março 21, 2010



» As pequenas amostras de pano voltaram a impressionar-me
e notei que quanto maiores eram menos os que as usavam se
interessavam pelas bolhas. Esta observação singular encorajou-me
a abordar aquele que me pareceu menos despido.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 20, 2010



» — Onde estou? — perguntei a mim mesmo, confuso
com estas puerilidades. — Que quer dizer este soprador
com as suas bolhas e todas estas crianças decrépitas
ocupadas em fazê-las voar? Quem me explicará estas
coisas?...

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 19, 2010



Molhava, numa taça cheia de um fluido
subtil, uma palha que levava à boca
e soprava bolhas a uma multidão
de espectadores que o
rodeavam e se
reforçavam

por projectá-las até às nuvens.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 18, 2010



Cem vezes tremi pela personagem que a ocupava.
Era um velho de longa barba, tão seco e mais nu
do que qualquer outro dos seus discípulos.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 17, 2010



» Continuo a romper pela multidão e chego junto de uma tribuna a que uma grande teia de aranha servia de dossel. Aliás, a sua ousadia correspondia à do edifício. Pareceu-me assente como na ponta de uma agulha e manter-se aí em equilíbrio.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 16, 2010



Apesar de todos estes defeitos, agradavam à primeira vista. Tinham na fisionomia um não sei quê de interessante e ousado. Estavam quase nus, porquanto todo o seu vestuário consistia num bocado de pano que não lhes cobria a centésima parte do corpo.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 15, 2010



» Eram velhos ou balofos ou esguios, sem bom aspecto e sem força e quase todos disformes. Um tinha a cabeça demasiado pequena, outro os braços demasiado curtos. Este pecava pelo corpo, aquele pelas pernas. A maioria não tinha pés e usava muletas. Uma aragem fazia-os cair e ficavam no chão até que um recém-chegado qualquer se lembrasse de os levantar.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 14, 2010



» Foi à entrada deste edifício que a minha montada parou. Hesitei em pôr pé em terra, dado que considerava menos arriscado rodopiar no meu hipogrifo do que passear debaixo daquele pórtico. Contudo, encorajado pela multidão dos que o habitavam e por uma segurança notável que reinava em todos os rostos, desmonto, avanço, lanço-me na turba e observo os que a constituíam.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 13, 2010



» A corrida fora demorada, quando notei, no vazio do espaço, um edifício suspenso como por encanto. Era grande. Não direi que pecasse pelos alicerces, porquanto não assentava em nada. As colunas, que não tinham meio pé de diâmetro, elevavam-se a perder de vista e sustentaval abóbodas que só se distinguiam graças às frestas que nelas se abriam simetricamente


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 12, 2010



» Começava a adormecer e a minha imaginação a levantar voo, quando vi saltar ao meu lado um animal singular. Tinha cabeça de águia, pés de grifo, corpo de cavalo e cauda de leão. Apanhei-o, apesar das suas curvetas, e, agarrando-me às crinas, saltei-lhe lestamente para o dorso. Imediatamente desdobrou as compridas asas e senti-me transportado nos ares com uma rapidez incrível.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 11, 2010

CAPÍTULO XXXII — TALVEZ O MELHOR E O MENOS LIDO
.....................................DESTA HISTÓRIA


SONHO DE MANGOGUL OU VIAGEM À REGIÃO DAS HIPÓTESES



— Ai! — disse Mangogul, bocejando e esfregando os olhos —, dói-me a cabeça. Que não me falem mais de filosofia; essas conversas são doentias. Ontem, deitei-me com ideias ocas e, em vez de dormir como um sultão, o meu cérebro trabalhou mais do que os dos seus ministros trabalharão num ano. Achais graça? Mas, para vos convencer que não exagero e de me vingar da má noite que os vossos raciocínios me provocaram, ides suportar o meu sonho do princípio ao fim.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 09, 2010


imagem aqui

««Assim», disse ele num tom de conversa figurativa, «você,
Aqui presente, não existe»
. O outro não se assustou, julgando
Impropriamente que estavam apenas a chamá-lo à razão
(Hipotética) de um outro. Mas o facto é que, naquele momento,
Por um efeito marcial directo do que fora dito, desapareceu.
Para o homem especulativo impunha-se provar a congruência
Do sucedido mas, tu, Literatura, sabes que a ocorrência é um
Típico percalço de personagem. O escritor não disse?»

:)

Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.204

março 08, 2010


imagem in blog Miluzinha

«Agora que ele começa onde ela principia,
Que fazer de dois hetero-humanos que se
Iniciam?



Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.97

março 07, 2010


img in here

«Um sistema metafísico é o conhecimento pela razão
pura das coisas em si. Antes de o constituir,
tem de investigar-se o que pode conhecer
o entendimento e a razão,

independentemente de toda a experiência.


Essa é a tarefa da Crítica da Razão Pura:
criticar, encontrar os limites de todo
o conhecimento puro, a priori, isto é,

independentemente de qualquer experiência.»

In prefácio da tradução portuguesa à Crítica da Razão Pura,
edição da F. C. Gulbenkian por A. Fradique Morujão (p. x)

março 06, 2010

A Educação Sentimental



«As pessoas refugiam-se no medíocre,
em desespero de não terem o belo
com que sonharam!»

«On se réfugie dans le médiocre,
par désespoir du beau qu'on a revê!»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.217

março 05, 2010

A Educação Sentimental



«Nuvens sombrias corriam na face da Lua.
Contemplou-a, pensando na grandeza
dos espaços, na miséria da vida,
no nada de tudo.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.67

março 04, 2010

A Educação Sentimental



«Seguiu-se toda a espécie de ditos: trocadilhos,
anedotas, gabarolices, apostas, mentiras sustentadas
como verdades, asserções improváveis, um tumulto
de palavras que depressa degenerou
em conversas particulares.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.104

março 03, 2010

A Educação Sentimental



«O republicano [Sénécal] governava-os [os operários]
com mão de ferro. Homem de teoria, apenas
tinha consideração pelas massas
e mostrava-se implacável
para os indivíduos.»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.162

março 02, 2010

A Educação Sentimental



«No entanto — objectou Martinon — a miséria existe,
confessemo-lo! Mas o remédio não depende
nem da Ciência nem do Poder.
É uma questão puramente individual.

Quando as classes baixas se quiserem libertar
dos seus vícios, ultrapassarão as suas necessidades.
Que o povo seja mais moral, e será menos pobre!»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.194

março 01, 2010

A Educação Sentimental


«As residências reais conservam uma melancolia especial,
que tem sem dúvida a ver, com as suas excessivas dimensões
face ao reduzido número de hóspedes, com o silêncio
que surpreendentemente encontramos aí, depois
de tantas fanfarras, com o seu luxo imóvel
a provar, pela sua velhice,

a fugacidade das dinastias,
a eterna miséria de tudo
;


e esta exaltação dos séculos,
entorpecente e fúnebre
como um perfume de múmia,
faz-se sentir mesmo nas
cabeças ingénuas.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.260