maio 05, 2010

(continuação 3)

«Hordas de migrantes vindas de todas as províncias
— cheias de ilusões dementes sobre a prosperidade
de uma capital transformada em formigueiro —
tinham-se aglutinado com a população autóctone
e praticavam um nomadismo urbano
de um pitoresco desastroso.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«Hordas de migrantes vindas de todas as províncias...»

maio 04, 2010

(continuação 2)

«Impermeável ao drama e à desolação, esta chusma de gente
carreava uma espantosa variedade de personagens
pacificadas pela sua ociosidade;

operários sem trabalho, artesãos sem clientela,
intelectuais desinteressados da glória,
funcionários administrativos expulsos
das repartições por falta de cadeiras,

diplomados pela universidade vergados ao peso
de uma ciência estéril, enfim, os eternos trocistas,
filósofos amorosos da sombra e da quietude que dela emana,
para quem a deterioração espectacular da sua cidade
tinha sido especialmente concebida para
lhes aguçar o espírito crítico.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«... uma espantosa variedade de personagens
pacificadas pela sua ociosidade...»

«... funcionários administrativos expulsos
das repartições por falta de cadeiras...»

«... enfim, os eternos trocistas, filósofos amorosos
da sombra e da quietude que dela emana...»

maio 03, 2010

(continuação 1)

«Dir-se-ia que todos estes passeantes estóicos
sob a avalanche incandescente de um sol em fusão
mantinham, na sua vagabundagem infatigável,
uma benévola cumplicidade com o inimigo
invisível que minava os alicerces e
as estruturas de uma capital
outrora resplandecente.»

(continua)

Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«... o inimigo invisível que minava os alicerces e
as estruturas de uma capital outrora resplandecente.»

maio 02, 2010

«A MULTIDÃO HUMANA que deambulava ao ritmo descuidado
de um vaguear estival pelos passeios intransitáveis
da cidade milenária de Al Qahira, parecia
acomodar-se com serenidade, e até com
um certo cinismo, à degradação
incessante e irreversível
que a rodeava.»

(continua)



Albert Cossery, As cores da infâmia,
(«Les couleurs de l’infamie», 1999),
trad. Ernesto Sampaio, Antígona, Lisboa, 2000

«... à degradação incessante e irreversível que a rodeava»

maio 01, 2010

Ando a ler, deliciado, os sete ou oito romances
escritos por Albert Cossery ao longo da sua vida
de emigrado em Paris até à sua morte, há já uns
dois anos, na sua provecta idade de nonagenário!

Figura notável, companheiro dos intelectuais
de Saint-Germain-des-Près, desde Albert Camus,
a Boris Vian, Juliette Greco e outros.





Conhecido como o "Voltaire do Nilo" :)
a sua prosa cuidada, rigorosa, expressiva,
transporta-nos para esse mundo subjugado
pela pobreza, a degradação e a miséria
da milenária cidade de Al-Qahira, no
Egipto pré e pós-revolucionário
de Abdel Nasser.

abril 29, 2010


.........«Pode dizer-se que um cubo sem qualquer
.........duração tem existência real?»


H.G. Wells, A Máquina do Tempo

abril 27, 2010


foto in blog rosaletrista

«As palavras não têm a ver com
as sensações. Palavras são pedras
duras e as sensações delicadíssimas,
fugazes, extremas.»


Clarice Lispector (1925-77), Para Não Esquecer,
in # 53 “Brasília”, Ática, S. Paulo, 1979

abril 26, 2010

Planetary Nebula Mz3: The Ant Nebula


S.Prokofiev - A.Vedernikov. Pushkin waltz No.2.

abril 25, 2010

abril 23, 2010



# 15 “Acabou de sair”

Sua enorme inteligência compreensiva,
aquele seu coração vazio de mim,
que precisa de eu ser admirável
para poder me admirar.

Minha grande altivez:
prefiro ser achada na rua.
Do que neste fictício palácio
onde não me acharão porque
— porque mando dizer que não estou,
“ela acabou de sair”

:))

Clarice Lispector (1925-77), Para Não Esquecer,
Ática, S. Paulo, 1979

abril 21, 2010



Nada mais seguro do que um bairro
Destruído. Que podem sobre ele
Taxas, bombas, traficantes, polícias
E sinos dobrando pelos mortos?
Não ouses, suplico-te, com teus
Instantâneos, Elvira, louvar as
Ruínas. Honra as conquistas do
Deserto. Não sei explicar. Vejo
As ruínas como imagem pura
Do encadeamento dos actos.
Pelo contrário, o deserto clama
Pelo encadeado dos elos.



Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.141

abril 18, 2010


Poema para uma pintura de Egon Schiele in Dias Imperfeitos

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

abril 17, 2010



«Quando Pedro me fala sobre Paulo,
sei mais de Pedro que de Paulo.»

abril 15, 2010



Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Camilo Pessanha