dezembro 14, 2009

os mistérios de eleusis i

Porque aí vem mais um Natal
e um Solstício de Inverno
vou recontar e registar
neste blog

a bela estória
de Deméter e Perséfona,
um dos mitos natalícios
dos Mistérios de Elêusis




Os mistérios de Eleusis foram, na antiguidade grega e latina,
objecto de uma veneração especial. Em tempos imemoriais,
uma colónia grega vinda do Egipto trouxe à tranquila baía
de Eleusis o culto da grande Ísis sob o nome de Deméter
ou a mãe universal.

Desde então Eleusis conservou-se um centro de iniciação.
Deméter e sua filha Perséfona presidiam aos grandes mistérios.

dezembro 13, 2009



Nunca pensei assistir na vida
a um concerto de José Cid!
Não é que o ache mau cantor
e compositor: não acho; e

orgulho-me que ele contrarie,
com a sua criatividade
e talento, esse predomínio
asfixiante da música anglo-
-saxónica: é com produtores
como José Cid que se contribui
para substituir importações!

O facto é que nunca me moveria
a ir a ouvi-lo, salvo a circunstância
inesperada de ter sido convidado
para acompanhar duas senhoras,
todos nós, elas, eu e o Cid cantor,
todos da mesma idade e geração.

Gostei de ver que o artista
tem o seu auditório fiel;
é um prazer ver o prazer
das pessoas, felizes com o seu
ídolo! :) Uma coisa, porém,
é deplorável: o volume imbecil
das colunas de som! Para quando
a Asae dos espectáculos musicais!?

:)

dezembro 11, 2009



«Não tenho sentimento nenhum político ou social.
Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.
Minha pátria é a língua portuguesa.

Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal,
desde que não me incomodassem pessoalmente.

Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto,
não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe,
não quem escreve com ortografia simplificada,

mas a página mal escrita, como pessoa própria,
a sintaxe errada, como gente em que se bata,
a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo
que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente.
A palavra é completa vista e ouvida.

E a gala da transliteração greco-romana
veste-ma do seu vero manto régio,
pelo qual é senhora e rainha.»


Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith,
Lisboa 1998, #259.

dezembro 10, 2009



Coração! Esquecê-lo-emos!
Tu e eu – esta noite!
Tu poderás esquecer o calor que nos deu –
Eu esquecerei a luz!

Quando o tiveres feito, peço-te que me digas
Para que eu possa recomeçar!
Apressa-te! Senão, enquanto te demoras
Lembrá-lo-ei!

------ // ------

Heart! We will forget him!
You and I – tonight!
You may forget the warmth he gave –
I will forget the light!

When you have done, pray tell me
That I may straight begin!
Haste! Lest while you're lagging
I remember him!


Emily Dickinson (1830-86), Poemas
Trad. Nuno Júdice, Ed. Cotovia, Lisboa, 2000

dezembro 09, 2009



Pois meus olhos não deixam de chorar
Tristezas que não cansam de cansar-me
Pois não abranda o fogo em que abrasar-me
Pode quem eu jamais pude abrandar
Não canse o cego amor de me guiar
A parte donde não saiba tornar-me
Nem deixe o mundo todo de escutar-me
Enquanto me a voz fraca não deixar
E se em montes, em rios, ou em vales
Piedade mora ou dentro mora amor
Em feras, aves, plantas, pedras, águas
Ouçam a longa história de meus males
E curem sua dor com minha dor
Que grandes mágoas podem curar mágoas


Ana Moura canta Camões

dezembro 08, 2009



Eu amo o amor.
O amor é vermelho.
O ciúme é verde.
Meus olhos são verdes.
Mas são verdes tão escuros que na fotografia saem negros.
Meu segredo é ter os olhos verdes e ninguém saber.


Clarice Lispector, Onde estiveste de noite,
Relógio d'Água, s/d, p. 72

dezembro 07, 2009



Toda a beleza sente-se no ventre,
mesmo a que a janela traz aos olhos
ou os instrumentos de som deixam no ouvido.
Tudo o que a mão palpa, com doçura ou ardor,
tudo o que nos comove ou nos exalta
ata-nos no ventre um nó dentro do corpo.


(fiama hasse pais brandão)

dezembro 06, 2009


Denis, M., La dormeuse ou jeune fille endormie (1892)
imagem in Branco no Branco

«O silêncio brilha acariciado.»

Eugénio de Andrade,
As nascentes da ternura,
in "Ostinato Rigore"

dezembro 05, 2009

Na pré-adolescência
do tempo de Salazar,


Sabe-se lá,
Frederico Valério,
Silva Tavares,
Amália Rodrigues



Lá porque ando em baixo agora
Não me neguem vossa estima
Que os alcatruzes da nora
Quando chora
Não andam sempre por cima
Rir da gente ninguém pode
Se o azar nos amofina
E se Deus não nos acode
Não há roda que mais rode
Do que a roda da má sina.

Sabe-se lá
Quando a sorte é boa ou má
Sabe-se lá
Amanhã o que virá
Breve desfaz - se
Uma vida honrada e boa
Ninguém sabe, quando nasce
Pró que nasce uma pessoa.

O preciso é ser-se forte
Ser-se forte e não ter medo
Eis porque às vezes a sorte
Como a morte
Chega sempre tarde ou cedo
Ninguém foge ao seu destino
Nem para o que está guardado
Pois por um condão divino
Há quem nasça pequenino
Pr'a cumprir um grande fado.

dezembro 04, 2009


«Se tudo é cognoscível a quem está no reino
do conhecimento com as beatas palavras (felizes)
geradas no horizonte, a tarde esplêndida
acende como uma tocha a madrugada. Este silêncio
místico prepara a tábua rasa das comparações.»



(fiama hasse pais brandão)

dezembro 03, 2009

Gosto :):

dezembro 02, 2009

«Tive sempre uma repugnância física pelas coisas secretas
— intrigas, diplomacia, sociedades secretas, ocultismo.
Sobretudo me incomodaram sempre estas duas últimas coisas
— a pretensão, que têm certos homens, de que, por entendimentos
com Deuses ou Mestres ou Demiurgos, sabem — lá entre eles,
exclusos todos nós outros — os grandes segredos
que são os caboucos do mundo.

Não posso crer que isso seja assim.
Posso crer que alguém o julgue assim.
Por que não estará essa gente toda doida, ou iludida?
Por serem vários? Mas há alucinações colectivas.

O que sobretudo me impressiona,
nesses mestres e sabedores do invisível,
é que, quando escrevem para nos contar
ou sugerir os seus mistérios,
escrevem todos mal.

Ofende-me o entendimento
que um homem seja capaz de dominar o Diabo
e não seja capaz de dominar a língua portuguesa.

Por que há o comércio com os demónios
ser mais fácil que o comércio com a gramática?»

Bernardo Soares

dezembro 01, 2009


«Era uma vez uma ausência
que andava em missão de viagem.

Quando chegava a uma encruzilhada
dava três voltas sobre si própria
para perder por completo
a noção do caminho
por onde viera

atingindo assim com regularidade
as regiões efémeras do esquecimento.


Depois regressava a casa.»

:))

ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, #72

novembro 30, 2009



Não sei se precisamos de notícias; precisamos,
Certamente, de saber. O jornal apaga os passos
Que foi dando, ficando à espera de que haja mais.
O espaço vazio é mero arquivo. Decorrido um
Ror de tempo nessa aventura (tendo-lhe eu, entretanto,
Pago uma fortuna), as notícias sempre e sempre,
Vai tornando o saber mais evasivo. «Não sei que
Pensar», não é certamente um objectivo.

:)


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.103

novembro 29, 2009


Imagem: pesquisa google

«Uma voz, em face da sua mente, é muito susceptível
De ser influenciada. Antes de mais, pela mente. Tornar-
-Se uma mera incandescência. O rebordo do tom,
A inteligência com que se coloca, a certeza
Da frequência de onda, servem-se, todavia, mutuamente.
Mente e voz, vi-as hoje deitadas na mesma cama. Dormiam
A sesta, uma na outra envoltas. Não era necessário sonhar
Na luz branca. Depois, levantaram-se daquele amor,
E foram sentar-se à mesma mesa. Na toalha branca
Que partilham, a alvura cruzada com a limpidez dos
Copos é a imagem nua que sente. Sua qualidade ___
É difusa e, no entanto, focalizada.»

Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.138

novembro 28, 2009

Não lhe seguindo o exemplo,
uma bela fotografia de gabriela llansol



«Não me esqueço de que preferes que não se fale de ti
porque receias uma imagem que te guarde.

Mas, com todo o rigor,
um rosto que volta
é uma imagem que se desfaz.

A fonte é sempre a mesma
mas o aspecto adianta-se, imprevisível;

a tal ponto que a vontade se exerce,
não a captar a imagem,
mas a desposar a força que a gerou.»

Mª Gabriela Llansol,
Contos do mal errante

novembro 27, 2009

Em contraponto,
Torga implacável,
lúcido e inconformado:


BALADA DA MORGUE

Olho este corpo morto aqui deitado
E sinto impulsos de beijá-lo e ter
Como ele não sei que enfado
Por quem vive e quer viver

Que bruta sinceridade!
Que vaidade!
Que mentira! Que verdade!
Todo nu! Só tatuado
De livores,
Arco-íris gangrenado,
De mil cores.

Não é de mulher, não é;
Nem de homem, nem de animal
Irracional.
É de anjo predestinado
Que foi sacrificado
Para dar a noção exacta da renúncia.

Ai dos enclausurados em sarcófagos!
Ai de quem morre vestido!
Nesta luxúria da morgue
Há todo o satanismo
Que nos foi prometido
No final...
São os gestos parados,
Os olhos vidrados,
Os ouvidos tapados,
Os sexos castrados,
E por cima de tudo o silêncio das bocas.

Quero
Amar este sol da terra
Que mostra o calor do céu.
O alto céu onde mora
Um Deus que na mesma hora
Nos criou e nos perdeu.


Miguel Torga, Rampa (1930)
in "Antologia Poética"
Gráfica de Coimbra,

4ª ed.,1994, p.19

novembro 25, 2009

Outro dia olhei pra os teus olhos, ó Vida!
E pareceu-me que me afundava no insondável.

Mas tu pescaste-me cá p’ra fora com um anzol de ouro;
riste escarninha, quando eu te chamei insondável.

«É o que dizem todos os peixes», disseste tu;
«o que eles não podem sondar, é insondável».

Mas eu sou apenas mutável e bravia,
e em tudo mulher, e nada virtuosa.

Embora vós homens me chameis «profunda» ou
«fiel», ou «eterna», ou «misteriosa».

«Mas vós, homens, presenteais sempre
com as vossas próprias virtudes, ó virtuosos!»

Assim se ria ela, a incrível; mas eu nunca creio nela
nem no seu riso quando diz mal de si mesma.


E quando um dia eu estava a falar a sós com a minha brava

..................................................................................Sabedoria,
disse-me ela, colérica: «Tu queres, tu desejas, tu amas, e
é só por isso que tu louvas a Vida!»

Quase lhe ia dando uma má resposta,
dizendo a verdade à minha Sabedoria encolerizada;
e não há pior resposta
do que «dizermos a verdade» à nossa Sabedoria.

São assim as relações entre nós três.
Do fundo, do fundo amo apenas a Vida
— e, em verdade, amo-a mais quando a odeio!

Mas se gosto também da Sabedoria
(e por vezes demasiado),
é porque ela me faz lembrar muito a Vida!

Tem os olhos dela, o mesmo riso
e até a mesma caninha de pescar, de ouro:
que culpa tenho eu que ambas se pareçam tanto?


E quando uma vez a Vida me perguntou: Quem é essa

......................................................................Sabedoria?
— respondi vivamente: «Ah, sim! a Sabedoria!

Tem-se sede dela e nunca se fica satisfeito,
olha-se através de véus, lança-se a mão a redes.

Se é bela? Que sei eu!
Mas ainda serve de isca às carpas mais velhas.

É mutável e caprichosa;
muitas vezes a vi morder o beiço
e pentear-se a arrepia-pelo.

Talvez seja má e falsa,
e mulher em tudo;
mas quando diz mal de si mesma é quando é mais sedutora.»


Quando isto disse à Vida, riu-se ela maldosa, cerrando
............................................................................os olhos.
«De quem é que estás tu a falar?» — disse ela —
«de mim, sem dúvida?

E mesmo que tivesses razão —
é coisa que se me diga assim na cara?
Mas agora fala-me lá da tua Sabedoria!»

Ai, e então abriste de novo os olhos ó Vida amada!
E de novo me pareceu que me afundava no insondável.


:)))

(Assim cantou Zaratustra, poema em prosa)

novembro 24, 2009



Blog Instigante

A Grande Jóia atribuiu-me este selo de reconhecimento. Sensibilizado, agradeço com o meu muito obrigado. Este prémio visa distinguir os «blogs que, além da assiduidade das postagens e do esmero com que são feitos, nos provocam a necessidade de reflectir, questionar, aprender e – sobretudo – que instigam almas e mentes à procura de conhecimento e sabedoria.», pelo que indico aquele que me instiga a reflectir para lá de qualquer pseudo evidência dogmática...

Catharsis

novembro 23, 2009

Lembrando Montesquieu,
evocado no blog
ângulo recto


«Um homem sincero na corte de um príncipe
é um homem livre entre escravos.»


Montesquieu