Notabilíssima, esta entrevista a João Pereira Coutinho por Alexandra Lencastre!
E fez duas afirmações que sempre senti relativa ou frequentemente verdadeiras mas nunca me ocorreu enunciar: i) que os homens são mais românticos que as mulheres; ii) que a conversa de géneros, - as das mulheres entre elas, e as dos homenes entre si -, são sumamente entediantes!
Notável todo o sentido de humor de João Pereira Coutinho e tocante o modo como comoveu a entrevistadora!
Não posso arrancar de mim o coração Melhor é deixá-lo no teu amor Porque, se não o deixo no teu amor Que é o coração? De que me serve o coração?
Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, #101
abril 25, 2009
Começas a vestir-te, lentamente, e é ternura também que vou vestindo, para enfrentar lá fora aquela gente que da nossa ternura anda sorrindo...
David Mourão-Ferreira
Martinho da Vila
Já tive mulheres de todas as cores De várias idades de muitos amores Com umas até certo tempo fiquei Pra outras apenas um pouco me dei Já tive mulheres do tipo atrevida Do tipo acanhada do tipo vivida Casada carente, solteira feliz Já tive donzela e até meretriz Mulheres cabeça e desequilibradas Mulheres confusas de guerra e de paz Mas nenhuma delas me fez tão feliz Como você me faz Procurei em todas as mulheres a felicidade Mas eu não encontrei e fiquei na saudade Foi começando bem mas tudo teve um fim Você é o sol da minha vida a minha vontade Você não é mentira você é verdade É tudo que um dia eu sonhei pra mim Já tive mulheres de todas as cores De várias idades de muitos amores Com umas até certo tempo fiquei Pra outras apenas um pouco me dei Já tive mulheres do tipo atrevida Do tipo acanhada do tipo vivida Casada carente, solteira feliz Já tive donzela e até meretriz Mulheres cabeça e desequilibradas Mulheres confusas de guerra e de paz Mas nenhuma delas me fez tão feliz Como você me faz Procurei em todas as mulheres a felicidade Mas eu não encontrei e fiquei na saudade Foi começando bem mas tudo teve um fim Você é o sol da minha vida a minha vontade Você não é mentira você é verdade É tudo que um dia eu sonhei pra mim Procurei em todas as mulheres a felicidade Mas eu não encontrei e fiquei na saudade Foi começando bem mas tudo teve um fim Você é o sol da minha vida a minha vontade Você não é mentira você é verdade É tudo que um dia eu sonhei pra mim
abril 24, 2009
O Diário de… “Jöelle Cabarus“
............«Durante anos, este Diário deixou de existir; ( )
............Não anotava nada de pessoal, a não ser as minhas ...........................................................interpretações, ............que são a minha ligação com os outros, ou antes, ............o meu intervalo relativamente ao que ............eles julgam ser o sentido ............do que dizem.
............Não duvido de que tinha também necessidade de guardar ............fora das palavras, e fora deste caderno,
............o que tenho de mais pessoal, ............exactamente, de mais sensual.
............É que isso não se pode dizer, ou então ............teria de cair na poesia, na música ou na pintura.
............Calo-me. ............Continuo no meu silêncio».
:)
Julia Kristeva, Os samurais («Les samouraïs», 1990), Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, 1991
abril 23, 2009
Aqui há uns vinte e três, vinte e cinco anos, foi quando começou a expansão dos computadores pessoais.
Um pouco antes li um artigo no Financial Times sobre a revolução profissional que se avizinhava pelo aparecimento da nova ferramenta: os PC's.
Já tinha podido observar, maravilhado, as fantásticas possibilidades de cálculo na modelação quantitativa do "devir", os cenários possíveis de evolução de variáveis dependentes de leis dadas...
No país vizinho, vi a mudança da noite para o dia, de todas os empregados de escritório equipados com o seu computador de secretária.
Esperei tranquilamente que o preço dos PC's baixasse para tratar de comprar um. Não me inquietei um segundo! Porquê? Pelo artigo que li no dito Financial Times.
Dizia o jornal: - se você sabe programar uma calculadora de bolso, fique à vontade: isso é muito mais difícil do que programar um PC!
Explicava: a memória de uma calculadora é muito menor do que a de um PC; isso exige uma muito maior mestria a programar um cálculo do que a necessária para resolver o mesmo problema no computador; aqui, pode escrever à vontade os passos do programa, pode ser redundante nos procedimentos e no raciocínio, porque tem memória disponível para uma tal deseconomia!
E essa foi, é a verdade. Pelo que, somos melhores e mais competentes do que qualquer máquina: sabemos o que lá «entra» e entendemos o que de lá «sai»; e se discordarmos, dizemos: o programa está mal feito!
«A língua escapa-se à reflexão, e nunca à paixão: a palavra é sempre de um pensamento injustamente verdadeiro.»
Julia Kristeva, op.cit., p. 53
Manouchehr Motabar
Ó tu, a quem invejam as Formosas deste mundo, quão harmonioso ...........................................................................é o teu rosto! Ó Qibla dos devotos, que bonitas são as tuas sobrancelhas! Despojei-me de todos os meus atributos Para nadar nu na água da tua beleza.
Djalal Al-Din Rumi, Rubaiyat, Tradução e introdução de Adelino Ínsua, Ed. Pedra Formosa, Guimarães, 2002, # 40
abril 22, 2009
Julia Kristeva, O velho e os lobos («Le vieil homme et les loups», 1991), Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993
Um conto filosófico alusivo à convulsão social nos países de Leste, após a queda do muro de Berlim, pela diferenciação abolida entre exploradores e explorados, restaurando a velha selva homo homini lupus.
Escreve Kristeva, «persisto em pensar [ ] que quodlibet ens não é «o ser não importa qual», mas «o ser tal que de qualquer maneira importe».
[No fundo,] «o desejo mútuo das nossas qualidades vulgares». «Há um X tal que que pretence a Y.» — Crisipo divertia-se a extrair valores morais dessa trivialidade lógica.
[ ] Nós somos assim, e pronto. Oferecidos nas nossas maneiras, gerados pelas nossas maneiras.
[ ] Sim, na noite dos grandes homens, o meu quodlibet reparte para a raíz do «principium individuationis».
Afinal, é a ele que seria preciso salvar urgentemente [ ] Ele o quodlibet [ ]. Por favor, peço uma trégua [ ].
Por agora, tentem pensar que existe um Xtal que se vos expõe: irritante, pensável, amável.»
«Sabia também que o raciocínio tem o poder enigmático de não situar seja quem for em parte alguma.»
Julia Kristeva, O velho e os lobos («Le vieil homme et les loups», 1991), Trad. Pedro Tamen, Difusão Cultural, Lisboa,1993
abril 21, 2009
Bellini, Norma - Casta Diva - Maria Callas
Casta Diva, che inargenti queste sacre antiche piante, a noi volgi il bel sembiante senza nube e senza vel...
Tempra, o Diva, tempra tu de’ cori ardenti tempra ancora lo zelo audace, spargi in terra quella pace che regnar tu fai nel ciel...
abril 20, 2009
«Que as Ninfas do Oceano, tão fermosas, Tétis e a Ilha angélica pintada, Outra cousa não é que as deleitosas Honras que a vida fazem sublimada. Aquelas preminências gloriosas, Os triunfos, a fronte coroada De palma e louro, a glória e maravilha: Estes são os deleites desta Ilha.
Que as imortalidades que fingia A antiguidade, que os Ilustres ama, Lá no estelante Olimpo, a quem subia Sobre as asas ínclitas da Fama, Por obras valerosas que fazia, Pelo trabalho imenso que se chama Caminho da virtude, alto e fragoso, Mas, no fim, doce, alegre e deleitoso,
Não eram senão prémios que reparte, Por feitos imortais e soberanos, O mundo cos varões que esforço e arte Divinos os fizeram, sendo humanos; Que Júpiter, Mercúrio, Febo e Marte, Eneias e Quirino e os dous Tebanos, Ceres, Palas e Juno com Diana, Todos foram de fraca carne humana.
Mas a Fama, trombeta de obras tais, Lhe deu no mundo nomes tão estranhos De Deuses, Semideuses, Imortais, Indígetes, Heróicos e de Magnos. Por isso, ó vós que as famas estimais, Se quiserdes no mundo ser tamanhos, Despertai já do sono do ócio ignavo, Que o ânimo, de livre, faz escravo.
E ponde na cobiça um freio duro, E na ambição também, que indignamente Tomais mil vezes, e no torpe e escuro Vício da tirania infame e urgente; Porque essas honras vãs, esse ouro puro, Verdadeiro valor não dão à gente. Milhor é merecê-los sem os ter, Que possuí-los sem os merecer.»
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Destarte se esclarece o entendimento, Que experiências fazem repousado, E fica vendo, corno de alto assento, O baixo trato humano embaraçado. Este, onde tiver força o regimento Direito, e não de afeitos ocupado, Subirá (como deve) a ilustre mando, Contra vontade sua, e não rogando.
Vincenzo Bellini, Norma Luís de Camões, Os Lusíadas
abril 19, 2009
JOHANN SEBASTIAN BACH (1685-1750)
Bach - Concerto for Two Violins in D Minor BWV1043
abril 18, 2009
"Va, Pensiero" ("Chorus of the Hebrew Slaves") from Giuseppe Verdi's "Nabucco."
Va, pensiero, sull'ali dorate; va, ti posa sui clivi, sui colli ove olezzano tepide e molli l'aure dolci del suolo natal! Del Giordano le rive saluta, di Sionne le torri atterrate. Oh, mia patria sì bella e perduta! Oh, membranza sì cara e fatal!
Arpa d'or dei fatidici vati, perché muta dal salice pendi? Le memorie nel petto raccendi, ci favella del tempo che fu! O simile di Solima ai fati traggi un suono di crudo lamento, o t'ispiri il Signore un concento che ne infonda al patire virtù!
abril 17, 2009
Kavakos plays Lalo, "Spanish Symphony", 1st mov.
abril 16, 2009
Enquanto a Tinta Azul não tiver os seus óculos, só editarei aqui música do seu agrado:
Verdi - Requiem - Dies irae - Abbado
abril 15, 2009
Ainda, o homem quântico:
«Curiosa por ler esse livrinho [ ], gostei, principalmente, deste excertozinho: «A única alternativa parecia ser o viajante morrer primeiro e embarcar depois».
Sim, no universo da microfísica não há, de facto, causalidade estrita. E essa causalidade probabilística que lhe é própria aguça os enredos das histórias de ficção científica, por isso é muito bem-vinda
Imagina-te a viajar para dentro de um electrão, encontrando todo um universo dentro dele, cheio de galáxias e partículas que, elas mesmas, tinham os seus universos dentro delas, universos e universos, abismo sem fim. É o mesmo entusiasmo que sentia ao ler Júlio Verne.»
Vê a tal vertigem leibniziana sobre o infinitamente pequeno,
«Cada porção da matéria pode ser concebida como um jardim pleno de plantas e como um lago pleno de peixes.
Mas cada ramo da planta, cada membro do animal, cada gota de seus humores é ainda um tal jardim ou um tal lago.
E embora a terra e o ar interpostos entre as plantas do jardim ou a água entreposta entre os peixes do lago,
não sejam nem plantas nem peixes,
eles os contêm ainda, as mais das vezes de uma subtilidade imperceptível para nós.
Assim, não há nada de inculto, de estéril, de morto no universo, não há caos nem confusão senão na aparência,
mais ou menos como num lago à distância no qual se veria um movimento confuso e buliçoso, por assim dizer, de peixes no lago sem discernir os próprios peixes.
Por isso se vê que cada corpo tem uma enteléquia dominante, que é a alma no animal;
mas os membros deste corpo vivo são plenos de outros corpos vivos,
plantas, animais,
dos quais cada um tem ainda a sua enteléquia ou a sua alma dominante.» (Monadologia, §§ 67-70)
:)
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«Por onde a razão, como uma brisa, nos levar, por aí devemos ir.»
(Platão)
abril 14, 2009
Um breve diálogo a propósito do relato do homem quântico:
«São as tais frequências de futuro que existirão em paralelo até que uma se concretiza bloqueando as outras...»
///
Ora aí está o que não percebo de todo, excepto se tais evoluções se alinharem virtualmente como rotas possíveis a priori mas excluidas da factualidade observável.
Meras propensões ou probabilidades, adequadas a uma narrativa pretensamente explicativa e 'vibrante' de algum suspense.
///
«É exactamente isso: um alinhamento virtual de rotas possíveis (estão lá para serem escolhidas para concretização mas desaparecem uma vez preteridas).
Qualquer exemplo prático do dia a dia demonstra esta evidência. Senão vejamos: Quando saio de casa de manhã posso escolher: Ir de carro; Ir de transporte; Ir a pé (se for perto)
O facto de escolher uma, não quer dizer que as outras escolhas não fossem naquele momento também possíveis e não existissem na minha esfera de actuação.
No entanto, depois de escolher ir de carro, estarei a condicionar os eventos que se seguem a essa escolha, que serão diferentes dos que poderiam suceder se fosse a pé. É bem verdade que na encruzilhada ao seguirmos pelo caminho da direita não saberemos como será o da esquerda, a não ser que nos seja possível repetir o caminho várias vezes...
O que na vida nem sempre sucede. [ ]»
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abril 13, 2009
Três excertos de um livro hermético, quase ilógico:
L. Miranda, Relato de um homem quântico, Angelus Novus, Coimbra, 2003, pp. 98; 101-3.
Ei-los,
«O problema que se punha naquele local era compreender os mecanismos que permitiam - caso fosse possível realizar a referida viagem - viajar fora dos efeitos da entropia, pois a duração da viagem ultrapassava em muito a vida do viajante.
A única alternativa parecia ser o viajante morrer primeiro e embarcar depois.» :)
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«Se um homem para assistir ao movimento da sua estrela precisa de viver mais de mil anos,
quantos anos precisaria para consciencializar que a desintegração do plano da matéria é vazio e sem fim
e que o espírito é a coroa do mundo abstracto?»
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«O herói grego, que mais lembra persa antigo, recusou o sonho do homem material: ligar-se à máquina.
Assim, recusou a crença que afirma a duplicação da condição
humana, pondo fim a certos atavismos que torturam a alma
e libertam a comunicação planetária ............através da introdução de eléctrodos no cérebro.
O seu grau de lucidez atira-o para os confins do Ser. QUANDO entrecorta algo dotado de inteligência, reflecte uma imensa agonia na sua máscara de fumo.»
abril 12, 2009
«Diálogo entre duas amigas e seu Alguém: — O espírito quando desce sobre mim deixa-me sem jeito. (Pausa) Não sei como prendê-lo nos brincos ou no botão Do seio. — Não tens outro sensível onde o prender? — Como queres que saiba? Os nichos que procura nunca São os mesmos. Não se derrama duas vezes na mesma Prega. — Tão corpo é ele? — Sinto-o como uma floração errante, Nunca murcha Mas ignoro como pega. — Não será no fundo uma evidência de recato? — Não se repete. Inquieta-me. Acalma-me. — É apenas um aceno que não te reconhece integralmente. — Sim. Como este nosso diálogo. Não me diz que animal Vivo eu sou, nem porque me chama. — Diz, sim. Prende-te os cabelos com um laço.»
:)
Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.219
abril 10, 2009
Deliciosa e irónica radiografia dos nossos contemporâneos mais jovens, por Fernando Pinto do Amaral :):
img: google's search
Zeitgeist
Os meus contemporâneos falam muito e dizem: «Então é assim», com o ar desenvolto de quem se alimenta do som da própria voz, quando começam a explicar longamente as actuais tendências das artes ou das letras ou das sociedades a pouco e pouco iguais umas às outras neste primeiro mundo em que nascemos, agora que o segundo deixou de existir e que o terceiro, mais guerra, menos fome, continua abstracto, em folclore distante.
Parece que está morta a metafísica e que a verdade adormeceu, sonâmbula, nos corredores vazios, onde às escuras se vão cruzando alguns milhões de frases dos meus contemporâneos. Todavia, falam de tudo com o entusiasmo de quem lança «propostas» decisivas e percorre as «vertentes» de novos caminhos para a humanidade, enquanto saboreiam a cerveja sem álcool, o café sem cafeína e sobretudo o amor sem amor, pra conservarem o equilíbrio físico e mental.
Os meus contemporâneos dizem quase sempre que não são moralistas, e é por isso que forçam toda a gente, mesmo quem não quer, a ser livre, saudável e feliz: proibem o tabaco e o açúcar e se por vezes sofrem, tomam comprimidos porque a alegria é uma questão de química e convém tê-la a horas certas, como o prazer vigiado por preservativos e outros sempre obrigatórios cintos de segurança, pra que um dia possam sentir que morrem cheios de saúde. Quando contemplo os meus contemporâneos entre as conversas trendy e os lugares da moda, «tropeço de ternura», queria ser pelo menos tão ingénuo como eles, partilhar cada frémito dos lábios, a labareda vã das gargalhadas pela madrugada fora. No entanto,
assedia-me a acédia de ficar assim, mais preguiçoso do que um Oblomov à escala portuguesa — ó doce anestesia a invadir-me o corpo, a libertar-me desse feitiço a que se chama o «espírito do tempo» em que vivemos, sob escombros de um céu desmoronado em mil pequenos cacos ainda luminosos, virtuais estrelas que se apagam e acendem à flor de todos os écrans que os meus contemporâneos ligam e desligam cada dia que passa, nunca se esquecendo de carregar nas teclas necessárias para a operação «save» e assim alcançarem a eternidade.
:))
in, livro duplo, frente e verso, poesia e prosa, Poemas escolhidos (1990-2007); Contos; Publicações Dom Quixote, Lisboa 2009
(Edição promocional da revista Visão à venda nas tabacarias por € .50, independente da compra da revista.)
abril 09, 2009
Soleil, soleil!... Faute éclatante! Toi qui masques la mort, Soleil... Par d'impénetrables délices, Toi le plus fier de mes complices, Et de mes pièges le plus haut, Tu gardes les coeurs de connaître que l'univers n'est qu'un défaut Dans la pureté du Non-être.
(Paul Valéry, cit. in U. Eco, Kant e o ornitorrinco, p. 27-28)
E por falar em portas por onde há gosto em entrar distintas de outras por onde só se quer sair,
um poema lindo de fiama:
A porta branca
Por detrás desta porta, uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham, estou eu ou o universo que eu penso. Deste meu lado, dois olhos que vigiam os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.
Mas podem os olhos fazer a sua enumeração, e pode o pensado universo infindamente ir-se, que para mim o que hoje importa é aquela olhada vaga porta.
Que ela seja só como a vejo, a porta branca, com duas almofadas em recorte, lançada devagar sobre o vão do jardim, onde o gato, por uma fenda aberta pela sua pata, tenta ver-me, tão alheio a versos e a universos.
Fiama Hassa Pais Brandão Cena Vivas, Relógio d´Água
Amor é o olhar total, que nunca pode ser cantado nos poemas ou na música, porque é tão-só próprio e bastante, em si mesmo absoluto táctil, que me cega, como a chuva cai na minha cara, de faces nuas, oferecidas sempre apenas à água.
fiama hasse pais brandão
março 31, 2009
O bico do compasso, que marca o centro que não se vê, não canta como o bico da ave que é o centro do canto que ocupa. No entanto, roda o compasso como se o movessem asas; e desenha, no papel, o circulo que, no ar, a ave sugere.
Elegante também, este outro poema de Nuno Júdice :)
março 28, 2009
Mas o post da Meg é belo demais, e eu quero-o aqui replicado.
Projecto
.Desta vez vou escrever-te um poema que vai ser um poema de amor, mas que não é apenas um poema de amor. O amor, com efeito, é algo que não cabe num poema; pelo contrário, o poema é que pode caber no amor, sobretudo quando te abraço, e sinto os teus cabelos na boca, agora que a tua voz me corre pelos ouvidos como, num dia de verão, a água fresca corre pela garganta. A isto, em retórica, chama-se uma comparação; e pergunto o que é que o amor tem a ver com a retórica, ou por que é que o teu corpo se teme de transformar numa metáfora - rosa, lírio, taça, qualquer objecto que tenha, na sua essência, um elemento que me possa levar até ele, como se fosse preciso, para te tocar, substituir-te por uma outra imagem, ver em ti o que não és, nem tens de ser, ou ainda transformar-te num lugar comum, que é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor. Assim, este poema de amor é, mais do que um poema de amor, um exercício para escrever um poema de amor - mas um poema de amor a sério, sem comparações nem metáforas, só contigo, com o teu corpo, com a tua voz, com os teus cabelos, com aquilo que é real, e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto de um poema de amor em que o amor, finalmente, deixa de ser o objecto único do poema, que se preocupa acima de tudo com a retórica, as imagens, o equilíbrio das formas. Mas, pergunto, não é o teu corpo uma flor? Não é a tua boca uma rosa? Não são lírios os teus seios? Tudo, então, se transforma: e o que tenho nas mãos é uma imagem, a pura metáfora da vida, a abstracta metamorfose das emoções. O resto, meu amor, és tu - e é por isso que o poema de amor que te escrevo não é, finalmente, um poema de amor . Nuno Júdice .
Em dívida à Meg, pelo seu belíssimo post e poema de Júdice, retribuo com o prometido
O sexo dos anjos
Foi em bizâncio, antes da queda. Discutiam o sexo dos anjos, e a discussão ficou interrompida quando os turcos cortaram o fio à meada, se é que não cortaram mesmo o sexo aos anjos. Bizâncio, então, podia ter caído uns dias mais tarde: talvez, durante esses dias, se pudesse chegar a uma conclusão sobre qual era, afinal, o sexo dos anjos; e o assunto interessa-me porque os únicos anjos que conheço são em estátua, e não é possível espreitar o sexo de uma estátua! A queda de um império, é verdade, dá-nos estas coisas imprevisíveis: dá-nos um voo de argumentos teológicos sobre o sexo; e traz-me, de súbito, o teu rosto inquietante na sua fixidez de enigma grego – esse rosto de perfil, e também gosto dos perfis, mesmo quando não são de anjos ou não têm a linha pura dos ícones gregos. Basta-me, então, saber que é o teu rosto; ouvir ainda as tuas últimas palavras de despedida, que me soaram demasiado secas (mas que outro tom se pode usar numa despedida para não ser patético, como esses que ainda discutiam o sexo dos anjos num conflito cercado pelos turcos?) – e dizer-te, agora que o sexo dos anjos me trouxe o teu sexo, que não há voltas a dar ao amor quando o céu muda a cada instante, e é preciso, apesar de tudo, que alguma coisa permaneça intacta em tempos de mudança. Que outros impérios terão de cair para isso? Em que novo concílio ouvirei discutir o sexo dos anjos, sabendo desde já que o único sexo que me interessa é o teu? Ouve, então, de novo: em bizâncio, uma tarde, foram todos degolados à beira da conclusão.
Nuno Júdice
março 27, 2009
E o romance termina assim :):
«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin ! N’allait-elle pas quand même à l’avenir insoucieuse du sang répandu? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort, elle roulait, chargée de cette chair à canon, de ces soldats, déjà hébétés de fatigue, et ivres, qui chantaient.»
o.p., p. 461-2 (folio classique)
março 26, 2009
«Séverine, dans ce lit, où ils s’étaient aimés pendant les heures brûlantes et noires de la nuit précédente, ne bougeait toujours pas. [ ]
Elle le suivait d’un va-et-vient du regard, anxieuse elle aussi, agitée de la crainte que, cette nuit-là encore, il n’osât point.
En finir, recommencer, elle ne voulait que cela, au fond de son inconscience de femme d’amour, complaisante à l’homme, toute à celui qui la tenait, sans cœur pour l’autre qu’elle n’avait jamais désiré.»
o.p., p. 413 (folio classique)
março 25, 2009
Claude Monet
«Era o fim, o estremeção da agonia: pilhas de neve tornavam a cair, cobriam as rodas [ ] E a Lison [locomotiva] parou definitivamente, moribunda, no grande frio.
A sua respiração extinguiu-se, ela estava imóvel, morta. [ ]
Depois nada mais se mexeu, a neve tecia o seu sudário.»
op.cit., pp. 165-6
março 24, 2009
«Mas, a dois passos, a um passo, foi uma derrocada. Tudo se desmoronou nele, de súbito. Não, não, ele não mataria, não podia matar assim aquele homem indefeso.
O raciocínio nunca levaria ao crime, era preciso o instinto de morder, o salto que lança sobre a presa, a fome ou a paixão que dilacera.»
op.cit., p.224
março 23, 2009
«— Não me digas que queres que eu o mate? [ ] Ela disse não, três vezes; mas os seus olhos diziam sim, os seus olhos de mulher enamorada, toda entregue à crueldade inexorável da sua paixão.»
————
«Matar esse homem, meu Deus! tinha porventura esse direito? Quando uma mosca o importunava, ele esmagava-a com uma palmada. [ ] Mas aquele homem, um seu semelhante!
Teve de recomeçar todo o seu raciocínio para provar a si próprio o direito de assassinar, o direito dos fortes a quem os fracos incomodam, e que os destroem.»
————
«Era ele, agora, que a mulher do outro amava, e ela própria queria ser livre para desposá-lo, para lhe entregar a sua fortuna.
Tudo o que ele fazia era simplesmente afastar o obstáculo. [ ] visto que essa era a lei da vida, devia obedecer-lhe, deixando de lado os escrúpulos que tinham sido inventados mais tarde para permitir a vida em sociedade.»
op.cit., pp. 217;219.
março 22, 2009
«Era uma dessas máquinas expresso, com dois eixos acoplados, de uma elegância fina e gigante, com as suas grandes rodas ligeiras reunidas por braços de aço, o seu peitoril largo, os seus rins alongados e pujantes, toda essa lógica e toda essa certeza que constituem a beleza soberana dos seres de metal, a pressão na força.»
op.cit., p.126
março 21, 2009
O romance começa assim... :):
Monet, Claude: La Gare Saint-Lazare (1877). Musée du Jeu de Paume, Paris
«Ao entrar no quarto, Roubaud pousou sobre a mesa o pão de libra, a empada e a garrafa de vinho branco. Mas, de manhã, antes de descer para o seu posto, a tia Vitória devia ter coberto o fogo do seu calorífero com tamanha dose de pó de carvão, que o calor era sufocante.
E o subchefe de estação, tendo aberto uma janela, debruçou-se com os cotovelos no peitoril.»
trad. Daniel Augusto Gonçalves) (Livraria Civilização Editora)
«En entrant dans la chambre, Roubaud posa sur la table le pain d'une livre, le pâté et la bouteille de vin blanc. Mais, le matin, avant de descendre à son poste, la mère Victoire avait dû couvrir fe feu de son poêle d'un tel poussier, que le chaleur était suffocante.
Et le souschef de gare, ayant ouvert une fenêtre, s'y accouda.»
março 20, 2009
.Monet, Claude: The Gare St.-Lazare, Paris: Arrival of a Train, detail (1877). Fogg Art Museum, Harvard University Art Museums
Estou a acabar de ler o meu primeiro romance de Émile Zola, A Besta Humana («La Bête Humaine»). Uma escrita rigorosa, de grande qualidade narrativa, quase um filme de acção e correspondentes emoções.
O romance desenrola-se ao longo da linha ferroviária Havre - Rouen - Paris, durante o Segundo Império de Napoleão III.
Uma história fatal, de paixão e morte, todas as personagens subjugadas na necessidade férrea de um destino com hora marcada!
março 16, 2009
(editora Antígona)
Um clássico, anti-manipulação comunicacional!
Imperdível .
Pois, como ensina David Hume, «As nossas impressões são causa das nossas ideias, e não as nossas ideias causa das nossas impressões.» .
março 15, 2009
«Por onde a razão, como uma brisa, nos levar, por aí devemos ir.»
(Platão)
março 13, 2009
Haydn-"Farewell"Symphony No.45-Mov.4/4
março 12, 2009
Eu procuro sempre evitar qualquer vibração mística com os modelos narrativos da física quântica...
Gosto de tudo derivar do princípio dito (lamentavelmente) da incerteza que mais correcto é qualificar de princípio de indeterminação.
Não há causalidade estrita no universo.
O que sucede é um condicionamento progressivo das possibilidades em aberto: - porque algo se vai compondo e individuando,
múltiplos outros desenvolvimentos, possíveis em abstracto, vão sendo impossíveis de ocorrer.
Assim, se formam regularidades de eventos, inteligíveis por seres co-possíveis com tais eventos que observam a sua ordem. Nada de mágico. Tudo natural e imanente.
14 mil milhões de Anos-Luz ao redor do Sol, o Universo visível (número de estrelas = 2 mil triliões de estrelas - 2x10^21) Imagem no blog universo e vida
«[ ] we say that the principles we seek [those that are simple and easy to know] are such that we may demonstrate that from them the stars, the earth,, etc., could have arisen.
[ ] it is allowable for us to assume a hypothesis from which we can deduce, as from a cause, the phenomena of nature, even though we well know they did not arise in that way. [ ]
For,because [ ] matter assumes successively all the forms of which it is capable, if we consider those forms in due order,
we shall finally be able to arrive at the form that is the form of this world.
So one need fear no error from a false hypothesis.»
Spinoza, Principles of cartesian philosophy, Part III Hackett Publishing Cy, Inc., Indianapolisa/Cambridge, 1998, p.88
«“— Diga-me – pedi –, para onde é que eu hei-de olhar para conseguir responder às suas perguntas.”
Talvez pareça descabida a questão da orientação do olhar nesta conversa funcional. Mas já os Gregos sabiam que dirigir correctamente o olhar era meio caminho andado para encontrar as respostas.»
(Luísa Costa Gomes, Isto e mais Isto e mais Isto, p.99)
março 05, 2009
«Deixem-nos sós, sem livros, e ficaremos perdidos, abandonados, não saberemos a que nos agarrar, o que seguir; que amar, que odiar, que respeitar, que desprezar?
Mesmo sermos homens nos pesa - homens com um corpo real, nosso, com sangue; temos vergonha disso, tomamo-lo por uma nódoa e procuramos ser uma espécie de homens globais fantasmáticos.
Somos todos nado-mortos, desde há muito tempo, e os pais que nos engendram, são também mortos,
e tudo isso nos agrada cada vez mais. Tomamos-lhe o gosto. Em breve inventaremos o meio de nascermos de uma ideia.
Mas basta; não me apetece mais escrever «do fundo do subterrâneo»...»
Dostoiévski
março 02, 2009
Auguste Rodin
«O olhar e o entendimento podem errar, o amor não. Ninguém, nesse caso, se engana de figura, mas não importa quem se pode enganar de amante.»
Maria Gabriela Llansol, Contos do mal errante
fevereiro 27, 2009
Em ano de aniversário de Fellini 8 1/2, 1963 La notte, de michelangelo antonioni, 1961
fevereiro 25, 2009
«É que às vezes ela pensava pensamentos tão adelgaçados que eles subitamente se quebravam no meio antes de chegar ao fim.
E porque eram tão finos, mesmo sem completá-los ela os conhecia de uma só vez.
Embora jamais pudesse pensá-los de novo, indicá-los com uma palavra sequer.»
Clarice Lispector, O Lustre, ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1995 , p. 46
fevereiro 23, 2009
Bach, Well-Tempered Klavier II - No. 14 F#-
fevereiro 20, 2009
Glenn Gould plays J.S.Bach Piano Concerto No.7 in G minor BW
«Não há objecto que possa existir sozinho. Para o definir precisamos de designar o que lhe pertence e, nessa designação, definir o conjunto de tudo o que ele não é. Caracterizar «A» é, ao mesmo tempo, caracterizar «não-A».»
Albert Jacquard, com a participação de Huguette Planès, Pequeno manual de filosofia para uso dos não-filósofos, Terramar, Lisboa, 1997, P.73
fevereiro 11, 2009
«Eu ando a revisitar os lugares do meu passado. Recrio o meu passado inventando-lhe a significação que actualmente lhe confiro.
Há duas ideais de avenidas: a minha e a dos outros. ( ) Lá bebe-se café, come-se bolos, lê-se o jornal e engatam-se miúdas.
( ) Entro, lá estão eles ao canto reforçando a evidência das palavras transparentes que proferem. Lá está ela no centro deles: a verdade eterna, o único sentido científico que a humanidade possui. ( )
Olho-os com indiferença. ( ) Obviamente que algo nos separa: a compreensão e a extensão da ilusão, para falar em termos aristotélicos. ( )
Ao fim e ao cabo, vivemos no mesmo mundo e possuímos mundos diferentes.
Peço um café, mais para cumprir o ritual do que por necessidade. Aproveito e peço um bolo qualquer. O empregado traz-me um «bom bocado», segundo me informou.
A diferença entre um «bom bocado» e um «pastel de nata» é mínima e quase imperceptível à primeira vista. Enquanto este tem o bordo circular superior liso, aquele tem, a partir de um bordo circular imaginário, o bordo constituído por uma dezena de arcos de circunferência.
Eu explico de forma simples
«bom bocado» «pastel de nata»
Constato que o pasteleiro criador tem, além da rotina da forma do bolo, uma certa imaginação quanto aos bordos, de tal maneira que, a partir de uma diferença mínima, construiu um novo modelo de bolo.
Além de que o nome é engraçado, infantil e sugestivo.
Perguntei ao empregado se vendia mais «bons bocados» que «pastéis de nata». Um pouco admirado, respondeu-me que, de facto, se vendia mais dos segundos.
Exactamente como eu pensava: a partir de uma subtil introdução nova numa forma velha, acompanhada de um nome atraente, as pessoas diversificam-se:
os conservadores ( ) agarram-se aos «pastéis de nata», enquanto os progressistas ( ) são atraídos pelos «bons bocados». ( )
Levanto-me e pago o café e o «bom bocado». Volto as costas ao Ideal das Avenidas.
De facto, este café não me agrada, não me dá prazer. É um prazer sair. ( )
Eu vou explicar tudo de uma forma muito simples.
A filosofia foi a porta de entrada dos meus delírios. ( ) Dela germinavam as minhas ânsias teóricas, as quais eu logo colava a uma ideologia. ( )
Hoje sou amante da filosofia e adverso das ideologias. ( )
Desracionalizando a filosofia como saber principal das ideologias, restou-me o que é originariamente filosófico: um espaço de busca, de procura, de movimento, de desassossego intelectual, um espanto do inesperado, uma insaciável sede de ler e de saber
para além das sabedorias (filosofias mais ideologias) institucionalizadas:
Luís Martins, O outro e o mesmo, Contexto, Lisboa, 1981, pp. 157-65.
fevereiro 09, 2009
"Belos Tempos" By Fernando Farinha
fevereiro 08, 2009
«Pensava ter ancorado em porto seguro e, de súbito, eis-me de novo perdido em pleno alto mar.»
Leibniz
fevereiro 01, 2009
«O acaso é o efeito do cruzamento de duas ou mais séries causais independentes.»
Cournot
janeiro 29, 2009
Diálogo de Hera e Zeus Crónida (Ilíada, I.536-69):
«[ ] Porém, a Hera não passou despercebido que com ele se aconselhara Tétis dos pés prateados, filha do Velho do Mar. Logo falou a Zeus Crónida com palavras mordazes:
”Quem dos deuses, Pensador de Enganos, contigo se aconselhou? Sempre te é caro manteres-te afastado de mim, judiciando coisas pensadas em segredo! E nunca tu ousaste declarar-me a palavra que tens em teu pensamento.”
A ela deu resposta o pai dos homens e dos deuses: “Hera, não penses vir a conhecer todas as minhas palavras: difíceis elas te seriam, minha esposa embora sejas. Porém aquilo que te compete ouvir, ninguém o ouvirá primeiro, pertença ele à raça dos homens ou dos deuses. Mas sobre aquilo que eu decido pensar afastado dos deuses, não faças perguntas nem de modo algum procures saber.”
:)
janeiro 28, 2009
Paolo Conte - Come Away with Me (Vieni via con me)
Vois sur ton chemin Gamins oubliés égarés Donne leur la main Pour les mener Vers d'autres lendemains
Sens au coeur de la nuit L'onde d'espoir Ardeur de la vie Sentier de gloire
Bonheurs enfantins Trop vite oubliés effacés Une lumière dorée brille sans fin Tout au bout du chemin
Sens au coeur de la nuit L'onde d'espoir Ardeur de la vie Sentier de gloire
e le e i le e e le i i e le e le e i le e i le e i e
e le e i le e e le i i e le e le e i le e i le e i e
Vois sur ton chemin Gamins oubliés égarés Donne leur la main Pour les mener Vers d'autres lendemains
Sens au coeur de la nuit L'onde d'espoir Ardeur de la vie Sentier de gloire
janeiro 22, 2009
«Não evoluo, viajo.»
janeiro 21, 2009
«Em vinte anos de poder passei doze sem domicílio fixo. Vivia alternadamente nos palácios dos mercadores da Ásia, nas tranquilas casas gregas, nas belas villas com banhos e caloríferos dos residentes romanos na Gália, em cabanas ou em propriedades rústicas.
A tenda ligeira, a arquitectura de tela e de cordas, era ainda a minha preferida.
Os navios não eram menos variados que as moradas terrestres: tive o meu, provido de um ginásio e de uma biblioteca,
mas desconfiava demasiado de toda a fixidez para me prender a qualquer habitação, mesmo móvel.»
(Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974, tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p. 106)