«Um idiota preguiçoso continua sempre a ser um idiota! E um preguiçoso inteligente é alguém que reflectiu acerca do mundo em que vive. Não se trata, pois, de preguiça. É tempo de reflexão. E quanto mais preguiçoso fores, mais tempo tens para reflectir. E é por isso que no Oriente, isso se designa por filosofia oriental... A maior parte das pessoas tem tempo. Quanto mais se desce para sul, mais encontramos profetas, magos, pessoas que reflectiram sobre o mundo.»
Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery, («Conversation avec Albert Cossery», 1995), Antígona, Lisboa, 2002
junho 11, 2010
(continuação)
«Esta novidade ainda não o saciara. Até a leitura do jornal, que costumava ser o alimento essencial da sua boa disposição, — graças a um universo fértil em demências de toda a espécie — vinha agora em segundo lugar, depois de ele ficar ali espraiando a vista até ao horizonte.
Daquele sexto andar, como um explorador no cimo de uma montanha, Karim dominava a cidade e os seus múltipos antros — onde agitava, com os olhos postos na prosperidade, a multidão dos imbecis e dos filhos da puta.
Esta vista geral de uma sociedade entregue à mais sangrenta ladroeira transmitia-lhe um prazer sem limites. Cada vez mais, considerava a sua nova residência um observatório onde as suas faculdades humorísticas podiam medrar com toda a liberdade.»
(fim da transcrição)
Albert Cossery, A violência e o escárnio, («La violence et la dérision», 1964), trad. Júlio Henriques, Antígona, Lisboa, 1999, pp. 17-18
Até a leitura do jornal... vinha agora em segundo lugar
... espraiando a vista até ao horizonte.
Esta vista geral de uma sociedade...
junho 10, 2010
«Ao ouvir a porta fechar-se atrás da rapariga, Karim sentiu-se aliviado de um grande peso. Ia por fim poder respirar à vontade. Saltou da cama e, apertando o cordão das calças do pijama, saiu para o terraço.
Morava desde há uns oito dias neste quarto, onde desfrutava uma soberba vista para o mar; fora uma agradável mudança, pois o seu precedente alojamento, sombrio e sem ar, era um autêntico pardieiro dos bairros indígenas.
E desde que ali morava, acordava todas as manhãs com um sentimento de descuidosa alegria. A primeira coisa que fazia era ir para o terraço, para gozar o espectáculo que aquela situação privilegiada lhe oferecia.»
(continua)
Albert Cossery, A violência e o escárnio, («La violence et la dérision», 1964), trad. Júlio Henriques, Antígona, Lisboa, 1999,
A primeira coisa que fazia era ir para o terraço...
junho 09, 2010
«— Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. [ ] — Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos. — A primeira é que o mundo emque vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta. — Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda? — A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.»
(do capítulo V, na contracapa)
Albert Cossery, A violência e o escárnio, («La violence et la dérision», 1964), trad. Júlio Henriques, Antígona, Lisboa, 1999,
junho 08, 2010
«Era Inverno, o terrível Inverno do Egipto miserável. O dia começara no horror de um frio glacial. De início, o vento importunara a cidade moderna e as suas construções em betão armado, semelhantes a fortalezas invencíveis. Depois, irrompeu como um selvagem nos bairros populares. Aí, nenhum obstáculo sério se opunha à grandeza do seu ímpeto. Fizera as suas investidas no infinito dos casebres e inundara as vielas com o seu fôlego devastador. Um vento glacial, carregado de uma humidade nociva, passava através das paredes vacilantes dos tugúrios, modelava ruínas, enrolava-se em torno de escombros infames, suscitando,por toda a parte, o odor pestilento da miséria.»
Albert Cossery, A casa da morte certa, («La maison de la mort certain», 1975), trad. Ana Margarida Paixão, Antígona, Lisboa, 2001, (p.7)
junho 07, 2010
(continuação 2)
«Por cima das ruelas, por detrás das persianas fechadas, invisíveis, as mulheres falavam de uma janela para outra e os seus discursos aéreos, com sonoridades perturbadoras, faziam lembrar um conciliábulo de bruxas preparando sortilégios.
Toda aquela populaça parecia viver na ignorância das tormentas que pairavam por cima da cidade, apesar da aparência de um céu ultrajantemente limpo.»
(fim da transcrição)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (p.27-8)
falavam de uma janela para outra
apesar da aparência de um céu
ultrajantemente limpo
junho 06, 2010
(continuação 1)
«Em redor das fontes públicas, as crianças, seminuas, empurravam-se enquanto se refrescavam molhando-se umas às outras, num tumulto alegre trespassado por gritos e injúrias.
Jovens elegantes, retesados nos seus trajes de gala, exercitavam-se a lançar olhares enamorados em direcção a criaturas voluptuosas inexistentes.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (p.27-8)
Em redor das fontes públicas, as crianças, seminuas
olhares enamorados em direcção a criaturas voluptuosas inexistentes
junho 05, 2010
«A tarde caía e uma população em azáfama apoderava-se das esplanadas dos cafés, onde intermináveis discursos decorriam já.
Vendedores ambulantes, ainda a despertar da sesta, apregoavam com uma voz lânguida a suculência dos frutos e dos legumes, fazendo uso de comparações disparatadas e, por vezes, mesmo obscenas.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (pp. 27-28)
apoderava-se das esplanadas dos cafés
Vendedores ambulantes
junho 04, 2010
(continuação 7)
«Era precisamente essa linguagem humana que encantava Samantar, linguagem que, um pouco por todo o mundo,
fora substituída por um idioma bastardo — apanhado nos caixotes do lixo do comércio e da publicidade —, não visando em bom rigor o homem, e do qual toda e qualquer noção de emoção ou de sentimento estava excluída.»
(fim da transcrição)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (pp. 15-16-17)
essa linguagem humana que encantava
junho 03, 2010
Dá-me lume
Chegaste com três vinténs E o ar de quem não tem Muito mais a perder O vinho não era bom A banda não tinha tom Mas tu fizeste a noite apetecer Mandaste a minha solidão embora Iluminaste o pavilhão da aurora Com o teu passo inseguro E o paraíso no teu olhar
Eu fiquei louco por ti Logo rejuvenesci Não podia falhar Dispondo a meu favor Da eloquência do amor Ali mesmo à mão de semear Mostrei-te a origem do bem e o reverso Provei-te que o que conta no universo É esse passo inseguro E o paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume Deixa o teu fogo envolver-me Até a música acabar Dá-me lume, não deixes o frio entrar Faz os teus braços fechar-me as asas Há tanto tempo a acenar
Eu tinha o espírito aberto Às vezes andei perto Da essência do amor Porém no meio dos colchões No meio dos trambolhões A situação era cada vez pior Tu despertaste em mim um ser mais leve E eu sei que essencialmente isso se deve A esse passo inseguro E ao paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume Deixa o teu fogo envolver-me Até a música acabar Dá-me lume, não deixes o frio entrar Faz os teus braços fechar-me as asas Há tanto tempo a acenar
Se eu fosse compositor Compunha em teu louvor Um hino triunfal Se eu fosse crítico de arte Havia de declarar-te Obra-prima à escala mundial Mas eu não passo dum homem vulgar Que tem a sorte de saborear Esse teu passo inseguro E o paraíso no teu olhar Esse teu passo inseguro E o paraíso no teu olhar ______________________________________
1989 - letra e música de Jorge Palma
(continuação 6)
«Contudo, enquanto se desencaminhavam multidões submetidas às normas de uma ética bárbara, aqui, em Dofa, a pobreza do país havia deixado a vida escorrer preguiçosamente e o povo consagrar-se sem esforços degradantes a ocupações benéficas, tais como a pesca, a horticultura, um artesanato aperfeiçoado na indolência e na dignidade; e, sobretudo, o povo assinalara aqui a sua resistência às modas decadentes, continuando a exprimir-se
por meio de uma linguagem humana.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (pp. 15-16-17)
ocupações benéficas, tais como a pesca
a horticultura
um artesanato aperfeiçoado
na indolência e na dignidade
junho 02, 2010
(continuação 5)
«Samantar lamentava frequentemente a sorte daqueles infelizes, que ambiciosos potentados haviam reduzido ao estatuto de escravos ao serviço de uma potência estrangeira sem alma, a mais pérfida e corrupta de todas as nações.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp.15-6-7
uma potência estrangeira sem alma
junho 01, 2010
(continuação 4)
«Eles que haviam conhecido a eternidade dos horizontes, a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes e os amanheceres benfazejos debaixo da tenda, tinham-se transformado em exilados no seu próprio reino.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp.15-6-7
a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes
... a eternidade dos horizontes
maio 31, 2010
(continuação 3)
«Despidos de quaisquer escrúpulos e conduzidos pelos seus interesses sórdidos, desonraram e transformaram uma raça de senhores em lamentáveis operários cobertos de porcaria, à imagem e semelhança do seu próprio proletariado, gemendo nas sombrias cidades industriais.
Por um salário vergonhoso, aqueles distintos nómadas haviam perdido a sua nobreza e a sua liberdade, e viviam confinados em barracas carcomidas pela traça, sobrecarregados de preocupações materiais absurdas, cada vez mais prolíficas e das quais não tinham outrora consciência.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp. 15-6-7
desonraram e transformaram uma raça de senhores
em lamentáveis operários cobertos de porcaria
maio 30, 2010
(continuação 2)
«O desapontamento das empresas petrolíferas instaladas no território do emirado havia regozijado Samantar [face aos] resultados negativos obtidos pelos engenheiros da corja [ ].
Samantar desconfiava de tudo o que a terra podia esconder debaixo dos seus passos; sobretudo quando aqueles exploradores não estavam longe. Tinham invadido os emirados limítrofes, os quais, para grande infelicidade, possuíam imensos e inegáveis recursos petrolíferos.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp.15-6-7
O desapontamento das empresas petrolíferas...
maio 29, 2010
(continuação 1)
«Mas o que horrorizava Samantar sobremaneira era aquilo que os tecnocrtas ocidentais denominavam no seu jargão barroco «expansão económica».
Protegidos por esta fórmula de bruxa malvada, os antigos colonialistas esmifravam-se por fazer perpetuar as suas rapinas, introduzindo em povos sãos — que não precisavam de possuir um carro para fazer prova da sua presença sobre esta terra — a psicose do consumo.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp. 15-6-7
... a psicose do consumo.
maio 28, 2010
Preferia-a a Alegre, Cavaco e Nobre, na Presidência da República
Mais um conto excelente de albert cossery:
«O xeque Ben Kadem, Primeiro-ministro do emirado de Dofa, interroga-se sobre como conseguir um papel na cena internacional, encontrando-se ele à frente de um Estado miserável, completamente eclipsado pelos Estados vizinhos, produtores de petróleo.
Inventa um estratagema: simular atentados à bomba, reivindicados por uma denominada Frente de Libertação fantasma... » :))
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert », 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002
eclipsado pelos Estados vizinhos,
produtores de petróleo
maio 27, 2010
"Dance Me To The End Of Love"
Dance me to your beauty with a burning violin Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in Lift me like an olive branch and be my homeward dove Dance me to the end of love Dance me to the end of love Oh let me see your beauty when the witnesses are gone Let me feel you moving like they do in Babylon Show me slowly what I only know the limits of Dance me to the end of love Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on Dance me very tenderly and dance me very long We're both of us beneath our love, we're both of us above Dance me to the end of love Dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born Dance me through the curtains that our kisses have outworn Raise a tent of shelter now, though every thread is torn Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin Dance me through the panic till I'm gathered safely in Touch me with your naked hand or touch me with your glove Dance me to the end of love Dance me to the end of love Dance me to the end of love
(continuação 3)
«Teymour invejava a ignorância deles; pelo menos não sofriam nada e não tinham o desejo nem a possibilidade de se entregar a comparações.
O que não era, infelizmente, o seu caso.»
(fim da transcrição)
Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos, («Un complot de saltimbanques», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8
Teymour invejava a ignorância deles
maio 26, 2010
(continuação 2)
«Semelhante confissão não teria nenhuma hipótese de ser compreendida por aqueles labregos que deviam sem dúvida imaginar que habitavam uma cidade feérica.
Nunca acreditariam na existência de outros lugares na terra mais agradáveis do que a sua própria cidade.»
(continua)
Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos, («Un complot de saltimbanques», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8
Nunca acreditariam na existência de outros lugares na terra mais agradáveis
maio 25, 2010
(continuação 1)
«Aliás, não devia esperar qualquer consolação daqueles espíritos obtusos, incapazes de avaliar no seu justo valor a incomensurável desgraça da sua situação. Como poderia explicar-lhes que o motivo do desespero que sentia [era] a visão da sua cidade natal e a aterradora perspectiva de aí ter de permanecer o tempo suficiente para morrer de aborrecimento.»
(continua)
Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos, («Un complot de saltimbanques», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8
Aliás, não devia esperar qualquer consolação daqueles espíritos obtusos
maio 24, 2010
«Sentado na esplanada do café, Teymour sentia-se tão infeliz como um piolho na cabeça de um careca. Toda a sua atitude exprimia a ociosidade, o vazio mórbido, a desolação que lhe afectava a alma naquele instante memorável em que voltava a decobrir a sua cidade natal depois de seis anos de ausência no estrangeiro. [ ]
De ar completamente desvairado, parecia entorpecido pela dor; uma dor sufocante e que ia aumentando à medida que o seu olhar tentava assimilar com viva repugnância a ínsipida paisagem circundante. [ ]
De tempos a tempos, fechava os olhos, e o seu rosto tomava então uma expressão de êxtase nostálgico, como se ele se houvesse retirado para um mundo de gráceis recordações, um mundo a que ainda estava ligado por laços quase carnais.
Mas estes efémeros mergulhos num passado recente, [ ] mais não faziam do que aumentar-lhe a pena, pelo contraste que estabeleciam com a implacável realidade que o assaltava assim que reabria os olhos. [ ] ele tinha consciência do que o seu aspecto podia apresentar de estranho para os outros clientes [ ] que começavam a observá-lo com uma atenção inquieta.»
(continua)
Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos, («Un complot de saltimbanques», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8
Sentado na esplanada do café, Teymour sentia-se tão infeliz...
maio 23, 2010
«Todos os países tinham o seu contingente de imbecis, de sacanas e de putas. Era preciso ser um débil mental para acreditar que se passavam coisas importantes noutros lados. A única diversidade era a da linguagem e a única novidade era que os mesmos imbecis, sacanas e putas se exprimiam numa língua diferente. Medhat recusava-se a absolver a aberração dos que aprendiam toda a espécie de idiomas estrangeiros a fim de penetrar o sentido das mesmas palermices que podiam ouvir na sua terra, sem precisar de se deslocar e gratuitamente. Pela sua parte, nunca se sentira tentado a percorrer o planeta à procura de sensações ditas transcendentes por se situarem em hemisférios distantes. De que servia mudar de continente, aspirar a outros climas, se não se conseguia ver, em primeiro lugar, o que se passa à nossa volta?» (texto da contracapa)
Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos, («Un complot de saltimbanques», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001
maio 22, 2010
«O HOMEM, alto e de ombros largos, estava de pé na quitanda,
qual múmia em seu sarcófago. Era uma lojeca estreita [ ];
estava cheia de frascos com essências aromáticas e unguentos
e de garrafinhas com elixires contra a impotência e a esterilidade.
[ ] Com gestos sabiamente medidos, o homem desarrolhou
uma minúscula garrafinha e apresentou-a ao olfacto
duma cliente, de pé na soleira da porta.
— Uma gotinha só deste perfume e os homens hão-de
ficar pelo beicinho e a morrer por ti — anunciou ele.
— Olha que não quero matar ninguém — respondeu
a mulher a rir. — É só para agradar ao meu marido.
— Nesse caso não ta vendo — disse o homem.
— Não te vendo porque tenho pena dele. Pelo menos doido fica.
— Aziago dia! Por que estás tu para aí com essas parvoíces?
Fico com ela. — Sendo assim, por ser para ti são só dez piastras.
Apalpou as dobras da mélaia, tirou de lá um lenço,
desatou-o e contou a importância.
O comerciante entregou-lhe a garrafinha.
— Vais ver — disse ele. — Hás-de ficar-me
reconhecida eternamente. Nunca mais
o teu marido poderá repudiar-te,
há-de ser-lhe impossível viver
longe desse perfume.
— Pois sim, bastará ele cá vir buscar mais. — Pelo Profeta! Julgas tu que eu lho vendia?!
A mulher foi-se embora com a garrafinha de perfume
e o homem virou-se então para [o interior da loja].»
:))
Albert Cossery, Mendigos e Altivos («Mendiants et Orgueilleux», 1955), Trad. Júlio Henriques, Antígona, Lisboa, 2002, pp.201-2
maio 21, 2010
(continuação)
«Era o chefe de escritório, um ancião quase cego. Os óculos enormes, encavalitados no nariz, davam-lhe parecenças de animal pré-histórico.
De rosto colado ao processo que ia folheando, perguntou, em tom já resignado:
— O que é? — Vou ausentar-me por instantes. — Não faças cerimónia, meu filho. Acredita que muita pena teremos não te vendo aqui.
A ironia da resposta não era coisa que fizesse El Kordi hesitar. Estava dede há muito habituado a estas insolências oratórias. E nem sequer ignorava que o chefe de escritório considerava a sua saída benéfica; a presença de El Kordi só prejudicava o bom andamento do trabalho. Era um mau exemplo para os companheiros de infortúnio.
— Adeus a todos! — Não te julgues obrigado a voltar — disse Ezedina Efêndi. — Demora o tempo todo que for necessário.
El Kordi sacudiu os ombros e sem um olhar para os colegas, murchos e anafados, pôs-se a andar.»
:)
(fim do extracto)
Albert Cossery, Mendigos e Altivos («Mendiants et Orgueilleux», 1955), Trad. Júlio Henriques, Antígona, Lisboa, 2002, pp. 115-16
maio 20, 2010
Abel Mateus - 19 Maio 2010
Uma lição magistral de economia política e política económica.
«ERAM ONZE DA MANHÃ. Sentado à secretária do Ministério das Obras Públicas, El Kordi entediava-se. [ ] As moscas esvoaçavam no escritório, vinham pousar-lhe no nariz. El Kordi tentou apanhar algumas, com a intenção de as entregar a atroz destino, mas a verdade é que elas levaram sempre a melhor. Estava de tal modo entontecido que nem agilidade tinha para este passatempo. Sem remédio, assenhoreou-se mais uma vez — vezes que já não tinham conta — do jornal parado em cima da secretária, e pôs-se de novo a percorrê-lo com os olhos. Enormes títulos proclamavam estar o mundo inteiro a armar-se, com vista a uma futura guerra. [ ] E que fazia ele, enquanto tais manobras se operavam? Ali ficava, sossegadamente sentado a uma secretária, vulmerável e sem defesa. Tinha de agir, de fazer qualquer coisa [ ] Levantou-se — Ezedine Efêndi!»
(continua)
Albert Cossery, Mendigos e Altivos («Mendiants et Orgueilleux», 1955), Trad. Júlio Henriques, Antígona, Lisboa, 2002, pp. 115-16
maio 19, 2010
«Gohar, professor universitário de Literatura e Filosofia, levado pelo nojo que a Universidade lhe inspira, decide tornar-se mendigo, conduzindo-nos, através das oscilantes ciladas da moral, a um conhecimento sumamente eufórico das peias com que a civilização modernizadora abafa quase à nascença a vida verdadeira.»
Albert Cossery, Mendigos e Altivos («Mendiants et Orgueilleux», 1955), Trad. Júlio Henriques, Antígona, Lisboa, 2002, pp. 115-16
maio 18, 2010
«O sol mal se via, por detrás das pesadas nuvens que sem cessar o perseguiam. Era um sol de inverno, factício, brilhante mas sem calor.
De vez em quando um vento frio varria toda a extensão dos campos, pondo a ondear os altos caules do milho.
Toda a campina parecia então erguer-se, como uma onda, mas aos poucos abrandando, voltando à sua taciturna desolação.»
Albert Cossery, Mandriões no Vale Fértil, («Les Fainéants dans la Vallée Fertile», 1948), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 1999, P.10
maio 17, 2010
«O guarda Gohloche personificava a maldade mais detestável: a maldade posta ao serviço dos grandes da terra. Uma maldade paga. Já não lhe pertencia. Tinha-a vendido a gente mais competente que a usava para subjugar e mortificar todo um povo miserável. Já não era senhor da sua maldade. Devia conduzi-la e dirigi-la segundo certas regras cuja atrocidade não variava.»
Albert Cossery, Os homens esquecidos de Deus («Les hommes oubliées de Dieu», 1927) Trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, p.62
maio 16, 2010
«Sayed Karam deixava-se descer até este universo lúcido e transparente. Penetrava na rua com uma ternura comovida, a mesma ternura que teria manifestado por uma criatura sofredora. Também a rua lhe parecia extravagante, mas de uma extravagância pobre, resignada e abandonada a si própria. Era o produto calmo da matéria, e não dos caprichos de um cérebro transtornado. A matéria trabalhada, amassada e usada pelos homens que lhe tinham insuflado a alma. Em cada pedra do caminho, era visível a sua imagem desorientada e amedrontada. A rua exprimia a perturbadora angústia de uma colectividade; não era um indivíduo orgulhoso a gabar-se da sua história. Era humana e grande na sua aflição por gritar a dor de toda uma multidão. E Sayed Karam assistia impotente a este grito dos homens através da matéria.»
Albert Cossery, Os homens esquecidos de Deus («Les hommes oubliées de Dieu», 1927) Trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, p.129
maio 15, 2010
.....................................
«A investigação policial deu origem a uma descoberta sensacional. Não a do assassino, que não tardou, mas uma descoberta de outro interesse, profundamente humana. O vendedor de hortaliça tinha sucumbido, ao que parece, sob a pressão fortíssima de um penico em terracota que lhe atirou à cabeça, da janela do seu pardieiro, Radwan Ali, o homem mais pobre do mundo. A profunda humanidade do acontecimento residia no seguinte: o penico com que Radwan Ali tinha atingido o vendedor era o único bem, o único móvel da sua casa, e não hesitara em sacrificá-lo para salvaguardar o sono de toda a rua. Perante um tal sentido de sacrifício, até os próprios polícias ficaram confundidos.»(Texto na contracapa)
Albert Cossery, Os homens esquecidos de Deus («Les hommes oubliées de Dieu», 1927) Trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, p.129
maio 14, 2010
A página e meia de texto d'As cores da infâmia acima transcrita é a notável abertura do último romance de Cossery.
Uma viagem ao Cairo que nenhuma agência de viagens oferecerá! :)
maio 13, 2010
(continuação 11)
«De longe em longe chegava, difundida pelos altifalantes, a voz dos pregadores às portas das mesquitas.»
(Fim da transcrição)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«... às portas das mesquitas.»
maio 12, 2010
(continuação 10)
«a consciência de estar simplesmente viva parecia aniquilar nela qualquer outra consideração.»
(continua)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«a consciência de estar simplesmente viva...»
maio 11, 2010
(continuação 9)
«Contornando obstinadamente todos os obstáculos e ciladas erguidos no seu caminho, esta populaça que nada repelia e que nenhum objectivo parecia atrair exclusivamente,
prosseguia o seu périplo nos meandros da cidade investida pela decrepitude
no meio dos silvos das buzinas, da poeira, do lixo e dos charcos
sem denotar o menor sinal de agressividade ou de protesto;
(continua)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«... esta populaça que nada repelia...»
maio 10, 2010
(continuação 8)
«Eléctricos cobertos de cachos humanos como num dia de revolução abriam lentamente passagem sobre as linhas atravancadas pela massa constrangedora de uma populaça há muito tempo treinada na estratégia da sobrevivência.»
(continua)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«... cobertos de cachos humanos...»
maio 09, 2010
(continuação 7)
«Em certos sítios, o rebentamento de um cano de esgoto formava um pântano tão largo como um rio, onde as moscas pululavam e de onde saíam eflúvios de inomináveis fedores.
Miúdos nus e sem vergonha achavam graça em salpicar-se uns aos outros com esta água putrefacta, único antídoto contra o calor.»
(continua)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«Em certos sítios... »
«Miúdos nus e sem vergonha...»
maio 08, 2010
(continuação 6)
«A vetustez destas habitações evocava a imagem de futuros túmulos e dava a impressão, neste país altamente turístico, de que aquelas ruínas indecisas haviam adquirido por tradição valor de antiguidades e permaneciam por consequência intocáveis.»
(continua)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«A vetustez destas habitações evocava a imagem de futuros túmulos...»
maio 07, 2010
(continuação 5)
«Ladeando as artérias deixadas ao abandono pelos serviços de conservação e limpeza, imóveis prometidos a próximos desabamentos
(e cujos proprietários há muito que tinham varrido do espírito qualquer sobranceria de possidentes)
exibiam nas varandas e terraços convertidos em abrigos precários os trapos coloridos da miséria como se fossem bandeiras de vitória.»
(continua)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«varandas e terraços convertidos em abrigos precários...»
maio 06, 2010
(continuação 4)
«Nesta ambiência selvaticamente perturbada, os carros avançavam como se fossem engenhos sem condutor, sem ligar às luzes dos semáforos,
transformando assim para o peão qualquer veleidade de atravessar a rua num gesto suicidário.»
(continua)
Albert Cossery, As cores da infâmia, («Les couleurs de l’infamie», 1999), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000
«Nesta ambiência selvaticamente perturbada, os carros avançavam...»