março 12, 2010



» Começava a adormecer e a minha imaginação a levantar voo, quando vi saltar ao meu lado um animal singular. Tinha cabeça de águia, pés de grifo, corpo de cavalo e cauda de leão. Apanhei-o, apesar das suas curvetas, e, agarrando-me às crinas, saltei-lhe lestamente para o dorso. Imediatamente desdobrou as compridas asas e senti-me transportado nos ares com uma rapidez incrível.


Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 11, 2010

CAPÍTULO XXXII — TALVEZ O MELHOR E O MENOS LIDO
.....................................DESTA HISTÓRIA


SONHO DE MANGOGUL OU VIAGEM À REGIÃO DAS HIPÓTESES



— Ai! — disse Mangogul, bocejando e esfregando os olhos —, dói-me a cabeça. Que não me falem mais de filosofia; essas conversas são doentias. Ontem, deitei-me com ideias ocas e, em vez de dormir como um sultão, o meu cérebro trabalhou mais do que os dos seus ministros trabalharão num ano. Achais graça? Mas, para vos convencer que não exagero e de me vingar da má noite que os vossos raciocínios me provocaram, ides suportar o meu sonho do princípio ao fim.

Denis Diderot, As jóias indiscretas, («Les bijoux indiscrets», 1748)
Publicações Europa-América, Lisboa, 1976, cap. XXXII, pp. 145-9

março 09, 2010


imagem aqui

««Assim», disse ele num tom de conversa figurativa, «você,
Aqui presente, não existe»
. O outro não se assustou, julgando
Impropriamente que estavam apenas a chamá-lo à razão
(Hipotética) de um outro. Mas o facto é que, naquele momento,
Por um efeito marcial directo do que fora dito, desapareceu.
Para o homem especulativo impunha-se provar a congruência
Do sucedido mas, tu, Literatura, sabes que a ocorrência é um
Típico percalço de personagem. O escritor não disse?»

:)

Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.204

março 08, 2010


imagem in blog Miluzinha

«Agora que ele começa onde ela principia,
Que fazer de dois hetero-humanos que se
Iniciam?



Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.97

março 07, 2010


img in here

«Um sistema metafísico é o conhecimento pela razão
pura das coisas em si. Antes de o constituir,
tem de investigar-se o que pode conhecer
o entendimento e a razão,

independentemente de toda a experiência.


Essa é a tarefa da Crítica da Razão Pura:
criticar, encontrar os limites de todo
o conhecimento puro, a priori, isto é,

independentemente de qualquer experiência.»

In prefácio da tradução portuguesa à Crítica da Razão Pura,
edição da F. C. Gulbenkian por A. Fradique Morujão (p. x)

março 06, 2010

A Educação Sentimental



«As pessoas refugiam-se no medíocre,
em desespero de não terem o belo
com que sonharam!»

«On se réfugie dans le médiocre,
par désespoir du beau qu'on a revê!»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.217

março 05, 2010

A Educação Sentimental



«Nuvens sombrias corriam na face da Lua.
Contemplou-a, pensando na grandeza
dos espaços, na miséria da vida,
no nada de tudo.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.67

março 04, 2010

A Educação Sentimental



«Seguiu-se toda a espécie de ditos: trocadilhos,
anedotas, gabarolices, apostas, mentiras sustentadas
como verdades, asserções improváveis, um tumulto
de palavras que depressa degenerou
em conversas particulares.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.104

março 03, 2010

A Educação Sentimental



«O republicano [Sénécal] governava-os [os operários]
com mão de ferro. Homem de teoria, apenas
tinha consideração pelas massas
e mostrava-se implacável
para os indivíduos.»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.162

março 02, 2010

A Educação Sentimental



«No entanto — objectou Martinon — a miséria existe,
confessemo-lo! Mas o remédio não depende
nem da Ciência nem do Poder.
É uma questão puramente individual.

Quando as classes baixas se quiserem libertar
dos seus vícios, ultrapassarão as suas necessidades.
Que o povo seja mais moral, e será menos pobre!»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.194

março 01, 2010

A Educação Sentimental


«As residências reais conservam uma melancolia especial,
que tem sem dúvida a ver, com as suas excessivas dimensões
face ao reduzido número de hóspedes, com o silêncio
que surpreendentemente encontramos aí, depois
de tantas fanfarras, com o seu luxo imóvel
a provar, pela sua velhice,

a fugacidade das dinastias,
a eterna miséria de tudo
;


e esta exaltação dos séculos,
entorpecente e fúnebre
como um perfume de múmia,
faz-se sentir mesmo nas
cabeças ingénuas.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.260

fevereiro 28, 2010

A Educação Sentimental



«Quando a carruagem parava, fazia-se um silêncio
universal; apenas se ouvia o ofegar do cavalo nos varais,
com um grito de pássaro muito fraco, repetido.»


Gustave Flaubert,
A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.261

fevereiro 27, 2010

A Educação Sentimental


Lamartine devant l’Hôtel de Ville de Paris, le 25 février 1848, refuse le drapeau rouge

«O espectáculo mais frequente era o das delegações
de fosse do que fosse, que iam reclamar qualquer
coisa ao Hôtel de Ville, porque cada ofício,
cada indústria esperava do Governo o fim
radical da sua miséria. Alguns, é certo,
aproximavam-se dele para o aconselhar,

ou para o felicitar, ou muito simples-
mente para lhe fazer uma visitinha
e ver como funcionava a máquina.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.238

fevereiro 26, 2010

A Educação Sentimental


«Nunca tinha visto a alta sociedade
senão através da febre da sua inveja,
imaginava-a como se fosse uma criação
artificial, que funcionava em virtude
de leis matemáticas. Um convite para
jantar, o encontro com um homem bem
colocado, o sorriso de uma linda
mulher podiam, através de uma
série de acções, umas deduzidas
das outras, levá-lo a obter
resultados fabulosos.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.70

fevereiro 25, 2010

A Educação Sentimental



«Uns vêem preto, outros azul; a multidão vê parvoíce.»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.44

fevereiro 24, 2010

A Educação Sentimental



«Eu gostava de tribunais marciais
para amordaçar os jornalistas!
À mínima insolência, levados
a conselho de guerra!
E toca a andar!

- Oh! Tome cautela [ ]
- não ataque as nossas
preciosas conquistas [ ].

Respeitemos as nossas liberdades.
Era necessário sobretudo descentralizar,
repartir o excedente das cidades pelos campos
[ ] Todo o mal estava naquele desejo moderno
de as pessoas se quererem elevar acima
da sua classe, terem luxo.

- Contudo - objectou um industrial -
o luxo favorece o comércio.»

:)


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.132

fevereiro 23, 2010

A Educação Sentimental



«Como os negócios estavam parados, a inquietação
e a basbaquice traziam toda a gente para a rua.
O desmazelo dos fatos atenuava a diferença
das classes sociais, o ódio ocultava-se,
as esperanças exibiam-se, a multidão
andava com ar tranquilo.

O orgulho de um direito conquistado
resplandecia nos rostos. Sentia-se
uma alegria de Carnaval, ambiente
de acampamento; nada foi tão
divertido como o aspecto
de Paris, naqueles
primeiros dias.»

Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p.238

fevereiro 22, 2010

A Educação Sentimental



«E, depois disto tudo, ainda havia o Socialismo!
Embora tais teorias, tão recentes como o jogo
da glória, tivessem sido nos últimos quarenta
anos suficientemente combatidas para encher
bibliotecas, assustaram os burgueses, como
uma saraivada de aeróltios; sentiu-se indignação,
em virtude do ódio que provoca o advento
de qualquer ideia só porque é uma ideia,
execração de onde retira mais tarde a glória,
e que faz com que os seus inimigos
fiquem sempre debaixo dela,
por mais medíocre que
ela possa ser.»


Gustave Flaubert,
A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p. 239

fevereiro 21, 2010

A Educação Sentimental



«… e, em toda a parte, os inquilinos diziam mal dos proprietários,
a bata atirava-se à casaca e os ricos conspiravam contra os pobres.
Alguns exigiam indemnizações como antigos mártires da polícia,
outros imploravam dinheiro para lançarem invenções, projectos
de bazares cantonais, sistemas de felicidade pública; [ ] Por vezes
também, aparecia um cavalheiro, um aristocrata, com modos
humildes, dizendo coisas plebeias, e que não tinha lavado
as mãos para as fazer parecer calejadas. Um patriota
reconhecia-o, os mais virtuosos insultavam-no; e
ele saia com a alma cheia de raiva.»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p. 243

fevereiro 20, 2010

A Educação Sentimental



«Todos se entendiam bem. Primeiro,
o ódio ao Governo tinha a grandeza
de um dogma indiscutível.»


Gustave Flaubert, A Educação Sentimental
(«L'Éducation Sentimentale», 1869)
Trad. João Costa, Relógio d'Água,
Lisboa, 2008, p. 52