olhares enamorados em direcção a criaturas voluptuosas inexistentes
junho 05, 2010
«A tarde caía e uma população em azáfama apoderava-se das esplanadas dos cafés, onde intermináveis discursos decorriam já.
Vendedores ambulantes, ainda a despertar da sesta, apregoavam com uma voz lânguida a suculência dos frutos e dos legumes, fazendo uso de comparações disparatadas e, por vezes, mesmo obscenas.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (pp. 27-28)
apoderava-se das esplanadas dos cafés
Vendedores ambulantes
junho 04, 2010
(continuação 7)
«Era precisamente essa linguagem humana que encantava Samantar, linguagem que, um pouco por todo o mundo,
fora substituída por um idioma bastardo — apanhado nos caixotes do lixo do comércio e da publicidade —, não visando em bom rigor o homem, e do qual toda e qualquer noção de emoção ou de sentimento estava excluída.»
(fim da transcrição)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (pp. 15-16-17)
essa linguagem humana que encantava
junho 03, 2010
Dá-me lume
Chegaste com três vinténs E o ar de quem não tem Muito mais a perder O vinho não era bom A banda não tinha tom Mas tu fizeste a noite apetecer Mandaste a minha solidão embora Iluminaste o pavilhão da aurora Com o teu passo inseguro E o paraíso no teu olhar
Eu fiquei louco por ti Logo rejuvenesci Não podia falhar Dispondo a meu favor Da eloquência do amor Ali mesmo à mão de semear Mostrei-te a origem do bem e o reverso Provei-te que o que conta no universo É esse passo inseguro E o paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume Deixa o teu fogo envolver-me Até a música acabar Dá-me lume, não deixes o frio entrar Faz os teus braços fechar-me as asas Há tanto tempo a acenar
Eu tinha o espírito aberto Às vezes andei perto Da essência do amor Porém no meio dos colchões No meio dos trambolhões A situação era cada vez pior Tu despertaste em mim um ser mais leve E eu sei que essencialmente isso se deve A esse passo inseguro E ao paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume Deixa o teu fogo envolver-me Até a música acabar Dá-me lume, não deixes o frio entrar Faz os teus braços fechar-me as asas Há tanto tempo a acenar
Se eu fosse compositor Compunha em teu louvor Um hino triunfal Se eu fosse crítico de arte Havia de declarar-te Obra-prima à escala mundial Mas eu não passo dum homem vulgar Que tem a sorte de saborear Esse teu passo inseguro E o paraíso no teu olhar Esse teu passo inseguro E o paraíso no teu olhar ______________________________________
1989 - letra e música de Jorge Palma
(continuação 6)
«Contudo, enquanto se desencaminhavam multidões submetidas às normas de uma ética bárbara, aqui, em Dofa, a pobreza do país havia deixado a vida escorrer preguiçosamente e o povo consagrar-se sem esforços degradantes a ocupações benéficas, tais como a pesca, a horticultura, um artesanato aperfeiçoado na indolência e na dignidade; e, sobretudo, o povo assinalara aqui a sua resistência às modas decadentes, continuando a exprimir-se
por meio de uma linguagem humana.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, (pp. 15-16-17)
ocupações benéficas, tais como a pesca
a horticultura
um artesanato aperfeiçoado
na indolência e na dignidade
junho 02, 2010
(continuação 5)
«Samantar lamentava frequentemente a sorte daqueles infelizes, que ambiciosos potentados haviam reduzido ao estatuto de escravos ao serviço de uma potência estrangeira sem alma, a mais pérfida e corrupta de todas as nações.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp.15-6-7
uma potência estrangeira sem alma
junho 01, 2010
(continuação 4)
«Eles que haviam conhecido a eternidade dos horizontes, a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes e os amanheceres benfazejos debaixo da tenda, tinham-se transformado em exilados no seu próprio reino.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp.15-6-7
a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes
... a eternidade dos horizontes
maio 31, 2010
(continuação 3)
«Despidos de quaisquer escrúpulos e conduzidos pelos seus interesses sórdidos, desonraram e transformaram uma raça de senhores em lamentáveis operários cobertos de porcaria, à imagem e semelhança do seu próprio proletariado, gemendo nas sombrias cidades industriais.
Por um salário vergonhoso, aqueles distintos nómadas haviam perdido a sua nobreza e a sua liberdade, e viviam confinados em barracas carcomidas pela traça, sobrecarregados de preocupações materiais absurdas, cada vez mais prolíficas e das quais não tinham outrora consciência.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp. 15-6-7
desonraram e transformaram uma raça de senhores
em lamentáveis operários cobertos de porcaria
maio 30, 2010
(continuação 2)
«O desapontamento das empresas petrolíferas instaladas no território do emirado havia regozijado Samantar [face aos] resultados negativos obtidos pelos engenheiros da corja [ ].
Samantar desconfiava de tudo o que a terra podia esconder debaixo dos seus passos; sobretudo quando aqueles exploradores não estavam longe. Tinham invadido os emirados limítrofes, os quais, para grande infelicidade, possuíam imensos e inegáveis recursos petrolíferos.»
(continua)
Albert Cossery, Uma ambição no deserto, («Une ambition dans le désert», 1975), trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2002, pp.15-6-7