonhoso, aqueles distintos nómadas haviam perdido a sua nobreza e a sua liberdade, e viviam confinados em barracas carcomidas pela traça, sobrecarregados de preocupações materiais absurdas, cada vez mais prolíficas e das quais não tinham outrora consciência.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp. 15-6-7


desonraram e transformaram uma raça de senhores



em lamentáveis operários cobertos de porcaria

maio 30, 2010

(continuação 2)

«O desapontamento das empresas petrolíferas instaladas no território do emirado havia regozijado Samantar [face aos] resultados negativos obtidos pelos engenheiros da corja [ ].

Samantar desconfiava de tudo o que a terra podia esconder debaixo dos seus passos; sobretudo quando aqueles exploradores não estavam longe. Tinham invadido os emirados limítrofes, os quais, para grande infelicidade, possuíam imensos e inegáveis recursos petrolíferos.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp.15-6-7

O desapontamento das empresas petrolíferas...

maio 29, 2010

(continuação 1)

«Mas o que horrorizava Samantar sobremaneira
era aquilo que os tecnocrtas ocidentais
denominavam no seu jargão barroco
«expansão económica».

Protegidos por esta fórmula de bruxa malvada,
os antigos colonialistas esmifravam-se por fazer
perpetuar as suas rapinas, introduzindo em povos
sãos — que não precisavam de possuir um carro
para fazer prova da sua presença sobre esta terra
— a psicose do consumo.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa,

2002, pp. 15-6-7

... a psicose do consumo.

maio 28, 2010



Preferia-a a Alegre, Cavaco e Nobre,
na Presidência da República
Mais um conto excelente
de albert cossery:



«O xeque Ben Kadem, Primeiro-ministro do emirado
de Dofa, interroga-se sobre como conseguir um papel
na cena internacional, encontrando-se ele à frente
de um Estado miserável, completamente eclipsado
pelos Estados vizinhos, produtores de petróleo.

Inventa um estratagema: simular atentados à bomba,
reivindicados por uma denominada Frente de Libertação
fantasma... » :))

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert », 1975),

trad. Ernesto Sampaio, Antígona,
Lisboa, 2002

eclipsado pelos Estados vizinhos,
produtores de petróleo

maio 27, 2010


"Dance Me To The End Of Love"

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
(continuação 3)

«Teymour invejava a ignorância deles;
pelo menos não sofriam nada
e não tinham o desejo
nem a possibilidade
de se entregar a comparações.

O que não era, infelizmente, o seu caso.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8


Teymour invejava a ignorância deles

maio 26, 2010

(continuação 2)

«Semelhante confissão não teria nenhuma hipótese
de ser compreendida por aqueles labregos
que deviam sem dúvida imaginar
que habitavam uma cidade feérica.

Nunca acreditariam na existência
de outros lugares na terra mais agradáveis
do que a sua própria cidade.»

(continua)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8

Nunca acreditariam na existência
de outros lugares na terra mais agradáveis

maio 25, 2010

(continuação 1)

«Aliás, não devia esperar qualquer consolação daqueles espíritos obtusos, incapazes de avaliar no seu justo valor a incomensurável desgraça da sua situação. Como poderia explicar-lhes que o motivo do desespero que sentia [era] a visão da sua cidade natal e a aterradora perspectiva de aí ter de permanecer o tempo suficiente para morrer de aborrecimento.»

(continua)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8


Aliás, não devia esperar qualquer consolação
daqueles espíritos obtusos

maio 24, 2010

«Sentado na esplanada do café, Teymour sentia-se tão infeliz como um piolho na cabeça de um careca. Toda a sua atitude exprimia a ociosidade, o vazio mórbido, a desolação que lhe afectava a alma naquele instante memorável em que voltava a decobrir a sua cidade natal depois de seis anos de ausência no estrangeiro. [ ]

De ar completamente desvairado, parecia entorpecido pela dor; uma dor sufocante e que ia aumentando à medida que o seu olhar tentava assimilar com viva repugnância a ínsipida paisagem circundante. [ ]

De tempos a tempos, fechava os olhos, e o seu rosto tomava então uma expressão de êxtase nostálgico, como se ele se houvesse retirado para um mundo de gráceis recordações, um mundo a que ainda estava ligado por laços quase carnais.

Mas estes efémeros mergulhos num passado recente, [ ] mais não faziam do que aumentar-lhe a pena, pelo contraste que estabeleciam com a implacável realidade que o assaltava assim que reabria os olhos. [ ] ele tinha consciência do que o seu aspecto podia apresentar de estranho para os outros clientes [ ] que começavam a observá-lo com uma atenção inquieta.»

(continua)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8


Sentado na esplanada do café, Teymour sentia-se tão infeliz...

maio 23, 2010

«Todos os países tinham o seu contingente de imbecis, de sacanas e de putas. Era preciso ser um débil mental para acreditar que se passavam coisas importantes noutros lados. A única diversidade era a da linguagem e a única novidade era que os mesmos imbecis, sacanas e putas se exprimiam numa língua diferente. Medhat recusava-se a absolver a aberração dos que aprendiam toda a espécie de idiomas estrangeiros a fim de penetrar o sentido das mesmas palermices que podiam ouvir na sua terra, sem precisar de se deslocar e gratuitamente. Pela sua parte, nunca se sentira tentado a percorrer o planeta à procura de sensações ditas transcendentes por se situarem em hemisférios distantes. De que servia mudar de continente, aspirar a outros climas, se não se conseguia ver, em primeiro lugar, o que se passa à nossa volta?» (texto da contracapa)



Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),

trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001

maio 22, 2010



«O HOMEM, alto e de ombros largos, estava de pé na quitanda,
qual múmia em seu sarcófago. Era uma lojeca estreita [ ];
estava cheia de frascos com essências aromáticas e unguentos
e de garrafinhas com elixires contra a impotência e a esterilidade.
[ ] Com gestos sabiamente medidos, o homem desarrolhou
uma minúscula garrafinha e apresentou-a ao olfacto
duma cliente, de pé na soleira da porta.

— Uma gotinha só deste perfume e os homens hão-de
ficar pelo beicinho e a morrer por ti — anunciou ele.
— Olha que não quero matar ninguém — respondeu
a mulher a rir. — É só para agradar ao meu marido.
— Nesse caso não ta vendo — disse o homem.
— Não te vendo porque tenho pena dele. Pelo menos doido fica.

— Aziago dia! Por que estás tu para aí com essas parvoíces?
Fico com ela. — Sendo assim, por ser para ti são só dez piastras.

— Dez piastras! Valha-me Alá! Queres decerto arruinar-me!
Olha, eu é que fico doida. Pega lá o dinheiro.
Apalpou as dobras da mélaia, tirou de lá um lenço,
desatou-o e contou a importância.
O comerciante entregou-lhe a garrafinha.
— Vais ver — disse ele. — Hás-de ficar-me
reconhecida eternamente. Nunca mais
o teu marido poderá repudiar-te,
há-de ser-lhe impossível viver
longe desse perfume.
— Pois sim, bastará ele cá vir buscar mais.
— Pelo Profeta! Julgas tu que eu lho vendia?!
A mulher foi-se embora com a garrafinha de perfume
e o homem virou-se então para [o interior da loja].»


:))

Albert Cossery, Mendigos e Altivos
(«Mendiants et Orgueilleux», 1955),
Trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 2002, pp.201-2

maio 21, 2010



(continuação)

«Era o chefe de escritório, um ancião quase cego.
Os óculos enormes, encavalitados no nariz,
davam-lhe parecenças de animal pré-histórico.

De rosto colado ao processo que ia folheando,
perguntou, em tom já resignado:

— O que é?
— Vou ausentar-me por instantes.
— Não faças cerimónia, meu filho. Acredita

que muita pena teremos não te vendo aqui.

A ironia da resposta não era coisa que fizesse El Kordi hesitar.
Estava dede há muito habituado a estas insolências oratórias.
E nem sequer ignorava que o chefe de escritório considerava
a sua saída benéfica; a presença de El Kordi só prejudicava
o bom andamento do trabalho. Era um mau exemplo para
os companheiros de infortúnio.

— Adeus a todos!
— Não te julgues obrigado a voltar — disse Ezedina Efêndi.

— Demora o tempo todo que for necessário.

El Kordi sacudiu os ombros e sem um olhar para os colegas,
murchos e anafados, pôs-se a andar.»

:)

(fim do extracto)

Albert Cossery, Mendigos e Altivos
(«Mendiants et Orgueilleux», 1955),
Trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 2002, pp. 115-16

maio 20, 2010

Abel Mateus - 19 Maio 2010

Uma lição magistral
de economia política
e política económica.




«ERAM ONZE DA MANHÃ. Sentado à secretária do Ministério das Obras Públicas, El Kordi entediava-se. [ ] As moscas esvoaçavam no escritório, vinham pousar-lhe no nariz. El Kordi tentou apanhar algumas, com a intenção de as entregar a atroz destino, mas a verdade é que elas levaram sempre a melhor. Estava de tal modo entontecido que nem agilidade tinha para este passatempo. Sem remédio, assenhoreou-se mais uma vez — vezes que já não tinham conta — do jornal parado em cima da secretária, e pôs-se de novo a percorrê-lo com os olhos. Enormes títulos proclamavam estar o mundo inteiro a armar-se, com vista a uma futura guerra. [ ] E que fazia ele, enquanto tais manobras se operavam? Ali ficava, sossegadamente sentado a uma secretária, vulmerável e sem defesa. Tinha de agir, de fazer qualquer coisa [ ] Levantou-se
— Ezedine Efêndi!»


(continua)


Albert Cossery, Mendigos e Altivos
(«Mendiants et Orgueilleux», 1955),
Trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 2002, pp. 115-16

maio 19, 2010



«Gohar, professor universitário de Literatura e Filosofia,
levado pelo nojo que a Universidade lhe inspira,
decide tornar-se mendigo, conduzindo-nos,
através das oscilantes ciladas da moral,
a um conhecimento sumamente eufórico das peias
com que a civilização modernizadora
abafa quase à nascença a vida verdadeira.»

Albert Cossery, Mendigos e Altivos
(«Mendiants et Orgueilleux», 1955),
Trad. Júlio Henriques, Antígona,
Lisboa, 2002, pp. 115-16

maio 18, 2010

«O sol mal se via, por detrás das pesadas
nuvens que sem cessar o perseguiam.
Era um sol de inverno, factício,
brilhante mas sem calor.

De vez em quando um vento frio
varria toda a extensão dos campos,
pondo a ondear os altos caules do milho.

Toda a campina parecia então erguer-se,
como uma onda, mas aos poucos abrandando,
voltando à sua taciturna desolação.»





Albert Cossery, Mandriões no Vale Fértil,
(«Les Fainéants dans la Vallée Fertile», 1948),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 1999, P.10

maio 17, 2010



«O guarda Gohloche personificava a maldade
mais detestável: a maldade posta ao serviço
dos grandes da terra. Uma maldade paga.
Já não lhe pertencia. Tinha-a vendido
a gente mais competente que a usava
para subjugar e mortificar todo um povo
miserável. Já não era senhor da sua maldade.
Devia conduzi-la e dirigi-la segundo certas
regras cuja atrocidade não variava.»




Albert Cossery, Os homens esquecidos de Deus
(«Les hommes oubliées de Dieu», 1927)
Trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, p.62

maio 16, 2010



«Sayed Karam deixava-se descer até este universo lúcido e transparente. Penetrava na rua com uma ternura comovida, a mesma ternura que teria manifestado por uma criatura sofredora. Também a rua lhe parecia extravagante, mas de uma extravagância pobre, resignada e abandonada a si própria. Era o produto calmo da matéria, e não dos caprichos de um cérebro transtornado. A matéria trabalhada, amassada e usada pelos homens que lhe tinham insuflado a alma. Em cada pedra do caminho, era visível a sua imagem desorientada e amedrontada. A rua exprimia a perturbadora angústia de uma colectividade; não era um indivíduo orgulhoso a gabar-se da sua história. Era humana e grande na sua aflição por gritar a dor de toda uma multidão. E Sayed Karam assistia impotente a este grito dos homens através da matéria.»


Albert Cossery, Os homens esquecidos de Deus
(«Les hommes oubliées de Dieu», 1927)
Trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, p.129