O coro das ninfas: — Ó Perséfona! Ó Virgem, Ó casta noiva do Céu, que bordas as figuras dos Deuses no teu véu, possas tu nunca conhecer as ilusões vãs e os inúmeros males da terra.
A eterna Verdade sorri-te. O Teu esposo celeste, Dionisos, espera-te no Empíreo. Por vezes ele aparece-te sob a forma de um sol longínquo; seus raios acariciam-te; respira o teu sopro e bebes a sua luz…
Antecipadamente, vós vos possuís!… Ó Virgem, quem é mais feliz do que tu?
Perséfona: — Sim, mãe augusta e respeitável, por essa luz que te envolve e que me é cara, prometo-o, e que os Deuses me castiguem se não cumprir o meu juramento.
Deméter: — Filha amada dos Deuses, conserva-te nesta gruta até eu regressar e borda o meu véu.
O céu é a tua pátria e o universo é teu. Tu vês os Deuses; eles acorrem à tua chamada.
Mas não escutes a voz de Eros, o ardiloso, de olhar suave e pérfidos conselhos.
Guarda-te de sair da gruta e nunca colhas as sedutoras flores da terra; o seu perfume perturbador e funesto far-te-ia perder a luz do sol e até a memória.
Borda o meu véu e sê feliz até ao meu regresso com as ninfas tuas companheiras.
Então, no meu carro de fogo, atrelado de serpentes, levar-te-ei aos esplendores do Éter, sob a via láctea.
Hermes: — Deméter dá-nos dois presentes maravilhosos: os frutos, para que não vivamos como os animais e a iniciação que dá uma esperança mais doce a todos que nela participam.
Prestai atenção às palavras que ides ouvir e às coisas que ides ver.
Chegavam dois a dois, a uma clareira. Ao fundo viam-se rochas e uma gruta. Á frente, um prado com ninfas deitadas em volta de uma fonte.
Ao fundo da gruta, avistava-se Perséfona, sentada num trono, nua até à cintura como uma Psiqué, o seu busto esbelto emergindo casto de uma túnica enrolada como um vapor de azul nos seus flancos.
Ela parecia feliz, inconsciente da sua beleza e bordando um longo véu de fios multicores.
Deméter, sua mãe, está de pé, perto dela, com o ceptro na mão.
«Ó aspirantes dos Mistérios, eis que estais na morada de Proserpina. Tudo que ides ver, vai surpreender-vos. Aprendereis que a vida presente não é mais do que um manto de sonhos mentirosos e confusos.
O sono que vos envolve numa zona de trevas, arrasta os vossos sonhos e os vossos dias na sua corrente, como nuvens passageiras que se desfazem ao olhar.
Mas no além, estende-se uma zona de luz eterna.
Que Perséfona vos seja propícia e ela mesmo vos ensine a franquear o rio das trevas e a penetrar até à Deméter Celeste.»
Em 2009, o Solstício de Inverno ocorre no dia 21 de Dezembro às 17h47m. Este instante marca o início do Inverno no Hemisfério Norte, a estação mais fria do ano, que se prolonga por 88,99 dias. A Primavera chegará com o próximo Equinócio, no dia 20 de Março de 2010 às 17h32m.
Os solstícios (em Junho e Dezembro) são os pontos da eclíptica em que o Sol atinge as posições máxima e mínima de altura em relação ao equador, isto é, pontos em que a declinação do Sol atinge extremos: máxima no solstício de Verão e mínima no solstício de Inverno.
No seu íntimo, o mito é a representação simbólica da história da alma, a sua descida ao mundo material, os sofrimentos nas trevas do esquecimento, depois a sua reascensão e regresso à vida divina: o drama da queda e redenção na forma helénica.
Os padres de Eleusis ensinaram sempre a grande doutrina esotérica que lhes viera do Egipto. Mas, no decurso das idades revestiram-na do encanto de uma mitologia plástica e fascinante.
Por uma arte subtil e profunda, esses sedutores souberam servir-se das paixões terrestres para exprimir as ideias celestes.
Se o povo reverenciava em Céres a terra mãe e a deusa da agricultura, os iniciados viam-na como a luz celeste, mãe das almas, e a inteligência divina, mãe dos Deuses cósmicos.
O seu culto era servido por sacerdotes da Ática.
Diziam-se filhos da Lua, quer dizer, mediadores entre a Terra e o Céu, oriundos da esfera onde se encontra a ponte
Porque aí vem mais um Natal e um Solstício de Inverno vou recontar e registar neste blog
a bela estória de Deméter e Perséfona, um dos mitos natalícios dos Mistérios de Elêusis
Os mistérios de Eleusis foram, na antiguidade grega e latina, objecto de uma veneração especial. Em tempos imemoriais, uma colónia grega vinda do Egipto trouxe à tranquila baía de Eleusis o culto da grande Ísis sob o nome de Deméter ou a mãe universal.
Desde então Eleusis conservou-se um centro de iniciação. Deméter e sua filha Perséfona presidiam aos grandes mistérios.
dezembro 13, 2009
Nunca pensei assistir na vida a um concerto de José Cid! Não é que o ache mau cantor e compositor: não acho; e
orgulho-me que ele contrarie, com a sua criatividade e talento, esse predomínio asfixiante da música anglo- -saxónica: é com produtores como José Cid que se contribui para substituir importações!
O facto é que nunca me moveria a ir a ouvi-lo, salvo a circunstância inesperada de ter sido convidado para acompanhar duas senhoras, todos nós, elas, eu e o Cid cantor, todos da mesma idade e geração.
Gostei de ver que o artista tem o seu auditório fiel; é um prazer ver o prazer das pessoas, felizes com o seu ídolo! :) Uma coisa, porém, é deplorável: o volume imbecil das colunas de som! Para quando a Asae dos espectáculos musicais!?
:)
dezembro 11, 2009
«Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa.
Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.
Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve com ortografia simplificada,
mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida.
E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.»
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith, Lisboa 1998, #259.
dezembro 10, 2009
Coração! Esquecê-lo-emos! Tu e eu – esta noite! Tu poderás esquecer o calor que nos deu – Eu esquecerei a luz!
Quando o tiveres feito, peço-te que me digas Para que eu possa recomeçar! Apressa-te! Senão, enquanto te demoras Lembrá-lo-ei!
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Heart! We will forget him! You and I – tonight! You may forget the warmth he gave – I will forget the light!
When you have done, pray tell me That I may straight begin! Haste! Lest while you're lagging I remember him!
Pois meus olhos não deixam de chorar Tristezas que não cansam de cansar-me Pois não abranda o fogo em que abrasar-me Pode quem eu jamais pude abrandar Não canse o cego amor de me guiar A parte donde não saiba tornar-me Nem deixe o mundo todo de escutar-me Enquanto me a voz fraca não deixar E se em montes, em rios, ou em vales Piedade mora ou dentro mora amor Em feras, aves, plantas, pedras, águas Ouçam a longa história de meus males E curem sua dor com minha dor Que grandes mágoas podem curar mágoas
Ana Moura canta Camões
dezembro 08, 2009
Eu amo o amor. O amor é vermelho. O ciúme é verde. Meus olhos são verdes. Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros. Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.
Clarice Lispector, Onde estiveste de noite, Relógio d'Água, s/d, p. 72
dezembro 07, 2009
Toda a beleza sente-se no ventre, mesmo a que a janela traz aos olhos ou os instrumentos de som deixam no ouvido. Tudo o que a mão palpa, com doçura ou ardor, tudo o que nos comove ou nos exalta ata-nos no ventre um nó dentro do corpo.
(fiama hasse pais brandão)
dezembro 06, 2009
Denis, M., La dormeuse ou jeune fille endormie (1892) imagem inBranco no Branco
«O silêncio brilha acariciado.» Eugénio de Andrade, As nascentes da ternura, in "Ostinato Rigore"
Lá porque ando em baixo agora Não me neguem vossa estima Que os alcatruzes da nora Quando chora Não andam sempre por cima Rir da gente ninguém pode Se o azar nos amofina E se Deus não nos acode Não há roda que mais rode Do que a roda da má sina.
Sabe-se lá Quando a sorte é boa ou má Sabe-se lá Amanhã o que virá Breve desfaz - se Uma vida honrada e boa Ninguém sabe, quando nasce Pró que nasce uma pessoa.
O preciso é ser-se forte Ser-se forte e não ter medo Eis porque às vezes a sorte Como a morte Chega sempre tarde ou cedo Ninguém foge ao seu destino Nem para o que está guardado Pois por um condão divino Há quem nasça pequenino Pr'a cumprir um grande fado.
dezembro 04, 2009
«Se tudo é cognoscível a quem está no reino do conhecimento com as beatas palavras (felizes) geradas no horizonte, a tarde esplêndida acende como uma tocha a madrugada. Este silêncio místico prepara a tábua rasa das comparações.»
(fiama hasse pais brandão)
dezembro 03, 2009
Gosto :):
dezembro 02, 2009
«Tive sempre uma repugnância física pelas coisas secretas — intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo. Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas — a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles, exclusos todos nós outros — os grandes segredos que são os caboucos do mundo.
Não posso crer que isso seja assim. Posso crer que alguém o julgue assim. Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida? Por serem vários? Mas há alucinações colectivas.
O que sobretudo me impressiona, nesses mestres e sabedores do invisível, é que, quando escrevem para nos contar ou sugerir os seus mistérios, escrevem todos mal.
Ofende-me o entendimento que um homem seja capaz de dominar o Diabo e não seja capaz de dominar a língua portuguesa.
Por que há o comércio com os demónios ser mais fácil que o comércio com a gramática?»
Bernardo Soares
dezembro 01, 2009
«Era uma vez uma ausência que andava em missão de viagem.
Quando chegava a uma encruzilhada dava três voltas sobre si própria para perder por completo a noção do caminho por onde viera
atingindo assim com regularidade as regiões efémeras do esquecimento.
Depois regressava a casa.»
:))
ana hatherly, 463 tisanas, Quimera, 2006, #72
novembro 30, 2009
Não sei se precisamos de notícias; precisamos, Certamente, de saber. O jornal apaga os passos Que foi dando, ficando à espera de que haja mais. O espaço vazio é mero arquivo. Decorrido um Ror de tempo nessa aventura (tendo-lhe eu, entretanto, Pago uma fortuna), as notícias sempre e sempre, Vai tornando o saber mais evasivo. «Não sei que Pensar», não é certamente um objectivo.
:)
Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.103
novembro 29, 2009
Imagem: pesquisa google
«Uma voz, em face da sua mente, é muito susceptível De ser influenciada. Antes de mais, pela mente. Tornar- -Se uma mera incandescência. O rebordo do tom, A inteligência com que se coloca, a certeza Da frequência de onda, servem-se, todavia, mutuamente. Mente e voz, vi-as hoje deitadas na mesma cama. Dormiam A sesta, uma na outra envoltas. Não era necessário sonhar Na luz branca. Depois, levantaram-se daquele amor, E foram sentar-se à mesma mesa. Na toalha branca Que partilham, a alvura cruzada com a limpidez dos Copos é a imagem nua que sente. Sua qualidade ___ É difusa e, no entanto, focalizada.»
Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.138
novembro 28, 2009
Não lhe seguindo o exemplo, uma bela fotografia de gabriela llansol
«Não me esqueço de que preferes que não se fale de ti porque receias uma imagem que te guarde.
Mas, com todo o rigor, um rosto que volta é uma imagem que se desfaz.
A fonte é sempre a mesma mas o aspecto adianta-se, imprevisível;
a tal ponto que a vontade se exerce, não a captar a imagem, mas a desposar a força que a gerou.»
Mª Gabriela Llansol, Contos do mal errante
novembro 27, 2009
Em contraponto, Torga implacável, lúcido e inconformado:
BALADA DA MORGUE
Olho este corpo morto aqui deitado E sinto impulsos de beijá-lo e ter Como ele não sei que enfado Por quem vive e quer viver
Que bruta sinceridade! Que vaidade! Que mentira! Que verdade! Todo nu! Só tatuado De livores, Arco-íris gangrenado, De mil cores.
Não é de mulher, não é; Nem de homem, nem de animal Irracional. É de anjo predestinado Que foi sacrificado Para dar a noção exacta da renúncia.
Ai dos enclausurados em sarcófagos! Ai de quem morre vestido! Nesta luxúria da morgue Há todo o satanismo Que nos foi prometido No final... São os gestos parados, Os olhos vidrados, Os ouvidos tapados, Os sexos castrados, E por cima de tudo o silêncio das bocas.
Quero Amar este sol da terra Que mostra o calor do céu. O alto céu onde mora Um Deus que na mesma hora Nos criou e nos perdeu.
Miguel Torga, Rampa (1930) in "Antologia Poética" Gráfica de Coimbra, 4ª ed.,1994, p.19
novembro 25, 2009
Outro dia olhei pra os teus olhos, ó Vida! E pareceu-me que me afundava no insondável.
Mas tu pescaste-me cá p’ra fora com um anzol de ouro; riste escarninha, quando eu te chamei insondável.
«É o que dizem todos os peixes», disseste tu; «o que eles não podem sondar, é insondável».
Mas eu sou apenas mutável e bravia, e em tudo mulher, e nada virtuosa.
Embora vós homens me chameis «profunda» ou «fiel», ou «eterna», ou «misteriosa».
«Mas vós, homens, presenteais sempre com as vossas próprias virtudes, ó virtuosos!»
Assim se ria ela, a incrível; mas eu nunca creio nela nem no seu riso quando diz mal de si mesma.
E quando um dia eu estava a falar a sós com a minha brava ..................................................................................Sabedoria, disse-me ela, colérica: «Tu queres, tu desejas, tu amas, e é só por isso que tu louvas a Vida!»
Quase lhe ia dando uma má resposta, dizendo a verdade à minha Sabedoria encolerizada; e não há pior resposta do que «dizermos a verdade» à nossa Sabedoria.
São assim as relações entre nós três. Do fundo, do fundo amo apenas a Vida — e, em verdade, amo-a mais quando a odeio!
Mas se gosto também da Sabedoria (e por vezes demasiado), é porque ela me faz lembrar muito a Vida!
Tem os olhos dela, o mesmo riso e até a mesma caninha de pescar, de ouro: que culpa tenho eu que ambas se pareçam tanto?
E quando uma vez a Vida me perguntou: Quem é essa ......................................................................Sabedoria? — respondi vivamente: «Ah, sim! a Sabedoria!
Tem-se sede dela e nunca se fica satisfeito, olha-se através de véus, lança-se a mão a redes.
Se é bela? Que sei eu! Mas ainda serve de isca às carpas mais velhas.
É mutável e caprichosa; muitas vezes a vi morder o beiço e pentear-se a arrepia-pelo.
Talvez seja má e falsa, e mulher em tudo; mas quando diz mal de si mesma é quando é mais sedutora.»
Quando isto disse à Vida, riu-se ela maldosa, cerrando ............................................................................os olhos. «De quem é que estás tu a falar?» — disse ela — «de mim, sem dúvida?
E mesmo que tivesses razão — é coisa que se me diga assim na cara? Mas agora fala-me lá da tua Sabedoria!»
Ai, e então abriste de novo os olhos ó Vida amada! E de novo me pareceu que me afundava no insondável.
:)))
(Assim cantou Zaratustra, poema em prosa)
novembro 24, 2009
Blog Instigante
A Grande Jóia atribuiu-me este selo de reconhecimento. Sensibilizado, agradeço com o meu muito obrigado. Este prémio visa distinguir os «blogs que, além da assiduidade das postagens e do esmero com que são feitos, nos provocam a necessidade de reflectir, questionar, aprender e – sobretudo – que instigam almas e mentes à procura de conhecimento e sabedoria.», pelo que indico aquele que me instiga a reflectir para lá de qualquer pseudo evidência dogmática...
«Ao escrever sobre mim na 1ª pessoa, sufocara-me e tornara-me invisível, o que me impedia de encontrar aquilo que buscava.» (p.72)
Eis onde cessa a expressão pela palavra por a paixão obliterar a percepção da realidade
«Gwyn era uma fogueira de beleza, um ser incandescente, uma tempestade no coração de todo e qualquer homem que parasse a apreciá-la, e aquele instante em que a vi pela primeira vez é, sem dúvida, um dos mais assombrosos momentos da minha vida.» (p.191)
Mas, na ficção, como na vida, o imprevisível acontece
«O revólver estava apontado a nós e, sem mais nem menos, numa simples fracção de segundo, o universo inteiro tinha mudado.» (p.52)
Porque o que parece improvável, não é menos real do que tudo o que é possível
«… parecia-me improvável [ ] Porém, as probabilidades não contam quando se trata de acontecimentos reais, e só porque é improvável que determinada coisa aconteça, não podemos concluir que não acontecerá.» (p.15)
Assim, o novo romance de Paul Auster, intermediando o consequente com o imprevisto, o lógico com o surpreendente, numa narrativa fluente mas de sentido
indecidido, nem falso nem verdadeiro.
novembro 08, 2009
A propósito da clareza. — Quando se escreve é não somente para ser compreendido, mas também para não o ser. Um livro não fica diminuído pelo facto de um indivíduo qualquer o achar obscuro: ( ) Qualquer espírto um pouco distinto, qualquer gosto um pouco elevado escolhe os seus auditores; ao escolhê-los fecha a porta aos outros. As regras delicadas de um estilo nascem todas daí: são feitas para afastar, para manter a distância, para condenar o «acesso» de uma obra; para impedir alguns de compreender, e para abrir o ouvido aos outros, os tímpanos que nos são parentes.
Quanto a mim, digo-o aqui para nós, não permitirei nem à minha ignorância nem à minha vivacidade que me impeçam de vos ver claramente, ó meus amigos: ( ) Porque me sirvo dos problemas profundos como se fossem banhos frios: mal entro, saio logo. Este método, há-de dizer-se, impede de descer o suficiente, de ir ao fundo? trata-se de superstição de hidrófobo ( ) falam sem experiência. Ah! se soubessem como o frio torna as pessoas ágeis!... E de resto, diga-se de passagem: acreditais realmente que uma coisa se mantenha obscura porque não fizemos mais do que aflorá-la, deitar-lhe um olhar de passagem, lançar-lhe uma vista de olhos de pasagem? ( ) Há pelo menos certas verdades ( ) que só é possível apanhá-las de surpresa: é surpreender ou largar... Enfim a minha exigência tem outra vantagem: ( ) sou forçado a ser muitas vezes rápido para que me compreendam ainda mais rápidamente.
Eis o que diz respeito à minha brevidade; já o mesmo não sucede tão brilhantemente com a minha ignorância, que não dissimulo. ( ) O que vem a ser necessário para que um espírito se alimente? nenhuma fórmula pode responder à pergunta, mas ( ). Não é a gordura que um bom dançarino pretende obter da sua alimentação ( ) ... e não conheço nada que um filósofo goste mais do que ser um bom dançarino.
(Gaia Ciência, Livro V, § 381)
novembro 06, 2009
E por hoje me terem lembrado Fernando Pessoa, aqui deixo o superior texto 199 do Desassossego:
«[ ] Porque um dos detalhes característicos da minha atitude espiritual é que a atenção não deve ser cultivada exageradamente, e mesmo o sonho deve ser olhado alto, com uma consciência aristocrática de o estar fazendo existir.
Dar demasiada importância ao sonho seria dar demasiada importância, afinal, a uma coisa que se separou de nós próprios, que se ergueu, conforme pôde, em realidade, e que, por isso, perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela.»
(edição de Richard Zenith)
Soberbo! :))
novembro 04, 2009
Efeito da mais antiga religiosidade. — O homem irreflectido imagina que só a vontade é actuante; querer seria uma coisa simples, encarada tal como é, indeduzível, compreensível por si mesma. Este homem imagina que quando faz alguma coisa, quando, por exemplo, vibra um soco, é ele que bate, e que bateu porque o queria fazer. Não vê nisso nenhum problema; o sentimento de ter querido basta-lhe não somente para admitir a causa e o efeito mas ainda para imaginar que compreende a sua relação. Não sabe nada do mecanismo da acção, do cêntuplo e subtil trabalho que tem de ser efectuado para que chegue a bater, do mesmo modo que não imagina a capacidade total da vontade para operar a menor parte desse trabalho. A vontade é para ele uma força que age de maneira mágica: acreditar na vontade como na causa de efeitos é acreditar em forças que agem por magia. ( ) Os princípios «não há efeito sem causa» ( ), aparecem-nos como generalizações de princípios muito mais limitados, tais como estes: «agiu-se, quis-se» ( ); mas nos tempos primitivos da humanidade ( ) os primeiros não eram generalizações dos segundos, eram os segundos que eram interpretações dos primeiros. ( ) Contráriamente [aos que acreditam que o querer é simples e imediato] ponho os princípios seguintes: em primeiro lugar, para que um querer se forme é necessário que exista uma representação de prazer e de desprazer. Em segundo lugar: que uma violenta excitação produza uma sensação de prazer ou de desprazer, é assunto do intelecto interpretador, que, aliás, na maior parte das vezes, opera sem que o saibamos. Em terceiro lugar: só há prazer, desprazer e vontade nos seres intelectuais; a enorme maioria dos organismos ignora-os.
(Gaia Ciência, Livro III, § 127)
novembro 03, 2009
Modigliani, imagem in Modus Vivendi «Nenhuma depressão acompanha o prazer.»
André Breton, O amor louco, («L’amour fou», 1937)
novembro 02, 2009
INTERPRETAÇÃO
Se me explico, então me implico: A mim mesmo não me posso interpretar. Mas quem suba o seu próprio caminho, A minha imagem leva a uma luz mais clara.
(Poema de Nietzsche, trad. Paulo Quintela)
novembro 01, 2009
A vida não é um argumento. — Arranjamos para nós um mundo no qual possamos viver, admitindo a existência de corpos, de linhas, de superfícies, de causas e de efeitos, de movimento e de repouso, de forma e de fundo: não fossem esses artigos de fé, ninguém hoje suportaria a vida! Mas isso não prova nada em seu favor. A vida não é um argumento; porque o erro poderia encontrar-se entre as condições da vida.
(Gaia Ciência, Livro III, § 121)
outubro 31, 2009
Causa e Efeito. — Costumamos empregar a palavra «explicação», e o que seria necessário dizer é «descrição», para designar aquilo que nos distingue de estágios anteriores de conhecimento e de ciência. Sabemos descrever melhor do que os nossos predecessores, explicamos tão pouco como eles. Descobrimos sucessões múltiplas nos pontos em que o homem e o sábio ingénuos das civilizações precedentes viam apenas duas coisas, «causa» e «efeito», como se dizia; aperfeiçoámos a imagem do devir, mas não fomos além dessa imagem. Em cada caso a série das «causas» apresenta-se-nos mais completa; deduzimos: é preciso que esta ou aquela coisa tenha sido precedida para que se lhe suceda outra; mas isso não nos leva a compreender nada. ( ) Só operamos com coisas que não existem, linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis e espaços divisíveis...; como havia de existir sequer possibilidade de explicar quando começamos por fazer de qualquer coisa uma imagem, a nossa imagem! ( ) aprendemos a descrever-nos a nós próprios cada vez mais exactamente descrevendo as coisas e a sua sucessão. Causa e efeito: trata-se de uma dualidade que decerto nunca existirá; assistimos, na verdade, a uma continuidade de que isolamos algumas partes; do mesmo modo que, do movimento, nunca percebemos mais do que pontos isolados, não o vemos, concluimos pela sua existência. ( ) Uma inteligência que visse causa e efeito como uma continuidade, e não, à nossa maneira, como um retalhar arbitrário, a inteligência que visse a vaga dos acontecimentos, negaria a ideia de causa e efeito e de qualquer condicionalidade.
(Gaia Ciência, Livro III, § 112)
outubro 30, 2009
Diebenkorn, R.Untitled (Reclining nude, right arm raised) (1965) in Branco no Branco
«Pensamento medieval: quantos anjos podem caber em cima da cabeça de um alfinete? E quantos em cima da minha cabeça? E o que é que isso interessa?
O cosmos é vagaroso e eu estou presa do lado de fora das grades.»
Ana Hatherly, Tisana #432
outubro 29, 2009
Com um poema assim, fica este blog "just perfect", como a Catharsis o qualificou :):
As causas
Todas as gerações e os poemas. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os Caldeus observaram. As areias inúmeras do Ganges. Chuang Tzu e a borboleta que o sonhou. As maçãs feitas de ouro que há nas ilhas. Os passos do errante labirinto. O infinito linho de Penélope. O tempo circular, o dos estóicos. A moeda na boca de quem morre. O peso de uma espada na balança. Cada vã gota de água na clepsidra. As águias e os fastos, as legiões. Na manhã de Farsália Júlio César. A penumbra das cruzes sobre a terra. O xadrez e a álgebra dos Persas. Os vestígios das longas migrações. A conquista de reinos pela espada. A bússola incessante. O mar aberto. O eco do relógio na memória. O rei que pelo gume é justiçado. O incalculável pó que foi exércitos. A voz do rouxinol da Dinamarca. A escrupulosa linha do calígrafo. O rosto do suicida visto ao espelho. O ás do batoteiro. O ávido ouro. As formas de uma nuvem no deserto. Cada arabesco do caleidoscópio. Cada remorso e também cada lágrima Foram precisas todas essas coisas Para que um dia as nossas mãos se unissem.
Jorge Luís Borges, História da noite, in Obras Completas, Vol. III, Círculo de Leitores, Lisboa, 1998, p. 203
outubro 28, 2009
Eis o primeiro texto hieróglífico que consegui perceber, na sua tão subtil sensualidade:
.........................SUBJACENTE
O instante em que se torna incompreensível não ouvir a ...............................................chuva semelhante ao tom humano instrumentos que são as vozes autênticas em que contornas debaixo do flanco e da espádua sobre ...........................................................madeira subjacente a minha forma. O que eu ouvi era apenas a epiderme junto à raiz das tábuas que me sustinha que provém .................................................constantemente da árvore assim como súplica e êxtase do amor paralelo
a um início no mundo inaudível. Se me disseres para além .......................................................do pavimento do tecto ouvirmos uma voz infantil eu afasto o tímpano de um ................................................................berço porque a atenção rigorosa se esquiva aos sons de que duvido
se fixa no centro da passagem do corpo ao longo de todo .......................................................o espírito como uma consciência pelo interior da sua inconsciência ........................................................ tornada vibrante e inacessível às lágrimas aos ruídos excedentes.
A parte mais próxima do corpo próximo é idêntica ao meu .....................................................corpo rodeado de significações e da convenção dos sentidos habituais que o meu desconhecimento transforma em inverosimilhança.
O artifício da chuva o brado de uma silhueta distanciando-se de uma criança puderam logo ser reconstituidos depois do ................................................tempo atravessar a extensão de pólo a pólo do meu corpo subjacente.
fiama hasse pais brandão
:)
Estou deveras contente e feliz por a 'minha' estimada leitora do blog Catharsis ter atribuído a este modesto acervo de leituras o prémio de blog "Just Perfect"!
Lamento não poder prosseguir a cadeia apreciativa de blogs porque ainda estou muito ignorante :(, mas logo que consiga fá-lo-ei com muito gosto :)
outubro 27, 2009
Uma jóia para
"A Jóia"
«Ela refulge. Essa ela sem igual. Ela é sempre única. E tem sagrada cólera.
Mas quando é colar de pérolas brilha macia como uma piedade de Ave-Maria.
Colar de pérolas precisa de estar em contacto com a pele da gente para receber nosso calor. Senão fenece.
Uma, duas, três, sete, quantos ovos peroláceos de madrepérola?
E termina com um delicadíssimo fecho de brilhantes engastados em ouro branco.»
Clarice Lispector, Um sopro de vida, cit. in Carlos Mendes de Sousa, Clarice Lispector - Figuras da Escrita, Centro de Estudos Humanísticos, Universidade do Minho, Braga, 2000, p.143
outubro 26, 2009
Sempre é bom ter um divã
Recebi o Selinho do Divã da Grande Jóia! Fiquei contente, pois se lembrou de mim.
Mas esta obrigação de agora me deitar nele, embaraça-me posto que o que diga será diferente do que poderia dizer!...
As regras são as seguintes:
1. Postar o Selo - Está feito. 2. Dizer quem me indicou- Grande Jóia. 3. Escrever três conflitos que me levaram ao Divã - Ei-los:
— Só no meu próprio divã me deito; o único contacto tido com um psicólogo, há muitos anos, redundou num insucesso absoluto, por o especialista me ter achado muito esperto, mas não o suficiente para o convencer! E, assim, acabou a terapia! Digamos, até: — esse foi o meu primeiro caso de divã!
— Outro caso: a net! A primeira vez que nela interagi, apaixonei-me! Felizmente, por pessoa amiga menos enamorada do que eu. De modo que tudo correu bem. Aprendi a lição: paixão, só na realidade; não, na net. :)
— Último caso: dou comigo a pensar que a net rouba-me mais tempo do que devia… É verdade, é um estímulo a ler, a pensar; mas melhor seria se se-originasse na vida social em vez de neste espaço dessensualizado…
4. Passar o selinho a seis amigos…? Não posso, não tenho coragem. Talvez um dia… :)
outubro 25, 2009
Origem do Lógico. — De onde nasceu a lógica no cérebro humano? Do ilogismo, certamente, cujo domínio, primitivamente, deve ter sido imenso. Uma multidão de seres que raciocinava de maneira completamente diversa da nossa actual desapareceu; a coisa parece cada vez mais verdadeira. O que não podia, por exemplo, descobrir com bastante rapidez as «similitudes» necessárias quanto à sua alimentação ou aos seus inimigos, aquele que classificava com demasiada lentidão, que punha demasiada prudência em fazê-lo, diminuia as suas possibilidades de duração mais do que aquele que concluía imediatamente pela semelhança na conformidade. E era essa inclinação predominante que levava a tratar as coisas que se pareciam como se elas fossem iguais, — porque, em si, não há duas coisas que sejam iguais, — foi essa inclinação que primeiro forneceu a base de toda a lógica. do mesmo modo, para que nascesse o conceito de substância indispensável à lógica, ainda que estritamente falando nada de real lhe corresponda, foi necessário que se não visse, nem sentisse, durante muito tempo o que há de mutável nas coisas; os seres que não viam muito bem tinham uma superioridade sobre aqueles que percebiam as «flutuações» de todas as coisas. ( ) A maneira como se sucedem, no cérebro de hoje, pensamentos e deduções lógicas, corresponde a um processo e a uma luta de instintos que são, em si, deveras ilógicos e injustos, só percebemos geralmente o resultado desta luta; de tal modo este antigo mecanismo funciona em nós rapidamente e agora secretamente.
(Gaia Ciência, Livro III, § 111)
outubro 24, 2009
Origem do conhecimento. — Durante longos séculos, o intelecto nunca engendrou mais do que erros; alguns mostravam-se úteis à conservação da espécie: quem os encontrava ( ) lutava com mais felicidade por si e pela sua descedência. Esses artigos de fé errados, transmitidos hereditáriamente através de gerações, acabaram por se tornar numa espécie de ( ) fundo humano: admite-se, por exemplo, que há coisas que são iguais, que existem objectos, matérias e corpos, que uma coisa é o que parece ser, que a nossa vontade é livre, que aquilo que é bom para um é bom em si. Só muito tardiamente é que apareceram pessoas que negaram ou puseram em dúvida este género de proposições, só muito tardiamente surgiu a verdade, esta forma menos eficaz das formas de conhecimento. ( ) A partir de então a fé, a convicção, deixaram de ser as únicas forças, mas também o exame, a negação, a contradição; todos os «maus» instintos foram subordinados ao conhecimento e postos ao seu serviço; ( ) O conhecimento, a partir de então, tornou-se uma parte da própria vida, e, tal como a vida, uma força que foi crescendo sem detença; ( ) O pensador: eis agora o ser no qual a necessidade da verdade e os erros antigos que mantêm a vida, se dão o seu primeiro combate desde que a necessidade da verdade se afirmou também como uma força que conserva a vida. Dada a importância desta luta tudo o mais é indiferente: ela enuncia a última pergunta sobre a condição da vida, e faz a primeira tentativa para lhe responder com a experiência. Até que ponto a verdade suporta a assimilação? tal é esta pergunta, tal é esta experiência.
(Gaia Ciência, Livro III, § 110)
outubro 14, 2009
Defendamo-nos. — Defendamo-nos de pensar que o mundo seja um ser vivo. Como se desenvolveria? De que se alimentaria? Como poderia crescer e multiplicar-se? ( ) Defendamo-nos até de pensar que o universo seja uma máquina; não foi certamente construído para um objectivo ( ). Defendamo-nos de supor por toda a parte a existência a priori de uma coisa tão bem definida como o movimento cíclico das constelações próximas da Terra; um olhar para a Via Láctea basta já para fazer nascer dúvidas ( ). A ordem astral em que vivemos é uma coisa excepcional; esta ordem e a medíocre duração que determina tornaram possível por sua vez esta excepção das excepções: a formação do orgânico. Mas o carácter do mundo é pelo contrário o de um caos eterno, não pelo facto de ausência de necessidade, mas pelo de uma ausência de ordem ( ). Ora como poderemos permitir-nos censurar ou louvar o universo! Defendamo-nos de lhe censurar uma falta de coração ou de razão, ou o contrário destas coisas: não é nem perfeito, nem belo, nem nobre, e não quer transformar-se em nada disso; não procura de forma alguma imitar o homem! Não é tocado por nenhum dos nossos juízos estéticos e morais! Não possui instinto de conservação, não possui qualquer instinto e ignora toda a espécie de lei. Defendamo-nos de dizer que eles existem na natureza. Essa só conhece necessidades: nela não há ninguém que ordene, ninguém que obedeça, ninguém que infrinja. Quando souberdes que não há fins, sabereis igualmente que não há acaso: porque é únicamente sob o olhar de um mundo de fins que a palavra «acaso» toma um sentido. Defendamo-nos de dizer que a morte é o contrário da vida. A vida não passa de uma variedade de morte, e uma variedade muito rara. ( ) Mas quando acabaremos com os nossos cuidados e as nossas precauções? Quando deixaremos de ser obscurecidos por todas estas sombras de Deus? Quando teremos completamente «desdivinizado» a natureza?
(Gaia Ciência, Livro III, § 109)
outubro 13, 2009
Miró in Modus Vivendi «Quando tu foste gerada, pôs-se o sol, nasceu a lua; estava a tua mãe deitada, andava teu pai na rua.»
(versos recitados por Villaret)
outubro 12, 2009
Matisse in Modus Vivendi
PERFUME DA ROSA
Quem bebe, rosa, o perfume Que de teu seio respira? Um anjo, um silfo? Ou que nume Com esse aroma delira?
Qual é o deus que, namorado, De seu trono te ajoelha, E nesse néctar encantado Bebe oculto, humilde abelha?
- Ninguém? – Mentiste: essa frente Em languidez inclinada, Quem ta pôs assim pendente? Dize, rosa namorada.
E a cor de púrpura viva Como assim te desmaiou? E essa palidez lasciva Nas folhas quem ta pintou?
Os espinhos que tão duros Tinhas na rama lustrosa, Com que magos esconjuros Tos desarmaram, ó rosa?
E porquê, na hástia sentida Tremes tanto ao pôr do Sol? Porque escutas tão rendida O canto do rouxinol?
Que eu não ouvi um suspiro Sussurrar-te na folhagem? Nas águas desse retiro Não espreitei a tua imagem?
Não a vi aflita, ansiada… - Era de prazer ou de dor? - Mentiste, rosa, és amada, E tu também amas, flor.
Mas ai!, se não for um nume O que em teu seio delira, Há-de matá-lo o perfume Que nesse aroma respira.
Almeida Garrett, Folhas Caídas
outubro 11, 2009
imagem in blog "entre outras mil"
TÂNTALO
A que Deus implorar qualquer ajuda,
Se sou eu que fabrico as divindades!
Imagino,
imagino,
E, de tanto subir, chego ao divino.
Mas nenhum sequioso mata a sede
A beber na miragem de uma fonte.
Grito, Grito,
E, quanto mais acima, mais aflito.
Miguel Torga
O Fado nasceu um dia, quando o vento mal bulia e o céu o mar prolongava, na amurada dum veleiro, no peito dum marinheiro que, estando triste, cantava, que, estando triste, cantava.
Ai, que lindeza tamanha, meu chão , meu monte, meu vale, de folhas, flores, frutas de oiro, vê se vês terras de Espanha, areias de Portugal, olhar ceguinho de choro.
Na boca dum marinheiro do frágil barco veleiro, morrendo a canção magoada, diz o pungir dos desejos do lábio a queimar de beijos que beija o ar, e mais nada, que beija o ar, e mais nada.
Mãe, adeus. Adeus, Maria. Guarda bem no teu sentido que aqui te faço uma jura: que ou te levo à sacristia, ou foi Deus que foi servido dar-me no mar sepultura.
Ora eis que embora outro dia, quando o vento nem bulia e o céu o mar prolongava, à proa de outro veleiro velava outro marinheiro que, estando triste, cantava, que, estando triste, cantava.
outubro 02, 2009
Sempre o princípio de Outubro oferece um Algarve diferente!
:)
outubro 01, 2009
«Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida.»
(p.255)
setembro 30, 2009
Um romance mágico, poético da primeira à última página.
«África é o mais sensual dos continentes.»
«Assim que saímos da cidade, desabou o céu: nunca vi tamanho dilúvio. Tivemos que parar porque a estrada não oferecia segurança. [ ] Pensava que sabia o que era chover. Naquele momento, porém, eu revia os verbos e receava que, em lugar da viatura, deveria ter alugado um barco.
Depois de a chuva terminar, porém, é que sucedeu a inundação: um dilúvio de luz. Intensa, total, capaz de cegar.
E me surgiram quase indistintas: a água e a luz. Ambas em excesso, ambas confirmando a minha infinita pequenez.
Como se houvesse milhares de sóis, incontáveis fontes de luz dentro e fora de mim.
Eis o meu lado solar, nunca antes revelado.
Todas as cores descoloriram, todo o espectro se tornou num lençol de brancura.»
(p. 184-5)
setembro 28, 2009
O nosso novo «infinito». — Até aonde vai o carácter perspectivo da existência? possui ela mesmo outro carácter? uma existência sem explicação, sem «razão» não se torna precisamente uma «irrizão»? e, por outro lado, não é qualquer existência essencialmente «explicativa»? é isso que não podem decidir, como seria necessário, as análises mais zelosas do intelecto, as mais pacientes e minuciosas introspecções: porque o espírito do homem, no decurso destas análises, não se pode impedir de se ver conforme a sua própria perspectiva e só pode ver de acordo com ela. Só podemos ver com os nossos olhos; é uma curiosidade sem esperança de êxito procurar saber que outras espécies de intelecto e de perspectivas podem existir; ( ) Espero contudo que estejamos hoje longe da ridicula pretensão de decretar que o nosso cantinho é o único de onde se tem o direito de possuir uma perspectiva. Muito pelo contrário o mundo, para nós, voltou a tornar-se infinito, no sentido em que não lhe podemos recusar a possibilidade de se prestar a uma infinidade de interpretações.
(Gaia Ciência, Livro V, § 374)
O que nada surpreende
nem na física, nem na política
ou na lógica. Sem que tal implique
qualquer queda no relativismo. De facto,
toda a dedução parte de um núcleo variável
de premissas, a política destitui as conclusões
apenas derivadas de opções metafísicas - e exige
o acordo num terreno comum de razoabilidade -,
e a física assenta os seus fundamentos num princípio
de indeterminação o que apela à observação, experiência
e cálculo de probabilidade. De qualquer modo, nada disto
nos precipita no relativismo porque o 'homem colectivo'
selecciona as explicações teóricas mais elegantes e
mais económicas, de postulados independentes,
reconhece a vantagem da cooperação
sobre a da exploração, e sabe-se
incluído num mundo a que
deve a sua existência.
setembro 27, 2009
No horizonte do infinito. — Deixamos a terra, subimos a bordo! Destruímos a ponte atrás de nós, melhor destruímos a terra atrás de nós. E agora, barquinho, toma cuidado! Dos teus lados está o oceano; é verdade que nem sempre brame; a sua toalha estende-se às vezes como seda e ouro, um sonho de bondade. Mas, virão as horas em que reconhecerás que ele é infinito e que não existe nada que seja mais terrível do que o infinito. Ah! pobre pássaro, que te sentias livre e que esbarras agora com as grades desta gaiola! Desgraçado de ti se fores dominado pela nostalgia da terra, como se lá em baixo tivesse havido mais liberdade,... agora que deixou de haver «terra»!
(Gaia Ciência, Livro III, § 124)
setembro 26, 2009
Roy Lichtenstein in Modus Vivendi
PARA NOVOS MARES
Para lá — quero eu ir; e em mim E nos meus pulsos confio. Aberto o mar, para o azul Vara de Génova o meu navio.
Tudo novo e mais novo aos olhos brilha, Por sobre Espaço e Tempo o Meio-Dia dorme —: Só o teu olhar, ó Infinidade!, Olha pra mim, enorme!
Poema de Nietzsche Tradução de Paulo Quintela
setembro 25, 2009
Nunca vi o filme India Song de Margueritte Duras.
Pela estranheza e impressão que causa nalguns espectadores fico com grande curiosidade de o ver...
Como poderei? Em que grande ecrã vai?
Contudo, adivinho, causa a impressão que me deixou o seu livro Verão 80
«Disse para comigo que se continuava a escrever sobre o corpo morto do mundo e, do mesmo modo sobre o corpo morto do amor.
Que era nos estados de ausência que o escrito se engolfava para não substituir nada do que tinha sido vivido ou suposto tê-lo sido,
mas para ali consignar o deserto por ele deixado.»
(Marguerite Duras, Verão 80)
Sempre em nossa casa. — Um dia, tendo alcançado o nosso fim, só com orgulho falaremos das longas peregrinações que fomos obrigados a fazer. Mas na realidade, não nos tínhamos apercebido da viagem. Se chegámos tão longe foi precisamente porque em todos os lugares nos parecia estarmos em nossa casa.
(Gaia Ciência, Livro III, § 253)
setembro 24, 2009
Mais vale dever. — «Mais vale dever do que pagar com uma moeda que não traz a nossa efígie!» assim o quer a nossa soberania.
(Gaia Ciência, Livro III, § 252)
setembro 23, 2009
Nobreza e vulgaridade. — Aos olhos das naturezas vulgares os sentimentos nobres e generosos parecem faltos de pertinência, por consequência de verosimilhança em primeiro lugar; ( ) Reconhece-se a natureza vulgar porque nunca perde de vista o seu proveito, pelo facto desta obsessão do objectivo, do lucro, ser nela mais forte do que o mais violento instinto: não se deixar arrastar pelo impulso desarrazoável das acções intempestivas: eis o que lhe serve de sageza e de dignidade. ( ) O gosto das naturezas superiores prende-se a coisas excepcionais, a coisas que deixam fria a maior parte dos outros homens e não parece ter nenhuma atracção: a natureza superior mede os valores por uma escala pessoal. ( )
(Gaia Ciência, Livro I, § 3)
setembro 22, 2009
"Matéria e Memória" ou "Alta Velocidade à Meia- Noite"
CANAIS FERROVIÁRIOS
O reflexo aqui é o ponto estável num mundo percorrido; a imagem exausta na lívida ou na escura noite em que no teu rosto havia a densidade dos vapores que eram o opaco. Regresso a esse ciclo, ao vidro; são duas noites vivas e cindidas, laterais. A, do lado, de águas que eram espaço negro, e negras, a esfera absoluta. Imaginar? Do outro lado, de uma ou de outra noite, o rebordo das luzes, entre clarões. Seria essa recta ou o infindável? Vou neste afastamento agora entre o metálico, a porcelana, o vidro.
Nesta soturna câmara são punidos presença, luzes, fogos nus. De fora dos meus olhos ou no interior do mundo que Hegel me dissera ser dos olhos, sendo por sua vez os olhos o precipício para a alma, e alma exactamente só no mundo e não algures.
Só tu depois do espaço e do início, na escrita deixaste-me o teu rosto, porém cercado de ferragens e mais móvel do que o meu. Que vidro te cobria que sem moveres o corpo, este e o rosto diminuíram lentamente entre hastes e os cais ferroviários. Não te perdi, só a distância assim aumenta entre dois corpos e o tempo da memória oculta imagens.
Neste labor nocturno em que vejo sobre campos de cereais o opalino e contra o foco forte incandescente, a corrupção das vinhas, noite absoluta. Tão coesa que confunde mesmo a da memória, noite do rio, noite, o não saber. A meio deste sítio transformável em zonas de sentido e zonas nulas, em faixas metalúrgicas e dúvidas, nestas imagens mistas, pois novamente a água oscila no jarro biselado.
Só depois do extenso e tempo, o discurso inverte estas propostas: uma cancela branca, o quer que se ilumine nessa dispersa esfera (ainda) dos campos. Na retina, imagem pronta para o próximo ponto de fusão, para que não se perca nunca sendo imagem, a tua boca chegada a um lugar distante é a mais confusa boca e permanente.
fiama hasse pais brandão
«À medida que o meu horizonte se alarga, as imagens que me cercam parecem desenhar-se sobre um fundo mais uniforme e tornarem-se indiferentes para mim.
Quanto mais contraio esse horizonte, tanto mais os objectos que ele circunscreve se escalonam distintamente de acordo com a maior ou menor facilidade do meu corpo para tocá-los e movê-los.
Eles devolvem, portanto, ao meu corpo, como faria um espelho, a sua influência eventual; ordenam-se conforme os poderes crescentes ou decrescentes do meu corpo.
Os objectos que cercam o meu corpo reflectem a acção possível do meu corpo sobre eles.»
[Assim sendo], o que [isto] significa [é] que a minha percepção [do mundo] traça precisamente no conjunto das imagens, à maneira de uma sombra ou de um reflexo, as acções virtuais ou possíveis do meu corpo [ ].
Donde, provisoriamente, estas duas definições: Chamo de matéria o conjunto das imagens, e de percepção da matéria, essas mesmas imagens relacionadas à acção possível de uma certa imagem determinada, o meu corpo.
Henri Bergson, Matéria e Memória, Livraria Martins Fontes, S. Paulo, 1990, p. 12-13.
setembro 21, 2009
O SEXTO SENTIDO
Estamos aqui Em estado de liberdade Condicionada pela enorme filáucia do próximo Que um poeta desconhecido confirmou Quando disse: O sexo existe Vem da palavra six Igual a sexto sentido Que é feminino
E acresecentou: A maçã É para ser comida
Ana Hatherly, A neo-Penélope, &etc, Lisboa, 2007
setembro 20, 2009
Jean Serge Seiler, "Le fleuve de la vie"
«O homem que vive entre a terra e o ar e que é feito de água vive prisioneiro como o rio, que tem terra por baixo e ar por cima.
O rio é como o homem.» Mercè Rodoreda, A Morte e a Primavera, Lisboa, Relógio d´Água, 1992, p. 83
setembro 19, 2009
«eu não estou em sítio algum… mas por ter sido, alguma coisa resta… numa pedra da floresta há ainda um sinal de mim… não estou em sítio algum mas nalgum sítio alguma coisa ficou de mim…»
Mercè Rodoreda, A Morte e a Primavera, Lisboa, Relógio d´Água, 1992, p. 155
setembro 18, 2009
Ainda a propósito do belo pensamento de Schopenhauer subscrito pelo blog Direito e Avesso, lembro este impressivo enunciado de Leibniz do seu Discurso de Metafísica:
«Cada substância singular exprime todo o universo à sua maneira e ( ) na sua noção estão compreendidos todos os seus acontecimentos, com todas as suas circunstâncias e toda a sequência das coisas exteriores.»(§ IX)
ou, nas palavras da escritora catalã, Mercê Rodoreda, em A Morte e a Primavera, p.149
«… e cravei o ferro à altura do meu coração e a minha vida ficou fechada. E eu posso começar a contar a minha vida por onde quiser, posso-a contar de uma forma diferente… mas faça o que fizer a minha vida ficou fechada… não posso mudar nada da minha vida. A morte fugiu pelo coração e quando já não tinha a morte dentro de mim, morri…» :))