junho 30, 2009



Do Fio de Ariadne chegou a este blog experimental o prémio
LEMNISCATA por amável escolha da Ana Paula
cuja distinção me honra e enche a alma
do prazer de existir muito para lá
do ler experimentado deste
modesto blog :)


Eis o texto oficial relativo ao prémio:

O blog Fio de Ariadne
atribuiu o prémio
Lemniscata

ao blog experimental


“O selo deste prémio foi criado a pensar nos blogs
que demonstram talento, seja nas artes, nas letras,
nas ciências, na poesia ou em qualquer outra área
e que, com isso, enriquecem a blogosfera
e a vida dos seus leitores."

Sobre o significado de LEMNISCATA: “curva geométrica com
forma semelhante à de um 8; lugar geométrico dos pontos
tais que o produto das distâncias a dois pontos fixos
é constante.”

Lemniscato: ornado de fitas; Do grego Lemniskos,
do latim, Lemniscu: fita que pendia das coroas
de louro destinadas aos vencedores
(In Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora).

Acrescento que o símbolo do infinito é um 8 deitado,
em tudo semelhante a esta fita, que não tem interior
nem exterior, tal como no anel de Möbius,
que se percorre infinitamente.
(Texto da editora de “Pérola da cultura”.)


Do blog da Sol, recolho a menção
de várias curvas resultantes
de várias equações :):


> a Lemniscata de Bernoulli - (x^2 + y^2)^2 = 2a^2 (x^2 - y^2)




> a Lemniscata de Booth - (x^2 + y^2)^2 +4y^2 =4c(x^2 - y^2)




> a Lemniscata de Gerono – x^4 - x^2 + y^2 = 0




De acordo com as regras, este prémio
é para ser atribuído a 7 blogues,
os quais nomeio a seguir:


aluaflutua

Modus vivendi

conversas de xaxa

Recalcitrante

outra Física

Amok-A memória perdida

Bebedeiras de Jazz


Flores do céu deixam cair as suas pétalas.
Como não está já o meu jardim coberto delas?
E como o céu espalha flores sobre a terra,
Verto eu também vinho rosado em minha taça.

Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 29, 2009


imagem in blog miltongama

O vinho te dará calor; das neves
Do passado e das brumas do futuro
Te aliviará ; te inundará de luz;
Teus ferros quebrará de prisioneiro.

Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 28, 2009


imagem in blog miltongama

Cairemos na estrada do Amor
E o Destino nos pisará .
Ergue-te, moça, ó linda taça!
Beija-me antes que eu seja pó.


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 27, 2009

omar khayyam



Aprendi muito, esqueci muito
Também, e por vontade própria.
Em minha mente cada coisa
Estava sempre em seu lugar.
Não cheguei à paz senão quando
Tudo rejeitei com desprezo.
Compreendera enfim que é impossível
Tanto afirmar como negar.


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 26, 2009

Cançó del bes sense port
Maria Mercè Marçal, poetisa catalã


gentileza da eli

L'aigua roba gessamins
al cor de la nit morena.
Blanca bugada de sal
pels alts terrats de la pena.
Tu i jo i un bes sense port
com una trena negra.

Tu i jo i un bes sense port
en vaixell sense bandera.
El corb, al fons de l'avenc,
gavines a l'escullera.
Carbó d'amor dins els ulls
com una trena negra.
...

omar khayyam



Em que meditas, meu amigo?
Será nos teus antepassados?
Todos eles são pó no pó.
Meditas nas virtudes deles?
Repara só como sorrio.
Toma desta copa e bebamos,
Ouvindo sem inquietação
O grande silêncio do mundo


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 25, 2009

Faz cem anos, "O Piolho"!
- Sabias, Sol? :) -
Avisou-me o Alumni,
a Associação dos Antigos Alunos
da Universidade do Porto.



Bons tempos,
uma vida mais serena,
aqui e ali estimulada
pelo Henrique Galvão,
Fídel de Castro, Humberto
Delgado e também Adriano
Moreira e os Estudos Gerais
de Luanda e Lourenço Marques!



Mas, para estudar e estar,
gostava mais do Café Aviz!

:)


Mais rápidos que a água do rio,
Que o vento do deserto, escoam-se
Os dias.
Dois não me interessam:
São o de ontem e o de amanhã…


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 24, 2009



Silencio, ó minha dor!
Deixa-me ir à procura
Do remédio.
É preciso
Continuar a viver.
Pois os mortos não têm
Memória, e eu quero sempre,
Quero sempre rever
A minha bem-amada!


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 23, 2009


Dizes:
“Só existe um bálsamo no mundo!”
Trazei-me todo o vinho do universo.
Então! Meu coração tem tais e tantas
Feridas...
Todo o vinho do universo,
E que o meu coração guarde as feridas!


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 22, 2009



És infeliz?
Pois não penses
Em tua dor: não sofrerás.
Se essa dor é muito forte
Pensa em todas as criaturas
Que inutilmente sofreram.
Escolhe uma mulher de alvos
Seios, mas evita amá-la.
E que ela também não te ame...


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 21, 2009

SCHUBERT moment musical op.94 n.3

Sempre a notável selecção da rádio azul.

junho 20, 2009


(Fotografia de José Marafona)

O amor que não devasta
Não é amor.
A brasa
Pode espalhar acaso
Um calor de fogueira?
Noite e dia, durante
Toda a sua vida, o amante
Verdadeiro consome-se
De dor e alegria


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 19, 2009

Madeleine Peyroux - Instead

in bebedeiras de jazz

Instead of feeling bad
Be glad you got somewhere to go
Instead of feeling sad
Be happy you're not all alone
Instead of feeling low
Get high on everything you love
Instead of wastin' time
Feel good 'bout what you are dreaming of

Instead of trying to win something you never understood
Just play the game you know eventually you will you both look good

It's silly to pretend to have something you don't own
Just let her be a woman and you'll be her man

Instead of feelin' broke
Buck up and get yourself in the black
Instead of losing hope
Touch up the things that feel out of whack
Instead of being old
Be young because you know you are
Instead of feeling cold
Let sunshine into your heart

Instead of acting crazy chasing things that make you mad
Keep your heart ahead, it'll lead you back to what you have
With every step you are closer to the place you need to be
It's up to you to let her love you sweetly

Instead of acting crazy chasing things that make you mad
Just keep your heart ahead, it'll lead you back to what you have
With every step you are closer to the place you need to be
But it's up to you to let her love you sweetly

Instead of feeling bad
Be glad you got someone to love
Instead of feeling sad
Be happy there's a god above
Instead of feeling 'lone
Remember you are never on your own
Instead of feeling sad
Be happy that she's there at home
She's waitin' for by the phone
So be glad she all your own

Get happy...
Watin' for you by the telephone...

Don't get...

Back home,,,

junho 18, 2009



As raízes deste narciso
Que treme à beira do regato
Tiram seiva talvez dos lábios
Decompostos de uma mulher.
Pisa de mansinho na relva!
Ela pode ter germinado
Das cinzas de faces que tinham
O brilho das papoilas rubras!


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 17, 2009


Imagem: pesquisa google

Ainda a propósito
da linha do horizonte
em Fernando Pessoa,

«Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe, a abstracta linha.»



leiamos a geometria táctil
de Henri Bergson,
in Matéria e Memória:

«À medida que o meu horizonte se alarga,
as imagens que me cercam parecem desenhar-se
sobre um fundo mais uniforme e tornarem-se
indiferentes para mim.

Quanto mais contraio esse horizonte, tanto mais
os objectos que ele circunscreve se escalonam
distintamente de acordo com
a maior ou menor
facilidade do meu corpo para tocá-los e movê-los.

Eles devolvem portanto ao meu corpo, como
o faria um espelho, a sua influência eventual;
ordenam-se conforme os poderes crescentes
ou decrescentes do meu corpo.
Os objectos
que cercam o meu corpo reflectem a acção

possível do meu corpo sobre eles.»


:)

junho 16, 2009



Bebo vinho como as raízes do salgueiro
Bebem as águas cristalinas da torrente.
Deus me criou sabendo bem que eu beberia:
Se eu me abstivesse de beber,
Deus falharia.



Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 15, 2009

Orientado por eli, uma nova revelação.
Infelizmente, não encontrei os versos;
mas desta vez, quase é português o catalão!

:)



MARÍA DEL MAR BONET / NO TROBARÀS LA MAR



post-scriptum:-Será que a canção é em galego!? Hum...

Encontrei a letra:

Si un dia véns a casa,
te mostraré es jardí,
un núvol que tenc al pati
i la flor de gessamí.

No trobaràs la mar,
la mar fa temps que va fugir:
un dia se'n va anar
i em va deixar aquí.

Deixaré sa feina per tu,
ses eines damunt sa taula,
tancaré bé sa finestra
i es vent no em robarà cap paraula.

Trobaràs noves flors
i fruites a la taula,
i una cançó per a tu
que fa temps que tenc guardada.

I més tard, quan te'n vagis,
serà l'hivern cada nit;
jauré en el mateix llit
amb la fredor en els llavis.

Picasso, P. rest (1932) in Branco no Branco

«Deixai agir a natureza!
Não tenteis apressar as coisas.»

(gilbert sinoué)

junho 14, 2009



(continuação)

«O eterno retorno que conta com a criança
e a ela regressa para a refazer é uma ideia
de eternidade inconstante. Descuidada.
Uma imortalidade instável. Mutável.
Uma eternidade barroca.»


(fim)

(op. cit., p. 190)

junho 13, 2009



O Céu é o jogador, e nós tão-somente peões.
É a realidade, não é um efeito de estilo.
Sobre o tabuleiro do mundo Ele nos coloca e desloca.
Para depois nos largar de súbito no poço do nada.


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 12, 2009


(continuação)

«Que mais ainda? Literalmente, o tempo fabrica crianças.
O tempo engendra. Aqui, uma cesura faz uma mossa
na roda sem a deter: os mortos acompanham
e relançam as gerações. Mas, no jogo
supremo que consiste em jogar ao
genitor sem deixar de ser
profundamente criança

não se fala da morte que implicitamente regula a partida. ( )»


(continua)


op.cit., p.190

junho 11, 2009



Estimo o amante que geme
E suspira de volúpia;
Desprezo, porém, o hipócrita
Que murmura uma oração.
Os sábios não te ensinam nada,
Mas ao acarinhares os longos
Cílios da tua bem-amada
Sentirás a felicidade.
Não te esqueças que tens os dias
Contados.
Assim, compra vinho,
Busca um retiro sossegado
E no vinho a paz, o consolo.


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 10, 2009



Tanto de meu estado me acho incerto
Que em vivo ardor tremendo estou de frio
Sem causa, justamente choro e rio
O mundo todo abraço nada aperto

É tudo quanto sinto um desconcerto
Da alma um fogo me sai, da vista um rio
Agora espero, agora desconfio
Agora desvario, agora acerto

Estando em terra, chego ao céu voando
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora

Se me pergunta alguém porque assim ando
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora

luíz vaz de camões


Gosto mais de Camões do que de Pessoa.
Mas há dois poemas deste
que me fascinam
e empolgam:


[ ]

Linha severa da longínqua costa –
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe, a abstracta linha
.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e com sensíveis
Movimentos de esperança e da vontade
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte

Os beijos merecidos da Verdade.




As rosas amo do jardim de Adónis
Que em o dia em que nascem
Em esse dia morrem.
A luz para elas é eterna, porque
Nascem nascido já o Sol e acabam
Antes que Apolo deixe
O seu curso visível.
Assim façamos nossa vida um dia
Inscientes, Lídia, voluntariamente
Que há noite antes e após
O pouco que duramos
.

joan salvat-papasseit

Eis a tradução para castelhano
com a preciosa ajuda da amável
blogger de
Novelos de Silêncio


RES NO ÉS MESQUI
NADA ES MEZQUINO

Res no és mesquí,
ni cap hora és isarda,
ni és fosca la ventura de la nit.
I la rosada és clara
que el sol surt i s'ullprèn
i té delit del bany:
que s'emmiralla el llit de tota cosa feta.


Nada es mezquino,
y ninguna hora escabrosa,
ni es oscura la ventura de la noche.
Y el rocío es claro
el sol sale y se fascina
y tiene deseo del baño
que se maravilla ellecho de toda cosa hecha.


Res no és mesquí,
i tot ric com el vi i la galta colrada.
I l'onada del mar sempre riu,
Primavera d'hivern - Primavera d'estiu.
I tot és Primavera:
i tota fulla, verda eternament.


Nada es mezquino,
y todo rico como el vino y la mejilla curtida. ~
Y la ola del mar siempre ríe,
Primavera de invierno - Primavera de verano.
Y todo es Primavera:
y toda hoja, verde eternamente.


Res no és mesquí,
perquè els dies no passen;
i no arriba la mort ni si l'heu demanada.
I si l'heu demanada us dissimula un clot
perquè per tornar a néixer necessiteu morir.
I no som mai un plor
sinó un somriure fi
que es dispersa com grills de taronja.


Nada es mezquino,
porque los días no pasan;
y no llega la muerte ni habiéndola pedido.
Y si la habéis pedido os disimula un hoyo
porque para volver a nacer necesitáis morir.
Y no somos jamás un llanto
sino una fina sonrisa
que se dispersa como gajos de naranja.


Res no és mesquí,
perquè la cançó canta en cada bri de cosa.
-Avui, demà i ahir
s'esfullarà una rosa:
i a la verge més jove li vindrà llet al pit.


Nada es mezquino,
porque la canción canta en cada brizna de cosa.
-Hoy, mañana y ayer
se deshojará una rosa:
y a la más joven virgen le vendrá la leche al pecho.»

:)

junho 09, 2009

JOAN SALVAT-PAPASSEIT "Res no és mesquí"


Res no és mesquí,
ni cap hora és isarda,
ni és fosca la ventura de la nit.
I la rosada és clara
que el sol surt i s'ullprèn
i té delit del bany:
que s'emmiralla el llit de tota cosa feta.

Res no és mesquí,
i tot ric com el vi i la galta colrada.
I l'onada del mar sempre riu,
Primavera d'hivern - Primavera d'estiu.
I tot és Primavera:
i tota fulla, verda eternament.

Res no és mesquí,
perquè els dies no passen;
i no arriba la mort ni si l'heu demanada.
I si l'heu demanada us dissimula un clot
perquè per tornar a néixer necessiteu morir.
I no som mai un plor
sinó un somriure fi
que es dispersa com grills de taronja.

Res no és mesquí,
perquè la cançó canta en cada bri de cosa.
-Avui, demà i ahir
s'esfullarà una rosa:
i a la verge més jove li vindrà llet al pit.


(continuação)

«O tempo faz, pois, de criança.
Como uma criança atira dados, piões, bolas,
papagaios de papel, máquinas de calcular.
E volta ao princípio

(continua)

op.cit., p.190

junho 08, 2009

Arianna Savall: Mester d'amor

Belíssimo album in Catharsis

Si en saps el pler no estalviïs el bes
que el goig d'amar no comporta mesura.
Deixa't besar, i tu besa després
que és sempre als llavis que l'amor perdura.

No besis, no, com l'esclau i el creient,
mes com vianant a la font regalada.
Deixa't besar -sacrifici fervent-
com més roent més fidel la besada.

¿Què hauries fet si mories abans
sense altre fruit que l'oreig en ta galta?
Deixa't besar, i en el pit, a les mans,
amant o amada -la copa ben alta.

Quan besis, beu, curi el veire el temor:
besa en el coll, la més bella contrada.
Deixa't besar i si et quedava enyor,
besa de nou, que la vida és comptada.


Joan Salvat-Papasseit (1894-1924)


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OFÍCIO DE AMOR


Se conheces o prazer, não escatimes o beijo
Pois o prazer de amar não comporta medida.
Deixa-te beijar e beija tu depois,
Que nos lábios sempre é onde o amor perdura.

Não beijes, não, como o escravo e o crente,
Mas como o viandante à fonte oferecida.
Deixa-te beijar – ardente sacrifício –
Quanto mais queima mais fiel é o beijo.

Que terias feito se tu morresses antes,
Sem mais fruto do que a aragem no rosto?
Deixa-te beijar, e no peito, nas mãos
- amante ou amada – a taça muito alta.

Quando beijes, bebe, o copo sare o medo:
Beija no pescoço, o sítio mais formoso.
Deixa-te beijar,
E se ainda te apetece
Beija de novo, pois a vida é contada.



Tradução de : JOSÉ BENTO
in blog Alma de Poeta


Nada mais me interessa.
Ergue-te,
Traz-me vinho!
Amiga, esta noite
Tua boca amorável‚ a
Mais bela rosa do Universo.
Vinho!
Vinho vermelho como
Tuas faces!
E que os meus remorsos
Sejam leves, leves, tão leves
Como os cachos dos teus cabelos!


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 07, 2009


O Jogo de Cartas, de Balthus, em 1948-50

(continuação)

««O tempo é uma criança que faz (de) criança, que joga.»

Perversa ligeireza do jogo infantil: o tempo cíclico é como ela,
lamina-nos divertindo-nos, mas esta espiral não tem fim,

porque todos os jogos sobrevivem aos seus jogadores
e escolhem novos que chegam;

os jogos estruturam o mundo, e só os jogadores ingénuos ou
megalómanos acreditam que são eles que o conduzem.»

(continua)

op. cit., p.190

junho 06, 2009



A Vida passa, caravana rápida!
Sofreia o animal, busca ser feliz.
Por que estás triste, rapariga?
Vamos.
Dá-me vinho que a noite já vem perto


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 05, 2009



«Heraclito, o mágico obscuro, deu-se ao luxo de atravancar
a sua posteridade — e a eternidade — com milhares de traduções
de uma só frase, todas possíveis e todas insuficientes:

«O tempo é uma criança que faz (de) criança, que joga.»

(continua)

(op. cit., p. 190)

junho 04, 2009



Amigo, bebe vinho.
Dormirás
Um dia para sempre sob a terra
Sem mulher nem amigo.
Ouve um segredo:
Não reflorescem as tulipas murchas.


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 03, 2009

........

…..…«Não sou capaz de me concentrar ( )
…..…já não ouço, pura e simplesmente.
…..…As palavras dos outros já não me dizem nada.
…..…[Estarei] apaixonada?

…..… ( ) há muito tempo, eu já sabia. Mas para sempre?

…..…Ele acha que sim. Basta que um dos dois esteja convencido
…..…para o outro perder a cabeça. O outro sou eu.

…..…Já não tenho ouvidos. Apenas os olhos para o seu desejo velado
…..…de ternura quando pensa que ninguém está a olhar para nós. ( )

…..…Eu suspeitava de qualquer coisa, é claro,
…..…as mulheres suspeitam de tudo nos romances (…)

…..…Volto a ter um corpo. As costas endireitam-se,
…..…os seios crescem-me.

…..…Basta-me imaginá-[l]o, pensar nele, não pensar em nada aliás,
…..…repetir simplesmente a mim mesma que ele está algures
…..…nesta cidade, que ele respira e de certeza pensa em mim,
…..…para que a excitação baralhe o que me resta de entendimento.
…..…Uma adolescente.

…..…Desde quando me havia eu esquecido de que tinha um corpo?

…..… (…) a sua paixão consegue contornar as palavras,
…..…ele ama com a epiderme, os músculos, os lábios,
…..…o sexo, as mãos, os braços, as coxas.

…..…Nunca imaginei que o corpo de homem
…..…pudesse ser tão múltiplo e fluido.

…..…A verdade é que não o imagino, experimento-o,
…..…e ele restitui-me realmente o meu,
…..…igualmente diferenciado e igualmente sensual.
…..…Delicadeza só em gestos, carícias, atitudes.

…..…A alma dissolvida em actos de ternura ( ).
…..…Apetece-me embonecar-me, comprar vestidos,
…..…bâtons extravagantes, sapatos novos.

…..…Passo para o outro lado, saio do meu túmulo,
…..…de novo me torno grácil. ( ) mudei de perfume.

…..…Como tornei a ser adolescente ( ), procuro o risco.
…..…A surpresa à beira do escândalo, porque não?»

op. cit.

junho 02, 2009



Os doutores e os sábios mais ilustres
Caminharam nas trevas da ignorância.
O que não impediu que em vida fossem
Tidos por luminares do seu tempo.
Que fizeram?
Pronunciaram
Algumas frases confusas
E depois adormeceram
Para toda a eternidade.


Omar Khayyam, Rubaiyat

junho 01, 2009



«A capacidade de fingir impressiona-me mais que a estupidez
ou a doença. Nada mais duro, mais partilhado e eterno
que a falsidade. Os que a dominam são os jogadores
que conduzem o mundo.

Devo dizer que as minhas reticências morais depõem armas perante
o meu fascínio pela sua destreza em fingir que não fingem ,
quando fingem e nada mais fazem que isso, negando sempre.

Porque, no fim de contas, não será a arte de fingir, de mimar,
de macaquear, indispensável ao bebé para se tornar
um ser autónomo, o indivíduo à parte
que todos sonhamos ser?

Fingir faz parte do tornar-se-verdade,
Sabem-no pais e educadores.

O erro — e o horror — começa quando o movimento se bloqueia:
Já não fazem mais nada a não ser fingir,
E não o sabem (os pasmados), ou,
Sabendo, insistem (os cínicos)
(…)»

Imagem Google ; Poema in "Novelos de Silêncio"

Feliz, quem sabe, o vento. Sem memória,
beijando-me nos lábios, ele abraça
o meu destino às cegas na paisagem.
É sempre nesse instante que regresso
à poalha do céu onde começa
talvez a maldição, talvez o encanto
de invocar-te em silêncio. Porque, eu sei,
entre palavras morre a cor dos sonhos,
o vão pressentimento de estar vivo.

Feliz talvez o vento e no entanto,
arrasta ainda areia e vagas vozes
na praia ao abandono. A luz da tarde
encobriu-se de névoa, só o mar
ficou perto de mim – agora é simples:
as ondas trazem novo o teu sorriso,
movem o seu abismo nos meus olhos,
mas lágrimas nenhumas vão salvar-me
o corpo, a alma, as cinzas, esta vida.



Fernando Pinto do Amaral, Praia

maio 31, 2009



Estudei muito quando moço.
Tive muito mestre eminente.
Orgulhei-me, regozijei-me
De meus progressos e triunfos.
Quando evoco o sábio que eu era,
Comparo-o à água, que se amolda
à forma do vaso, e à fumaça,
Que é dissipada pelo vento.

Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 30, 2009

Agarro-me a sinais, a formas


«Agarro-me a sinais, a formas que me conduzem a outros sinais,
a outras formas, fito os passos da minha memória

para fugir ao que me rodeia
e que não tem memória
. ( )


— Detesta o artifício, não é? Ora bem, aqui tudo é fogo-de-artifício!
( ) Acompanha com uma gargalhada a explosão da rolha.

Como falar com um homem que usa um pseudónimo?
Inclino-me a pensar que ele esconde um desconhecido de si mesmo.
( ). Portanto, não respondo, faço-lhe um grande sorriso;
a lógica não é decerto terapêutica. Mas talvez
corresponda melhor ao mundo em que estamos.»

op. cit.

maio 29, 2009

Volúvel é o silêncio


Imagem in branco no branco

Volúvel é o silêncio das frases que não adquirem
matéria poética por serem quotidianas:

há uma pedra à entrada de cada poema
como um aviso

"volte mais tarde, o desejo
também se faz de beijos que ficam por dar".


Sandra Costa


Dizem-me: «Não bebas mais, Khayyam!»
Eu respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem as
rosas, as túlipas e os jasmins.
Escuto mesmo aquilo que não pode dizer-me o meu
bem-amado.


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 28, 2009

A "emissora" rádio azul :):



lembrou-me o exótico conto
de Thomas Mann



As Cabeças Trocadas - Uma lenda hindu,
(«Die vertauschten Köpfe» - Eine indische Legende),


cujo primeiro texto
da história que resumi
e transcrevi, aqui lembro:


Sita, a dos belos quadris...

«A história de Sita, a dos belos quadris, filha de Sumantra,
criador de gado, mas de linhagem guerreira, e dos seus dois esposos
(se assim podemos dizer) é de tal modo sangrenta e perturbadora
para os sentidos, que exige do ouvinte grande energia e
firmeza de ânimo para resistir às aterradoras
fantasmagorias de Maya.»


Se em teu coração
Enxertaste a rosa
Do Amor, tua vida
Não passou inútil.
Quer a voz de Deus
Ouvir procurasses,
Ou a taça brandisses
Sorrindo ao prazer

Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 27, 2009



«O cocktail ( ), festa ritual da sociedade intelectual ( )

O salão de recepção e o jardim coberto pela tenda
do fornecedor de banquetes são pequenos de mais
para conter tanta coisa falsa; as pessoas
não estão
lado a lado, apertam-se umas contra as outras.

Têm ciúmes e detestam-se ao ponto de fazer
sorrisos que significam insolentemente

que não significam nada.

( ) Toda a gente se anula numa banalidade sem apetite.»

Júlia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

maio 26, 2009



Fecha o teu Corão.
Pensa livremente,
E encara livremente o Céu e a Terra.


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 25, 2009

Lie to me!

Se lhe obedecesse,
revelar-lhe-ia a verdade;
pelo que desobedeceu.
Logo, disse a verdade.

O paradoxo do mentiroso
ou
A metalinguagem do amor.



«— Tell me something nice.
— Sure! What do you want to hear?

— Lie to me! Tell me all these years you've waited me.
— All these years I waited you.

— Tell me you would die if I haven´t come back.
— I would have died if you hadn´t come back.

— Tell me you still love me like I love you.
— I still love you like you love me.

— Thanks.»

maio 24, 2009


Willem de Kooning in Modus Vivendi

Falam da estrada do Conhecimento...
Uns dizem tê-la achado, outros procuram-na.
Mas um dia uma voz há-de exclamar-lhes:
“Não há estrada nenhuma, nem vereda!”


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 22, 2009

Descartes



A propósito deste vídeo,
a que cheguei através de Bach
da Sol, do Branco no Branco, recordo
uma antiga homenagem ao ilustre filósofo,


Descartes: Uma singela homenagem.

Neste final de milénio, em que virou moda, com Damásio e outros,
denunciar O Erro de Descartes… aqui deixo o meu testemunho juvenil
de sincera gratidão àquele que foi o primeiro racionalista europeu.


E lembro um par de manhãs, num café do Porto, já desaparecido ,
nos idos de cinquenta do século passado, onde, aconchegado
por um “pingo bem tirado e uma “mirita torrada” :),
compreendi maravilhado toda a demonstrada
exposição da geometria analítica plana,

essa absorção da geometria milenar de Euclides
pelo simbolismo e análise algébrica,
esteio da nova ciência
impulsionada por Descartes.


Claro que toda a matemática, por muito abstracta e criativa
que seja, pulsa e vibra na própria natureza: assim a definição
da posição de um ponto, por meio de um par de números,
uma sugestão natural para o homem
na sua existência sobre a Terra!

Que o diga, o rapaz de dez anos que fui,
em férias de Páscoa no campo: - reencontrar
o esconderijo habitual do milheiral :) — invisível
ao nível do chão, por a altura das canas ultrapassar
a sua própria — tornou-se habilidade mental exacta,
ao constatar, do monte, a cova das canas partidas

na “terceira fila do canavial”, e
no segundo poste de granito da vinha”!

E que prazer ter mudado da procura às cegas,
para o caminhar certeiro ao lugar do esconderijo! :)

Só nunca “gostei” muito do «penso, logo existo»!
Porque, quando tal me acontecia, no limiar da Razão,
aos sete-oito anos, na cama a “dormir acordado”,
imaginava como seria se não houvesse ninguém
nem nada no mundo, «então, eu sozinho,
por montes e vales, sem sol
nem árvores nem viv'alma»,

«seria assim...», pensava;
«logo, seria um horror, tal mundo!»;
e «ainda bem que havia pessoas.»

Mas já Espinosa, crítico genial de Descartes,
— que não obstante, no Tratado das Paixões da Alma
sua última obra, se redime da secura racionalista,
embora ‘se perca na glândula pineal’ sob cujo paradigma,
em todo caso, Damásio conduz sua pesquisa neurológica
— enunciava o seu anti-solipsismo:

«Não existe coisa singular na Natureza
que seja mais útil ao homem
do que o (seu semelhante)
que vive sob a direcção
da Razão.»
(Ética IV, prop. XXXV, corol. I).

E isto é verdade, mesmo que o exercício da Razão,
em condições de liberdade, resulte necessariamente
numa racionalidade plural!, cuja tolerância
é apanágio dos sábios.

:)


Willem de Kooning in Modus Vivendi

Jamais desejei o manto do engano
Mas roubaria por um copo de vinho.


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 21, 2009


«Estou, portanto, mergulhada no horror.
Não me queixo, é o meu ofício.

As pessoas pagam-me para serem na minha presença
estúpidas e más, abjectas de vez em quando,

tendo como prémio, não menos abjecto mas tocante,
de renascerem, de construírem uma vida nova. ( )


Na realidade, parece ser antes o encontro surrealista ( );
disseco as frases-biombo para referenciar a sílaba,
a palavra onde se esconde o não-dito
; ( )

Sou desejada, amo: pois sim, não é um jogo, não,
É uma paixão louca!

No entanto, somos dois, insisto.
O meu papel é manter que somos mesmo dois.


Todo este mundo intelectual, literário (…) como se podem escrever romances,
e portanto construir falsificações, um mundo como desejamos e não como é,
quando todos estamos doentes de mentiras?

Julga-se curar a mentira com uma bela mentira. ( ) Diário íntimo? ( )
Erotomania da mulher que, passados os trinta, exprime pela escrita
os seus desejos reprimidos?

Interpretar: dar uma forma que resulta do que escolhi eliminar.
Interpretar está, portanto, mais perto de escrever do que se imagina.

( ) O escritor persegue o perseguidor. ( )
O inimigo não tomou forma no exterior; invadiu-me
e eu combato-o unicamente pela repulsa.

Repulsa em que estamos ligados, o horror e eu:
que é que eu expulso, o horror ou eu?

Nem um nem outro, ambos ao mesmo tempo.
Nesta miséria desponta a minha certeza,
que pode tornar-se hostil,
de ser outra

Júlia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

maio 20, 2009


Junto da tua bem-amada, Khayyam, estavas tão só!
Agora que ela partiu, poderás refugiar-te nela.


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 19, 2009



«Os pormenores do quotidiano, insignificantes, mesquinhos ou horríveis...
Sou capaz de imaginar todos os pontos de vista e de representar os papeis
correspondentes: ser insignificante, mesquinha, horrível.

Afinal, oiço melhor o que me dizem
(ou antes: mais perto do excesso ou da insensatez)
quando decido ouvir, na insignificância da murmuração,
uma abjecção que exige ser perdoada.

Para quê? Para nos conhecermos,
talvez para nos deslocarmos um furo
em direcção a outro horror, menos assassino,
e assim sucessivamente, isto é,


indefinidamente indiferente e
às vezes engraçada


:)


Júlia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

maio 18, 2009


O nosso universo é um caramanchão de rosas.
Os nossos visitantes, as borboletas.
Os nossos músicos, os rouxinóis.
Quando já não há rosas nem folhas,
as estrelas são as minhas rosas
e a tua cabeleira a minha floresta.


Omar Khayyam, Rubaiyat