Eros: — De boa vontade, eis-me ao teu lado e aos teus pés. Que véu maravilhoso! Parece que mergulhou no azul dos teus olhos. Que figuras admiráveis bordaste com as tuas mãos, menos belas contudo que a divina bordadeira, que nunca se contemplou a si própria num espelho. (Sorri maliciosamente.)
Perséfona (volta a sentar-se): — Dizem que és manhoso e o teu rosto é a própria inocência; dizem-te todo poderoso e pareces um frágil adolescente; dizem-te traiçoeiro, e quanto mais te olho nos olhos, mais o meu coração desabrocha, e mais confiança sinto por ti, belo jovem alegre. Dizem que és sábio e hábil. Podes ajudar-me a bordar este véu?
Perséfona (tira as mãos do rosto, que mudou de expressão; sorri através das lágrimas): — Patetas que sois! Insensata que eu era! Lembro-me agora, ouvi-o dizer nos mistérios olímpicos: Eros é o mais belo dos Deuses;
sobre um carro alado preside às evoluções dos Imortais, na mistura das primeiras essências.
É ele que conduz os homens ousados, os heróis, do fundo do Caos aos cumes do Éter. Ele sabe tudo; como o Príncipe-Fogo, atravessa os mundos e tem as chaves do céu e da terra! Quero vê-lo!
O coro: — Oh! Virgem divina, não é senão um sonho, mas tomará conta do teu corpo, e tornar-se-á uma realidade inelutável, e o teu céu desaparecerá como um sonho vão, se tu cedes ao teu desejo culpável.
Obedece a esse aviso saudável, retoma a tua agulha e tece o teu véu. Esquece o astucioso, o impudente, o criminoso Eros!
Perséfona - (com os olhos fixos no vazio e cheios de espanto): — Será uma recordação? Será um pressentimento terrível? O Caos… os homens…. o abismo das gerações, o grito das paridelas, os clamores furiosos do ódio e da guerra… a agonia da morte!
Compreendo, vejo tudo isso, e esse abismo atrai-me, toma-me, preciso sair.
Eros nele me mergulha com a sua tocha incendiária. Ah! vou morrer! Para longe este sonho horrível! (Cobre o rosto com as mãos e soluça.)
janeiro 02, 2010
Advertido pelo que do filme disse analima dos Dias Imperfeitos, fui ver Parlez-moi de la pluie de Agnès Jaoui com Jean-Pierre Bacri, ambos judeus, franceses, ela natural da Tunísia, ele da Argélia.
Já conhecia J.-P. Bacri do notável filme Le goût des autres e esperei assim um belo momento de cinema: - e foi! Talvez não perdesse em ser um pouco mais intelectualizado...
mas é realmente uma estória singela contada com grande maestria, graça e beleza.
:))
- Sem dúvida, aquele repórter cinematográfico conseguia pôr à vontade os entrevistados.
Só era desastroso, por afinal, não os conseguir sequer filmar!
Perséfona (levanta-se e afasta o véu): — Eros! O mais antigo e contudo o mais jovem dos Deuses, fonte inesgotável de alegria e choro — pois, assim me falaram de ti — deus terrível,
o único desconhecido e invisível dos Imortais, o único desejável, misterioso Eros!
que perturbação, que vertigem me assalta ao teu nome!
O coro das ninfas: — Ó Perséfona! Ó Virgem, Ó casta noiva do Céu, que bordas as figuras dos Deuses no teu véu, possas tu nunca conhecer as ilusões vãs e os inúmeros males da terra.
A eterna Verdade sorri-te. O Teu esposo celeste, Dionisos, espera-te no Empíreo. Por vezes ele aparece-te sob a forma de um sol longínquo; seus raios acariciam-te; respira o teu sopro e bebes a sua luz…
Antecipadamente, vós vos possuís!… Ó Virgem, quem é mais feliz do que tu?
Perséfona: — Sim, mãe augusta e respeitável, por essa luz que te envolve e que me é cara, prometo-o, e que os Deuses me castiguem se não cumprir o meu juramento.
Deméter: — Filha amada dos Deuses, conserva-te nesta gruta até eu regressar e borda o meu véu.
O céu é a tua pátria e o universo é teu. Tu vês os Deuses; eles acorrem à tua chamada.
Mas não escutes a voz de Eros, o ardiloso, de olhar suave e pérfidos conselhos.
Guarda-te de sair da gruta e nunca colhas as sedutoras flores da terra; o seu perfume perturbador e funesto far-te-ia perder a luz do sol e até a memória.
Borda o meu véu e sê feliz até ao meu regresso com as ninfas tuas companheiras.
Então, no meu carro de fogo, atrelado de serpentes, levar-te-ei aos esplendores do Éter, sob a via láctea.
Hermes: — Deméter dá-nos dois presentes maravilhosos: os frutos, para que não vivamos como os animais e a iniciação que dá uma esperança mais doce a todos que nela participam.
Prestai atenção às palavras que ides ouvir e às coisas que ides ver.
Chegavam dois a dois, a uma clareira. Ao fundo viam-se rochas e uma gruta. Á frente, um prado com ninfas deitadas em volta de uma fonte.
Ao fundo da gruta, avistava-se Perséfona, sentada num trono, nua até à cintura como uma Psiqué, o seu busto esbelto emergindo casto de uma túnica enrolada como um vapor de azul nos seus flancos.
Ela parecia feliz, inconsciente da sua beleza e bordando um longo véu de fios multicores.
Deméter, sua mãe, está de pé, perto dela, com o ceptro na mão.