janeiro 28, 2010

os mistérios de eleusis xlvi



Hermes: — Ó aspirantes dos mistérios,
cuja vida está ainda obscurecida pelos fumos da má vida,
esta é a vossa história.

Guardai e meditai estas palavras de Empédocles:
«A geração é uma destruição terrível que faz
passar os vivos para os mortos.

Antes vós vivestes a vida verdadeira,
e depois, cativos de um encanto,
caístes no abismo terrestre,
subjugados pelo corpo.

O vosso presente não é mais que um sonho fatal.
O passado e o futuro, só eles existem verdadeiramente.

Aprendei a lembrar-vos, aprendei a prever.»




janeiro 27, 2010

os mistérios de eleusis xlv



A voz de Perséfona (sob a terra):
— Minha mãe! Socorro! Minha mãe!

janeiro 26, 2010

os mistérios de eleusis xliv


Rubens, O rapto de Perséfona

[A terra entreabre-se ao seu lado. Da fenda aberta e negra
surge lentamente, até meia altura, Plutão, sobre
um carro atrelado a dois cavalos negros.

Agarra Perséfona no momento em que colhe a flor
e puxa-a com violência para si. Esta torce-se
inutilmente nos seus braços
e solta um grande grito.

Logo o carro se afunda e desaparece.
A sua marcha extingue-se ao longe
como um temporal subterrâneo.

As ninfas dispersam-se pelo bosque, gemendo.

Eros desvanece-se com uma gargalhada.
]

janeiro 25, 2010

os mistérios de eleusis xliii



Perséfona: — Ó flor maravilhosa, de perfume excitante,
o meu coração palpita, meus dedos ardem a colher-te.
Quero aspirar-te, encostar-te aos meus lábios,
pousar-te no meu peito,

— mesmo que haja de morrer!


janeiro 24, 2010

os mistérios de eleusis xlii



Eros: — Os homens chamam-lhe Narciso; mas eu chamo-lhe Desejo.
Vê, como ela te contempla, se vira para ti. As suas brancas pétalas
estremecem como vivas; do seu coração de ouro
escapa um perfume que enche o ar de volúpia.

Assim que chegares esta flor ao teu rosto,
verás num quadro imenso e maravilhoso,
os monstros do abismo.

Nada te será escondido.

janeiro 23, 2010

os mistérios de eleusis xli



Perséfona: — Que nome dás a essa flor?

janeiro 22, 2010

os mistérios de eleusis xl



O coro: — Toma cuidado que essa magia não seja uma armadilha.

janeiro 21, 2010

Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava -

Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.



Cristina Campo, O Passo do Adeus,
Trad de José Tolentino Mendonça;
Assírio & Alvim


Poema recolhido no blog
A Voz da Romãzeira

os mistérios de eleusis xxxix



Eros: — Eu que transformo e uno todas as coisas,
que faço do pequeno a imagem do grande,
do profundo o espelho do céu,

eu que misturo o céu e o inferno sobre a terra,
que lavro todas as formas do oceano profundo,

fiz renascer a tua estrela do abismo na forma
de uma flor, para que a possas tocar, colher e aspirar.

janeiro 20, 2010

os mistérios de eleusis xxxviii



Perséfona: — Oh! que flor admirável! Faz tremer
e surgir no meu coração uma recordação divina…

Às vezes, adormecida no cume de um astro amado,
que doura um poente eterno, no meu sonho,
vejo, sobre a púrpura do horizonte,
flutuar uma estrela de prata
no seio róseo do céu verde pálido.

Parecia-me então que seria o facho do esposo imortal,
promessa dos Deuses, do divino Dionisos.

Mas a estrela caía, caía … e o facho apagava-se ao longe.
— Essa flor maravilhosa parece-se com essa estrela.

janeiro 19, 2010

os mistérios de eleusis xxxvii



Eros: — Sim, repara!

(
Toca na terra com a ponta do seu arco;
um grande narciso brota do solo.
)

janeiro 18, 2010

os mistérios de eleusis xxxvi



Perséfona: —Podes tu ajudar-me a compreendê-los?

janeiro 17, 2010

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«O Tratado da Reforma do Entendimento que aqui te oferecemos inacabado, benévolo leitor, foi escrito pelo autor, já lá vão muitos anos. Sempre esteve na sua tenção terminá-lo: porém, impedido por outras ocupações e, por fim, arrebatado pela morte, não o pode levar ao fim desejado. Todavia, porque contém muitas coisas belas e úteis, que serão — não duvidamos — de grande interesse para quem perscruta a verdade não quisemos privar-te delas. Além disso, para não te ser difícil desculpar o muito de obscuro, mal acabado e deselegante que aqui e acolá se encontra, e para não o ignorares, quisemos deixar-te esta Advertência. Adeus.»

(Prefácio dos editores)

os mistérios de eleusis xxxv



Eros: — Todos; e tu o vês, não deixo de ser o mais novo
e o mais ágil. Ó filha dos Deuses, o abismo tem terrores
e calafrios que o céu ignora; mas não compreende
o céu quem não atravessou a terra e os infernos.

janeiro 16, 2010

janeiro 15, 2010

os mistérios de eleusis xxxiii



Eros: — Compreendo. A tua mãe não quer que
conheças os segredos da terra e dos infernos.

Se aspirasses as flores do prado,
eles ser-te-iam revelados.

janeiro 14, 2010

os mistérios de eleusis xxxii



Perséfona (séria): — A minha augusta e sábia mãe proibiu-mo.
«Não escutes a voz de Eros, disse-me, não colhas as flores do prado.
Senão, serás a mais miserável das Imortais!»

janeiro 13, 2010

os mistérios de eleusis xxxi



Eros (olhando-a inflamado): — Sim, Perséfona,
mas com uma condição, que primeiro vás
colher comigo uma flor no prado,
a mais bela de todas!

janeiro 12, 2010

os mistérios de eleusis xxx



Perséfona : — A minha ciência acaba aqui
e a memória falha-me. Ajudar-me-ás a
bordar a continuação?

janeiro 11, 2010

os mistérios de eleusis xxix



Eros: — Se as conheço! A história dos Deuses.
Mas, porque paras tu no Caos?
É lá que a luta começa.

Não irás bordar a guerra dos Titãs,
o nascimento dos homens
e os seus amores?