«Nunca tinha visto a alta sociedade senão através da febre da sua inveja, imaginava-a como se fosse uma criação artificial, que funcionava em virtude de leis matemáticas. Um convite para jantar, o encontro com um homem bem colocado, o sorriso de uma linda mulher podiam, através de uma série de acções, umas deduzidas das outras, levá-lo a obter resultados fabulosos.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p.70
«Eu gostava de tribunais marciais para amordaçar os jornalistas! À mínima insolência, levados a conselho de guerra! E toca a andar!
- Oh! Tome cautela [ ] - não ataque as nossas preciosas conquistas [ ].
Respeitemos as nossas liberdades. Era necessário sobretudo descentralizar, repartir o excedente das cidades pelos campos [ ] Todo o mal estava naquele desejo moderno de as pessoas se quererem elevar acima da sua classe, terem luxo.
- Contudo - objectou um industrial - o luxo favorece o comércio.»
:)
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p.132
«Como os negócios estavam parados, a inquietação e a basbaquice traziam toda a gente para a rua. O desmazelo dos fatos atenuava a diferença das classes sociais, o ódio ocultava-se, as esperanças exibiam-se, a multidão andava com ar tranquilo.
O orgulho de um direito conquistado resplandecia nos rostos. Sentia-se uma alegria de Carnaval, ambiente de acampamento; nada foi tão divertido como o aspecto de Paris, naqueles primeiros dias.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p.238
«E, depois disto tudo, ainda havia o Socialismo! Embora tais teorias, tão recentes como o jogo da glória, tivessem sido nos últimos quarenta anos suficientemente combatidas para encher bibliotecas, assustaram os burgueses, como uma saraivada de aeróltios; sentiu-se indignação, em virtude do ódio que provoca o advento de qualquer ideia só porque é uma ideia, execração de onde retira mais tarde a glória, e que faz com que os seus inimigos fiquem sempre debaixo dela, por mais medíocre que ela possa ser.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p. 239
«… e, em toda a parte, os inquilinos diziam mal dos proprietários, a bata atirava-se à casaca e os ricos conspiravam contra os pobres. Alguns exigiam indemnizações como antigos mártires da polícia, outros imploravam dinheiro para lançarem invenções, projectos de bazares cantonais, sistemas de felicidade pública; [ ] Por vezes também, aparecia um cavalheiro, um aristocrata, com modos humildes, dizendo coisas plebeias, e que não tinha lavado as mãos para as fazer parecer calejadas. Um patriota reconhecia-o, os mais virtuosos insultavam-no; e ele saia com a alma cheia de raiva.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p. 243
«Sentir-se agoniado com a vulgaridade dos rostos, as tolices das conversas, a satisfação imbecil que transpirava daquelas testas cheias de suor! No entanto, a consciência de valer mais do que estes homens compensava-o do cansaço de os observar.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p.59
«A queda da monarquia tinha sido tão rápida que, passada a primeira estupefacção, houve entre os burgueses como que um espanto por ainda estarem vivos.
A execução sumária de alguns ladrões, fuzilados sem julgamento, pareceu uma coisa muito justa.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p.237
«… contou o seu fracasso, e pouco a pouco os seus trabalhos, a sua existência, falando estoicamente de si próprio e dos outros com azedume.»
Gustave Flaubert, A Educação Sentimental («L'Éducation Sentimentale», 1869) Trad. João Costa, Relógio d'Água, Lisboa, 2008, p.95
fevereiro 15, 2010
«Compreendi então o que significava toda a beleza dos habitantes do Mundo Superior. Muito agradável era o seu dia, tão agradável quanto o dia do gado no pasto. E como o gado, não conheciam inimigos e não se precaviam contra as necessidades. E o fim era o mesmo. [ ] Sofri só de pensar como fora fugaz o sonho do intelectual. [ ] Existe uma lei da Natureza que ignoramos, que a versatilidade intelectual é a compensação pela mudança, o perigo, os problemas. Um animal em perfeita harmonia com o seu meio envolvente é um mecanismo perfeito. A Natureza nunca apela à inteligência senão quando o hábito e o instinto se tornam irrelevantes. Não existe inteligência onde não existir mudança nem necessidade de mudança.»
H.G. Wells, A Máquina do Tempo («The Time Machine», 1865), Trad. Maria Georgina Segurado, Public. Europa-América, Lisboa, 1992, p. 81-2
fevereiro 14, 2010
Lembrando a crítica demolidora do jornalismo manipulatório:
e seus deploráveis discípulos
«Num tom acusatório e à revelia da ética da cidadania que nos dita a consideração e a boa-fé perante os entrevistados, ambas [Judite e Clara de Sousa, da RTP e da SIC] adoptaram como forma de entrevistar o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o recurso a perguntas insistentes e manipulatórias que visavam a obtenção de respostas que, para si-próprias, pareciam pré-definidas como ideais, no sentido de virem a corroborar afirmações lesivas da Justiça e da lisura da actuação de Noronha do Nascimento.
Os tele-espectadores puderam assim assistir a um lamentável episódio da comunicação social portuguesa muito mais evidente do que a alegada falta de liberdade de imprensa...»
A alegria das coisas não é a posse mas a semelhança delas com os nossos dedos. Nem as coisas têm forma própria mas a que lhes dá a mão, usando-as
(fiama hasse pais brandão)
fevereiro 07, 2010
Imagem: Stuelpnagel, D. s/ título (2002) Vídeo: Ella Fitzgerald, What is this thing called love Origem: Blog Branco no Branco Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castíssimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis, Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
«… não é o mesmo feixe de trigo que nasce da semente. É outro, um novo feixe de trigo, o que indica que a nossa imortalidade está realmente entre as nossas pernas.
A nossa semente faz realmente um novo homem, mas ele não é nós. O filho não é o pai. O pai é enterrado e esse é o seu fim.
O filho é um homem diferente que um dia fará outro homem e assim sucessivamente, talvez para sempre; porém, a consciência individual termina.»
Gore Vidal, Juliano (1962), trad. Carlos Leite, P. Dom Quixote, Lisboa, 1990, p.152
«Alguns perguntaram: criámos estes deuses ou foram eles que nos criaram?
É uma discussão muito antiga. Somos um sonho da divindade ou cada um de nós um sonhador separado, que evoca a sua própria realidade?
Embora não haja uma certeza, todos os nossos sentidos nos dizem que existe uma única criação e que estamos contidos nela para sempre.
Ora, os cristãos impõem um mito final e rígido àquilo que sabemos ser variado e estranho. Nem sequer um mito, pois o Nazareno existiu em carne e osso.
Ao passo que os deuses que adoramos nunca foram homens; são, em vez disso, qualidades e poderes, que se transformaram em poesia para nossa edificação.
Com o culto do judeu morto, a poesia acabou.
Os cristãos desejam substituir as nossas belas lendas pelo cadastro policial de um rabi reformista.
Com esse material impossível esperam fazer uma síntese definitiva de todas as religiões conhecidas.
Agora apropriam-se dos nossos dias festivos. Transformam divindades locais em santos. Tiram bocados aos nossos ritos de mistério, Especialmente aos de Mitra.
Os sacerdotes de Mitra são chamados «pais», «padres». Então os cristãos chamam aos seus sacerdotes padres. Imitam inclusivamente a tonsura, esperando impressionar os conversos com os adornos dum culto antigo.
Agora começam a chamar ao nazareno «salvador» e «aquele que cura». Porquê? Porque um dos nossos deuses mais amados é Asclépio, A quem chamamos «salvador» e «aquele que cura».»
Gore Vidal, Juliano (1962), P. Dom Quixote, Lisboa, 1990, pp. 82-3
A seita dos cristãos, como muitas outras do médio oriente, espalhou-se por Roma, capital do império, e granjeou seguidores pelo zelo dos seus prosélitos.
Perseguida, erradicada para o submundo das catacumbas, conseguiu no entanto alguns adeptos nas legiões de Roma. Só no iv século, Constantino oficializou a religião cristã.
Os bispos rapidamente se instalaram nas cadeias de comando do Império, e o Solstício de Inverno, uma das principais festas celebradas no mundo antigo,
logo se transmutou na festa da Natividade do profeta Jesus Cristo,
aquele que veio estender a religião monoteísta do "povo eleito" a todo o Império Romano!
de onde o ciclo da natureza dos campos inertes durante o Inverno, — em protesto recorrente de Deméter por a filha ausente —, e fecundos no Verão, com o regresso de Perséfona!
Então, Apolo terá intermediado um acordo entre Deméter, Plutão e Júpiter de modo a que, durante seis meses por ano, Perséfona ficava nas profundezas subterrâneas com Plutão, e os outros seis meses regressava ao convívio da mãe Deméter!
Mas, Júpiter não tinha poder de contrariar nenhum dos Doze — em que se incluía Deméter. Assim, toda a Terra foi levada ao desastre e os homens pereciam de fome.
O mito de Perséfona e Deméter está ligado ao solstício de Inverno.
Diz-se que Deméter ao regressar à gruta, perante a filha desaparecida — raptada por um dos doze Deuses do Olimpo, Plutão — ameaçou Júpiter de não mais dispensar os seus cuidados à agricultura!
Perséfona: — Ó flor maravilhosa, de perfume excitante, o meu coração palpita, meus dedos ardem a colher-te. Quero aspirar-te, encostar-te aos meus lábios, pousar-te no meu peito,
Eros: — Os homens chamam-lhe Narciso; mas eu chamo-lhe Desejo. Vê, como ela te contempla, se vira para ti. As suas brancas pétalas estremecem como vivas; do seu coração de ouro escapa um perfume que enche o ar de volúpia.
Assim que chegares esta flor ao teu rosto, verás num quadro imenso e maravilhoso, os monstros do abismo.
Perséfona: — Oh! que flor admirável! Faz tremer e surgir no meu coração uma recordação divina…
Às vezes, adormecida no cume de um astro amado, que doura um poente eterno, no meu sonho, vejo, sobre a púrpura do horizonte, flutuar uma estrela de prata no seio róseo do céu verde pálido.
Parecia-me então que seria o facho do esposo imortal, promessa dos Deuses, do divino Dionisos.
Mas a estrela caía, caía … e o facho apagava-se ao longe. — Essa flor maravilhosa parece-se com essa estrela.
«O Tratado da Reforma do Entendimento que aqui te oferecemos inacabado, benévolo leitor, foi escrito pelo autor, já lá vão muitos anos. Sempre esteve na sua tenção terminá-lo: porém, impedido por outras ocupações e, por fim, arrebatado pela morte, não o pode levar ao fim desejado. Todavia, porque contém muitas coisas belas e úteis, que serão — não duvidamos — de grande interesse para quem perscruta a verdade não quisemos privar-te delas. Além disso, para não te ser difícil desculpar o muito de obscuro, mal acabado e deselegante que aqui e acolá se encontra, e para não o ignorares, quisemos deixar-te esta Advertência. Adeus.»
Eros: — Todos; e tu o vês, não deixo de ser o mais novo e o mais ágil. Ó filha dos Deuses, o abismo tem terrores e calafrios que o céu ignora; mas não compreende o céu quem não atravessou a terra e os infernos.
Perséfona (séria): — A minha augusta e sábia mãe proibiu-mo. «Não escutes a voz de Eros, disse-me, não colhas as flores do prado. Senão, serás a mais miserável das Imortais!»
Eros: — De boa vontade, eis-me ao teu lado e aos teus pés. Que véu maravilhoso! Parece que mergulhou no azul dos teus olhos. Que figuras admiráveis bordaste com as tuas mãos, menos belas contudo que a divina bordadeira, que nunca se contemplou a si própria num espelho. (Sorri maliciosamente.)
Perséfona (volta a sentar-se): — Dizem que és manhoso e o teu rosto é a própria inocência; dizem-te todo poderoso e pareces um frágil adolescente; dizem-te traiçoeiro, e quanto mais te olho nos olhos, mais o meu coração desabrocha, e mais confiança sinto por ti, belo jovem alegre. Dizem que és sábio e hábil. Podes ajudar-me a bordar este véu?
Perséfona (tira as mãos do rosto, que mudou de expressão; sorri através das lágrimas): — Patetas que sois! Insensata que eu era! Lembro-me agora, ouvi-o dizer nos mistérios olímpicos: Eros é o mais belo dos Deuses;
sobre um carro alado preside às evoluções dos Imortais, na mistura das primeiras essências.
É ele que conduz os homens ousados, os heróis, do fundo do Caos aos cumes do Éter. Ele sabe tudo; como o Príncipe-Fogo, atravessa os mundos e tem as chaves do céu e da terra! Quero vê-lo!
O coro: — Oh! Virgem divina, não é senão um sonho, mas tomará conta do teu corpo, e tornar-se-á uma realidade inelutável, e o teu céu desaparecerá como um sonho vão, se tu cedes ao teu desejo culpável.
Obedece a esse aviso saudável, retoma a tua agulha e tece o teu véu. Esquece o astucioso, o impudente, o criminoso Eros!
Perséfona - (com os olhos fixos no vazio e cheios de espanto): — Será uma recordação? Será um pressentimento terrível? O Caos… os homens…. o abismo das gerações, o grito das paridelas, os clamores furiosos do ódio e da guerra… a agonia da morte!
Compreendo, vejo tudo isso, e esse abismo atrai-me, toma-me, preciso sair.
Eros nele me mergulha com a sua tocha incendiária. Ah! vou morrer! Para longe este sonho horrível! (Cobre o rosto com as mãos e soluça.)