A alegria das coisas não é a posse mas a semelhança delas com os nossos dedos. Nem as coisas têm forma própria mas a que lhes dá a mão, usando-as
(fiama hasse pais brandão)
fevereiro 07, 2010
Imagem: Stuelpnagel, D. s/ título (2002) Vídeo: Ella Fitzgerald, What is this thing called love Origem: Blog Branco no Branco Se eu não morresse, nunca! E eternamente Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! Esqueço-me a prever castíssimas esposas, Que aninhem em mansões de vidro transparente!
Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis, Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
«… não é o mesmo feixe de trigo que nasce da semente. É outro, um novo feixe de trigo, o que indica que a nossa imortalidade está realmente entre as nossas pernas.
A nossa semente faz realmente um novo homem, mas ele não é nós. O filho não é o pai. O pai é enterrado e esse é o seu fim.
O filho é um homem diferente que um dia fará outro homem e assim sucessivamente, talvez para sempre; porém, a consciência individual termina.»
Gore Vidal, Juliano (1962), trad. Carlos Leite, P. Dom Quixote, Lisboa, 1990, p.152
«Alguns perguntaram: criámos estes deuses ou foram eles que nos criaram?
É uma discussão muito antiga. Somos um sonho da divindade ou cada um de nós um sonhador separado, que evoca a sua própria realidade?
Embora não haja uma certeza, todos os nossos sentidos nos dizem que existe uma única criação e que estamos contidos nela para sempre.
Ora, os cristãos impõem um mito final e rígido àquilo que sabemos ser variado e estranho. Nem sequer um mito, pois o Nazareno existiu em carne e osso.
Ao passo que os deuses que adoramos nunca foram homens; são, em vez disso, qualidades e poderes, que se transformaram em poesia para nossa edificação.
Com o culto do judeu morto, a poesia acabou.
Os cristãos desejam substituir as nossas belas lendas pelo cadastro policial de um rabi reformista.
Com esse material impossível esperam fazer uma síntese definitiva de todas as religiões conhecidas.
Agora apropriam-se dos nossos dias festivos. Transformam divindades locais em santos. Tiram bocados aos nossos ritos de mistério, Especialmente aos de Mitra.
Os sacerdotes de Mitra são chamados «pais», «padres». Então os cristãos chamam aos seus sacerdotes padres. Imitam inclusivamente a tonsura, esperando impressionar os conversos com os adornos dum culto antigo.
Agora começam a chamar ao nazareno «salvador» e «aquele que cura». Porquê? Porque um dos nossos deuses mais amados é Asclépio, A quem chamamos «salvador» e «aquele que cura».»
Gore Vidal, Juliano (1962), P. Dom Quixote, Lisboa, 1990, pp. 82-3
A seita dos cristãos, como muitas outras do médio oriente, espalhou-se por Roma, capital do império, e granjeou seguidores pelo zelo dos seus prosélitos.
Perseguida, erradicada para o submundo das catacumbas, conseguiu no entanto alguns adeptos nas legiões de Roma. Só no iv século, Constantino oficializou a religião cristã.
Os bispos rapidamente se instalaram nas cadeias de comando do Império, e o Solstício de Inverno, uma das principais festas celebradas no mundo antigo,
logo se transmutou na festa da Natividade do profeta Jesus Cristo,
aquele que veio estender a religião monoteísta do "povo eleito" a todo o Império Romano!
de onde o ciclo da natureza dos campos inertes durante o Inverno, — em protesto recorrente de Deméter por a filha ausente —, e fecundos no Verão, com o regresso de Perséfona!
Então, Apolo terá intermediado um acordo entre Deméter, Plutão e Júpiter de modo a que, durante seis meses por ano, Perséfona ficava nas profundezas subterrâneas com Plutão, e os outros seis meses regressava ao convívio da mãe Deméter!
Mas, Júpiter não tinha poder de contrariar nenhum dos Doze — em que se incluía Deméter. Assim, toda a Terra foi levada ao desastre e os homens pereciam de fome.
O mito de Perséfona e Deméter está ligado ao solstício de Inverno.
Diz-se que Deméter ao regressar à gruta, perante a filha desaparecida — raptada por um dos doze Deuses do Olimpo, Plutão — ameaçou Júpiter de não mais dispensar os seus cuidados à agricultura!
Perséfona: — Ó flor maravilhosa, de perfume excitante, o meu coração palpita, meus dedos ardem a colher-te. Quero aspirar-te, encostar-te aos meus lábios, pousar-te no meu peito,
Eros: — Os homens chamam-lhe Narciso; mas eu chamo-lhe Desejo. Vê, como ela te contempla, se vira para ti. As suas brancas pétalas estremecem como vivas; do seu coração de ouro escapa um perfume que enche o ar de volúpia.
Assim que chegares esta flor ao teu rosto, verás num quadro imenso e maravilhoso, os monstros do abismo.
Perséfona: — Oh! que flor admirável! Faz tremer e surgir no meu coração uma recordação divina…
Às vezes, adormecida no cume de um astro amado, que doura um poente eterno, no meu sonho, vejo, sobre a púrpura do horizonte, flutuar uma estrela de prata no seio róseo do céu verde pálido.
Parecia-me então que seria o facho do esposo imortal, promessa dos Deuses, do divino Dionisos.
Mas a estrela caía, caía … e o facho apagava-se ao longe. — Essa flor maravilhosa parece-se com essa estrela.
«O Tratado da Reforma do Entendimento que aqui te oferecemos inacabado, benévolo leitor, foi escrito pelo autor, já lá vão muitos anos. Sempre esteve na sua tenção terminá-lo: porém, impedido por outras ocupações e, por fim, arrebatado pela morte, não o pode levar ao fim desejado. Todavia, porque contém muitas coisas belas e úteis, que serão — não duvidamos — de grande interesse para quem perscruta a verdade não quisemos privar-te delas. Além disso, para não te ser difícil desculpar o muito de obscuro, mal acabado e deselegante que aqui e acolá se encontra, e para não o ignorares, quisemos deixar-te esta Advertência. Adeus.»
Eros: — Todos; e tu o vês, não deixo de ser o mais novo e o mais ágil. Ó filha dos Deuses, o abismo tem terrores e calafrios que o céu ignora; mas não compreende o céu quem não atravessou a terra e os infernos.
Perséfona (séria): — A minha augusta e sábia mãe proibiu-mo. «Não escutes a voz de Eros, disse-me, não colhas as flores do prado. Senão, serás a mais miserável das Imortais!»
Eros: — De boa vontade, eis-me ao teu lado e aos teus pés. Que véu maravilhoso! Parece que mergulhou no azul dos teus olhos. Que figuras admiráveis bordaste com as tuas mãos, menos belas contudo que a divina bordadeira, que nunca se contemplou a si própria num espelho. (Sorri maliciosamente.)
Perséfona (volta a sentar-se): — Dizem que és manhoso e o teu rosto é a própria inocência; dizem-te todo poderoso e pareces um frágil adolescente; dizem-te traiçoeiro, e quanto mais te olho nos olhos, mais o meu coração desabrocha, e mais confiança sinto por ti, belo jovem alegre. Dizem que és sábio e hábil. Podes ajudar-me a bordar este véu?
Perséfona (tira as mãos do rosto, que mudou de expressão; sorri através das lágrimas): — Patetas que sois! Insensata que eu era! Lembro-me agora, ouvi-o dizer nos mistérios olímpicos: Eros é o mais belo dos Deuses;
sobre um carro alado preside às evoluções dos Imortais, na mistura das primeiras essências.
É ele que conduz os homens ousados, os heróis, do fundo do Caos aos cumes do Éter. Ele sabe tudo; como o Príncipe-Fogo, atravessa os mundos e tem as chaves do céu e da terra! Quero vê-lo!
O coro: — Oh! Virgem divina, não é senão um sonho, mas tomará conta do teu corpo, e tornar-se-á uma realidade inelutável, e o teu céu desaparecerá como um sonho vão, se tu cedes ao teu desejo culpável.
Obedece a esse aviso saudável, retoma a tua agulha e tece o teu véu. Esquece o astucioso, o impudente, o criminoso Eros!
Perséfona - (com os olhos fixos no vazio e cheios de espanto): — Será uma recordação? Será um pressentimento terrível? O Caos… os homens…. o abismo das gerações, o grito das paridelas, os clamores furiosos do ódio e da guerra… a agonia da morte!
Compreendo, vejo tudo isso, e esse abismo atrai-me, toma-me, preciso sair.
Eros nele me mergulha com a sua tocha incendiária. Ah! vou morrer! Para longe este sonho horrível! (Cobre o rosto com as mãos e soluça.)
janeiro 02, 2010
Advertido pelo que do filme disse analima dos Dias Imperfeitos, fui ver Parlez-moi de la pluie de Agnès Jaoui com Jean-Pierre Bacri, ambos judeus, franceses, ela natural da Tunísia, ele da Argélia.
Já conhecia J.-P. Bacri do notável filme Le goût des autres e esperei assim um belo momento de cinema: - e foi! Talvez não perdesse em ser um pouco mais intelectualizado...
mas é realmente uma estória singela contada com grande maestria, graça e beleza.
:))
- Sem dúvida, aquele repórter cinematográfico conseguia pôr à vontade os entrevistados.
Só era desastroso, por afinal, não os conseguir sequer filmar!
Perséfona (levanta-se e afasta o véu): — Eros! O mais antigo e contudo o mais jovem dos Deuses, fonte inesgotável de alegria e choro — pois, assim me falaram de ti — deus terrível,
o único desconhecido e invisível dos Imortais, o único desejável, misterioso Eros!
que perturbação, que vertigem me assalta ao teu nome!
O coro das ninfas: — Ó Perséfona! Ó Virgem, Ó casta noiva do Céu, que bordas as figuras dos Deuses no teu véu, possas tu nunca conhecer as ilusões vãs e os inúmeros males da terra.
A eterna Verdade sorri-te. O Teu esposo celeste, Dionisos, espera-te no Empíreo. Por vezes ele aparece-te sob a forma de um sol longínquo; seus raios acariciam-te; respira o teu sopro e bebes a sua luz…
Antecipadamente, vós vos possuís!… Ó Virgem, quem é mais feliz do que tu?
Perséfona: — Sim, mãe augusta e respeitável, por essa luz que te envolve e que me é cara, prometo-o, e que os Deuses me castiguem se não cumprir o meu juramento.
Deméter: — Filha amada dos Deuses, conserva-te nesta gruta até eu regressar e borda o meu véu.
O céu é a tua pátria e o universo é teu. Tu vês os Deuses; eles acorrem à tua chamada.
Mas não escutes a voz de Eros, o ardiloso, de olhar suave e pérfidos conselhos.
Guarda-te de sair da gruta e nunca colhas as sedutoras flores da terra; o seu perfume perturbador e funesto far-te-ia perder a luz do sol e até a memória.
Borda o meu véu e sê feliz até ao meu regresso com as ninfas tuas companheiras.
Então, no meu carro de fogo, atrelado de serpentes, levar-te-ei aos esplendores do Éter, sob a via láctea.
Hermes: — Deméter dá-nos dois presentes maravilhosos: os frutos, para que não vivamos como os animais e a iniciação que dá uma esperança mais doce a todos que nela participam.
Prestai atenção às palavras que ides ouvir e às coisas que ides ver.
Chegavam dois a dois, a uma clareira. Ao fundo viam-se rochas e uma gruta. Á frente, um prado com ninfas deitadas em volta de uma fonte.
Ao fundo da gruta, avistava-se Perséfona, sentada num trono, nua até à cintura como uma Psiqué, o seu busto esbelto emergindo casto de uma túnica enrolada como um vapor de azul nos seus flancos.
Ela parecia feliz, inconsciente da sua beleza e bordando um longo véu de fios multicores.
Deméter, sua mãe, está de pé, perto dela, com o ceptro na mão.
«Ó aspirantes dos Mistérios, eis que estais na morada de Proserpina. Tudo que ides ver, vai surpreender-vos. Aprendereis que a vida presente não é mais do que um manto de sonhos mentirosos e confusos.
O sono que vos envolve numa zona de trevas, arrasta os vossos sonhos e os vossos dias na sua corrente, como nuvens passageiras que se desfazem ao olhar.
Mas no além, estende-se uma zona de luz eterna.
Que Perséfona vos seja propícia e ela mesmo vos ensine a franquear o rio das trevas e a penetrar até à Deméter Celeste.»
Em 2009, o Solstício de Inverno ocorre no dia 21 de Dezembro às 17h47m. Este instante marca o início do Inverno no Hemisfério Norte, a estação mais fria do ano, que se prolonga por 88,99 dias. A Primavera chegará com o próximo Equinócio, no dia 20 de Março de 2010 às 17h32m.
Os solstícios (em Junho e Dezembro) são os pontos da eclíptica em que o Sol atinge as posições máxima e mínima de altura em relação ao equador, isto é, pontos em que a declinação do Sol atinge extremos: máxima no solstício de Verão e mínima no solstício de Inverno.