abril 27, 2009




Notabilíssima, esta entrevista
a João Pereira Coutinho
por Alexandra Lencastre!

E fez duas afirmações que sempre
senti relativa ou frequentemente
verdadeiras mas nunca me ocorreu
enunciar: i) que os homens são
mais românticos que as mulheres;
ii) que a conversa de géneros, -
as das mulheres entre elas, e
as dos homenes entre si -,
são sumamente entediantes!

Notável todo o sentido de humor
de João Pereira Coutinho e tocante
o modo como comoveu a entrevistadora!

:)

abril 26, 2009


Nosratollah Moslemian

Não posso arrancar de mim o coração
Melhor é deixá-lo no teu amor
Porque, se não o deixo no teu amor
Que é o coração? De que me serve o coração?


Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, #101

abril 25, 2009


Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...


David Mourão-Ferreira
Martinho da Vila


Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim
Já tive mulheres de todas as cores
De várias idades de muitos amores
Com umas até certo tempo fiquei
Pra outras apenas um pouco me dei
Já tive mulheres do tipo atrevida
Do tipo acanhada do tipo vivida
Casada carente, solteira feliz
Já tive donzela e até meretriz
Mulheres cabeça e desequilibradas
Mulheres confusas de guerra e de paz
Mas nenhuma delas me fez tão feliz
Como você me faz
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim
Procurei em todas as mulheres a felicidade
Mas eu não encontrei e fiquei na saudade
Foi começando bem mas tudo teve um fim
Você é o sol da minha vida a minha vontade
Você não é mentira você é verdade
É tudo que um dia eu sonhei pra mim

abril 24, 2009


O Diário de… “Jöelle Cabarus“

............«Durante anos, este Diário deixou de existir; ( )

............Não anotava nada de pessoal, a não ser as minhas

...........................................................interpretações,
............que são a minha ligação com os outros, ou antes,
............o meu intervalo relativamente ao que
............eles julgam ser o sentido
............do que dizem.


............Não duvido de que tinha também necessidade de guardar
............fora das palavras, e fora deste caderno,

............o que tenho de mais pessoal,
............exactamente, de mais sensual.

............É que isso não se pode dizer, ou então
............teria de cair na poesia, na música ou na pintura.

............Calo-me.
............Continuo no meu silêncio».

:)

Julia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991

abril 23, 2009



Aqui há uns vinte e três, vinte e cinco anos, foi quando começou a expansão dos computadores pessoais.

Um pouco antes li um artigo no Financial Times sobre a revolução profissional que se avizinhava pelo aparecimento da nova ferramenta: os PC's.

Já tinha podido observar, maravilhado, as fantásticas possibilidades de cálculo na modelação quantitativa do "devir", os cenários possíveis de evolução de variáveis dependentes de leis dadas...

No país vizinho, vi a mudança da noite para o dia, de todas os empregados de escritório equipados com o seu computador de secretária.

Esperei tranquilamente que o preço dos PC's baixasse para tratar de comprar um. Não me inquietei um segundo! Porquê? Pelo artigo que li no dito Financial Times.

Dizia o jornal: - se você sabe programar uma calculadora de bolso, fique à vontade: isso é muito mais difícil do que programar um PC!

Explicava: a memória de uma calculadora é muito menor do que a de um PC; isso exige uma muito maior mestria a programar um cálculo do que a necessária para resolver o mesmo problema no computador; aqui, pode escrever à vontade os passos do programa, pode ser redundante nos procedimentos e no raciocínio, porque tem memória disponível para uma tal deseconomia!

E essa foi, é a verdade. Pelo que, somos melhores e mais competentes do que qualquer máquina: sabemos o que lá «entra» e entendemos o que de lá «sai»; e se discordarmos, dizemos: o programa está mal feito!

«A língua escapa-se à reflexão, e nunca à paixão: a palavra
é sempre de um pensamento injustamente verdadeiro.»

Julia Kristeva, op.cit., p. 53

Manouchehr Motabar

Ó tu, a quem invejam as Formosas deste mundo, quão harmonioso
...........................................................................é o teu rosto!
Ó Qibla dos devotos, que bonitas são as tuas sobrancelhas!
Despojei-me de todos os meus atributos
Para nadar nu na água da tua beleza.


Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat,
Tradução e introdução de Adelino Ínsua,
Ed. Pedra Formosa, Guimarães, 2002, # 40

abril 22, 2009


Julia Kristeva, O velho e os lobos («Le vieil homme et les loups», 1991),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993



Um conto filosófico alusivo à convulsão social nos países de Leste,
após a queda do muro de Berlim, pela diferenciação abolida
entre exploradores e explorados,
restaurando a velha selva
homo homini lupus.



Escreve Kristeva, «persisto em pensar [ ]
que quodlibet ens não é «o ser não importa qual»,
mas «o ser tal que de qualquer maneira importe».

[No fundo,] «o desejo mútuo das nossas qualidades vulgares».
«Há um X tal que que pretence a Y.» — Crisipo divertia-se
a extrair valores morais dessa trivialidade lógica.

[ ] Nós somos assim, e pronto.
Oferecidos nas nossas maneiras,
gerados pelas nossas maneiras.


[ ] Sim, na noite dos grandes homens,
o meu quodlibet reparte para a raíz
do «principium individuationis».

Afinal, é a ele que seria preciso salvar urgentemente [ ]
Ele o quodlibet [ ]. Por favor, peço uma trégua [ ].

Por agora, tentem pensar que existe um X tal que
se vos expõe: irritante, pensável, amável.»

(pp. 161-3)

:))
Tine Thing Helseth: Haydn Trumpet Concerto, 3rd mvt


«Sabia também que o raciocínio tem o poder enigmático
de não situar seja quem for em parte alguma.»


Julia Kristeva, O velho e os lobos
(«Le vieil homme et les loups», 1991),
Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993

abril 21, 2009

Bellini, Norma - Casta Diva - Maria Callas



Casta Diva, che inargenti
queste sacre antiche piante,
a noi volgi il bel sembiante
senza nube e senza vel...

Tempra, o Diva,
tempra tu de’ cori ardenti
tempra ancora lo zelo audace,
spargi in terra quella pace
che regnar tu fai nel ciel...

abril 20, 2009



«Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas,
Tétis e a Ilha angélica pintada,
Outra cousa não é que as deleitosas
Honras que a vida fazem sublimada.
Aquelas preminências gloriosas,
Os triunfos, a fronte coroada
De palma e louro, a glória e maravilha:
Estes são os deleites desta Ilha.

Que as imortalidades que fingia
A antiguidade, que os Ilustres ama,
Lá no estelante Olimpo, a quem subia
Sobre as asas ínclitas da Fama,
Por obras valerosas que fazia,
Pelo trabalho imenso que se chama
Caminho da virtude, alto e fragoso,
Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,

Não eram senão prémios que reparte,
Por feitos imortais e soberanos,
O mundo cos varões que esforço e arte
Divinos os fizeram, sendo humanos;
Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte,
Eneias e Quirino e os dous Tebanos,
Ceres, Palas e Juno com Diana,
Todos foram de fraca carne humana.

Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses, Imortais,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.»


-------------- // -------------


Destarte se esclarece o entendimento,
Que experiências fazem repousado,
E fica vendo, corno de alto assento,
O baixo trato humano embaraçado.
Este, onde tiver força o regimento
Direito, e não de afeitos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e não rogando.


Vincenzo Bellini, Norma
Luís de Camões, Os Lusíadas

abril 19, 2009


JOHANN SEBASTIAN BACH (1685-1750)

Bach - Concerto for Two Violins
in D Minor BWV1043



abril 18, 2009

"Va, Pensiero" ("Chorus of the Hebrew Slaves")
from Giuseppe Verdi's "Nabucco."


Va, pensiero, sull'ali dorate;
va, ti posa sui clivi, sui colli
ove olezzano tepide e molli
l'aure dolci del suolo natal!
Del Giordano le rive saluta,
di Sionne le torri atterrate.
Oh, mia patria sì bella e perduta!
Oh, membranza sì cara e fatal!

Arpa d'or dei fatidici vati,
perché muta dal salice pendi?
Le memorie nel petto raccendi,
ci favella del tempo che fu!
O simile di Solima ai fati
traggi un suono di crudo lamento,
o t'ispiri il Signore un concento
che ne infonda al patire virtù!

abril 17, 2009

Kavakos plays Lalo, "Spanish Symphony", 1st mov.

abril 16, 2009

Enquanto a Tinta Azul não tiver os seus óculos,
só editarei aqui música do seu agrado:


Verdi - Requiem - Dies irae - Abbado

abril 15, 2009

Ainda, o homem quântico:


«Curiosa por ler esse livrinho [ ], gostei, principalmente,
deste excertozinho: «A única alternativa parecia ser
o viajante morrer primeiro e embarcar depois»
.

Sim, no universo da microfísica não há, de facto, causalidade estrita.
E essa causalidade probabilística que lhe é própria aguça os enredos
das histórias de ficção científica, por isso é muito bem-vinda

Imagina-te a viajar para dentro de um electrão, encontrando todo
um universo dentro dele, cheio de galáxias e partículas que, elas mesmas, tinham os seus universos dentro delas, universos e universos, abismo sem fim. É o mesmo entusiasmo

que sentia ao ler Júlio Verne.»

...............................................///

Em Leibniz, matemático, filósofo, lógico e diplomata,
há essa vertigem do infinitamente pequeno.

Foi ele aliás que inventou o cálculo infinitesimal,
alguns anos até antes de Newton.

...............................................///

Vê a tal vertigem leibniziana sobre o infinitamente pequeno,

«Cada porção da matéria pode ser concebida
como um jardim pleno de plantas e como um lago pleno de peixes.

Mas cada ramo da planta, cada membro do animal,
cada gota de seus humores é ainda um tal jardim ou um tal lago.


E embora a terra e o ar interpostos entre as plantas do jardim
ou a água entreposta entre os peixes do lago,

não sejam nem plantas nem peixes,

eles os contêm ainda,
as mais das vezes de uma subtilidade
imperceptível para nós.

Assim,
não há nada de inculto, de estéril, de morto no universo,
não há caos nem confusão senão na aparência,

mais ou menos como num lago à distância
no qual se veria um movimento confuso e buliçoso, por assim dizer,
de peixes no lago sem discernir os próprios peixes.

Por isso se vê que cada corpo tem uma enteléquia dominante,
que é a alma no animal;

mas os membros deste corpo vivo
são plenos de outros corpos vivos,

plantas, animais,

dos quais cada um tem ainda
a sua enteléquia ou a sua alma dominante.»


(Monadologia, §§ 67-70)

:)


——————— // ———————

«Por onde a razão, como uma brisa,
nos levar, por aí devemos ir.»


(Platão)

abril 14, 2009

Um breve diálogo
a propósito do relato
do homem quântico:



«São as tais frequências de futuro
que existirão em paralelo até que
uma se concretiza bloqueando as outras...»

///

Ora aí está o que não percebo de todo,
excepto se tais evoluções se alinharem
virtualmente como rotas possíveis a priori
mas excluidas da factualidade observável.

Meras propensões ou probabilidades,
adequadas a uma narrativa
pretensamente explicativa
e 'vibrante' de algum
suspense.

///

«É exactamente isso: um alinhamento virtual de rotas possíveis
(estão lá para serem escolhidas para concretização
mas desaparecem uma vez preteridas).

Qualquer exemplo prático do dia a dia demonstra esta evidência.
Senão vejamos: Quando saio de casa de manhã posso escolher:
Ir de carro; Ir de transporte; Ir a pé (se for perto)

O facto de escolher uma, não quer dizer que as outras escolhas
não fossem naquele momento também possíveis e
não existissem na minha esfera de actuação.

No entanto, depois de escolher ir de carro, estarei a condicionar os eventos
que se seguem a essa escolha, que serão diferentes dos que poderiam
suceder se fosse a pé. É bem verdade que na encruzilhada
ao seguirmos pelo caminho da direita não saberemos
como será o da esquerda, a não ser que
nos seja possível repetir o caminho
várias vezes...

O que na vida nem sempre sucede. [ ]»

——————— // ———————

abril 13, 2009


Três excertos de um livro hermético,
quase ilógico:

L. Miranda, Relato de um homem quântico,
Angelus Novus, Coimbra, 2003, pp. 98; 101-3.

Ei-los,

«O problema que se punha naquele local
era compreender os mecanismos que permitiam
- caso fosse possível realizar a referida viagem -
viajar fora dos efeitos da entropia,
pois a duração da viagem ultrapassava
em muito a vida do viajante.

A única alternativa parecia ser
o viajante morrer primeiro e embarcar depois.» :)

------------- // ------------

«Se um homem para assistir ao movimento da sua estrela
precisa de viver mais de mil anos,

quantos anos precisaria para consciencializar
que a desintegração do plano da matéria é vazio e sem fim

e que o espírito é a coroa do mundo abstracto?»

------------- // ------------

«O herói grego,
que mais lembra persa antigo,
recusou o sonho do homem material:
ligar-se à máquina.

Assim, recusou a crença que afirma a duplicação da condição
humana, pondo fim a certos atavismos que torturam a alma
e libertam a comunicação planetária
............ através da introdução de eléctrodos no cérebro.

O seu grau de lucidez atira-o para os confins do Ser.
QUANDO entrecorta algo dotado de inteligência,
reflecte uma imensa agonia na sua máscara de fumo.»

abril 12, 2009


«Diálogo entre duas amigas e seu Alguém:
— O espírito quando desce sobre mim deixa-me sem jeito.
(Pausa) Não sei como prendê-lo nos brincos ou no botão
Do seio.
— Não tens outro sensível onde o prender?
— Como queres que saiba? Os nichos que procura nunca
São os mesmos. Não se derrama duas vezes na mesma
Prega.
— Tão corpo é ele?
— Sinto-o como uma floração errante, Nunca murcha
Mas ignoro como pega.
— Não será no fundo uma evidência de recato?
— Não se repete. Inquieta-me. Acalma-me.
— É apenas um aceno que não te reconhece integralmente.
— Sim. Como este nosso diálogo. Não me diz que animal
Vivo eu sou, nem porque me chama.
— Diz, sim. Prende-te os cabelos com um laço.»

:)

Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.219

abril 10, 2009

Deliciosa e irónica radiografia
dos nossos contemporâneos mais jovens,
por Fernando Pinto do Amaral
:):



img: google's search

Zeitgeist

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.


Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios, onde às escuras
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.


Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proibem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,

assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação «save»
e assim alcançarem a eternidade.

:))

in, livro duplo, frente e verso, poesia e prosa,
Poemas escolhidos (1990-2007); Contos;
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2009

(Edição promocional da revista Visão
à venda nas tabacarias por € .50,
independente da compra
da revista.)

abril 09, 2009




Soleil, soleil!... Faute éclatante!
Toi qui masques la mort, Soleil...
Par d'impénetrables délices,
Toi le plus fier de mes complices,
Et de mes pièges le plus haut,
Tu gardes les coeurs de connaître
que l'univers n'est qu'un défaut
Dans la pureté du Non-être.

(Paul Valéry, cit. in U. Eco,
Kant e o ornitorrinco, p. 27-28)

abril 05, 2009

fiama hasse pais brandão


E por falar em portas
por onde há gosto em entrar
distintas de outras
por onde só se quer sair,

um poema lindo de fiama:


A porta branca

Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.



Fiama Hassa Pais Brandão
Cena Vivas, Relógio d´Água

abril 04, 2009

fiama hasse pais brandão


«que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.»


.

fiama hasse pais brandão


«porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil»


.

fiama hasse pais brandão


«Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música»


.

abril 03, 2009

fiama hasse pais brandão


'namoro', almada negreiros

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

fiama hasse pais brandão

março 31, 2009



O bico do compasso, que
marca o centro que não se vê,
não canta como o bico
da ave que é o centro do
canto que ocupa. No
entanto, roda o compasso
como se o movessem
asas; e desenha, no papel,
o circulo que, no ar,
a ave sugere.

Elegante também,
este outro poema
de Nuno Júdice :)

março 28, 2009

Mas o post da Meg
é belo demais, e eu
quero-o aqui
replicado.





Projecto

.Desta vez vou escrever-te um poema
que vai ser um poema de amor,
mas que não é apenas um poema de amor.
O amor, com efeito, é algo que não cabe num poema;
pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor,
sobretudo quando te abraço,
e sinto os teus cabelos na boca,
agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão,
a água fresca corre pela garganta.
A isto, em retórica, chama-se uma comparação;
e pergunto o que é que o amor tem a ver com a retórica,
ou por que é que o teu corpo
se teme de transformar numa metáfora
- rosa, lírio, taça, qualquer objecto que tenha,
na sua essência, um elemento que me possa levar até ele,
como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem,
ver em ti o que não és,
nem tens de ser, ou ainda transformar-te
num lugar comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor.
Assim, este poema de amor é,
mais do que um poema de amor,
um exercício para escrever um poema de amor
- mas um poema de amor a sério,
sem comparações nem metáforas,
só contigo, com o teu corpo, com a tua voz,
com os teus cabelos, com aquilo que é real,
e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto
de um poema de amor em que o amor,
finalmente, deixa de ser o objecto único do poema,
que se preocupa acima de tudo com a retórica,
as imagens, o equilíbrio das formas.
Mas, pergunto, não é o teu corpo uma flor?
Não é a tua boca uma rosa?
Não são lírios os teus seios?
Tudo, então, se transforma:
e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida,
a abstracta metamorfose das emoções.
O resto, meu amor, és tu -
e é por isso que o poema de amor que te escrevo não é,
finalmente, um poema de amor
.
Nuno Júdice
.


Em dívida à Meg, pelo seu belíssimo post
e poema de Júdice, retribuo
com o prometido


O sexo dos anjos

Foi em bizâncio, antes da queda. Discutiam
o sexo dos anjos, e a discussão ficou interrompida
quando os turcos cortaram o fio à meada, se é que
não cortaram mesmo o sexo aos anjos. Bizâncio,
então, podia ter caído uns dias mais tarde: talvez,
durante esses dias, se pudesse chegar a uma conclusão
sobre qual era, afinal, o sexo dos anjos; e o assunto
interessa-me porque os únicos anjos que conheço
são em estátua, e não é possível espreitar o sexo
de uma estátua! A queda de um império, é verdade, dá-nos
estas coisas imprevisíveis: dá-nos um voo de argumentos
teológicos sobre o sexo; e traz-me, de súbito, o teu
rosto inquietante na sua fixidez de enigma grego – esse
rosto de perfil, e também gosto dos perfis, mesmo
quando não são de anjos ou não têm a linha pura dos
ícones gregos. Basta-me, então, saber que é o teu rosto;
ouvir ainda as tuas últimas palavras de despedida, que
me soaram demasiado secas (mas que outro tom se pode
usar numa despedida para não ser patético, como esses
que ainda discutiam o sexo dos anjos num conflito cercado
pelos turcos?) – e dizer-te, agora que o sexo dos anjos me
trouxe o teu sexo, que não há voltas a dar ao amor
quando o céu muda a cada instante, e é preciso, apesar
de tudo, que alguma coisa permaneça intacta em tempos
de mudança. Que outros impérios terão de cair para isso? Em
que novo concílio ouvirei discutir o sexo dos anjos,
sabendo desde já que o único sexo que me interessa é
o teu? Ouve, então, de novo: em bizâncio, uma
tarde, foram todos degolados à beira da conclusão.


Nuno Júdice

março 27, 2009

E o romance termina assim :):



«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin !
N’allait-elle pas quand même à l’avenir insoucieuse du sang
répandu? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête
aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort,
elle roulait, chargée de cette chair à canon,
de ces soldats, déjà hébétés de fatigue,
et ivres, qui chantaient.»

o.p., p. 461-2 (folio classique)

março 26, 2009


«Séverine, dans ce lit, où ils s’étaient aimés
pendant les heures brûlantes et noires
de la nuit précédente, ne bougeait
toujours pas. [ ]

Elle le suivait d’un va-et-vient du regard,
anxieuse elle aussi, agitée de la crainte
que, cette nuit-là encore, il n’osât point.

En finir, recommencer, elle ne voulait
que cela, au fond de son inconscience
de femme d’amour, complaisante à
l’homme, toute à celui qui la tenait,
sans cœur pour l’autre qu’elle
n’avait jamais désiré.»

o.p., p. 413 (folio classique)

março 25, 2009


Claude Monet

«Era o fim, o estremeção da agonia: pilhas de neve
tornavam a cair, cobriam as rodas [ ] E a Lison [locomotiva]
parou definitivamente, moribunda, no grande frio.

A sua respiração extinguiu-se,
ela estava imóvel, morta. [ ]

Depois nada mais se mexeu, a neve tecia o seu sudário.»

op.cit., pp. 165-6

março 24, 2009


«Mas, a dois passos, a um passo, foi uma derrocada. Tudo
se desmoronou nele, de súbito. Não, não, ele não mataria,
não podia matar assim aquele homem indefeso.

O raciocínio nunca levaria ao crime,
era preciso o instinto de morder,
o salto que lança sobre a presa,
a fome ou a paixão que dilacera.»

op.cit., p.224

março 23, 2009



«— Não me digas que queres que eu o mate? [ ]
Ela disse não, três vezes; mas os seus olhos diziam sim,
os seus olhos de mulher enamorada, toda entregue
à crueldade inexorável da sua paixão.»

————

«Matar esse homem, meu Deus! tinha porventura esse direito?
Quando uma mosca o importunava, ele esmagava-a com uma palmada. [ ] Mas aquele homem, um seu semelhante!


Teve de recomeçar todo o seu raciocínio para provar
a si próprio o direito de assassinar, o direito dos fortes
a quem os fracos incomodam, e que os destroem.»

————

«Era ele, agora, que a mulher do outro amava,
e ela própria queria ser livre para desposá-lo,
para lhe entregar a sua fortuna.

Tudo o que ele fazia era simplesmente afastar o obstáculo.
[ ] visto que essa era a lei da vida, devia obedecer-lhe,
deixando de lado os escrúpulos que tinham sido
inventados mais tarde para permitir
a vida em sociedade.»

op.cit., pp. 217;219.

março 22, 2009



«Era uma dessas máquinas expresso, com dois eixos acoplados,
de uma elegância fina e gigante, com as suas grandes rodas ligeiras
reunidas por braços de aço, o seu peitoril largo, os seus rins alongados
e pujantes, toda essa lógica e toda essa certeza que constituem a beleza
soberana dos seres de metal, a pressão na força.»

op.cit., p.126

março 21, 2009

O romance começa assim... :):



Monet, Claude: La Gare Saint-Lazare (1877).
Musée du Jeu de Paume, Paris

«Ao entrar no quarto, Roubaud pousou sobre a mesa o pão de libra,
a empada e a garrafa de vinho branco. Mas, de manhã,
antes de descer para o seu posto, a tia Vitória
devia ter coberto o fogo do seu calorífero
com tamanha dose de pó de carvão,
que o calor era sufocante.

E o subchefe de estação,
tendo aberto uma janela,
debruçou-se com os cotovelos no peitoril.»


trad. Daniel Augusto Gonçalves)
(Livraria Civilização Editora)


«En entrant dans la chambre, Roubaud posa sur la table
le pain d'une livre, le pâté et la bouteille de vin blanc.
Mais, le matin, avant de descendre à son poste,
la mère Victoire avait dû couvrir fe feu
de son poêle d'un tel poussier,
que le chaleur était
suffocante.

Et le souschef de gare,
ayant ouvert une fenêtre,
s'y accouda.»

março 20, 2009



. Monet, Claude: The Gare St.-Lazare, Paris:
Arrival of a Train, detail (1877). Fogg Art Museum,
Harvard University Art Museums

Estou a acabar de ler o meu primeiro romance
de Émile Zola, A Besta Humana La Bête Humaine»).
Uma escrita rigorosa, de grande qualidade narrativa,
quase um filme de acção e correspondentes emoções.

O romance desenrola-se ao longo da linha ferroviária
Havre - Rouen - Paris, durante o Segundo Império
de Napoleão III.

Uma história fatal, de paixão e morte,
todas as personagens subjugadas
na necessidade férrea
de um destino
com hora
marcada!

março 16, 2009


(editora Antígona)

Um clássico,
anti-manipulação
comunicacional!

Imperdível .

Pois, como ensina David Hume,

«As nossas impressões são causa das nossas ideias,
e não as nossas ideias causa das nossas impressões.»


.

março 15, 2009


«Por onde a razão, como uma brisa,
nos levar, por aí devemos ir.»

(Platão)

março 13, 2009

Haydn-"Farewell"Symphony No.45-Mov.4/4

março 12, 2009



Eu procuro sempre evitar qualquer vibração mística
com os modelos narrativos da física quântica...

Gosto de tudo derivar do princípio dito (lamentavelmente)
da incerteza que mais correcto é qualificar de
princípio de indeterminação.

Não há causalidade estrita no universo.


O que sucede é um condicionamento progressivo
das possibilidades em aberto: - porque algo
se vai compondo e individuando,

múltiplos outros desenvolvimentos,
possíveis em abstracto, vão sendo
impossíveis de ocorrer.

Assim, se formam regularidades de eventos,
inteligíveis por seres co-possíveis com tais eventos
que observam a sua ordem. Nada de mágico.
Tudo natural e imanente.
Bernardo Sassetti - Petit Pays

Do blog Catharsis

março 11, 2009


14 mil milhões de Anos-Luz ao redor do Sol, o Universo visível
(número de estrelas = 2 mil triliões de estrelas - 2x10^21)

Imagem no blog universo e vida

«[ ] we say that the principles we seek
[those that are simple and easy to know]
are such that we may demonstrate
that from them the stars,
the earth,, etc., could
have arisen.


[ ] it is allowable for us to assume a hypothesis
from which we can deduce
, as from a cause,
the phenomena of nature, even though we
well know they did not arise in that way. [ ]

For,because [ ] matter assumes successively
all the forms of which it is capable
, if
we consider those forms in due order,

we shall finally be able to arrive at the form
that is the form of this world
.

So one need fear no error from a false hypothesis

Spinoza, Principles of cartesian philosophy, Part III
Hackett Publishing Cy, Inc., Indianapolisa/Cambridge, 1998, p.88



março 10, 2009

março 09, 2009

O céu, o olhar ou a estrela polar...

Sky Map


«“— Diga-me – pedi –, para onde é que eu hei-de olhar
para conseguir responder às suas perguntas
.”

Talvez pareça descabida a questão da orientação
do olhar nesta conversa funcional. Mas já os Gregos
sabiam que dirigir correctamente o olhar era meio
caminho andado para encontrar as respostas.»

(Luísa Costa Gomes, Isto e mais Isto e mais Isto, p.99)

março 05, 2009

«Deixem-nos sós, sem livros, e ficaremos perdidos, abandonados,
não saberemos a que nos agarrar, o que seguir;
que amar, que odiar, que respeitar, que desprezar?

Mesmo sermos homens nos pesa
- homens com um corpo real, nosso, com sangue;
temos vergonha disso, tomamo-lo por uma nódoa
e procuramos ser uma espécie de
homens globais fantasmáticos.

Somos todos nado-mortos,
desde há muito tempo,
e os pais que nos engendram,
são também mortos,

e tudo isso nos agrada cada vez mais. Tomamos-lhe o gosto.
Em breve inventaremos o meio de nascermos de uma ideia.

Mas basta;
não me apetece mais escrever «do fundo do subterrâneo»...»


Dostoiévski

março 02, 2009


Auguste Rodin

«O olhar e o entendimento podem errar, o amor
não. Ninguém, nesse caso, se engana de figura,
mas não importa quem se pode enganar

de amante.»

Maria Gabriela Llansol, Contos do mal errante

fevereiro 27, 2009

Em ano de aniversário
de Fellini 8 1/2, 1963

La notte, de michelangelo antonioni, 1961

fevereiro 25, 2009



«É que às vezes ela pensava pensamentos tão adelgaçados
que eles subitamente se quebravam no meio antes de chegar ao fim.

E porque eram tão finos,
mesmo sem completá-los
ela os conhecia de uma só vez.

Embora jamais pudesse pensá-los de novo,
indicá-los com uma palavra sequer.»

Clarice Lispector, O Lustre,
ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1995 , p. 46

fevereiro 23, 2009

Bach, Well-Tempered Klavier II - No. 14 F#-

fevereiro 20, 2009

Glenn Gould plays J.S.Bach Piano Concerto No.7 in G minor BW

fevereiro 18, 2009


(Francisco Toledo)

«Não há objecto que possa existir sozinho.
Para o definir precisamos de designar o que lhe pertence
e, nessa designação, definir o conjunto de tudo o que ele não é.
Caracterizar «A» é, ao mesmo tempo, caracterizar «não-A».»

Albert Jacquard, com a participação de Huguette Planès,
Pequeno manual de filosofia para uso dos não-filósofos,
Terramar, Lisboa, 1997, P.73

fevereiro 11, 2009

«Eu ando a revisitar os lugares do meu passado.
Recrio o meu passado inventando-lhe a significação
que actualmente lhe confiro.

Há duas ideais de avenidas: a minha e a dos outros. ( )
Lá bebe-se café, come-se bolos, lê-se o jornal
e engatam-se miúdas.

( ) Entro, lá estão eles ao canto reforçando a evidência
das palavras transparentes que proferem. Lá está ela
no centro deles: a verdade eterna, o único sentido
científico que a humanidade possui. ( )

Olho-os com indiferença. ( ) Obviamente que algo
nos separa: a compreensão e a extensão da ilusão,
para falar em termos aristotélicos. ( )

Ao fim e ao cabo, vivemos no mesmo mundo
e possuímos mundos diferentes.

Peço um café, mais para cumprir o ritual
do que por necessidade. Aproveito e
peço um bolo qualquer. O empregado
traz-me um «bom bocado»,
segundo me informou.

A diferença entre um «bom bocado» e
um «pastel de nata» é mínima e quase
imperceptível à primeira vista.
Enquanto este tem o bordo circular superior
liso, aquele tem, a partir de um bordo circular
imaginário, o bordo constituído por uma dezena
de arcos de circunferência.

Eu explico de forma simples

«bom bocado»

«pastel de nata»


Constato que o pasteleiro criador tem, além da rotina
da forma do bolo, uma certa imaginação
quanto aos bordos, de tal maneira
que, a partir de uma diferença
mínima, construiu um novo
modelo de bolo.

Além de que o nome
é engraçado, infantil e sugestivo.


Perguntei ao empregado se vendia mais «bons bocados»
que «pastéis de nata». Um pouco admirado,
respondeu-me que, de facto, se vendia
mais dos segundos.

Exactamente como eu pensava: a partir de uma subtil
introdução nova numa forma velha,
acompanhada de um nome atraente,
as pessoas diversificam-se:

os conservadores ( ) agarram-se aos «pastéis de nata»,
enquanto os progressistas ( ) são atraídos
pelos «bons bocados». ( )


Levanto-me e pago o café e o «bom bocado».
Volto as costas ao Ideal das Avenidas.

De facto, este café não me agrada,
não me dá prazer. É um prazer sair. ( )

Eu vou explicar tudo de uma forma muito simples.

A filosofia foi a porta de entrada dos meus delírios. ( )
Dela germinavam as minhas ânsias teóricas,
as quais eu logo colava a uma ideologia. ( )

Hoje sou amante da filosofia e adverso das ideologias. ( )

Desracionalizando a filosofia como saber principal
das ideologias, restou-me o que é originariamente
filosófico: um espaço de busca, de procura,
de movimento, de desassossego intelectual,
um espanto do inesperado,
uma insaciável sede
de ler e de saber

para além das sabedorias
(filosofias mais ideologias)
institucionalizadas:

a sabedoria do outro e do mesmo



Luís Martins, O outro e o mesmo,
Contexto, Lisboa, 1981, pp. 157-65.

fevereiro 09, 2009

"Belos Tempos" By Fernando Farinha

fevereiro 08, 2009



«Pensava ter ancorado em porto seguro
e, de súbito, eis-me de novo perdido
em pleno alto mar.»

Leibniz

fevereiro 01, 2009



«O acaso é o efeito do cruzamento de
duas ou mais séries causais independentes


Cournot

janeiro 29, 2009


Diálogo de Hera e Zeus Crónida
(Ilíada, I.536-69):

«[ ] Porém, a Hera
não passou despercebido que com ele se aconselhara
Tétis dos pés prateados, filha do Velho do Mar.
Logo falou a Zeus Crónida com palavras mordazes:

”Quem dos deuses, Pensador de Enganos, contigo se aconselhou?
Sempre te é caro manteres-te afastado de mim,
judiciando coisas pensadas em segredo! E nunca tu ousaste
declarar-me a palavra que tens em teu pensamento.”

A ela deu resposta o pai dos homens e dos deuses:
“Hera, não penses vir a conhecer todas as minhas
palavras: difíceis elas te seriam, minha esposa embora sejas.
Porém aquilo que te compete ouvir, ninguém o ouvirá
primeiro, pertença ele à raça dos homens ou dos deuses.
Mas sobre aquilo que eu decido pensar afastado dos deuses,
não faças perguntas nem de modo algum procures saber.”

:)

janeiro 28, 2009

Paolo Conte - Come Away with Me (Vieni via con me)

janeiro 27, 2009

Vois Sur Ton Chemin

Para uma educação musical,
cortesia da rádio azul

Vois sur ton chemin
Gamins oubliés égarés
Donne leur la main
Pour les mener
Vers d'autres lendemains

Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de gloire

Bonheurs enfantins
Trop vite oubliés effacés
Une lumière dorée brille sans fin
Tout au bout du chemin

Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de gloire

e le e
i le e
e le i
i e le
e le e
i le e
i le e
i e

e le e
i le e
e le i
i e le
e le e
i le e
i le e
i e

Vois sur ton chemin
Gamins oubliés égarés
Donne leur la main
Pour les mener
Vers d'autres lendemains

Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de gloire

janeiro 22, 2009



«Não evoluo, viajo.»

janeiro 21, 2009



«Em vinte anos de poder passei doze sem domicílio fixo.
Vivia alternadamente nos palácios dos mercadores da Ásia,
nas tranquilas casas gregas, nas belas villas com banhos e caloríferos
dos residentes romanos na Gália, em cabanas ou em propriedades rústicas.

A tenda ligeira,
a arquitectura de tela e de cordas,
era ainda a minha preferida.

Os navios não eram menos variados que as moradas terrestres:
tive o meu, provido de um ginásio e de uma biblioteca,

mas desconfiava demasiado de toda a fixidez
para me prender a qualquer habitação,
mesmo móvel.»


(Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p. 106)

os mistérios de eleusis xl

janeiro 20, 2009

Flamenco: Alegrias

janeiro 19, 2009

Lhasa De Sela - La Marée Haute


La marée haute
— paroles: Lhasa De Sela et Riad Malek
/ musique: Lhasa De Sela

LA ROUTE CHANTE
QUAND JE M'EN VAIS
JE FAIS TROIS PAS...
LA ROUTE SE TAIT

LA ROUTE EST NOIRE
À PERTE DE VUE
JE FAIS TROIS PAS...
LA ROUTE N'EST PLUS

SUR LA MARÉE HAUTE
JE SUIS MONTÉE
LA TÊTE EST PLEINE
MAIS LE CÕEUR N'A
PAS ASSEZ


MAINS DE DENTELLE
FIGURE DE BOIS
LE CORPS EN BRIQUE
LES YEUX QUI PIQUENT

MAINS DE DENTELLE
FIGURE DE BOIS
JE FAIS TROIS PAS...
ET TU ES LÀ

SUR LA MARÉE HAUTE
JE SUIS MONTÉE
LA TÊTE EST PLEINE
MAIS LE COEUR N'A
PAS ASSEZ

janeiro 18, 2009

Marco Antonio Bernardo (piano) - Orfeu e Euridice (Gluck)