abril 13, 2009


Três excertos de um livro hermético,
quase ilógico:

L. Miranda, Relato de um homem quântico,
Angelus Novus, Coimbra, 2003, pp. 98; 101-3.

Ei-los,

«O problema que se punha naquele local
era compreender os mecanismos que permitiam
- caso fosse possível realizar a referida viagem -
viajar fora dos efeitos da entropia,
pois a duração da viagem ultrapassava
em muito a vida do viajante.

A única alternativa parecia ser
o viajante morrer primeiro e embarcar depois.» :)

------------- // ------------

«Se um homem para assistir ao movimento da sua estrela
precisa de viver mais de mil anos,

quantos anos precisaria para consciencializar
que a desintegração do plano da matéria é vazio e sem fim

e que o espírito é a coroa do mundo abstracto?»

------------- // ------------

«O herói grego,
que mais lembra persa antigo,
recusou o sonho do homem material:
ligar-se à máquina.

Assim, recusou a crença que afirma a duplicação da condição
humana, pondo fim a certos atavismos que torturam a alma
e libertam a comunicação planetária
............ através da introdução de eléctrodos no cérebro.

O seu grau de lucidez atira-o para os confins do Ser.
QUANDO entrecorta algo dotado de inteligência,
reflecte uma imensa agonia na sua máscara de fumo.»

abril 12, 2009


«Diálogo entre duas amigas e seu Alguém:
— O espírito quando desce sobre mim deixa-me sem jeito.
(Pausa) Não sei como prendê-lo nos brincos ou no botão
Do seio.
— Não tens outro sensível onde o prender?
— Como queres que saiba? Os nichos que procura nunca
São os mesmos. Não se derrama duas vezes na mesma
Prega.
— Tão corpo é ele?
— Sinto-o como uma floração errante, Nunca murcha
Mas ignoro como pega.
— Não será no fundo uma evidência de recato?
— Não se repete. Inquieta-me. Acalma-me.
— É apenas um aceno que não te reconhece integralmente.
— Sim. Como este nosso diálogo. Não me diz que animal
Vivo eu sou, nem porque me chama.
— Diz, sim. Prende-te os cabelos com um laço.»

:)

Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.219

abril 10, 2009

Deliciosa e irónica radiografia
dos nossos contemporâneos mais jovens,
por Fernando Pinto do Amaral
:):



img: google's search

Zeitgeist

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: «Então é assim»,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.


Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios, onde às escuras
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.


Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proibem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,

assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o «espírito
do tempo» em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação «save»
e assim alcançarem a eternidade.

:))

in, livro duplo, frente e verso, poesia e prosa,
Poemas escolhidos (1990-2007); Contos;
Publicações Dom Quixote, Lisboa 2009

(Edição promocional da revista Visão
à venda nas tabacarias por € .50,
independente da compra
da revista.)

abril 09, 2009




Soleil, soleil!... Faute éclatante!
Toi qui masques la mort, Soleil...
Par d'impénetrables délices,
Toi le plus fier de mes complices,
Et de mes pièges le plus haut,
Tu gardes les coeurs de connaître
que l'univers n'est qu'un défaut
Dans la pureté du Non-être.

(Paul Valéry, cit. in U. Eco,
Kant e o ornitorrinco, p. 27-28)

abril 05, 2009

fiama hasse pais brandão


E por falar em portas
por onde há gosto em entrar
distintas de outras
por onde só se quer sair,

um poema lindo de fiama:


A porta branca

Por detrás desta porta,
uma de todas as portas que para mim se abrem e se fecham,
estou eu ou o universo que eu penso.
Deste meu lado, dois olhos que vigiam
os fenómenos naturais, incluindo a celeste mecânica
e as sociedades humanas, sedentárias e transumantes.

Mas podem os olhos fazer a sua enumeração,
e pode o pensado universo infindamente ir-se,
que para mim o que hoje importa
é aquela olhada vaga porta.

Que ela seja só como a vejo, a porta branca,
com duas almofadas em recorte,
lançada devagar sobre o vão do jardim,
onde o gato, por uma fenda aberta
pela sua pata, tenta ver-me,
tão alheio a versos e a universos.



Fiama Hassa Pais Brandão
Cena Vivas, Relógio d´Água

abril 04, 2009

fiama hasse pais brandão


«que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.»


.

fiama hasse pais brandão


«porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil»


.

fiama hasse pais brandão


«Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música»


.

abril 03, 2009

fiama hasse pais brandão


'namoro', almada negreiros

Amor é o olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.

fiama hasse pais brandão

março 31, 2009



O bico do compasso, que
marca o centro que não se vê,
não canta como o bico
da ave que é o centro do
canto que ocupa. No
entanto, roda o compasso
como se o movessem
asas; e desenha, no papel,
o circulo que, no ar,
a ave sugere.

Elegante também,
este outro poema
de Nuno Júdice :)

março 28, 2009

Mas o post da Meg
é belo demais, e eu
quero-o aqui
replicado.





Projecto

.Desta vez vou escrever-te um poema
que vai ser um poema de amor,
mas que não é apenas um poema de amor.
O amor, com efeito, é algo que não cabe num poema;
pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor,
sobretudo quando te abraço,
e sinto os teus cabelos na boca,
agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão,
a água fresca corre pela garganta.
A isto, em retórica, chama-se uma comparação;
e pergunto o que é que o amor tem a ver com a retórica,
ou por que é que o teu corpo
se teme de transformar numa metáfora
- rosa, lírio, taça, qualquer objecto que tenha,
na sua essência, um elemento que me possa levar até ele,
como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem,
ver em ti o que não és,
nem tens de ser, ou ainda transformar-te
num lugar comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor.
Assim, este poema de amor é,
mais do que um poema de amor,
um exercício para escrever um poema de amor
- mas um poema de amor a sério,
sem comparações nem metáforas,
só contigo, com o teu corpo, com a tua voz,
com os teus cabelos, com aquilo que é real,
e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto
de um poema de amor em que o amor,
finalmente, deixa de ser o objecto único do poema,
que se preocupa acima de tudo com a retórica,
as imagens, o equilíbrio das formas.
Mas, pergunto, não é o teu corpo uma flor?
Não é a tua boca uma rosa?
Não são lírios os teus seios?
Tudo, então, se transforma:
e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida,
a abstracta metamorfose das emoções.
O resto, meu amor, és tu -
e é por isso que o poema de amor que te escrevo não é,
finalmente, um poema de amor
.
Nuno Júdice
.


Em dívida à Meg, pelo seu belíssimo post
e poema de Júdice, retribuo
com o prometido


O sexo dos anjos

Foi em bizâncio, antes da queda. Discutiam
o sexo dos anjos, e a discussão ficou interrompida
quando os turcos cortaram o fio à meada, se é que
não cortaram mesmo o sexo aos anjos. Bizâncio,
então, podia ter caído uns dias mais tarde: talvez,
durante esses dias, se pudesse chegar a uma conclusão
sobre qual era, afinal, o sexo dos anjos; e o assunto
interessa-me porque os únicos anjos que conheço
são em estátua, e não é possível espreitar o sexo
de uma estátua! A queda de um império, é verdade, dá-nos
estas coisas imprevisíveis: dá-nos um voo de argumentos
teológicos sobre o sexo; e traz-me, de súbito, o teu
rosto inquietante na sua fixidez de enigma grego – esse
rosto de perfil, e também gosto dos perfis, mesmo
quando não são de anjos ou não têm a linha pura dos
ícones gregos. Basta-me, então, saber que é o teu rosto;
ouvir ainda as tuas últimas palavras de despedida, que
me soaram demasiado secas (mas que outro tom se pode
usar numa despedida para não ser patético, como esses
que ainda discutiam o sexo dos anjos num conflito cercado
pelos turcos?) – e dizer-te, agora que o sexo dos anjos me
trouxe o teu sexo, que não há voltas a dar ao amor
quando o céu muda a cada instante, e é preciso, apesar
de tudo, que alguma coisa permaneça intacta em tempos
de mudança. Que outros impérios terão de cair para isso? Em
que novo concílio ouvirei discutir o sexo dos anjos,
sabendo desde já que o único sexo que me interessa é
o teu? Ouve, então, de novo: em bizâncio, uma
tarde, foram todos degolados à beira da conclusão.


Nuno Júdice

março 27, 2009

E o romance termina assim :):



«Qu’importaient les victimes que la machine écrasait en chemin !
N’allait-elle pas quand même à l’avenir insoucieuse du sang
répandu? Sans conducteur, au milieu des ténèbres, en bête
aveugle et sourde qu’on aurait lâchée parmi la mort,
elle roulait, chargée de cette chair à canon,
de ces soldats, déjà hébétés de fatigue,
et ivres, qui chantaient.»

o.p., p. 461-2 (folio classique)

março 26, 2009


«Séverine, dans ce lit, où ils s’étaient aimés
pendant les heures brûlantes et noires
de la nuit précédente, ne bougeait
toujours pas. [ ]

Elle le suivait d’un va-et-vient du regard,
anxieuse elle aussi, agitée de la crainte
que, cette nuit-là encore, il n’osât point.

En finir, recommencer, elle ne voulait
que cela, au fond de son inconscience
de femme d’amour, complaisante à
l’homme, toute à celui qui la tenait,
sans cœur pour l’autre qu’elle
n’avait jamais désiré.»

o.p., p. 413 (folio classique)

março 25, 2009


Claude Monet

«Era o fim, o estremeção da agonia: pilhas de neve
tornavam a cair, cobriam as rodas [ ] E a Lison [locomotiva]
parou definitivamente, moribunda, no grande frio.

A sua respiração extinguiu-se,
ela estava imóvel, morta. [ ]

Depois nada mais se mexeu, a neve tecia o seu sudário.»

op.cit., pp. 165-6

março 24, 2009


«Mas, a dois passos, a um passo, foi uma derrocada. Tudo
se desmoronou nele, de súbito. Não, não, ele não mataria,
não podia matar assim aquele homem indefeso.

O raciocínio nunca levaria ao crime,
era preciso o instinto de morder,
o salto que lança sobre a presa,
a fome ou a paixão que dilacera.»

op.cit., p.224

março 23, 2009



«— Não me digas que queres que eu o mate? [ ]
Ela disse não, três vezes; mas os seus olhos diziam sim,
os seus olhos de mulher enamorada, toda entregue
à crueldade inexorável da sua paixão.»

————

«Matar esse homem, meu Deus! tinha porventura esse direito?
Quando uma mosca o importunava, ele esmagava-a com uma palmada. [ ] Mas aquele homem, um seu semelhante!


Teve de recomeçar todo o seu raciocínio para provar
a si próprio o direito de assassinar, o direito dos fortes
a quem os fracos incomodam, e que os destroem.»

————

«Era ele, agora, que a mulher do outro amava,
e ela própria queria ser livre para desposá-lo,
para lhe entregar a sua fortuna.

Tudo o que ele fazia era simplesmente afastar o obstáculo.
[ ] visto que essa era a lei da vida, devia obedecer-lhe,
deixando de lado os escrúpulos que tinham sido
inventados mais tarde para permitir
a vida em sociedade.»

op.cit., pp. 217;219.

março 22, 2009



«Era uma dessas máquinas expresso, com dois eixos acoplados,
de uma elegância fina e gigante, com as suas grandes rodas ligeiras
reunidas por braços de aço, o seu peitoril largo, os seus rins alongados
e pujantes, toda essa lógica e toda essa certeza que constituem a beleza
soberana dos seres de metal, a pressão na força.»

op.cit., p.126

março 21, 2009

O romance começa assim... :):



Monet, Claude: La Gare Saint-Lazare (1877).
Musée du Jeu de Paume, Paris

«Ao entrar no quarto, Roubaud pousou sobre a mesa o pão de libra,
a empada e a garrafa de vinho branco. Mas, de manhã,
antes de descer para o seu posto, a tia Vitória
devia ter coberto o fogo do seu calorífero
com tamanha dose de pó de carvão,
que o calor era sufocante.

E o subchefe de estação,
tendo aberto uma janela,
debruçou-se com os cotovelos no peitoril.»


trad. Daniel Augusto Gonçalves)
(Livraria Civilização Editora)


«En entrant dans la chambre, Roubaud posa sur la table
le pain d'une livre, le pâté et la bouteille de vin blanc.
Mais, le matin, avant de descendre à son poste,
la mère Victoire avait dû couvrir fe feu
de son poêle d'un tel poussier,
que le chaleur était
suffocante.

Et le souschef de gare,
ayant ouvert une fenêtre,
s'y accouda.»

março 20, 2009



. Monet, Claude: The Gare St.-Lazare, Paris:
Arrival of a Train, detail (1877). Fogg Art Museum,
Harvard University Art Museums

Estou a acabar de ler o meu primeiro romance
de Émile Zola, A Besta Humana La Bête Humaine»).
Uma escrita rigorosa, de grande qualidade narrativa,
quase um filme de acção e correspondentes emoções.

O romance desenrola-se ao longo da linha ferroviária
Havre - Rouen - Paris, durante o Segundo Império
de Napoleão III.

Uma história fatal, de paixão e morte,
todas as personagens subjugadas
na necessidade férrea
de um destino
com hora
marcada!

março 16, 2009


(editora Antígona)

Um clássico,
anti-manipulação
comunicacional!

Imperdível .

Pois, como ensina David Hume,

«As nossas impressões são causa das nossas ideias,
e não as nossas ideias causa das nossas impressões.»


.

março 15, 2009


«Por onde a razão, como uma brisa,
nos levar, por aí devemos ir.»

(Platão)

março 13, 2009

Haydn-"Farewell"Symphony No.45-Mov.4/4

março 12, 2009



Eu procuro sempre evitar qualquer vibração mística
com os modelos narrativos da física quântica...

Gosto de tudo derivar do princípio dito (lamentavelmente)
da incerteza que mais correcto é qualificar de
princípio de indeterminação.

Não há causalidade estrita no universo.


O que sucede é um condicionamento progressivo
das possibilidades em aberto: - porque algo
se vai compondo e individuando,

múltiplos outros desenvolvimentos,
possíveis em abstracto, vão sendo
impossíveis de ocorrer.

Assim, se formam regularidades de eventos,
inteligíveis por seres co-possíveis com tais eventos
que observam a sua ordem. Nada de mágico.
Tudo natural e imanente.
Bernardo Sassetti - Petit Pays

Do blog Catharsis

março 11, 2009


14 mil milhões de Anos-Luz ao redor do Sol, o Universo visível
(número de estrelas = 2 mil triliões de estrelas - 2x10^21)

Imagem no blog universo e vida

«[ ] we say that the principles we seek
[those that are simple and easy to know]
are such that we may demonstrate
that from them the stars,
the earth,, etc., could
have arisen.


[ ] it is allowable for us to assume a hypothesis
from which we can deduce
, as from a cause,
the phenomena of nature, even though we
well know they did not arise in that way. [ ]

For,because [ ] matter assumes successively
all the forms of which it is capable
, if
we consider those forms in due order,

we shall finally be able to arrive at the form
that is the form of this world
.

So one need fear no error from a false hypothesis

Spinoza, Principles of cartesian philosophy, Part III
Hackett Publishing Cy, Inc., Indianapolisa/Cambridge, 1998, p.88



março 10, 2009

março 09, 2009

O céu, o olhar ou a estrela polar...

Sky Map


«“— Diga-me – pedi –, para onde é que eu hei-de olhar
para conseguir responder às suas perguntas
.”

Talvez pareça descabida a questão da orientação
do olhar nesta conversa funcional. Mas já os Gregos
sabiam que dirigir correctamente o olhar era meio
caminho andado para encontrar as respostas.»

(Luísa Costa Gomes, Isto e mais Isto e mais Isto, p.99)

março 05, 2009

«Deixem-nos sós, sem livros, e ficaremos perdidos, abandonados,
não saberemos a que nos agarrar, o que seguir;
que amar, que odiar, que respeitar, que desprezar?

Mesmo sermos homens nos pesa
- homens com um corpo real, nosso, com sangue;
temos vergonha disso, tomamo-lo por uma nódoa
e procuramos ser uma espécie de
homens globais fantasmáticos.

Somos todos nado-mortos,
desde há muito tempo,
e os pais que nos engendram,
são também mortos,

e tudo isso nos agrada cada vez mais. Tomamos-lhe o gosto.
Em breve inventaremos o meio de nascermos de uma ideia.

Mas basta;
não me apetece mais escrever «do fundo do subterrâneo»...»


Dostoiévski

março 02, 2009


Auguste Rodin

«O olhar e o entendimento podem errar, o amor
não. Ninguém, nesse caso, se engana de figura,
mas não importa quem se pode enganar

de amante.»

Maria Gabriela Llansol, Contos do mal errante

fevereiro 27, 2009

Em ano de aniversário
de Fellini 8 1/2, 1963

La notte, de michelangelo antonioni, 1961

fevereiro 25, 2009



«É que às vezes ela pensava pensamentos tão adelgaçados
que eles subitamente se quebravam no meio antes de chegar ao fim.

E porque eram tão finos,
mesmo sem completá-los
ela os conhecia de uma só vez.

Embora jamais pudesse pensá-los de novo,
indicá-los com uma palavra sequer.»

Clarice Lispector, O Lustre,
ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1995 , p. 46

fevereiro 23, 2009

Bach, Well-Tempered Klavier II - No. 14 F#-

fevereiro 20, 2009

Glenn Gould plays J.S.Bach Piano Concerto No.7 in G minor BW

fevereiro 18, 2009


(Francisco Toledo)

«Não há objecto que possa existir sozinho.
Para o definir precisamos de designar o que lhe pertence
e, nessa designação, definir o conjunto de tudo o que ele não é.
Caracterizar «A» é, ao mesmo tempo, caracterizar «não-A».»

Albert Jacquard, com a participação de Huguette Planès,
Pequeno manual de filosofia para uso dos não-filósofos,
Terramar, Lisboa, 1997, P.73

fevereiro 11, 2009

«Eu ando a revisitar os lugares do meu passado.
Recrio o meu passado inventando-lhe a significação
que actualmente lhe confiro.

Há duas ideais de avenidas: a minha e a dos outros. ( )
Lá bebe-se café, come-se bolos, lê-se o jornal
e engatam-se miúdas.

( ) Entro, lá estão eles ao canto reforçando a evidência
das palavras transparentes que proferem. Lá está ela
no centro deles: a verdade eterna, o único sentido
científico que a humanidade possui. ( )

Olho-os com indiferença. ( ) Obviamente que algo
nos separa: a compreensão e a extensão da ilusão,
para falar em termos aristotélicos. ( )

Ao fim e ao cabo, vivemos no mesmo mundo
e possuímos mundos diferentes.

Peço um café, mais para cumprir o ritual
do que por necessidade. Aproveito e
peço um bolo qualquer. O empregado
traz-me um «bom bocado»,
segundo me informou.

A diferença entre um «bom bocado» e
um «pastel de nata» é mínima e quase
imperceptível à primeira vista.
Enquanto este tem o bordo circular superior
liso, aquele tem, a partir de um bordo circular
imaginário, o bordo constituído por uma dezena
de arcos de circunferência.

Eu explico de forma simples

«bom bocado»

«pastel de nata»


Constato que o pasteleiro criador tem, além da rotina
da forma do bolo, uma certa imaginação
quanto aos bordos, de tal maneira
que, a partir de uma diferença
mínima, construiu um novo
modelo de bolo.

Além de que o nome
é engraçado, infantil e sugestivo.


Perguntei ao empregado se vendia mais «bons bocados»
que «pastéis de nata». Um pouco admirado,
respondeu-me que, de facto, se vendia
mais dos segundos.

Exactamente como eu pensava: a partir de uma subtil
introdução nova numa forma velha,
acompanhada de um nome atraente,
as pessoas diversificam-se:

os conservadores ( ) agarram-se aos «pastéis de nata»,
enquanto os progressistas ( ) são atraídos
pelos «bons bocados». ( )


Levanto-me e pago o café e o «bom bocado».
Volto as costas ao Ideal das Avenidas.

De facto, este café não me agrada,
não me dá prazer. É um prazer sair. ( )

Eu vou explicar tudo de uma forma muito simples.

A filosofia foi a porta de entrada dos meus delírios. ( )
Dela germinavam as minhas ânsias teóricas,
as quais eu logo colava a uma ideologia. ( )

Hoje sou amante da filosofia e adverso das ideologias. ( )

Desracionalizando a filosofia como saber principal
das ideologias, restou-me o que é originariamente
filosófico: um espaço de busca, de procura,
de movimento, de desassossego intelectual,
um espanto do inesperado,
uma insaciável sede
de ler e de saber

para além das sabedorias
(filosofias mais ideologias)
institucionalizadas:

a sabedoria do outro e do mesmo



Luís Martins, O outro e o mesmo,
Contexto, Lisboa, 1981, pp. 157-65.

fevereiro 09, 2009

"Belos Tempos" By Fernando Farinha

fevereiro 08, 2009



«Pensava ter ancorado em porto seguro
e, de súbito, eis-me de novo perdido
em pleno alto mar.»

Leibniz

fevereiro 01, 2009



«O acaso é o efeito do cruzamento de
duas ou mais séries causais independentes


Cournot

janeiro 29, 2009


Diálogo de Hera e Zeus Crónida
(Ilíada, I.536-69):

«[ ] Porém, a Hera
não passou despercebido que com ele se aconselhara
Tétis dos pés prateados, filha do Velho do Mar.
Logo falou a Zeus Crónida com palavras mordazes:

”Quem dos deuses, Pensador de Enganos, contigo se aconselhou?
Sempre te é caro manteres-te afastado de mim,
judiciando coisas pensadas em segredo! E nunca tu ousaste
declarar-me a palavra que tens em teu pensamento.”

A ela deu resposta o pai dos homens e dos deuses:
“Hera, não penses vir a conhecer todas as minhas
palavras: difíceis elas te seriam, minha esposa embora sejas.
Porém aquilo que te compete ouvir, ninguém o ouvirá
primeiro, pertença ele à raça dos homens ou dos deuses.
Mas sobre aquilo que eu decido pensar afastado dos deuses,
não faças perguntas nem de modo algum procures saber.”

:)

janeiro 28, 2009

Paolo Conte - Come Away with Me (Vieni via con me)

janeiro 27, 2009

Vois Sur Ton Chemin

Para uma educação musical,
cortesia da rádio azul

Vois sur ton chemin
Gamins oubliés égarés
Donne leur la main
Pour les mener
Vers d'autres lendemains

Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de gloire

Bonheurs enfantins
Trop vite oubliés effacés
Une lumière dorée brille sans fin
Tout au bout du chemin

Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de gloire

e le e
i le e
e le i
i e le
e le e
i le e
i le e
i e

e le e
i le e
e le i
i e le
e le e
i le e
i le e
i e

Vois sur ton chemin
Gamins oubliés égarés
Donne leur la main
Pour les mener
Vers d'autres lendemains

Sens au coeur de la nuit
L'onde d'espoir
Ardeur de la vie
Sentier de gloire

janeiro 22, 2009



«Não evoluo, viajo.»

janeiro 21, 2009



«Em vinte anos de poder passei doze sem domicílio fixo.
Vivia alternadamente nos palácios dos mercadores da Ásia,
nas tranquilas casas gregas, nas belas villas com banhos e caloríferos
dos residentes romanos na Gália, em cabanas ou em propriedades rústicas.

A tenda ligeira,
a arquitectura de tela e de cordas,
era ainda a minha preferida.

Os navios não eram menos variados que as moradas terrestres:
tive o meu, provido de um ginásio e de uma biblioteca,

mas desconfiava demasiado de toda a fixidez
para me prender a qualquer habitação,
mesmo móvel.»


(Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, 1974,
tradução de Maria Lamas, Ulisseia, 1981, p. 106)

os mistérios de eleusis xl

janeiro 20, 2009

Flamenco: Alegrias

janeiro 19, 2009

Lhasa De Sela - La Marée Haute


La marée haute
— paroles: Lhasa De Sela et Riad Malek
/ musique: Lhasa De Sela

LA ROUTE CHANTE
QUAND JE M'EN VAIS
JE FAIS TROIS PAS...
LA ROUTE SE TAIT

LA ROUTE EST NOIRE
À PERTE DE VUE
JE FAIS TROIS PAS...
LA ROUTE N'EST PLUS

SUR LA MARÉE HAUTE
JE SUIS MONTÉE
LA TÊTE EST PLEINE
MAIS LE CÕEUR N'A
PAS ASSEZ


MAINS DE DENTELLE
FIGURE DE BOIS
LE CORPS EN BRIQUE
LES YEUX QUI PIQUENT

MAINS DE DENTELLE
FIGURE DE BOIS
JE FAIS TROIS PAS...
ET TU ES LÀ

SUR LA MARÉE HAUTE
JE SUIS MONTÉE
LA TÊTE EST PLEINE
MAIS LE COEUR N'A
PAS ASSEZ

janeiro 18, 2009

Marco Antonio Bernardo (piano) - Orfeu e Euridice (Gluck)

janeiro 17, 2009

Cecil B. DeMille, Samson and Delilah,
Music by Victor Young




Samson, a Hebrew placed under Nazirite vows from birth by his mother, is engaged to a Philistine woman named Semadar. During a fight at their wedding feast, Semadar is killed and Samson becomes a hunted man. Semadar's sister, Delilah, plots to deliver Samson up for punishment.

To do so, she cuts his hair, which he feels gives him his strength. Falling in love with him, Delilah regrets her act after Samson is blinded by his captors. He is brought to the temple for entertainment, where he topples the structure, destroying his enemies.

janeiro 16, 2009

Nora Ney, Ninguém me ama


Ninguém me ama, ninguém me quer
Ninguém me chama de meu amor
A vida passa, e eu sem ninguém
E quem me abraça não me quer bem


Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso
E hoje descrente de tudo me resta o cansaço
Cansaço da vida, cansaço de mim
Velhice chegando e eu chegando ao fim

janeiro 15, 2009

The Boulevard of Broken Dreams (Gigolo and Gigolette)



http://www.youtube.com/watch?v=_uhpAKuQOQA

janeiro 14, 2009

Connie Boswell, "Gigolo und Gigolette
(The Boulevard of broken dreams)"
,
de homenagem a James Dean,

janeiro 13, 2009

Gigolo und Gigolette, The Boulevard of broken dreams

Peter Kreuder mit seinem Orchester
Telefunken A 1886 mx. 20962
Berlin, 1935

janeiro 12, 2009

Ted Weems - The Boulevard Of Broken Dreams, 1933

janeiro 11, 2009

Jacintha - THE BOULEVARD OF BROKEN DREAMS


http://www.youtube.com/watch?v=Pp0fSmdMH48
E por ter lembrado hoje
o Rio de Janeiro
e a Confeitaria
Colombo,

recordo uma velha canção de Carnaval
dos anos 50 :):

Virgínia Lane canta "Sassaricando" (1952)

janeiro 10, 2009

Tony Bennett & Sting - Boulevard Of Broken Dreams


«Como deveria eu trabalhar? … E não me esquecer,
ao começar o trabalho, de me preparar para errar.

Não esquecer que o erro muitas vezes
se havia tornado o meu caminho.

Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava

ou sentia — é que se fazia enfim uma brecha, e,
se antes eu tivesse tido coragem, já teria
entrado por ela. Meu erro, no entanto,
devia ser o caminho de uma verdade:
pois só quando erro é que saio

do que conheço e
do que entendo.

Se a «verdade» fosse aquilo que posso entender
— terminaria sendo apenas uma verdade pequena,

do meu tamanho.»

Clarice Lispector, A Paixão segundo G. H.,
Relógio d’Água, 2000 (copyright, 1964), p 88.

janeiro 09, 2009

Boulevard of Broken Dreams


Boulevard Of Broken Dreams lyrics

I walk along the street of sorrow
The boulevard of broken dreams
Where gigolo and gigalette
Can take a kiss without regret
So they forget their broken dreams

You laugh tonight and cry tomorrow
When you behold your shattered dreams
And gigolo and gigalette
Awake to find their eyes are wet
With tears that tell of broken dreams

Here is where you'll always find me
Always walking up and down
But I left my soul behind me
In an old cathedral town

The joy that you find here you borrow
You cannot keep it long it seems
But gigolo and gigalette
Still sing a song and dance along
Boulevard of broken dreams
JOSEPHINE BAKER

janeiro 08, 2009

Richard Strauss (Also sprach Zarathustra) - humanity


Tudo o que pertence ao universo,
seja partícula ou galáxia,
seja um animal ou um calhau,
tem, por convenção,
uma existência própria,
todo o objecto é.
Mas seja ele o que for,
a sua definição é arbitrária.

Este calhau ou aquela galáxia,
só através do olhar do observador
adquirem o estatuto de um ser individualizado;
é o observador que, ao traçar a fronteira do que pertence ao objecto,
lhe confere uma singularidade. Para ser objecto do universo,
tem de ser objecto de discurso de um observador
[possível, acrescento eu].

Claro que o homem não é o único observador;
os animais dotados de visão vêem, todas as manhãs,
tal como o homem, a mancha brilhante que sobe no céu;
mas só o homem é capaz de ir além dessa constatação
e de transformar essa mancha em objecto – o Sol.
Essa estrela, como todas as estrelas,
é uma criação do discurso humano.
Sem o homem, o universo não passaria de um continuum sem estrutura. [Discordo aqui; é suficiente que o universo seja compatível com observadores inteligentes]

Qualquer ser humano pode focalizar sobre si mesmo este olhar criador de objectos. Ao focalizar-se, ele já não é só um existente, mas alguém que sabe que existe, alguém que transforma a sua pessoa em objecto do seu discurso. É isso a consciência. Uma experiência que nos permite saber-nos existentes.
..........................................................................
O que houve, ao longo da evolução do cosmos, foi pura e simplesmente uma continuidade na aparição de poderes sempre crescentes das estruturas materiais que se foram formando, poderes esses relacionados com a complexidade dessas mesmas estruturas.

Esse processo foi continuado até ao aparecimento do campeão
da complexidade que é o cérebro humano.

Entre os poderes que recebeu o cérebro,
conta-se o mais decisivo de todos eles, a saber,
a criação da comunicação entre os homens,
a que nós chamámos o «discurso».

Foi então que cada um de nós pôde tomar-se a si próprio
como objecto do seu próprio discurso, ou seja,
desenvolver a sua consciência de existente.

Mas esse discurso só podia existir
numa rede de troca e de partilha.

Essa rede colectiva é, assim, o ponto de partida da consciência individual. O que gosto de resumir com a fórmula ( ): «Eu digo eu porque outros me disseram tu.» O espírito é pura e simplesmente o ponto de chegada da aventura da matéria. Não tem origem senão o conjunto do cosmos.
.........................................................................
( ) a consciência pessoal só viceja se se enraizar numa consciência colectiva; porque a minha consciência é o caminho percorrido na companhia das outras consciências.
..........................................................................
Se eu fosse um núcleo de hélio, maravilhar-me-ia com os poderes de um átomo de carbono, se eu fosse um átomo de carbono, maravilhar-me-ia ... e assim por diante.

Na extremidade da cadeia encontramos o homem. Ora este só se pode maravilhar com o único objecto mais complexo do que ele, com o único objecto que dispõe de mais poderes: a comunidade humana.

Através da consciência, que só me é dada por pertencer a essa comunidade, eu participo no impulso cósmico que tudo impele para a complexidade.

Albert Jacquard, com a participação de Huguette Planès,
Pequeno manual de filosofia para uso dos não-filósofos,
Terramar, Lisboa, 1997; p. 27; 30; 31.
Jerry Lewis - The Errand Boy (1961) Pantomime

janeiro 07, 2009

Carmem Miranda


Vestiu uma camisa listrada,
E saiu por aí,
Em vez de tomar chá com torrada,
Ele tomou Parati,
Levava um canivete no cinto,
E um pandeiro na mão,
E sorria quando o povo dizia,
Sossega, Leão, sossega Leão.

Tirou o seu anel de doutor,
Para não dar o que afalar,
E saiu, dizendo, eu quero mamá,
Mamãe eu que mamá.

Levava um canivete no cinto,
E um pandeiro na mão,
E sorria quando o povo dizia,
Sossega Leão, sossega Leão.

Levou meu saco de água quente,
Pra fazer chupeta,
E rompeu a minha cortina de veludo,
Pra fazer uma saia,
Abriu meu guarda-roupa,
Arrancou a combinação,
Até do cabo de vassoura,
Ele fez um estandarte, para o seu Cordão.

E agora que a batucada,
Já vai terminando,
Eu não deixo e não consinto,
Meu querido debochar de mim,
Porque, se ele pegar as minhas coisas,
Vai dar o que falar,
Se fantasia de Antonieta,
E vai dançar no Bola Preta,
Até o sol raiar...

janeiro 06, 2009

Carlos Ramos - Não venhas tarde


“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu com carinho,
Sem nunca fazer alarde
Do que me pedes, beixinho
“não venhas tarde!”,
E eu peço a deus que no fim
Teu coração ainda guarde
Um pouco de amor por mim.

Tu sabes bem
Que eu vou p’ra outra mulher,
Que ela me prende também,
Que eu só faço o que ela quer,
Tu estás sentindo
Que te minto e sou cobarde,
Mas sabes dizer, sorrindo,
“meu amor, não venhas tarde!”

“não venhas tarde!”,
Dizes-me sem azedume,
Quando o teu coração arde
Na fogueira do ciúme.
“não venhas tarde!”,
Dizes-me tu da janela,
E eu venho sempre mais tarde,
Porque não sei fugir dela

Tu sabes bem

Sem alegria,
Eu confesso, tenho medo,
Que tu me digas um dia,
“meu amor, não venhas cedo!”
Por ironia,
Pois nunca sei onde vais,
Que eu chegue cedo algum dia,
E seja tarde demais!

janeiro 05, 2009



Miradoiro

Com tristeza e vergonha enternecida,
Olho daqui
A ponte de palavras
Que construí
Sobre o abismo da vida.

Sonhei-a;
Desenhei-a;
Sólida até onde pude,
Lancei-a como um salto de gazela:
E não passei por ela!

Vim por baixo, agarrado ao chão do mundo.
Filho de Adão e Eva,
Era de terra e treva
O meu destino.
E cá vou como um pobre peregrino.


Miguel Torga, Antologia Poética,
Gráfica de Coimbra, 4ª ed., 1994





Só Nós Dois É Que Sabemos
Tony de Matos
Composição: J. Pimentel

Só nós dois é que sabemos
Quanto nos queremos bem
Só nós dois é que sabemos
Só nós dois e mais ninguém
Só nós dois avaliamos
Este amor forte e profundo
Quando o amor acontece
Não pede licença ao mundo

Anda, abraça-me... beija-me
Encosta o teu peito ao meu
Esquece que vais na rua
Vem ser minha e eu serei teu
Que falem não nos interessa
O mundo não nos importa
O nosso mundo começa
Cá dentro da nossa porta

Só nós dois é compreendemos
O calor dos nossos beijos
Só nós dois é que sofremos
A tortura dos desejos
Vamos viver o presente
Tal qual a vida nos dá
O que reserva o futuro
Só deus sabe o que será

Anda, abraça-me... beija-me

janeiro 04, 2009

Alfredo Marceneiro - O Marceneiro

janeiro 03, 2009

Mi Buenos Aires Querido - Tango, Carlos Gardel



Mi Buenos Aires querido,
Cuando yo te vuelva a ver,
No habr ms penas ni olvido.
El farolito de la calle en que nac
Fue el centinela de mis promesas de amor,
Bajo su inquieta lucecita yo la vi
A mi pebeta luminosa como un sol.
Hoy que la suerte quiere que te vuelva a ver,
Ciudad portea de mi nico querer,
Oigo la queja de un bandonen,
Dentro del pecho pide rienda el corazn.
Mi Buenos Aires, tierra florida
Donde mi vida terminar.
Bajo tu amparo no hay desengao
Vuelan los aos, se olvida el dolor.
En caravana los recuerdos pasan
Como una estela dulce de emocin,
Quiero que sepas que al evocarte
Se van las penas del corazn.
Las ventanitas de mis calles de Arrabal,
Donde sonre una muchachita en flor;
Quiero de nuevo yo volver a contemplar
Aquellos ojos que acarician al mirar.
En la cortada ms maleva una cancin,
Dice su ruego de coraje y de pasin;
Una promesa y un suspirar
Borr una lgrima de pena aquel cantar.
Mi Buenos Aires querido....
Cuando yo te vuelva a ver...
No habr ms penas ni olvido

janeiro 02, 2009

Mouloudji, La Complainte de la butte


La complainte de la butte

En haut de la rue St-Vincent
Un poète et une inconnue
S'aimèrent l'espace d'un instant
Mais il ne l'a jamais revue
Cette chanson il composa
Espérant que son inconnue
Un matin d'printemps l'entendra
Quelque part au coin d'une rue
La lune trop blême
Pose un diadème
Sur tes cheveux roux
La lune trop rousse
De gloire éclabousse
Ton jupon plein d'trous

La lune trop pâle
Caresse l'opale
De tes yeux blasés
Princesse de la rue
Soit la bienvenue
Dans mon cœur blessé

Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux

Petite mandigote
Je sens ta menotte
Qui cherche ma main
Je sens ta poitrine
Et ta taille fine
J'oublie mon chagrin

Je sens sur tes lèvres
Une odeur de fièvre
De gosse mal nourri
Et sous ta caresse
Je sens une ivresse
Qui m'anéantit
Les escaliers de la butte sont durs aux miséreux
Les ailes des moulins protègent les amoureux
Mais voilà qu'il flotte
La lune se trotte
La princesse aussi
Sous le ciel sans lune
Je pleure à la brune
Mon rêve évanoui

janeiro 01, 2009

Beethoven, Symphony No 7, II - Karajan, Berliner Phil

dezembro 31, 2008

Bill Haley - Rock Around The Clock (1956)
Algo que ainda não encontrei na 'rádio azul' :):

Gluck - "Melody" from 《Orfeo ed Euridice》, Sarah Chang

dezembro 30, 2008


[modo]Correspondendo a um sorriso[/modo]

Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali à porta naqueles olhos.



Eugénio de Andrade, De pequeno formato
Charles Aznavour - Mourir d'aimer


Les parois de ma vie sont lisses
Je m'y accroche mais je glisse
Lentement vers ma destinée
Mourir d'aimer

Tandis que le monde me juge
Je ne vois pour moi qu'un refuge
Toute issue m'étant condamnée
Mourir d'aimer

Mourir d'aimer
De plein gré s'enfoncer dans la nuit
Payer l'amour au prix de sa vie
Pécher contre le corps mais non contre l'esprit

Laissons le monde à ses problèmes
Les gens haineux face à eux-mêmes
Avec leurs petites idées
Mourir d'aimer

Puisque notre amour ne peut vivre
Mieux vaut en refermer le livre
Et plutôt que de le brûler
Mourir d'aimer

Partir en redressant la tête
Sortir vainqueur d'une défaite
Renverser toutes les données
Mourir d'aimer

Mourir d'aimer
Comme on le peut de n'importe quoi
Abandonner tout derrière soi
Pour n'emporter que ce qui fut nous, qui fut toi

Tu es le printemps, moi l'automne
Ton coeur se prend, le mien se donne
Et ma route est déjà tracée
Mourir d'aimer
Mourir d'aimer
Mourir d'aimer

dezembro 29, 2008

RICHARD STRAUSS - ALSO SPRACH ZARATHUSTRA

dezembro 28, 2008

As Time Goes By


[This day and age we're living in
Gives cause for apprehension
With speed and new invention
And things like fourth dimension.
Yet we get a trifle weary
With Mr. Einstein's theory.
So we must get down to earth at times
Relax relieve the tension

And no matter what the progress
Or what may yet be proved
The simple facts of life are such
They cannot be removed.]

You must remember this
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh.
The fundamental things apply
As time goes by.

And when two lovers woo
They still say, "I love you."
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by.

Moonlight and love songs
Never out of date.
Hearts full of passion
Jealousy and hate.
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny.

It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die.
The world will always welcome lovers
As time goes by.

Oh yes, the world will always welcome lovers
As time goes by.

© 1931 Warner Bros. Music Corporation, ASCAP

dezembro 27, 2008

Cesaria Evora - Lua Nha Testemunha


Bô ca ta pensa nha cretcheu
Nem bô ca ta imaginá
O que longe di bô `m tem sofrido
Pergunta lua na céu, lua nha companheira di solidão
Lua vagabunda di espaço, qui conchê tudo nha vida
Nha disventura, ele qui ta contabo nha cretcheu
Tudo o c`um tem sofrido
Na ausência e na distância.
Mundo, bô tem rolado cu mim
Num jogo di cabra cega, sempre ta persegui`m
Pa cada volta qui mundo dá
El ta traze`m um dor pa`m tchiga más pa Deus
Mundo, bô tem rolado cu mim
Num jogo di cabra cega, sempre ta persegui`m
Pa cada volta qui mundo dá
El ta traze`m um dor pa`m tchiga más pa Deus

dezembro 26, 2008

George Brassens - L'Orage


Parlez-moi de la pluie et non pas du beau temps
Le beau temps me dégoute et m'fait grincer les dents
Le bel azur me met en rage
Car le plus grand amour qui m'fut donné sur terr'
Je l'dois au mauvais temps, je l'dois à Jupiter
Il me tomba d'un ciel d'orage

Par un soir de novembre, à cheval sur les toits
Un vrai tonnerr' de Brest, avec des cris d'putois
Allumait ses feux d'artifice
Bondissant de sa couche en costume de nuit
Ma voisine affolée vint cogner à mon huis
En réclamant mes bons offices

" Je suis seule et j'ai peur, ouvrez-moi, par pitié
Mon époux vient d'partir faire son dur métier
Pauvre malheureux mercenaire
Contraint d'coucher dehors quand il fait mauvais temps
Pour la bonne raison qu'il est représentant
D'un' maison de paratonnerres "

En bénissant le nom de Benjamin Franklin
Je l'ai mise en lieu sûr entre mes bras câlins
Et puis l'amour a fait le reste
Toi qui sèmes des paratonnerr's à foison
Que n'en as-tu planté sur ta propre maison
Erreur on ne peut plus funeste

Quand Jupiter alla se faire entendre ailleurs
La belle, ayant enfin conjuré sa frayeur
Et recouvré tout son courage
Rentra dans ses foyers fair' sécher son mari
En m'donnant rendez-vous les jours d'intempérie
Rendez-vous au prochain orage

A partir de ce jour j'n'ai plus baissé les yeux
J'ai consacré mon temps à contempler les cieux
A regarder passer les nues
A guetter les stratus, à lorgner les nimbus
A faire les yeux doux aux moindres cumulus
Mais elle n'est pas revenue

Son bonhomm' de mari avait tant fait d'affair's
Tant vendu ce soir-là de petits bouts de fer
Qu'il était dev'nu millionnaire
Et l'avait emmenée vers des cieux toujours bleus
Des pays imbécil's où jamais il ne pleut
Où l'on ne sait rien du tonnerre

Dieu fass' que ma complainte aille, tambour battant
Lui parler de la pluie, lui parler du gros temps
Auxquels on a t'nu tête ensemble
Lui conter qu'un certain coup de foudre assassin
Dans le mill' de mon cœur a laissé le dessin
D'un' petit' fleur qui lui ressemble

dezembro 24, 2008


Michel Serres
«Por toda a parte, á nossa volta,
a língua substitui a experiência;
o signo, doce, substitui-se à coisa, dura;
não posso pensar essa substituição
como uma equivalência. Antes

como um abuso, uma violência.

O som da moeda não vale a moeda,
o cheiro que chega da cozinha
não enche o estômago,
a publicidade
não equivale à qualidade:

a língua que fala
anula a língua que degusta
ou aquela que recebe e dá o beijo.
»


Michel Serres, Diálogo sobre a Ciência, a Cultura e o Tempo,
Instituto Piaget, Lisboa, 1996, p.180


dezembro 23, 2008

Jingle Bells...Frank Sinatra

dezembro 22, 2008

Edith Piaf Non je ne regrette rien

dezembro 21, 2008


foto in "Olhares"-Fotografia Online

Dentro da curva inesperada
dos meus braços,
transbordam os gestos
numa espiral imperceptível.

Nas pontas dos meus dedos
se alonga a neblina
que deriva do inverso da loucura
quando prendo nos dentes
a superstição da lua
ou esboço no riso
a cumplicidade dos espelhos
timidamente transparentes
para dizer que só pelo silêncio
se vence o labirinto das palavras
e se mede a solidão.


Graça Pires


«As nossas mentes são extraordinárias máquinas
de formulação de explicações, capazes
de atribuir sentido a quase tudo [ ]
e de forma geral, incapazes
de aceitar

o conceito de imprevisibilidade

op.cit., p.39

dezembro 20, 2008

dezembro 18, 2008

Chet Baker - Almost Blue

dezembro 17, 2008

Mariza & Miguel Poveda - Meu Fado

dezembro 16, 2008

Lucília do Carmo: "Maria Madalena"


Quem por amor se perdeu
Não chore, não tenha pena.
Uma das santas do céu
- Foi Maria Madalena…

Desse amor que nos encanta
Até Cristo padeceu
Para poder tornar santa
Quem por amor se perdeu

Jesus só nos quis mostrar
Que o amor não se condena
Por isso quem sabe amar
Não chore não tenha pena

A Virgem Nossa Senhora
Quando o amor conheceu
Fez da maior pecadora
Uma das santas do céu

E de tanta que pecou
Da maior à mais pequena
Ai aquela que mais amou
Foi Maria Madalena

dezembro 15, 2008

juliette greco - les feuilles mortes

dezembro 14, 2008

yves montand - les feuilles mortes


Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Tu vois je n'ai pas oublié
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emportent
Dans la nuit froide de l'oubli
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais

C'est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m'aimais, et je t'aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m'aimait, moi qui t'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants désunis

C'est une chanson, qui nous ressemble
Toi tu m'aimais, Et je t'aimais
Et nous vivions, tous deux ensemble
Toi qui m'aimait, moi qui t'aimais
Mais la vie sépare ceux qui s'aime
Tout doucement sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Le pas des amants désunis.

dezembro 13, 2008

Aishwarya Rai

dezembro 12, 2008


Serra das Meadas. Lamego.

Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.

Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas
Aishwarya Rai

dezembro 11, 2008


fotografia de Michelle Clement


Es el amor.

Tendré que ocultarme o que huir.
crecen los muros de su cárcel, como en un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única.

De qué me servirán mis talismanes: el ejercicio de las letras,
la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó el áspero norte
para cantar sus mares y sus espadas, la serena amistad,

las galerías de las bibliotecas, las cosas comunes,
los hábitos, el joven amor de mi madre,
la sombra militar de mis muertos,
la noche intemporal,
el sabor del sueño?

estar o no estar contigo es la medida de mi tiempo.

ya el cántaro se quiebra sobre la fuente,
ya el hombre se levanta a la voz del ave,
ya se han oscurecido los que miran por las ventanas,

pero la sombra no ha traido la paz.
es, ya lo sé, el amor: la ansiedad y el alivio de oír tu voz,
la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo.
es el amor con sus mitologías, con sus pequeñas magias inútiles.

hay una esquina por la que no me atrevo a pasar.
ya los ejércitos me cercan, las hordas.

esta habitación es irreal; ella no la ha visto.

el nombre de una mujer me delata.
me duele una mujer en todo el cuerpo
.

JORGE L. BORGES
(el oro de los tigres, 1972)
Um dia visitarei
a cidade de JLBorges!


geraldine rojas paludi madrid tango
O que aprendo com a Tazul,
compositores e modos de
edição de gravações.
:)

Erik Satie - Gnossiennes No 1
Amalia Rodrigues - Cansaço



Por trás do espelho quem está
De olhos fixados nos meus
Alguém que passou por cá
E seguiu ao deus-dará
Deixando os olhos nos meus.

Quem dorme na minha cama,
E tenta sonhar meus sonhos?
Alguém morreu nesta cama,
E lá de longe me chama
Misturada nos meus sonhos.

Tudo o que faço ou não faço,
Outros fizeram assim
Daí este meu cansaço
De sentir que quanto faço
Não é feito só por mim.



Letra de Luís de Macedo
Música de Joaquim Campos