Eros: — Os homens chamam-lhe Narciso; mas eu chamo-lhe Desejo. Vê, como ela te contempla, se vira para ti. As suas brancas pétalas estremecem como vivas; do seu coração de ouro escapa um perfume que enche o ar de volúpia.
Assim que chegares esta flor ao teu rosto, verás num quadro imenso e maravilhoso, os monstros do abismo.
Perséfona: — Oh! que flor admirável! Faz tremer e surgir no meu coração uma recordação divina…
Às vezes, adormecida no cume de um astro amado, que doura um poente eterno, no meu sonho, vejo, sobre a púrpura do horizonte, flutuar uma estrela de prata no seio róseo do céu verde pálido.
Parecia-me então que seria o facho do esposo imortal, promessa dos Deuses, do divino Dionisos.
Mas a estrela caía, caía … e o facho apagava-se ao longe. — Essa flor maravilhosa parece-se com essa estrela.
«O Tratado da Reforma do Entendimento que aqui te oferecemos inacabado, benévolo leitor, foi escrito pelo autor, já lá vão muitos anos. Sempre esteve na sua tenção terminá-lo: porém, impedido por outras ocupações e, por fim, arrebatado pela morte, não o pode levar ao fim desejado. Todavia, porque contém muitas coisas belas e úteis, que serão — não duvidamos — de grande interesse para quem perscruta a verdade não quisemos privar-te delas. Além disso, para não te ser difícil desculpar o muito de obscuro, mal acabado e deselegante que aqui e acolá se encontra, e para não o ignorares, quisemos deixar-te esta Advertência. Adeus.»
Eros: — Todos; e tu o vês, não deixo de ser o mais novo e o mais ágil. Ó filha dos Deuses, o abismo tem terrores e calafrios que o céu ignora; mas não compreende o céu quem não atravessou a terra e os infernos.
Perséfona (séria): — A minha augusta e sábia mãe proibiu-mo. «Não escutes a voz de Eros, disse-me, não colhas as flores do prado. Senão, serás a mais miserável das Imortais!»
Eros: — De boa vontade, eis-me ao teu lado e aos teus pés. Que véu maravilhoso! Parece que mergulhou no azul dos teus olhos. Que figuras admiráveis bordaste com as tuas mãos, menos belas contudo que a divina bordadeira, que nunca se contemplou a si própria num espelho. (Sorri maliciosamente.)
Perséfona (volta a sentar-se): — Dizem que és manhoso e o teu rosto é a própria inocência; dizem-te todo poderoso e pareces um frágil adolescente; dizem-te traiçoeiro, e quanto mais te olho nos olhos, mais o meu coração desabrocha, e mais confiança sinto por ti, belo jovem alegre. Dizem que és sábio e hábil. Podes ajudar-me a bordar este véu?
Perséfona (tira as mãos do rosto, que mudou de expressão; sorri através das lágrimas): — Patetas que sois! Insensata que eu era! Lembro-me agora, ouvi-o dizer nos mistérios olímpicos: Eros é o mais belo dos Deuses;
sobre um carro alado preside às evoluções dos Imortais, na mistura das primeiras essências.
É ele que conduz os homens ousados, os heróis, do fundo do Caos aos cumes do Éter. Ele sabe tudo; como o Príncipe-Fogo, atravessa os mundos e tem as chaves do céu e da terra! Quero vê-lo!
O coro: — Oh! Virgem divina, não é senão um sonho, mas tomará conta do teu corpo, e tornar-se-á uma realidade inelutável, e o teu céu desaparecerá como um sonho vão, se tu cedes ao teu desejo culpável.
Obedece a esse aviso saudável, retoma a tua agulha e tece o teu véu. Esquece o astucioso, o impudente, o criminoso Eros!
Perséfona - (com os olhos fixos no vazio e cheios de espanto): — Será uma recordação? Será um pressentimento terrível? O Caos… os homens…. o abismo das gerações, o grito das paridelas, os clamores furiosos do ódio e da guerra… a agonia da morte!
Compreendo, vejo tudo isso, e esse abismo atrai-me, toma-me, preciso sair.
Eros nele me mergulha com a sua tocha incendiária. Ah! vou morrer! Para longe este sonho horrível! (Cobre o rosto com as mãos e soluça.)
janeiro 02, 2010
Advertido pelo que do filme disse analima dos Dias Imperfeitos, fui ver Parlez-moi de la pluie de Agnès Jaoui com Jean-Pierre Bacri, ambos judeus, franceses, ela natural da Tunísia, ele da Argélia.
Já conhecia J.-P. Bacri do notável filme Le goût des autres e esperei assim um belo momento de cinema: - e foi! Talvez não perdesse em ser um pouco mais intelectualizado...
mas é realmente uma estória singela contada com grande maestria, graça e beleza.
:))
- Sem dúvida, aquele repórter cinematográfico conseguia pôr à vontade os entrevistados.
Só era desastroso, por afinal, não os conseguir sequer filmar!
Perséfona (levanta-se e afasta o véu): — Eros! O mais antigo e contudo o mais jovem dos Deuses, fonte inesgotável de alegria e choro — pois, assim me falaram de ti — deus terrível,
o único desconhecido e invisível dos Imortais, o único desejável, misterioso Eros!
que perturbação, que vertigem me assalta ao teu nome!
O coro das ninfas: — Ó Perséfona! Ó Virgem, Ó casta noiva do Céu, que bordas as figuras dos Deuses no teu véu, possas tu nunca conhecer as ilusões vãs e os inúmeros males da terra.
A eterna Verdade sorri-te. O Teu esposo celeste, Dionisos, espera-te no Empíreo. Por vezes ele aparece-te sob a forma de um sol longínquo; seus raios acariciam-te; respira o teu sopro e bebes a sua luz…
Antecipadamente, vós vos possuís!… Ó Virgem, quem é mais feliz do que tu?
Perséfona: — Sim, mãe augusta e respeitável, por essa luz que te envolve e que me é cara, prometo-o, e que os Deuses me castiguem se não cumprir o meu juramento.
Deméter: — Filha amada dos Deuses, conserva-te nesta gruta até eu regressar e borda o meu véu.
O céu é a tua pátria e o universo é teu. Tu vês os Deuses; eles acorrem à tua chamada.
Mas não escutes a voz de Eros, o ardiloso, de olhar suave e pérfidos conselhos.
Guarda-te de sair da gruta e nunca colhas as sedutoras flores da terra; o seu perfume perturbador e funesto far-te-ia perder a luz do sol e até a memória.
Borda o meu véu e sê feliz até ao meu regresso com as ninfas tuas companheiras.
Então, no meu carro de fogo, atrelado de serpentes, levar-te-ei aos esplendores do Éter, sob a via láctea.
Hermes: — Deméter dá-nos dois presentes maravilhosos: os frutos, para que não vivamos como os animais e a iniciação que dá uma esperança mais doce a todos que nela participam.
Prestai atenção às palavras que ides ouvir e às coisas que ides ver.
Chegavam dois a dois, a uma clareira. Ao fundo viam-se rochas e uma gruta. Á frente, um prado com ninfas deitadas em volta de uma fonte.
Ao fundo da gruta, avistava-se Perséfona, sentada num trono, nua até à cintura como uma Psiqué, o seu busto esbelto emergindo casto de uma túnica enrolada como um vapor de azul nos seus flancos.
Ela parecia feliz, inconsciente da sua beleza e bordando um longo véu de fios multicores.
Deméter, sua mãe, está de pé, perto dela, com o ceptro na mão.
«Ó aspirantes dos Mistérios, eis que estais na morada de Proserpina. Tudo que ides ver, vai surpreender-vos. Aprendereis que a vida presente não é mais do que um manto de sonhos mentirosos e confusos.
O sono que vos envolve numa zona de trevas, arrasta os vossos sonhos e os vossos dias na sua corrente, como nuvens passageiras que se desfazem ao olhar.
Mas no além, estende-se uma zona de luz eterna.
Que Perséfona vos seja propícia e ela mesmo vos ensine a franquear o rio das trevas e a penetrar até à Deméter Celeste.»
Em 2009, o Solstício de Inverno ocorre no dia 21 de Dezembro às 17h47m. Este instante marca o início do Inverno no Hemisfério Norte, a estação mais fria do ano, que se prolonga por 88,99 dias. A Primavera chegará com o próximo Equinócio, no dia 20 de Março de 2010 às 17h32m.
Os solstícios (em Junho e Dezembro) são os pontos da eclíptica em que o Sol atinge as posições máxima e mínima de altura em relação ao equador, isto é, pontos em que a declinação do Sol atinge extremos: máxima no solstício de Verão e mínima no solstício de Inverno.
No seu íntimo, o mito é a representação simbólica da história da alma, a sua descida ao mundo material, os sofrimentos nas trevas do esquecimento, depois a sua reascensão e regresso à vida divina: o drama da queda e redenção na forma helénica.
Os padres de Eleusis ensinaram sempre a grande doutrina esotérica que lhes viera do Egipto. Mas, no decurso das idades revestiram-na do encanto de uma mitologia plástica e fascinante.
Por uma arte subtil e profunda, esses sedutores souberam servir-se das paixões terrestres para exprimir as ideias celestes.
Se o povo reverenciava em Céres a terra mãe e a deusa da agricultura, os iniciados viam-na como a luz celeste, mãe das almas, e a inteligência divina, mãe dos Deuses cósmicos.
O seu culto era servido por sacerdotes da Ática.
Diziam-se filhos da Lua, quer dizer, mediadores entre a Terra e o Céu, oriundos da esfera onde se encontra a ponte
Porque aí vem mais um Natal e um Solstício de Inverno vou recontar e registar neste blog
a bela estória de Deméter e Perséfona, um dos mitos natalícios dos Mistérios de Elêusis
Os mistérios de Eleusis foram, na antiguidade grega e latina, objecto de uma veneração especial. Em tempos imemoriais, uma colónia grega vinda do Egipto trouxe à tranquila baía de Eleusis o culto da grande Ísis sob o nome de Deméter ou a mãe universal.
Desde então Eleusis conservou-se um centro de iniciação. Deméter e sua filha Perséfona presidiam aos grandes mistérios.
dezembro 13, 2009
Nunca pensei assistir na vida a um concerto de José Cid! Não é que o ache mau cantor e compositor: não acho; e
orgulho-me que ele contrarie, com a sua criatividade e talento, esse predomínio asfixiante da música anglo- -saxónica: é com produtores como José Cid que se contribui para substituir importações!
O facto é que nunca me moveria a ir a ouvi-lo, salvo a circunstância inesperada de ter sido convidado para acompanhar duas senhoras, todos nós, elas, eu e o Cid cantor, todos da mesma idade e geração.
Gostei de ver que o artista tem o seu auditório fiel; é um prazer ver o prazer das pessoas, felizes com o seu ídolo! :) Uma coisa, porém, é deplorável: o volume imbecil das colunas de som! Para quando a Asae dos espectáculos musicais!?
:)
dezembro 11, 2009
«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.
Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.
Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve com ortografia simplificada,
mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida.
E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith, Lisboa 1998, #259.
dezembro 10, 2009
Coração! Esquecê-lo-emos! Tu e eu – esta noite! Tu poderás esquecer o calor que nos deu – Eu esquecerei a luz!
Quando o tiveres feito, peço-te que me digas Para que eu possa recomeçar! Apressa-te! Senão, enquanto te demoras Lembrá-lo-ei!
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Heart! We will forget him! You and I – tonight! You may forget the warmth he gave – I will forget the light!
When you have done, pray tell me That I may straight begin! Haste! Lest while you're lagging I remember him!
Pois meus olhos não deixam de chorar Tristezas que não cansam de cansar-me Pois não abranda o fogo em que abrasar-me Pode quem eu jamais pude abrandar Não canse o cego amor de me guiar A parte donde não saiba tornar-me Nem deixe o mundo todo de escutar-me Enquanto me a voz fraca não deixar E se em montes, em rios, ou em vales Piedade mora ou dentro mora amor Em feras, aves, plantas, pedras, águas Ouçam a longa história de meus males E curem sua dor com minha dor Que grandes mágoas podem curar mágoas
Ana Moura canta Camões
dezembro 08, 2009
Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
Clarice Lispector, Onde estiveste de noite, Relógio d'Água, s/d, p. 72
dezembro 07, 2009
Toda a beleza sente-se no ventre, mesmo a que a janela traz aos olhos ou os instrumentos de som deixam no ouvido. Tudo o que a mão palpa, com doçura ou ardor, tudo o que nos comove ou nos exalta ata-nos no ventre um nó dentro do corpo.
(fiama hasse pais brandão)
dezembro 06, 2009
Denis, M., La dormeuse ou jeune fille endormie (1892) imagem inBranco no Branco
«O silêncio brilha acariciado.» Eugénio de Andrade, As nascentes da ternura, in "Ostinato Rigore"
Lá porque ando em baixo agora Não me neguem vossa estima Que os alcatruzes da nora Quando chora Não andam sempre por cima Rir da gente ninguém pode Se o azar nos amofina E se Deus não nos acode Não há roda que mais rode Do que a roda da má sina.
Sabe-se lá Quando a sorte é boa ou má Sabe-se lá Amanhã o que virá Breve desfaz - se Uma vida honrada e boa Ninguém sabe, quando nasce Pró que nasce uma pessoa.
O preciso é ser-se forte Ser-se forte e não ter medo Eis porque às vezes a sorte Como a morte Chega sempre tarde ou cedo Ninguém foge ao seu destino Nem para o que está guardado Pois por um condão divino Há quem nasça pequenino Pr'a cumprir um grande fado.