junho 01, 2010


a limpidez do céu por cima dos oásis verdejantes

... a eternidade dos horizontes

maio 31, 2010

(continuação 3)

«Despidos de quaisquer escrúpulos e conduzidos pelos seus interesses sórdidos, desonraram e transformaram uma raça de senhores em lamentáveis operários cobertos de porcaria, à imagem e semelhança do seu próprio proletariado, gemendo nas sombrias cidades industriais.

Por um salário vergonhoso, aqueles distintos nómadas haviam perdido a sua nobreza e a sua liberdade, e viviam confinados em barracas carcomidas pela traça, sobrecarregados de preocupações materiais absurdas, cada vez mais prolíficas e das quais não tinham outrora consciência.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp. 15-6-7


desonraram e transformaram uma raça de senhores



em lamentáveis operários cobertos de porcaria

maio 30, 2010

(continuação 2)

«O desapontamento das empresas petrolíferas instaladas no território do emirado havia regozijado Samantar [face aos] resultados negativos obtidos pelos engenheiros da corja [ ].

Samantar desconfiava de tudo o que a terra podia esconder debaixo dos seus passos; sobretudo quando aqueles exploradores não estavam longe. Tinham invadido os emirados limítrofes, os quais, para grande infelicidade, possuíam imensos e inegáveis recursos petrolíferos.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona,

Lisboa, 2002, pp.15-6-7

O desapontamento das empresas petrolíferas...

maio 29, 2010

(continuação 1)

«Mas o que horrorizava Samantar sobremaneira
era aquilo que os tecnocrtas ocidentais
denominavam no seu jargão barroco
«expansão económica».

Protegidos por esta fórmula de bruxa malvada,
os antigos colonialistas esmifravam-se por fazer
perpetuar as suas rapinas, introduzindo em povos
sãos — que não precisavam de possuir um carro
para fazer prova da sua presença sobre esta terra
— a psicose do consumo.»

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa,

2002, pp. 15-6-7

... a psicose do consumo.

maio 28, 2010



Preferia-a a Alegre, Cavaco e Nobre,
na Presidência da República
Mais um conto excelente
de albert cossery:



«O xeque Ben Kadem, Primeiro-ministro do emirado
de Dofa, interroga-se sobre como conseguir um papel
na cena internacional, encontrando-se ele à frente
de um Estado miserável, completamente eclipsado
pelos Estados vizinhos, produtores de petróleo.

Inventa um estratagema: simular atentados à bomba,
reivindicados por uma denominada Frente de Libertação
fantasma... » :))

(continua)

Albert Cossery, Uma ambição no deserto,
(«Une ambition dans le désert », 1975),

trad. Ernesto Sampaio, Antígona,
Lisboa, 2002

eclipsado pelos Estados vizinhos,
produtores de petróleo

maio 27, 2010


"Dance Me To The End Of Love"

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love

Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love

Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
(continuação 3)

«Teymour invejava a ignorância deles;
pelo menos não sofriam nada
e não tinham o desejo
nem a possibilidade
de se entregar a comparações.

O que não era, infelizmente, o seu caso.»

(fim da transcrição)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8


Teymour invejava a ignorância deles

maio 26, 2010

(continuação 2)

«Semelhante confissão não teria nenhuma hipótese
de ser compreendida por aqueles labregos
que deviam sem dúvida imaginar
que habitavam uma cidade feérica.

Nunca acreditariam na existência
de outros lugares na terra mais agradáveis
do que a sua própria cidade.»

(continua)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8

Nunca acreditariam na existência
de outros lugares na terra mais agradáveis

maio 25, 2010

(continuação 1)

«Aliás, não devia esperar qualquer consolação daqueles espíritos obtusos, incapazes de avaliar no seu justo valor a incomensurável desgraça da sua situação. Como poderia explicar-lhes que o motivo do desespero que sentia [era] a visão da sua cidade natal e a aterradora perspectiva de aí ter de permanecer o tempo suficiente para morrer de aborrecimento.»

(continua)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8


Aliás, não devia esperar qualquer consolação
daqueles espíritos obtusos

maio 24, 2010

«Sentado na esplanada do café, Teymour sentia-se tão infeliz como um piolho na cabeça de um careca. Toda a sua atitude exprimia a ociosidade, o vazio mórbido, a desolação que lhe afectava a alma naquele instante memorável em que voltava a decobrir a sua cidade natal depois de seis anos de ausência no estrangeiro. [ ]

De ar completamente desvairado, parecia entorpecido pela dor; uma dor sufocante e que ia aumentando à medida que o seu olhar tentava assimilar com viva repugnância a ínsipida paisagem circundante. [ ]

De tempos a tempos, fechava os olhos, e o seu rosto tomava então uma expressão de êxtase nostálgico, como se ele se houvesse retirado para um mundo de gráceis recordações, um mundo a que ainda estava ligado por laços quase carnais.

Mas estes efémeros mergulhos num passado recente, [ ] mais não faziam do que aumentar-lhe a pena, pelo contraste que estabeleciam com a implacável realidade que o assaltava assim que reabria os olhos. [ ] ele tinha consciência do que o seu aspecto podia apresentar de estranho para os outros clientes [ ] que começavam a observá-lo com uma atenção inquieta.»

(continua)

Albert Cossery, Uma conjura de saltimbancos,
(«Un complot de saltimbanques», 1975),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2001, pp. 7-8