maio 01, 2010

Ando a ler, deliciado, os sete ou oito romances
escritos por Albert Cossery ao longo da sua vida
de emigrado em Paris até à sua morte, há já uns
dois anos, na sua provecta idade de nonagenário!

Figura notável, companheiro dos intelectuais
de Saint-Germain-des-Près, desde Albert Camus,
a Boris Vian, Juliette Greco e outros.





Conhecido como o "Voltaire do Nilo" :)
a sua prosa cuidada, rigorosa, expressiva,
transporta-nos para esse mundo subjugado
pela pobreza, a degradação e a miséria
da milenária cidade de Al-Qahira, no
Egipto pré e pós-revolucionário
de Abdel Nasser.

abril 29, 2010


.........«Pode dizer-se que um cubo sem qualquer
.........duração tem existência real?»


H.G. Wells, A Máquina do Tempo

abril 27, 2010


foto in blog rosaletrista

«As palavras não têm a ver com
as sensações. Palavras são pedras
duras e as sensações delicadíssimas,
fugazes, extremas.»


Clarice Lispector (1925-77), Para Não Esquecer,
in # 53 “Brasília”, Ática, S. Paulo, 1979

abril 26, 2010

Planetary Nebula Mz3: The Ant Nebula


S.Prokofiev - A.Vedernikov. Pushkin waltz No.2.

abril 25, 2010

abril 23, 2010



# 15 “Acabou de sair”

Sua enorme inteligência compreensiva,
aquele seu coração vazio de mim,
que precisa de eu ser admirável
para poder me admirar.

Minha grande altivez:
prefiro ser achada na rua.
Do que neste fictício palácio
onde não me acharão porque
— porque mando dizer que não estou,
“ela acabou de sair”

:))

Clarice Lispector (1925-77), Para Não Esquecer,
Ática, S. Paulo, 1979

abril 21, 2010



Nada mais seguro do que um bairro
Destruído. Que podem sobre ele
Taxas, bombas, traficantes, polícias
E sinos dobrando pelos mortos?
Não ouses, suplico-te, com teus
Instantâneos, Elvira, louvar as
Ruínas. Honra as conquistas do
Deserto. Não sei explicar. Vejo
As ruínas como imagem pura
Do encadeamento dos actos.
Pelo contrário, o deserto clama
Pelo encadeado dos elos.



Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.141

abril 18, 2010


Poema para uma pintura de Egon Schiele in Dias Imperfeitos

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

abril 17, 2010



«Quando Pedro me fala sobre Paulo,
sei mais de Pedro que de Paulo.»

abril 15, 2010



Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha

abril 13, 2010

abril 11, 2010


imagem in luciawelt.blogspot

MORTOS LATIDOS

Se a Natureza se expande como sentir o júbilo,
no interior da face, no subsolo? Que região
vulnerável, órgão vivíssimo
do corpo o sol calcinou? Oh, o estar
nessa solidão (da matéria orgânica), sem o consciente
de uma consciência. Sem a pedra (da dor), a maxila fria.
Vejo um sol remoto no verão, neste tempo
omisso, (meu) espaço fortuito
ou irrigado de sangue, (meu) lugar cutâneo,
o limite. Há um saber dos sápidos ele-
mentos do mundo, memória pastoril. Que ausência
no-los revela agora? Perdidas
ou jamais tacteadas em sua distância
afastam-se as vozes para que
ausente outro cantar? Que fala em uníssono se
omite da corda vocal, o coro dos seres
grandiloquentes no seu solstício? Cálida
solidão de propagados pensamentos, dores,
zonas vitais do tempo ou sono
e os latidos mortos.

Fiama Hasse Pais Brandão

abril 09, 2010

Tender is the night



Tender is the night
So tender is the night
There's no one in the world
Except the two of us

Should tomorrow
Find us disenchanted
We have shared a love
That few have known

Summers by the sea
A sailboat in Capri
These memories shall be
Our very own

Even though our dreams may vanish
With the morning light
We loved once in splendour
How tender, how tender the night

(Orchestral Break)

Even though our dreams may vanish
With the morning light
We loved once in splendour
How tender, how tender the night



(Transcribed by Mel Priddle - January 2004)




O que mais apreciei neste romance de Fitzgerald
foi a arguta e rigorosa observação da progressão
de um processo insidioso de desamor, culminando
no acto final, cirúrgico e irreversível de divórcio!

Ver Aqui

abril 08, 2010


André Neves, Amarelo Sol

ASTRONOMIA

Pastor, que entre nuvens pastoreias,
seguindo na terra os teus rebanhos
de estevas e pinheiros;

imagem, que atrais o hálito dos seres
vivos, renascidos ou inertes;

bebida, que o mar bebe, e incha
a maré, levanta a onda, solta
a maresia desde o eterno início;

manto, que me aquece o corpo nu
ou o mostra num halo de esplendor;

vento, igual ao vento, mas que sopra
matéria, amor, magnetos;

cabelos de ouro, espargidos na terra,
em parras de outono avermelhadas
ou em clareiras abertas para a luz;

coluna de puro brilho, que sustém
os dias entre manhãs e noites;

rosto, que tem o riso e o olhar ubíquos
até ao fundo das raízes e até aos cumes;

corola, que repete a órbita dos astros,
vendo as outras corolas humílimas ante si;

lâmpada, de silêncio inatingível,
entre os sons mais próximos das criaturas
que, em silêncio também, com ela cantam;

mão decepada que afaga o mundo
como se os dedos caídos fossem raios;

espelho, que ao ser olhado é opaco,
como uma fonte que jorra, sem imagens,
para dentro a turva água do seu bojo;

ave, sem beiral onde poisar ardendo
a figura da antiga fénix imolada;

Sol é o teu nome, o teu ser e a tua face.
Ó Sol, eu só, poeta deste século, sei
que no futuro irás tornar-te nada.

Meu Sol, levarás em ti todos os versos
dos poetas, em livros, em lápides.


(Fiama Hasse Pais Brandão, Cenas Vivas)

abril 06, 2010



Dir-lhe-ia [ ]:
Deve-se guardar o secreto
com o secreto.
Torná-lo (cão) de guarda.
Não o deixar pronunciar
Uma única palavra sobre
A implosão do inseguro
Mesmo quando a confidência
Parece que te liberta. É falso.
Apenas difundiste um som. Este
Violou o secreto e abriu uma
Ferida insanável no rigor
Inviolável da palavra.


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.342

abril 04, 2010



— Ah, príncipe — clamou Mirzoza —, sonhar dá-vos
que fazer. Gostaria que tivesseis passado uma boa
noite; mas, agora que conheço o vosso sonho,
ficaria desiludida se não o houvesseis tido.

— Senhora — disse Mangogul —, conheço noites
mais proveitosas do que a deste sonho que tanto
vos agrada; e se tivesse sido senhor da minha
viagem, é muito provável que, não esperando
encontrar-vos na região das hipóteses,
orientasse os meus passos noutra direcção.
Não estaria neste momento com a dor
de cabeça que me aflige ou, pelo menos,
teria motivo para suportá-la.

[ ]

FIM DO SONHO DE MANGOGUL
OU VIAGEM À REGIÃO DAS HIPÓTESES


:))

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

abril 03, 2010



» — Fujamos — disse-me Platão —, fujamos;
este edifício pouco mais dura.
A estas palavras, retira-se; sigo-o.
O colosso chega, derruba o pórtico,
este desmorona-se ruidosamente
e eu acordo.



Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

abril 02, 2010



» acabava de me dar esta breve resposta
quando vi a Experiência aproximar-se
e as colunas do pórtico das hipóteses
oscilar, as abobadas abater
e o pavimento a abrir-se
debaixo dos nossos pés

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

abril 01, 2010



Sacudia com a mão direita um archote cuja luz
se espalhava pelos ares, iluminava o fundo das águas
e penetrava nas entranhas da terra.

» — Que figura gigantesca — perguntei
a Platão — é esta que se dirige a nós?
» — Reconheça a Experiência —
respondeu-me — porque é ela.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9


março 31, 2010



Era então um enorme colosso;
a cabeça tocava nos céus,
os pés perdiam-se no abismo
e os braços estendiam-se
para um e outro polo.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 30, 2010

No progresso dos seus aumentos sucessivos, apareceu-me sob cem formas diversas; vi-a dirigir para o céu um comprido telescópio,



calcular com a ajuda de um pêndulo



a queda dos corpos,



verificar com um tubo cheio de mercúrio o peso do ar,



e, de prisma na mão, decompor a luz.




Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 29, 2010



» Acabava de soltar esta exclamação patética
quando vi à distância uma criança que se
dirigia para nós a passo lento mas seguro.
Tinha a cabeça pequena, o corpo franzino,
os braços débeis e as pernas curtas; mas
todos os seus membros engrossavam e se
alongavam à medida que avançava.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 28, 2010



» — Compreendo — disse eu — e esses farrapos
serviam-lhes de etiquetas, a eles e à sua posteridade…
» — Quem reunirá estes bocados — continuou Platão —
e nos restituirá a túnica de Sócrates?


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 27, 2010



»— Não, não — respondeu Platão. — Não foi assim
que mereceu dos deuses o nome do mais sábio
dos homens; foi a fazer cabeças, a formar
corações, que se ocupou enquanto viveu.
O segredo perdeu-se com a sua morte.
Sócrates morreu e os belos dias da filosofia
passaram. Estes farrapos, que os sistemáticos
usam orgulhosamente, são bocados da sua
roupa. Ainda mal tinha fechado os olhos,
já os que aspiravam ao título de filósofos
se lançavm sobre a sua túnica e a despedaçavam.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 26, 2010



» — Como! — exclamei, interrompendo-o.
— Sócrates tinha uma palha e também soprava bolhas?...



Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 25, 2010



Em três meses o € passou a valer -13% do que o $;
-63% se a queda persistisse um ano!

Assim, alguém poderia escrever,
há 200 anos atrás, o seguinte
sobre a economia luso-alemã:

»O euro não vale o preço por que está a ser trocado
contra dólares e ienes. Assim, quem detem a moeda
europeia está a aproveitar a sobre-valia da sua cotação
para a trocar por dólares e ienes. Na prossecução desta
queda de valor, fica mais facilitada a exportação de bens
da Alemanha para o resto do mundo, incluindo a exportação
de automóveis da Auto-Europa; por outro lado, os países
exportadores de petróleo e gáz natural, como a Angola
e a Argélia, terão maior poder de compra na Europa,
incluindo de produtos portugueses. Assim, não é
inverosímil que as perspectivas económicas
sejam favoráveis à retoma do crescimento
das exportações portuguesas, e por essa
via, à redução do endividamento
externo.

("David Ricardo", 1810)


» — Essa ocupações são belas; mas que significam
todos esse bocados de pano que mais os faz
parecer mendigos do que filósofos?
» — Que me pergunta? — disse ele suspirando.
— E que recordação me faz evocar? Este templo
foi outrora o da filosofia. Ah, como estes lugares
estão mudados! A cátedra de Sócrates ficava aqui…


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 24, 2010



» — Mas por que acaso — repliquei — se encontra
aqui o divino Platão? E que faz no meio destes
insensatos?...
» — Recrutas — disse-me ele. — Tenho longe
deste pórtico um pequeno santuário para onde
levo os que chegam dos sistemas.

» — E em que os ocupa?
» — Em conhecer o homem, praticar
a virtude e sacrificar às graças…

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 23, 2010



»— Quem é você? Onde estou? E quem são todas
estas pessoas? — perguntei-lhe sem cerimónias.
» — Sou Platão — respondeu-me. — Você
está na região das hipóteses e estas
pessoas são sistemáticos.




Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 22, 2010



» Vi um cujos ombros estavam meio cobertos
de farrapos tão bem remendados que a arte
furtava aos olhos as costuras. Ia e vinha
pela multidão, incomodando-se muito pouco
com o que se passava. Notei que tinha um
ar afável, boca risonha, andar solene,
olhar suave, e fui direito a ele.



Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 21, 2010



» As pequenas amostras de pano voltaram a impressionar-me
e notei que quanto maiores eram menos os que as usavam se
interessavam pelas bolhas. Esta observação singular encorajou-me
a abordar aquele que me pareceu menos despido.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 20, 2010



» — Onde estou? — perguntei a mim mesmo, confuso
com estas puerilidades. — Que quer dizer este soprador
com as suas bolhas e todas estas crianças decrépitas
ocupadas em fazê-las voar? Quem me explicará estas
coisas?...

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 19, 2010



Molhava, numa taça cheia de um fluido
subtil, uma palha que levava à boca
e soprava bolhas a uma multidão
de espectadores que o
rodeavam e se
reforçavam

por projectá-las até às nuvens.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 18, 2010



Cem vezes tremi pela personagem que a ocupava.
Era um velho de longa barba, tão seco e mais nu
do que qualquer outro dos seus discípulos.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 17, 2010



» Continuo a romper pela multidão e chego junto de uma tribuna a que uma grande teia de aranha servia de dossel. Aliás, a sua ousadia correspondia à do edifício. Pareceu-me assente como na ponta de uma agulha e manter-se aí em equilíbrio.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 16, 2010



Apesar de todos estes defeitos, agradavam à primeira vista. Tinham na fisionomia um não sei quê de interessante e ousado. Estavam quase nus, porquanto todo o seu vestuário consistia num bocado de pano que não lhes cobria a centésima parte do corpo.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 15, 2010



» Eram velhos ou balofos ou esguios, sem bom aspecto e sem força e quase todos disformes. Um tinha a cabeça demasiado pequena, outro os braços demasiado curtos. Este pecava pelo corpo, aquele pelas pernas. A maioria não tinha pés e usava muletas. Uma aragem fazia-os cair e ficavam no chão até que um recém-chegado qualquer se lembrasse de os levantar.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 14, 2010



» Foi à entrada deste edifício que a minha montada parou. Hesitei em pôr pé em terra, dado que considerava menos arriscado rodopiar no meu hipogrifo do que passear debaixo daquele pórtico. Contudo, encorajado pela multidão dos que o habitavam e por uma segurança notável que reinava em todos os rostos, desmonto, avanço, lanço-me na turba e observo os que a constituíam.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 13, 2010



» A corrida fora demorada, quando notei, no vazio do espaço, um edifício suspenso como por encanto. Era grande. Não direi que pecasse pelos alicerces, porquanto não assentava em nada. As colunas, que não tinham meio pé de diâmetro, elevavam-se a perder de vista e sustentaval abóbodas que só se distinguiam graças às frestas que nelas se abriam simetricamente


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 12, 2010



» Começava a adormecer e a minha imaginação a levantar voo, quando vi saltar ao meu lado um animal singular. Tinha cabeça de águia, pés de grifo, corpo de cavalo e cauda de leão. Apanhei-o, apesar das suas curvetas, e, agarrando-me às crinas, saltei-lhe lestamente para o dorso. Imediatamente desdobrou as compridas asas e senti-me transportado nos ares com uma rapidez incrível.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 11, 2010

CAPÍTULO XXXII — TALVEZ O MELHOR E O MENOS LIDO
.....................................DESTA HISTÓRIA


SONHO DE MANGOGUL OU VIAGEM À REGIÃO DAS HIPÓTESES



— Ai! — disse Mangogul, bocejando e esfregando os olhos —, dói-me a cabeça. Que não me falem mais de filosofia; essas conversas são doentias. Ontem, deitei-me com ideias ocas e, em vez de dormir como um sultão, o meu cérebro trabalhou mais do que os dos seus ministros trabalharão num ano. Achais graça? Mas, para vos convencer que não exagero e de me vingar da má noite que os vossos raciocínios me provocaram, ides suportar o meu sonho do princípio ao fim.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 09, 2010


imagem aqui

««Assim», disse ele num tom de conversa figurativa, «você,
Aqui presente, não existe»
. O outro não se assustou, julgando
Impropriamente que estavam apenas a chamá-lo à razão
(Hipotética) de um outro. Mas o facto é que, naquele momento,
Por um efeito marcial directo do que fora dito, desapareceu.
Para o homem especulativo impunha-se provar a congruência
Do sucedido mas, tu, Literatura, sabes que a ocorrência é um
Típico percalço de personagem. O escritor não disse?»

:)

Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.204

março 08, 2010


imagem in blog Miluzinha

«Agora que ele começa onde ela principia,
Que fazer de dois hetero-humanos que se
Iniciam?



Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.97

março 07, 2010


img in here

«Um sistema metafísico é o conhecimento pela razão
pura das coisas em si. Antes de o constituir,
tem de investigar-se o que pode conhecer
o entendimento e a razão,

independentemente de toda a experiência.


Essa é a tarefa da Crítica da Razão Pura:
criticar, encontrar os limites de todo
o conhecimento puro, a priori, isto é,

independentemente de qualquer experiência.»

In prefácio da tradução portuguesa à Crítica da Razão Pura,
edição da F. C. Gulbenkian por A. Fradique Morujão (p. x)

março 06, 2010

A Educação Sentimental



«As pessoas refugiam-se no medíocre,
em desespero de não terem o belo
com que sonharam!»

«On se réfugie dans le médiocre,
par désespoir du beau qu'on a revê!»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.217

março 05, 2010

A Educação Sentimental



«Nuvens sombrias corriam na face da Lua.
Contemplou-a, pensando na grandeza
dos espaços, na miséria da vida,
no nada de tudo.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.67