maio 09, 2010

(continuação 7)

«Em certos sítios, o rebentamento de um cano de esgoto
formava um pântano tão largo como um rio,
onde as moscas pululavam e de onde
saíam eflúvios de inomináveis
fedores.

Miúdos nus e sem vergonha achavam graça
em salpicar-se uns aos outros
com esta água putrefacta,
único antídoto contra o calor.»


(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«Em certos sítios... »

«Miúdos nus e sem vergonha...»

maio 08, 2010

(continuação 6)

«A vetustez destas habitações
evocava a imagem de futuros túmulos
e dava a impressão, neste país altamente
turístico, de que aquelas ruínas indecisas
haviam adquirido por tradição valor de antiguidades
e permaneciam por consequência intocáveis.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«A vetustez destas habitações
evocava a imagem de futuros túmulos...»

maio 07, 2010

(continuação 5)

«Ladeando as artérias deixadas ao abandono
pelos serviços de conservação e limpeza,
imóveis prometidos a próximos desabamentos

(e cujos proprietários há muito
que tinham varrido do espírito
qualquer sobranceria de possidentes)

exibiam nas varandas e terraços convertidos
em abrigos precários os trapos coloridos
da miséria como se fossem
bandeiras de vitória.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«varandas e terraços convertidos
em abrigos precários...»

maio 06, 2010

(continuação 4)

«Nesta ambiência selvaticamente perturbada,
os carros avançavam como se fossem
engenhos sem condutor, sem ligar
às luzes dos semáforos,

transformando assim para o peão qualquer
veleidade de atravessar a rua
num gesto suicidário.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«Nesta ambiência selvaticamente perturbada,
os carros avançavam...»

maio 05, 2010

(continuação 3)

«Hordas de migrantes vindas de todas as províncias
— cheias de ilusões dementes sobre a prosperidade
de uma capital transformada em formigueiro —
tinham-se aglutinado com a população autóctone
e praticavam um nomadismo urbano
de um pitoresco desastroso.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«Hordas de migrantes vindas de todas as províncias...»

maio 04, 2010

(continuação 2)

«Impermeável ao drama e à desolação, esta chusma de gente
carreava uma espantosa variedade de personagens
pacificadas pela sua ociosidade;

operários sem trabalho, artesãos sem clientela,
intelectuais desinteressados da glória,
funcionários administrativos expulsos
das repartições por falta de cadeiras,

diplomados pela universidade vergados ao peso
de uma ciência estéril, enfim, os eternos trocistas,
filósofos amorosos da sombra e da quietude que dela emana,
para quem a deterioração espectacular da sua cidade
tinha sido especialmente concebida para
lhes aguçar o espírito crítico.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«... uma espantosa variedade de personagens
pacificadas pela sua ociosidade...»

«... funcionários administrativos expulsos
das repartições por falta de cadeiras...»

«... enfim, os eternos trocistas, filósofos amorosos
da sombra e da quietude que dela emana...»

maio 03, 2010

(continuação 1)

«Dir-se-ia que todos estes passeantes estóicos
sob a avalanche incandescente de um sol em fusão
mantinham, na sua vagabundagem infatigável,
uma benévola cumplicidade com o inimigo
invisível que minava os alicerces e
as estruturas de uma capital
outrora resplandecente.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«... o inimigo invisível que minava os alicerces e
as estruturas de uma capital outrora resplandecente.»

maio 02, 2010

«A MULTIDÃO HUMANA que deambulava ao ritmo descuidado
de um vaguear estival pelos passeios intransitáveis
da cidade milenária de Al Qahira, parecia
acomodar-se com serenidade, e até com
um certo cinismo, à degradação
incessante e irreversível
que a rodeava.»

(continua)



Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«... à degradação incessante e irreversível que a rodeava»

maio 01, 2010

Ando a ler, deliciado, os sete ou oito romances
escritos por Albert Cossery ao longo da sua vida
de emigrado em Paris até à sua morte, há já uns
dois anos, na sua provecta idade de nonagenário!

Figura notável, companheiro dos intelectuais
de Saint-Germain-des-Près, desde Albert Camus,
a Boris Vian, Juliette Greco e outros.





Conhecido como o "Voltaire do Nilo" :)
a sua prosa cuidada, rigorosa, expressiva,
transporta-nos para esse mundo subjugado
pela pobreza, a degradação e a miséria
da milenária cidade de Al-Qahira, no
Egipto pré e pós-revolucionário
de Abdel Nasser.