setembro 08, 2009



Que fina percepção do Porto,
a de Agostinho da Silva,

«uma ilha rodeada por Portugal» :))

Rui Moreira, op. cit., p.80

setembro 06, 2009


"Se na nossa cidade há muito quem troque o B por V,
há muito pouco quem troque a liberdade pela servidão."

Almeida Garrett, (cit. p.29, op. supra)

setembro 05, 2009


A ti eu dei asas, com as quais sobrevoarás
o mar ilimitado e toda a terra, elevando-te
facilmente. Que estejas nos banquetes e nas cerimônias
todas, repousando nas bocas de muitos
e, com flautinhas de som agudo, amáveis jovens
juntos cantarão ordenadamente coisas belas e harmoniosas
a teu respeito. E quando, sob as entranhas escuras da terra,
tu fores para as moradas multilamentosas do Hades,
nunca, nem estando morto, perderás tua glória, mas sempre
tu importarás aos homens tendo nome imperecível.
Ó Kyrnos, vagando pela terra da Hélade e por suas ilhas,
cruzando por sobre o piscoso mar estéril,
não tendo-te sentado nos dorsos dos cavalos, por certo os dons
esplêndidos das Musas de coroas de violetas te enviarão.
Para todos quantos o canto importa e para os que virão a existir,
tu existirás da mesma forma, enquanto existirem terra e sol.
No entanto, eu não obtenho nem um pouco de respeito de ti,
mas como a uma pequena criança tu me enganas com palavras.

Teógnis de Mégara (séc.VI a.c.), fr. 237-254 A

setembro 04, 2009

As palavras são as imagens das palavras

TÁBUA DAS COMPARAÇÕES
(continuação e fecho)


Pintura de Gustav Klimt

Uma longa sucessão de cantos para alcançar
.........................................a convicção
e a exorbitância. As palavras são as imagens
das palavras. O texto não é mais eterno
.........................................do que o contexto.
Uma álea de cimento, uma figura nova
.....................................entre as áleas de terra.

Depois da estrofe banho-me de sol assim como
teogonis bebia pelo seu escudo. Desde há muitos séculos
.........................................................o Ocidente
está obcecado pelo sentido do indivíduo
.........................................e o da solidão.
Uiva, em intenção do meu nome, o mastim, que eu
como parte integrante do meu ser observo
...........................................na iluminura.




:)

setembro 03, 2009

Quando o céu está vermelho

Foi clAud,
uma forista dos idos de 2000,
que me mostrou e deu a conhecer
fiama hasse pais brandão. O poema
inicial que me encantou
foi a sua TÁBUA DAS COMPARAÇÕES :))




Quando o céu está vermelho comparo-o,
e embora o fogo ainda esteja próximo
da semiologia da fosforescência eu distancio-o
com a frase divinatória: amanhã a alva
há-de romper de sangue. Pela separação semântica

coloco o tom sanguíneo à distância
sobre uma árvore calva. Nos seus ramos
o pardal acumula também a premonição
da noite, consente que na elipse do horizonte
a grande mancha seja comparada a um sinal
ignoto que engendra os sinais.

Se tudo é cognoscível a quem está no reino
do conhecimento com as beatas palavras (felizes)
geradas no horizonte, a tarde esplêndida
acende como uma tocha a madrugada. Este silêncio
místico prepara a
tábua rasa das comparações.

:))

agosto 29, 2009

Tudo o que vivêramos

A casa de família
de Fiama, em Carcavelos





Urbanização

Tudo o que vivêramos
um dia fundiu-se com o que estava
a ser vivido.
Não na memória
mas no puro espaço
dos cinco sentidos.
Havíamos estado no mundo, raso,
um campo vazio de tojo seco.

Depois, alguém
urbanizou o vazio,
e havia casas e habitantes
sobre o tojo. E eu,
que estivera sempre presente,
vi a dupla configuração de um campo,
ou a sós em silêncio
ou narrando esse meu ver.


Fiama Hasse Pais Brandão
As Fábulas, 2002

agosto 24, 2009

esperanças são discursos


Esperanças renovadas - óleo sobre tela 100X80cm

«esperanças são discursos
que cada um faz a si próprio
e imagens que se pintam em nós.»


Platão, Filebo, xxiv

agosto 23, 2009

Princesa Elizabeth de Boémia


Princesa Elizabeth da Boémia (1618-1680)


Sereníssima Princesa,

O mais importante fruto que colhi dos escritos que até agora

publiquei foi o facto de Vos terdes dignado lê-los e, por esse
motivo, me terdes admitido no Vosso conhecimento, o que
me deu ocasião de conhecer os Vossos dotes, que são tais
que considero ser um serviço à humanidade propô-los
como exemplo aos séculos vindouros.

Não faria sentido que eu adulasse ou afirmasse algo não

suficientemente examinado (...); e sei que será mais grato
à Vossa generosa modéstia o juízo não afectado e simples
de um Filósofo do que os louvores adornados de homens
lisonjeiros. (...)

É evidente que este sumo cuidado [o da vontade firme e

constante de nada omitir (do que conduza) ao conhecimento
do que é recto e de fazer tudo aquilo que julgar recto] existe
em Vossa Alteza, pois nem as distracções da corte, nem a
educação habitual que costuma condenar as raparigas
à ignorância puderam impedir que investigásseis todas
as boas artes e ciências. Além disso, a grande e incomparável
perspicácia do Vosso espírito manifesta-se também no facto
de terdes inspeccionado profundamente todos os segredos
destas ciências e de em pouco tempo os terdes conhecido
em pormenor. (...)

E quando observo que esse conhecimento tão diversificado

e perfeito de todas as coisas não existe em algum sábio mestre
já idoso que tenha dedicado muitos anos a meditar, mas sim
numa jovem Princesa, que pela forma e pela idade mais faz
lembrar uma das Graças do que a penetrante Minerva ou
alguma das Musas, não posso deixar de ser tomado pela
mais elevada admiração.

Por fim, verifico que não há nada que se requeira para

a absoluta e sublime sabedoria, tanto da parte da vontade
como da parte do conhecimento, que não brilhe nos
Vossos costumes. Pois aparece neles a benignidade
e a mansidão associadas a uma certa singular
majestade, ferida por contínuas injúrias da sorte,

mas nunca perturbada nem quebrada.

E esta sabedoria que em Vós observo de tal modo

de mim exige veneração, que não só considero
que devo dedicar-lhe e consagrar-lhe esta minha
Filosofia (pois ela própria mais não é do que o estudo
da sabedoria), como prefiro antes ser servidor
devotíssimo de Vossa Sereníssima Alteza
do que ser tido por filósofo.

...............................................................Descartes

agosto 19, 2009

Descartes

«Le plus profond c'est la peau»
Paul Valéry

«Mais pour procéder ici avec plus de franchise,
je ne dissimulerai point que je me persuade
qu’il n’y a rien autre chose par quoi nos sens
soient touchés, que cette seule superficie qui
est le terme des dimensions du corps qui
est senti ou aperçu par les sens.


Car c’est en la superficie seule
que se fait le contact, lequel est
si nécessaire pour le sentiment,
que j’estime que sans lui pas un
de nos sens pourrait être mû.»


(Descartes, Méditations métaphysiques,
"Quatrièmes réponses", AT, IX, 192)

agosto 18, 2009

E, com certeza, concluo rectamente


Imagem in Poéticas em Português

«Além disso, também a natureza me ensina que existem diversos corpos em volta do meu corpo, alguns dos quais devem ser procurados por mim, enquanto devo evitar outros. E, com certeza, concluo rectamente que do facto de sentir diversas espécies de cores, sons, odores, sabores, calor, dureza e coisa da mesma natureza, há nos corpos de que me chegam estas várias percepções dos sentidos diferenças correspondentes, embora talvez não semelhantes a elas. E, porque sucede que algumas daquelas percepções me são agradáveis, outras desagradáveis, é absolutamente certo que o meu corpo, ou melhor eu na totalidade, enquanto sou composto de corpo e espírito, posso ser afectado agradável e desagradávelmente pelos corpos circunjacentes.»

Descartes, Meditações sobre a filosofia primeira,
6ª Meditação [14]

agosto 17, 2009

Um relógio composto de rodas e pesos



«[...] Um relógio composto de rodas e pesos não observa menos cuidadosamente todas as leis da natureza quando é mal fabricado e não indica as horas certas do que quando satisfaz a todos os respeitos a intenção do artífice: analogamente, o mesmo se dá com o corpo do homem, se o considero como uma certa máquina equipada e composta de tal maneira, por ossos, nervos, músculos, veias, sangue e peles, que, mesmo que não existisse nela nenhum espírito, possuiria no entanto todos os movimentos que agora executa e não procedem do império da vontade e, por conseguinte, do espírito.»

Meditações sobre a filosofia primeira, 6ª Meditação [16]

E assim, ( ) senti que tinha uma cabeça, mãos, pés


Picasso, Mademoiselles d'Avignon

«E assim, em primeiro lugar, senti que tinha uma cabeça, mãos,
pés e os restantes membros de que consta aquele corpo
que eu considerava como parte de mim próprio
ou, possivelmente, como eu todo.

E senti que este corpo está entre muitos outros corpos,
pelos quais pode ser afectado de modo favorável ou desfavorável,
e eu media o favorável por um certo sentimento de prazer
e o desfavorável por um sentimento de dor.»


Meditações sobre a filosofia primeira,
6ª Meditação [6]

agosto 16, 2009

... de que pense um monte com vale não se conclui...


Mountain Valley
«Mas, [ ] ainda que na verdade eu não possa pensar um Deus
a não ser existente, nem um monte sem um vale, entretanto
como de que pense um monte com vale não se conclui,
com certeza, que existe no mundo algum monte
também não parece concluir-se que Deus existe,
pelo facto de eu pensar Deus como existente.

Com efeito, o meu pensamento não impõe necessidade
às coisas: assim como me é lícito imaginar um cavalo
alado, mesmo que nenhum cavalo tenha asas,talvez
eu também possa atribuir a existência a Deus,
embora não exista nenhum Deus.»
Descartes, Meditações sobre a filosofia primeira,
5ª Meditação [9]

agosto 15, 2009

concebo também inúmeras particularidades



[...] Além disso, se presto atenção, concebo também
inúmeras particularidades sobre as figuras, o número,
o movimento, e coisas semelhantes, cuja verdade
é tão clara e consentânea com a minha natureza
que, logo que as começo a descobrir, parece-me
que não aprendo qualquer coisa de novo,
mas que, ao contrário, me recordo
do que já anteriormente sabia
[...]

Descartes, 5ª Meditação[4]

agosto 14, 2009

Eu sou uma coisa que pensa



«Eu sou uma coisa que pensa, quer dizer,
que duvida, que afirma, que nega,
que conhece poucas coisas,
que ignora muitas,

que quer,
que não quer,

que também imagina,
e que sente.»

agosto 12, 2009

Sandra Costa



«Amar a ternura de um olhar
como se fossemos um pássaro e um peixe

e entre nós sobrasse o céu e o mar.»

Sandra Costa, Sobre a luz do mar,
Campo das Letras, Porto, 2002

Juliette Greco





Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est dans l'eau
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est là-haut

Quand on est là-haut
Perdu aux creux des nuages
On regarde en bas pour voir
Son amour qui nage
Et l'on voudrait bien changer
Ses ailes en nageoires
Les arbres en plongeoir
Le ciel en baignoire

Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est là-haut
Un petit poisson, un petit oiseau
S'aimaient d'amour tendre
Mais comment s'y prendre
Quand on est dans l'eau

Quand on est dans l'eau
On veut que vienne l'orage
Qui apporterait du ciel
Bien plus qu'un message
Qui pourrait d'un coup
Changer au cours du voyage
Des plumes en écailles
Des ailes en chandail
Des algues en paille.

agosto 10, 2009

Zona Económica Exclusiva



Interessante, também, naquela entrevista
do Prof António Costa e Silva, o conceito
estratégico de Portugal como

"país-arquipélago"

com as potencialidades
que a sua Zona Económica Exclusiva,
dois milhões de quilómetros quadrados,
lhe proporciona para desenvolver
um cluster do mar.


E não se diga que o País
não tem futuro, porque
desde 1143 que Portugal
está p'ra acabar!

Matriz Energética



Há dias, o Prof. António Costa e Silva,
do IST, deu uma excelente e esperançosa

entrevista na SIC.Notícias no programa
"Negócios da Semana" de José Gomes Ferreira.

A matriz energética do futuro acentuará
a sobreposição da condição "produtor-consumidor";
a micro-geração de energia expandir-se-á; no limite,
idealmente, o próprio consumidor produziria a energia
que consome! :)). Por exemplo, os carros eléctricos
do futuro, porque não haveriam de ter tejadilho
com painel solar e ventoinha de produção
de energia eólica, do próprio vento
da deslocação automóvel,
carregando em contínuo
a bateria de lítio
de que até
há minas

em Portugal!?

:)

agosto 09, 2009

Offenbach



Le temps fuit et sans retour
Emporte nos tendresses,
Loin de cet heureux séjour
Le temps fuit sans retour.

Zéphyrs embrasés,
Versez-nous vos caresses,
Zéphyrs embrasés,
Donnez-nous vos baisers!
vos baisers! vos baisers! Ah!

Belle nuit, ô nuit d'amour,
Souris à nos ivresses,
Nuit plus douce que le jour,
Ô belle nuit d'amour!
Ah! Souris à nos ivresses!
Nuit d'amour, ô nuit d'amour!
Ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah! ah!

Les contes d'Hoffmann
Jacques Offenbach