junho 07, 2010


falavam de uma janela para outra
apesar da aparência de um céu
ultrajantemente limpo

junho 06, 2010

(continuação 1)

«Em redor das fontes públicas, as crianças, seminuas,
empurravam-se enquanto se refrescavam
molhando-se umas às outras, num tumulto
alegre trespassado por gritos e injúrias.

Jovens elegantes, retesados nos seus trajes
de gala, exercitavam-se a lançar olhares
enamorados em direcção a criaturas
voluptuosas inexistentes.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(p.27-8)

Foto in World of Stock
Em redor das fontes públicas, as crianças, seminuas

olhares enamorados em direcção
a criaturas voluptuosas inexistentes

junho 05, 2010

«A tarde caía e uma população em azáfama
apoderava-se das esplanadas dos cafés,
onde intermináveis discursos decorriam já.

Vendedores ambulantes, ainda a despertar
da sesta, apregoavam com uma voz lânguida
a suculência dos frutos e dos legumes,
fazendo uso de comparações disparatadas
e, por vezes, mesmo obscenas.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(pp. 27-28)

apoderava-se das esplanadas dos cafés

Vendedores ambulantes

junho 04, 2010

(continuação 7)

«Era precisamente essa linguagem humana
que encantava Samantar, linguagem que,
um pouco por todo o mundo,

fora substituída por um idioma bastardo
— apanhado nos caixotes do lixo do comércio
e da publicidade —, não visando em bom rigor
o homem, e do qual toda e qualquer noção
de emoção ou de sentimento estava excluída.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(pp. 15-16-17)

essa linguagem humana que encantava

junho 03, 2010



Dá-me lume

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder
O vinho não era bom
A banda não tinha tom
Mas tu fizeste a noite apetecer
Mandaste a minha solidão embora
Iluminaste o pavilhão da aurora
Com o teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Eu fiquei louco por ti
Logo rejuvenesci
Não podia falhar
Dispondo a meu favor
Da eloquência do amor
Ali mesmo à mão de semear
Mostrei-te a origem do bem e o reverso
Provei-te que o que conta no universo
É esse passo inseguro
E o paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Eu tinha o espírito aberto
Às vezes andei perto
Da essência do amor
Porém no meio dos colchões
No meio dos trambolhões
A situação era cada vez pior
Tu despertaste em mim um ser mais leve
E eu sei que essencialmente isso se deve
A esse passo inseguro
E ao paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-me
Até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas
Há tanto tempo a acenar

Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse crítico de arte
Havia de declarar-te
Obra-prima à escala mundial
Mas eu não passo dum homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
Esse teu passo inseguro
E o paraíso no teu olhar
______________________________________

1989 - letra e música de Jorge Palma
(continuação 6)

«Contudo, enquanto se desencaminhavam multidões
submetidas às normas de uma ética bárbara,
aqui, em Dofa, a pobreza do país
havia deixado a vida escorrer preguiçosamente
e o povo consagrar-se sem esforços degradantes
a ocupações benéficas, tais como a pesca,
a horticultura, um artesanato aperfeiçoado
na indolência e na dignidade; e, sobretudo,
o povo assinalara aqui a sua resistência
às modas decadentes, continuando a exprimir-se

por meio de uma linguagem humana.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002,
(pp. 15-16-17)

ocupações benéficas, tais como a pesca

a horticultura

um artesanato aperfeiçoado
na indolência e na dignidade

junho 02, 2010

(continuação 5)

«Samantar lamentava frequentemente a sorte
daqueles infelizes, que ambiciosos potentados
haviam reduzido ao estatuto de escravos ao serviço
de uma potência estrangeira sem alma, a mais
pérfida e corrupta de todas as nações.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp.15-6-7

uma potência estrangeira sem alma

junho 01, 2010

(continuação 4)

«Eles que haviam conhecido a eternidade dos horizontes,
a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes e
os amanheceres benfazejos debaixo da tenda,
tinham-se transformado em exilados
no seu próprio reino.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp.15-6-7

a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes

... a eternidade dos horizontes