maio 18, 2009


O nosso universo é um caramanchão de rosas.
Os nossos visitantes, as borboletas.
Os nossos músicos, os rouxinóis.
Quando já não há rosas nem folhas,
as estrelas são as minhas rosas
e a tua cabeleira a minha floresta.


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 17, 2009






Mon cœur s'ouvre à ta voix comme s'ouvrent les fleurs
Aux baisers de l'aurore!
Mais, ô mon bien-aimé, pour mieux sécher mes pleurs,
Que ta voix parle encore!
Dis-moi qu'à Dalila tu reviens pour jamais!
Redis à ma tendresse
Les serments d'autrefois, ces serments que j'aimais!
Ah! réponds à ma tendresse!
Verse-moi, verse-moi l'ivresse!

Ainsi qu'on voit des blés les épis onduler
Sous la brise légère,
Ainsi frémit mon cœur, prêt à se consoler
À ta voix qui m'est chère!
La flèche est moins rapide à porter le trépas,
Que ne l'est ton amante à voler dans tes bras!
Ah! réponds à ma tendresse!
Verse-moi, verse-moi l'ivresse!

Camille Saint-Saëns, Samson et Dalila

Nota:- Embora o primeiro audio
seja de Maria Callas, no segundo,
de Guadalupe Pineda,
a dicção
é mais clara e cristalina. :)

maio 16, 2009


Podes perseguir-me incessante,
Ó imagem de outra ventura!
Podeis, ó vozes amorosas,
Modular os vossos encantos!
Olho só para o que escolhi.
Só escuto o que já me embalou.
Dizem-me:
“Deus te perdoará.”
Recuso o perdão, que não peço.


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 15, 2009


Francis Picabia, Femme aux oiseaux
in blog "poste lunar"

Digo: o amor. Há palavras que parecem sólidas,
ao contrário das outras que se desfazem nos dedos.
Solidão. Ou ainda: medo. As palavras, podemos
escolhê-las, metê-las dentro do poema como
se fosse uma caixa. Mas não escondê-las. Elas
ficam no ar, invisíveis, como se não precisassem
dos sons com que as dizemos.

Agora, o efeito das palavras. A sua rotação
na cabeça, e pelas artérias, até ao centro:
o coração. Outra palavra com que se diz: o
amor. Mas não falo de sinónimos; de resto,
há palavras que escondem o contrário do que
querem dizer, e só as conhece quem ama, se
a vida não o levou por caminhos confusos.

Amo-te. Também podia dizer: a solidão
com que te amo, ou o medo de te amar. A partir
de uma palavra tudo se pode fazer, numa página,
quando o que aí está é um poema. No entanto
essas palavras conduzem-me até ti, isto é,
fazem-me viver por dentro delas. É por isso
que tudo se confunde: o amor, a solidão, o medo,
e até a vida, que também é uma palavra.


Nuno Júdice, in Poemas em voz alta

maio 14, 2009


Cansado de interrogar, em vão, os homens e os livros,
...............................eu quis interpelar a ânfora.
Pousei os meus lábios sobre os seus e murmurei:
Para onde irei quando morrer?
A ânfora respondeu: Bebe na minha boca.
Bebe longamente. Jamais voltarás aqui.

Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 13, 2009


Ahmad Vakili
És luz do coração e tranquilidade da alma
Propagas a rebelião e a rebelião apagas.
Perguntam-nos: do amigo, qual é a prova?
Estar sem a prova do amigo, essa é a prova.


op. cit., # 76

maio 12, 2009


Os dedos deslizam, escrevem, e
Tendo escrito, continuam; e
Nem toda a tua vontade ou espírito
Os convencem a voltar
Para meia linha retirar,
Nem todas as tuas lágrimas
Para uma palavra apagar.


Omar Khayyam, Rubaiyat

maio 11, 2009


Mahmoud Farshchian
A água da juventude não é mais que uma gota de suor do teu rosto
Ó Lua, o universo não é mais que um vestígio da cintilação do teu rosto.
Eu dizia que queria uma longa noite de luar
Esta noite é a noite da tua cabeleira e o luar é o teu rosto


op.cit., # 65

maio 10, 2009


Ahmad Vakili
Que nunca fuja do meu olfacto o teu perfume
E nunca dos meus olhos se afaste a tua imagem.
Por ti, noite e dia, morro de desejo
O desejo segue e a vida foge.


Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat,
Tradução e introdução de Adelino Ínsua,
Ed. Pedra Formosa, Guimarães, 2002, p. 114

maio 09, 2009


Ali Faramarzi
Ontem à noite estive ali e comigo essa figura clemente ...
Eu era todo súplica e ela toda carícias.
Passou a noite e não acabou a nossa história
Não tem culpa a noite: a nossa história era longa.


op.cit., # 97

maio 08, 2009




«Rei voraz com o próprio povo,
é sobre nulidades que tu reinas.»

«Chamar-me-ia um cobarde e uma nulidade,
se tivesse de te ceder naquilo que me ordenas.

A outros dá as tuas ordens, mas não penses mandar
em mim. Pois penso nunca mais te obedecer.»

Íliada, 1.231; 93-96


Que saibas que o meu amado de todo oculto está
Está para além das imagens de toda a imaginação
No meu peito é visível como a lua
Está misturado com o corpo, como está a alma.

op.cit., # 80

maio 07, 2009

E por falar
em Kafka...




Ein Traum

Sabiam os três.
Ela era a companheira de Kafka.
Kafka tinha-a sonhado.
Sabiam os três.
Ele era amigo de Kafka.
Kafka tinha-o sonhado.
Sabiam os três.
A mulher disse ao amigo:
«Quero que esta noite me desejes.»
Sabiam os três.
O homem respondeu-lhe:«Se pecamos,
Kafka deixará de nos sonhar.»
Um deles soube.
Na terra não havia mais ninguém.
Kafka disse:
«Agora que partiram ambos, fiquei só.
Deixarei de me sonhar.»

Jorge Luís Borges,
in "A moeda de ferro"

Armond Ayvazian
Todos os átomos que estão no ar e no deserto
Sabe-lo bem, estão enamorados como nós.
E cada átomo, feliz ou desditoso
Está aturdido pelo sol do espírito incondicionado.


op.cit., # 17

maio 06, 2009

Eis o texto completo do poema anterior:

EU SOU A VIDA DO MEU AMADO

Que fazer, ó muçulmanos? Pois não me reconheço a mim mesmo.
Não sou nem cristão, nem judeu, nem guebro, nem muçulmano;
não sou nem do Oriente, nem do Ocidente, nem da terra, nem do mar; não provenho da natureza, nem dos céus em sua revolução.
Não sou de terra, nem de água, nem de ar, nem de fogo;
não sou do empíreo, nem da poeira; tão-pouco da existência ou do ser.
Não sou da Índia, nem da China, da Bulgária ou de Saqseen;
não sou do reino do Iraque nem de Khorasan.
Não sou deste mundo, nem do outro, nem do paraíso nem do inferno;
não sou nem de Adão, nem de Eva, nem do Éden nem de Rizwan.
O meu lugar é não ter lugar, o meu rastro é não ter rastro;
não sou nem o corpo nem a alma, pois eu sou a vida do meu Amado.
Renunciei à dualidade, vi que os dois mundos são um;
Um só eu procuro, Um só eu sei, Um só eu vejo, Um só eu chamo.
Ele é o primeiro, Ele é o último, Ele é o Manifesto, Ele é o Escondido;
não conheço nenhum outro senão “ó Ele” e “ó Ele que é!”
Estou inebriado da taça do amor, não quero saber dos dois mundos;
não tenho outro fim senão a embriaguez e o êxtase.
Se passei um só instante da minha vida sem Ti,
desse momento e dessa hora eu me arrependo.
Se obtiver neste mundo um único momento contigo,
calcarei aos pés os dois mundos,
Dançarei em triunfo para todo o sempre.
Ó Shams de Tabriz: estou tão ébrio deste mundo que nada mais sei
senão embriaguez e arroubos.



Mahnaz Ahmadi


Interessante
que esta artista persa,
uma mulher bela, justamente
evoque a beleza inumana desta
paisagem planetária que se avera
co-possível e compatível com a nossa
existência de viventes humanos...

Emociona-me, o contraste.

:)

Poster persa in Modus Vivendi

«Não sou deste mundo, nem do outro, nem do paraíso nem
.............................................................................do inferno;
O meu lugar é não ter lugar, o meu rastro é não ter rastro; [...]

Renunciei à dualidade, vi que os dois mundos são um; [...]
Estou inebriado da taça do amor, não quero saber dos dois mundos;
não tenho outro fim senão a embriaguez e o êxtase. [...]

Se obtiver neste mundo um único momento contigo,
calcarei aos pés os dois mundos,
Dançarei em triunfo para todo o sempre.»


Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat

maio 05, 2009


Pierre Marcour, Dessin erotique

«Disse à noite: “Como tens fé na Lua
A tua fugaz passagem deve-se à sua inconstância”.
A noite olhou-me e assim se desculpou:
“Que culpa tenho se o amor não acaba?”»

Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat,
Trad. e introd. de Adelino Ínsua,
Ed. Pedra Formosa, Guimarães, 2002, # 87

maio 04, 2009



O teu amor devastou a tal ponto o meu coração
Que tudo o que lhe é estranho se consumiu.
Esquecendo a razão, as lições, os livros
Entrega-se à poesia, às odes, aos quartetos.


Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, # 23

maio 03, 2009


Imagem in Modus Vivendi
Do amor em looping

Picasso
Sabe, canção, que porque não vejo
engano com palavras o meu desejo.


(Camões)

maio 02, 2009


Thomas Anshutz in Modus Vivendi
Procurei-te em vão pela terra,
perto do céu, por sobre o mar.
Se não chegas nem pelo sonho,
por que insisto em te imaginar?


Cecília Meirelles

maio 01, 2009


A viração da primavera
Refresca as pétalas das rosas,
E na sombra azul do jardim
Beija as faces da minha amada.
Apesar da felicidade
Que gozamos outrora, esqueço
O passado.
A doçura de hoje
Ó, querida, é tão imperiosa!
Omar Khayyam, Rubaiyat

abril 30, 2009


Gizella Varga Sinai

Recordo os teus lábios de granada e beijo a pedra
Não tendo ao meu alcance aqueles, beijo esta
E como a minha mão não chega ao céu
No solo me prosterno e beijo a terra.

Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, # 96





abril 29, 2009


Mohammad Hossein Maher

Se puderes condenar o teu “eu” por um momento
A ciência de toda a expansão ser-te-á revelada.
Esta imagem invisível que o mundo inteiro busca
Admirar-se-á a si mesma no espelho do teu espírito.



Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, # 43

abril 28, 2009


Maryam Khazaei

Procura a ciência que desate nós
Procura-a, antes que a alma te escape.
O não existente que parece existente, deixa-o
O existente que parece não existente, procura-o.

Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, # 84



abril 27, 2009




Notabilíssima, esta entrevista
a João Pereira Coutinho
por Alexandra Lencastre!

E fez duas afirmações que sempre
senti relativa ou frequentemente
verdadeiras mas nunca me ocorreu
enunciar: i) que os homens são
mais românticos que as mulheres;
ii) que a conversa de géneros, -
as das mulheres entre elas, e
as dos homenes entre si -,
são sumamente entediantes!

Notável todo o sentido de humor
de João Pereira Coutinho e tocante
o modo como comoveu a entrevistadora!

:)

abril 26, 2009


Nosratollah Moslemian

Não posso arrancar de mim o coração
Melhor é deixá-lo no teu amor
Porque, se não o deixo no teu amor
Que é o coração? De que me serve o coração?


Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, #101

abril 25, 2009


Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...


David Mourão-Ferreira
Martinho da Vila


Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim

abril 24, 2009


O Diário de… “Jöelle Cabarus“

............«Durante anos, este Diário deixou de existir; ( )

............Não anotava nada de pessoal, a não ser as minhas

...........................................................interpretações,
............que são a minha ligação com os outros, ou antes,
............o meu intervalo relativamente ao que
............eles julgam ser o sentido
............do que dizem.


............Não duvido de que tinha também necessidade de guardar
............fora das palavras, e fora deste caderno,

............o que tenho de mais pessoal,
............exactamente, de mais sensual.

............É que isso não se pode dizer, ou então
............teria de cair na poesia, na música ou na pintura.

............Calo-me.
............Continuo no meu silêncio».

:)

Julia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

abril 23, 2009



Aqui há uns vinte e três, vinte e cinco anos, foi quando começou a expansão dos computadores pessoais.

Um pouco antes li um artigo no Financial Times sobre a revolução profissional que se avizinhava pelo aparecimento da nova ferramenta: os PC's.

Já tinha podido observar, maravilhado, as fantásticas possibilidades de cálculo na modelação quantitativa do "devir", os cenários possíveis de evolução de variáveis dependentes de leis dadas...

No país vizinho, vi a mudança da noite para o dia, de todas os empregados de escritório equipados com o seu computador de secretária.

Esperei tranquilamente que o preço dos PC's baixasse para tratar de comprar um. Não me inquietei um segundo! Porquê? Pelo artigo que li no dito Financial Times.

Dizia o jornal: - se você sabe programar uma calculadora de bolso, fique à vontade: isso é muito mais difícil do que programar um PC!

Explicava: a memória de uma calculadora é muito menor do que a de um PC; isso exige uma muito maior mestria a programar um cálculo do que a necessária para resolver o mesmo problema no computador; aqui, pode escrever à vontade os passos do programa, pode ser redundante nos procedimentos e no raciocínio, porque tem memória disponível para uma tal deseconomia!

E essa foi, é a verdade. Pelo que, somos melhores e mais competentes do que qualquer máquina: sabemos o que lá «entra» e entendemos o que de lá «sai»; e se discordarmos, dizemos: o programa está mal feito!

«A língua escapa-se à reflexão, e nunca à paixão: a palavra
é sempre de um pensamento injustamente verdadeiro.»

Julia Kristeva, op.cit., p. 53

Manouchehr Motabar

Ó tu, a quem invejam as Formosas deste mundo, quão harmonioso
...........................................................................é o teu rosto!
Ó Qibla dos devotos, que bonitas são as tuas sobrancelhas!
Despojei-me de todos os meus atributos
Para nadar nu na água da tua beleza.


Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat,
Tradução e introdução de Adelino Ínsua,
Ed. Pedra Formosa, Guimarães, 2002, # 40

abril 22, 2009


Julia Kristeva, O velho e os lobos («Le vieil homme et les loups», 1991),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993



Um conto filosófico alusivo à convulsão social nos países de Leste,
após a queda do muro de Berlim, pela diferenciação abolida
entre exploradores e explorados,
restaurando a velha selva
homo homini lupus.



Escreve Kristeva, «persisto em pensar [ ]
que quodlibet ens não é «o ser não importa qual»,
mas «o ser tal que de qualquer maneira importe».

[No fundo,] «o desejo mútuo das nossas qualidades vulgares».
«Há um X tal que que pretence a Y.» — Crisipo divertia-se
a extrair valores morais dessa trivialidade lógica.

[ ] Nós somos assim, e pronto.
Oferecidos nas nossas maneiras,
gerados pelas nossas maneiras.


[ ] Sim, na noite dos grandes homens,
o meu quodlibet reparte para a raíz
do «principium individuationis».

Afinal, é a ele que seria preciso salvar urgentemente [ ]
Ele o quodlibet [ ]. Por favor, peço uma trégua [ ].

Por agora, tentem pensar que existe um X tal que
se vos expõe: irritante, pensável, amável.»

(pp. 161-3)

:))
Tine Thing Helseth: Haydn Trumpet Concerto, 3rd mvt


«Sabia também que o raciocínio tem o poder enigmático
de não situar seja quem for em parte alguma.»


Julia Kristeva, O velho e os lobos
(«Le vieil homme et les loups», 1991),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993

abril 21, 2009

Bellini, Norma - Casta Diva - Maria Callas



Casta Diva, che inargenti
queste sacre antiche piante,
a noi volgi il bel sembiante
senza nube e senza vel...

Tempra, o Diva,
tempra tu de’ cori ardenti
tempra ancora lo zelo audace,
spargi in terra quella pace
che regnar tu fai nel ciel...

abril 20, 2009



«Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,
Tétis e a Ilha angélica pintada,
Outra cousa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas preminências gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha:
Estes são os deleites desta Ilha.

Que as imortalidades que fingia
A antiguidade, que os Ilustres ama,
Lá no estelante Olimpo, a quem subia
Sobre as asas ínclitas da Fama,
Por obras valerosas que fazia,
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,

Não eram senão prémios que reparte,
Por feitos imortais e soberanos,
O mundo cos varões que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos;
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Eneias e Quirino e os dous Tebanos,
Ceres, Palas e Juno com Diana,
Todos foram de fraca carne humana.

Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses, Imortais,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.»


-------------- // -------------


Destarte se esclarece o entendimento,
Que experiências fazem repousado,
E fica vendo, corno de alto assento,
O baixo trato humano embaraçado.
Este, onde tiver força o regimento
Direito, e não de afeitos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e não rogando.


Vincenzo Bellini, Norma
Luís de Camões, Os Lusíadas

abril 19, 2009


JOHANN SEBASTIAN BACH (1685-1750)

Bach - Concerto for Two Violins
in D Minor BWV1043



abril 18, 2009

"Va, Pensiero" ("Chorus of the Hebrew Slaves")
from Giuseppe Verdi's "Nabucco."


Va, pensiero, sull'ali dorate;
va, ti posa sui clivi, sui colli
ove olezzano tepide e molli
l'aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
di Sionne le torri atterrate.
Oh, mia patria sì bella e perduta!
Oh, membranza sì cara e fatal!

Arpa d'or dei fatidici vati,
perché muta dal salice pendi?
Le memorie nel petto raccendi,
ci favella del tempo che fu!
O simile di Solima ai fati
traggi un suono di crudo lamento,
o t'ispiri il Signore un concento
che ne infonda al patire virtù!

abril 17, 2009

Kavakos plays Lalo, "Spanish Symphony", 1st mov.

abril 16, 2009

Enquanto a Tinta Azul não tiver os seus óculos,
só editarei aqui música do seu agrado:


Verdi - Requiem - Dies irae - Abbado

abril 15, 2009

Ainda, o homem quântico:


«Curiosa por ler esse livrinho [ ], gostei, principalmente,
deste excertozinho: «A única alternativa parecia ser
o viajante morrer primeiro e embarcar depois»
.

Sim, no universo da microfísica não há, de facto, causalidade estrita.
E essa causalidade probabilística que lhe é própria aguça os enredos
das histórias de ficção científica, por isso é muito bem-vinda

Imagina-te a viajar para dentro de um electrão, encontrando todo
um universo dentro dele, cheio de galáxias e partículas que, elas mesmas, tinham os seus universos dentro delas, universos e universos, abismo sem fim. É o mesmo entusiasmo

que sentia ao ler Júlio Verne.»

...............................................///

Em Leibniz, matemático, filósofo, lógico e diplomata,
há essa vertigem do infinitamente pequeno.

Foi ele aliás que inventou o cálculo infinitesimal,
alguns anos até antes de Newton.

...............................................///

Vê a tal vertigem leibniziana sobre o infinitamente pequeno,

«Cada porção da matéria pode ser concebida
como um jardim pleno de plantas e como um lago pleno de peixes.

Mas cada ramo da planta, cada membro do animal,
cada gota de seus humores é ainda um tal jardim ou um tal lago.


E embora a terra e o ar interpostos entre as plantas do jardim
ou a água entreposta entre os peixes do lago,

não sejam nem plantas nem peixes,

eles os contêm ainda,
as mais das vezes de uma subtilidade
imperceptível para nós.

Assim,
não há nada de inculto, de estéril, de morto no universo,
não há caos nem confusão senão na aparência,

mais ou menos como num lago à distância
no qual se veria um movimento confuso e buliçoso, por assim dizer,
de peixes no lago sem discernir os próprios peixes.

Por isso se vê que cada corpo tem uma enteléquia dominante,
que é a alma no animal;

mas os membros deste corpo vivo
são plenos de outros corpos vivos,

plantas, animais,

dos quais cada um tem ainda
a sua enteléquia ou a sua alma dominante.»


(Monadologia, §§ 67-70)

:)


——————— // ———————

«Por onde a razão, como uma brisa,
nos levar, por aí devemos ir.»


(Platão)

abril 14, 2009

Um breve diálogo
a propósito do relato
do homem quântico:



«São as tais frequências de futuro
que existirão em paralelo até que
uma se concretiza bloqueando as outras...»

///

Ora aí está o que não percebo de todo,
excepto se tais evoluções se alinharem
virtualmente como rotas possíveis a priori
mas excluidas da factualidade observável.

Meras propensões ou probabilidades,
adequadas a uma narrativa
pretensamente explicativa
e 'vibrante' de algum
suspense.

///

«É exactamente isso: um alinhamento virtual de rotas possíveis
(estão lá para serem escolhidas para concretização
mas desaparecem uma vez preteridas).

Qualquer exemplo prático do dia a dia demonstra esta evidência.
Senão vejamos: Quando saio de casa de manhã posso escolher:
Ir de carro; Ir de transporte; Ir a pé (se for perto)

O facto de escolher uma, não quer dizer que as outras escolhas
não fossem naquele momento também possíveis e
não existissem na minha esfera de actuação.

No entanto, depois de escolher ir de carro, estarei a condicionar os eventos
que se seguem a essa escolha, que serão diferentes dos que poderiam
suceder se fosse a pé. É bem verdade que na encruzilhada
ao seguirmos pelo caminho da direita não saberemos
como será o da esquerda, a não ser que
nos seja possível repetir o caminho
várias vezes...

O que na vida nem sempre sucede. [ ]»

——————— // ———————

abril 13, 2009


Três excertos de um livro hermético,
quase ilógico:

L. Miranda, Relato de um homem quântico,
Angelus Novus, Coimbra, 2003, pp. 98; 101-3.

Ei-los,

«O problema que se punha naquele local
era compreender os mecanismos que permitiam
- caso fosse possível realizar a referida viagem -
viajar fora dos efeitos da entropia,
pois a duração da viagem ultrapassava
em muito a vida do viajante.

A única alternativa parecia ser
o viajante morrer primeiro e embarcar depois.» :)

------------- // ------------

«Se um homem para assistir ao movimento da sua estrela
precisa de viver mais de mil anos,

quantos anos precisaria para consciencializar
que a desintegração do plano da matéria é vazio e sem fim

e que o espírito é a coroa do mundo abstracto?»

------------- // ------------

«O herói grego,
que mais lembra persa antigo,
recusou o sonho do homem material:
ligar-se à máquina.

Assim, recusou a crença que afirma a duplicação da condição
humana, pondo fim a certos atavismos que torturam a alma
e libertam a comunicação planetária
............ através da introdução de eléctrodos no cérebro.

O seu grau de lucidez atira-o para os confins do Ser.
QUANDO entrecorta algo dotado de inteligência,
reflecte uma imensa agonia na sua máscara de fumo.»

abril 12, 2009


«Diálogo entre duas amigas e seu Alguém:
— O espírito quando desce sobre mim deixa-me sem jeito.
(Pausa) Não sei como prendê-lo nos brincos ou no botão
Do seio.
— Não tens outro sensível onde o prender?
— Como queres que saiba? Os nichos que procura nunca
São os mesmos. Não se derrama duas vezes na mesma
Prega.
— Tão corpo é ele?
— Sinto-o como uma floração errante, Nunca murcha
Mas ignoro como pega.
— Não será no fundo uma evidência de recato?
— Não se repete. Inquieta-me. Acalma-me.
— É apenas um aceno que não te reconhece integralmente.
— Sim. Como este nosso diálogo. Não me diz que animal
Vivo eu sou, nem porque me chama.
— Diz, sim. Prende-te os cabelos com um laço.»

:)

Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.219

abril 10, 2009

Deliciosa e irónica radiografia
dos nossos contemporâneos mais jovens,
por Fernando Pinto do Amaral
:):



img: google's search

Zeitgeist

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.


Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios, onde às escuras
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.


Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proibem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,

assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação «save»
e assim alcançarem a eternidade.

:))

in, livro duplo, frente e verso, poesia e prosa,
Poemas escolhidos (1990-2007); Contos;
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2009

(Edição promocional da revista Visão
à venda nas tabacarias por € .50,
independente da compra
da revista.)

abril 09, 2009




Soleil, soleil!... Faute éclatante!
Toi qui masques la mort, Soleil...
Par d'impénetrables délices,
Toi le plus fier de mes complices,
Et de mes pièges le plus haut,
Tu gardes les coeurs de connaître
que l'univers n'est qu'un défaut
Dans la pureté du Non-être.

(Paul Valéry, cit. in U. Eco,
Kant e o ornitorrinco, p. 27-28)

abril 05, 2009

fiama hasse pais brandão


E por falar em portas
por onde há gosto em entrar
distintas de outras
por onde só se quer sair,

um poema lindo de fiama:


A porta branca

Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.



Fiama Hassa Pais Brandão
Cena Vivas, Relógio d´Água

abril 04, 2009

fiama hasse pais brandão


«que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.»


.

fiama hasse pais brandão


«porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil»


.

fiama hasse pais brandão


«Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música»


.

abril 03, 2009

fiama hasse pais brandão


'namoro', almada negreiros

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

fiama hasse pais brandão

março 31, 2009



O bico do compasso, que
marca o centro que não se vê,
não canta como o bico
da ave que é o centro do
canto que ocupa. No
entanto, roda o compasso
como se o movessem
asas; e desenha, no papel,
o circulo que, no ar,
a ave sugere.

Elegante também,
este outro poema
de Nuno Júdice :)

março 28, 2009

Mas o post da Meg
é belo demais, e eu
quero-o aqui
replicado.





Projecto

.Desta vez vou escrever-te um poema
que vai ser um poema de amor,
mas que não é apenas um poema de amor.
O amor, com efeito, é algo que não cabe num poema;
pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor,
sobretudo quando te abraço,
e sinto os teus cabelos na boca,
agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão,
a água fresca corre pela garganta.
A isto, em retórica, chama-se uma comparação;
e pergunto o que é que o amor tem a ver com a retórica,
ou por que é que o teu corpo
se teme de transformar numa metáfora
- rosa, lírio, taça, qualquer objecto que tenha,
na sua essência, um elemento que me possa levar até ele,
como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem,
ver em ti o que não és,
nem tens de ser, ou ainda transformar-te
num lugar comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor.
Assim, este poema de amor é,
mais do que um poema de amor,
um exercício para escrever um poema de amor
- mas um poema de amor a sério,
sem comparações nem metáforas,
só contigo, com o teu corpo, com a tua voz,
com os teus cabelos, com aquilo que é real,
e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto
de um poema de amor em que o amor,
finalmente, deixa de ser o objecto único do poema,
que se preocupa acima de tudo com a retórica,
as imagens, o equilíbrio das formas.
Mas, pergunto, não é o teu corpo uma flor?
Não é a tua boca uma rosa?
Não são lírios os teus seios?
Tudo, então, se transforma:
e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida,
a abstracta metamorfose das emoções.
O resto, meu amor, és tu -
e é por isso que o poema de amor que te escrevo não é,
finalmente, um poema de amor
.
Nuno Júdice
.


Em dívida à Meg, pelo seu belíssimo post
e poema de Júdice, retribuo
com o prometido


O sexo dos anjos

Foi em bizâncio, antes da queda. Discutiam
o sexo dos anjos, e a discussão ficou interrompida
quando os turcos cortaram o fio à meada, se é que
não cortaram mesmo o sexo aos anjos. Bizâncio,
então, podia ter caído uns dias mais tarde: talvez,
durante esses dias, se pudesse chegar a uma conclusão
sobre qual era, afinal, o sexo dos anjos; e o assunto
interessa-me porque os únicos anjos que conheço
são em estátua, e não é possível espreitar o sexo
de uma estátua! A queda de um império, é verdade, dá-nos
estas coisas imprevisíveis: dá-nos um voo de argumentos
teológicos sobre o sexo; e traz-me, de súbito, o teu
rosto inquietante na sua fixidez de enigma grego – esse
rosto de perfil, e também gosto dos perfis, mesmo
quando não são de anjos ou não têm a linha pura dos
ícones gregos. Basta-me, então, saber que é o teu rosto;
ouvir ainda as tuas últimas palavras de despedida, que
me soaram demasiado secas (mas que outro tom se pode
usar numa despedida para não ser patético, como esses
que ainda discutiam o sexo dos anjos num conflito cercado
pelos turcos?) – e dizer-te, agora que o sexo dos anjos me
trouxe o teu sexo, que não há voltas a dar ao amor
quando o céu muda a cada instante, e é preciso, apesar
de tudo, que alguma coisa permaneça intacta em tempos
de mudança. Que outros impérios terão de cair para isso? Em
que novo concílio ouvirei discutir o sexo dos anjos,
sabendo desde já que o único sexo que me interessa é
o teu? Ouve, então, de novo: em bizâncio, uma
tarde, foram todos degolados à beira da conclusão.


Nuno Júdice

março 27, 2009

E o romance termina assim :):



«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin !
N’allait-elle pas quand même à l’avenir insoucieuse du sang
répandu? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête
aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort,
elle roulait, chargée de cette chair à canon,
de ces soldats, déjà hébétés de fatigue,
et ivres, qui chantaient.»

o.p., p. 461-2 (folio classique)